Aulas de Giriraj Swami em Português

Ratha-Yatra 2008

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Ratha-Yatra

Palestra dada por Giriraj Swami

15 de Março, 2008

Dallas

 

Hoje, passearemos em procissão com o Senhor Jagannatha, Baladeva e Subhadra, cantaremos os santos nomes do Senhor e dançaremos para o Seu prazer. Vamos então ler do Sri Caitanya-caritamrta, Madhya-lila, Capítulo Treze: “A Dança Extática do Senhor no Ratha-yatra.”      

 

VERSO 1

 

sa jiyat krsna-caitanyah

 sri-rathagre nanarta yah

yenasij jagatam citram

 jagannatho ’pi vismitah

 

TRADUÇÃO

 

Que a Suprema Personalidade de Deus, Sri Krsna Caitanya, que dançou em frente ao carro de Sri Jagannatha, receba todas as glórias! Vendo a Sua dança, não apenas o universo inteiro ficou tomado de espanto, mas o próprio Senhor Jagannatha ficou muito maravilhado.

 

VERSO 2

 

jaya jaya sri-krsna-caitanya nityananda

jayadvaita-candra jaya gaura-bhakta-vrnda

 

TRADUÇÃO

 

Todas as glórias a Sri Krsna Caitanya e a Prabhu Nityananda! Todas as glórias a Advaitacandra! E todas as glórias aos devotos de Sri Caitanya Mahaprabhu!

 

VERSO 3

 

jaya srota-gana, suna, kari’ eka mana

ratha-yatraya nrtya prabhura parama mohana

 

TRADUÇÃO

 

Todas as glórias àqueles que ouvem o Sri Caitanyacaritamrta! Por favor, escutai a descrição da dança do Senhor Caitanya Mahaprabhu por ocasião do festival de Ratha-yatra. Sua dança é muito encantadora. Por favor, escutai sobre ela com muita atenção.

 

VERSO 23

 

panca-dasa dina isvara maha-laksmi lana

tanra sange krida kaila nibhrte vasiya

 

TRADUÇÃO

 

O Senhor permanecera por quinze dias num lugar recluso com a suprema deusa da fortuna e realizara Seus passatempos com ela.

 

SIGNIFICADO de Srila Prabhupada

 

ão à deusa da fortuna para partir.

 

 

VERSO 24

 

tanhara sammati lana bhakte sukha dite

rathe cadi’ bahira haila vihara karate

 

TRADUÇÃO

 

Pedindo permissão à deusa da fortuna, o Senhor saiu para passear no carro do Ratha e realizar Seus passatempos para o prazer dos devotos.

 

SIGNIFICADO

 

A este respeito, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura comenta que, como um esposo ideal, o Senhor Jagannatha permaneceu quinze dias num lugar recluso com a Sua esposa, a suprema deusa da fortuna. Não obstante, o Senhor quis sair da reclusão para alegrar a Seus devotos. O Senhor diverte-Se de duas maneiras, conhecidas como svakiya e parakiya. O amor conjugal do Senhor na svakiyarasa relaciona-se aos princípios regulativos observados em Dvaraka. Lá, o Senhor é casado com muitas rainhas, porém, em Vrndavana, o amor conjugal do Senhor não é com as Suas esposas, mas com as Suas namoradas, as gopis. O amor conjugal com as gopis chama-se parakiyarasa. O Senhor Jagannatha deixa o lugar recluso, onde desfruta da companhia da suprema deusa da fortuna em svakiyarasa, e vai para Vrndavana, onde desfruta da parakiyarasa. Portanto, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura lembra-nos que o prazer do Senhor em parakiyarasa é superior a Seu prazer em svakiyarasa.

 

No mundo material, parakiyarasa, ou romances amorosos com moças solteiras, é uma relação muito degradada, mas, no mundo espiritual, esta espécie de romance amororoso é considerada o desfrute supremo. No mundo material, tudo não passa de um reflexo do mundo espiritual, e, não obstante, um reflexo pervertido. Não podemos compreender os assuntos do mundo espiritual, tomando como base a nossa experiência no mundo material. Por isso, os académicos e polemistas mundanos interpretam mal os passatempos do Senhor com as gopis. Ninguém, a não ser aquele que é muito avançado em serviço devocional puro, deve discutir a parakiyarasa do mundo espiritual. Não se pode comparar a parakiyarasa do mundo espiritual com a do mundo material. Aquela é como ouro, e esta é como ferro. Por haver tamanha diferença entre as duas, na realidade, não há como compará-las. No entanto, pode-se facilmente distinguir o valor do ouro ao ver-se o valor do ferro. Aquele que têm o devido discernimento pode facilmente distinguir as actividades transcendentais do mundo espiritual das actividades materiais.

 

COMENTÁRIO dado por Giriraj Swami

 

Quinze dias antes do festival de Ratha-yatra em Puri, o Senhor Jagannatha é conduzido desde o interior do Seu templo até um balcão no topo de um edifício dentro do complexo, e aí é banhado à vista do público, numa cerimónia chamada Snana-yatra. Depois da cerimónia do banho, o Senhor retira-se para um lugar isolado, numa área do interior do templo, reservada à suprema deusa da fortuna. Durante quinze dias ela serve-O com grande amor e devoção e, depois desse periodo chamado anavasara, Ele deseja saír da reclusão para dar prazer aos Seus devotos. Com a permissão da deusa da fortuna, sai na procissão chamada Ratha-yatra.

 

O templo do Senhor Jagannatha em Nilacala é comparado a Dvaraka, onde o Senhor Krsna vive com as Suas esposas rainhas, e o templo de Sundaracala, chamado Gundica, em honra da esposa do rei Indradyumna, é considerado Vrndavana. Sri Caitanya Mahaprabhu, no Seu sentimento interno, é Srimati Radharani sentindo separação de Krsna quando Ele sai de Vrndavana para Mathura e Dvaraka. O sentimento que Sri Caitanya Mahaprabhu apresenta durante o Ratha-yatra, é o de Srimati Radharani querendo levar Krsna de volta a Vrndavana.

 

Em krsna-lila, depois de Krsna ter ido para Dvaraka e residido lá por alguns anos, houve um eclipse solar. Como se recomenda nos Vedas, muitas pessoas foram para Kuruksetra para se banharem. Os eclipses são considerados inauspiciosos e, para anular os seus maus efeitos, as pessoas submergem-se em águas sagradas e recitam os santos nomes do Senhor. Quando Krsna foi informado do eclipse decidiu, “Vamos a Kuruksetra pela ocasião do eclipse”—Kuruksetra é um lugar sagrado (kuruksetre dharmaksetre). Quando a noticia da ida de Krsna a Kuruksetra se espalhou, devotos de todo o mundo decidiram ir também—não para participar nos rituais do eclipse, mas para ver o Senhor Krsna. Portanto, devotos, jnanis, yogis, santos, sábios e reis de todas as partes da India, foram a Kuruksetra. Os residentes de Vrndavana também decidiram ir. Nanda Maharaja, Mãe Yasoda, os habitantes mais velhos de Vrndavana, os pastorinhos e as gopis jovens também foram.

 

O encontro de Krsna com a Sua mãe e pai de Vrndavana, depois de uma separação tão prolongada, foi muito emocional. Ele ficou tão afectado que nem sequer conseguia falar. Contudo, dentro de Seu coração, Ele estava muito ansioso por se encontrar com as gopis jovens. Eventualmente desculpou-Se para poder encontrar-Se com elas. Porém, quando se encontraram, Srimati Radharani e as gopis não puderam sentir o mesmo prazer que tinham experimentado com Ele em Vrndavana, porque lá não havia o rio Yamuna, nem a floresta de Vrndavana, nem a colina de Govardhana. Ao invés do zumbir das abelhas e o chilrear dos pássaros, haviam os sons dos cavalos, dos elefantes e das quadrigas em movimento. Em vez de Krsna estar vestido com o Seu dhoti amarelo (pitambara), com a pena de pavão real no Seu cabelo e a flauta na Sua mão, estava vestido como um principe real, acompanhado de guerreiros valorosos e rodeado de muita opulência. Apesar de serem o mesmo Krsna e a mesma Radharani, não podiam desfrutar da mesma felicidade. Portanto, Srimati Radharani quis levar Krsna de volta a Vrndavana para puderem saborear o mesmo êxtase que tinham desfrutado na Sua juventude.

 

O festival de Ratha-yatra, como executado por Sri Caitanya Mahaprabhu e Seus seguidores, é o intercâmbio emocional entre Srimati Radharani e o Senhor Krsna, no qual Srimati Radharani quer levar Krsna de volta a Vrndavana. Este é o sentimento interno de Sri Caitanya Mahaprabhu. Como explica o Sri Caitanyacaritamrta, o aparecimento de Sriman Mahaprabhu deve-se a duas razões. Internamente, quis experimentar o amor de Srimati Radharani por Krsna-a glória do amor d´Ela, as qualidades maravilhosas d´Ele, que só Ela saboreia através do Seu amor, e a felicidade que Ela sente no Seu amor. No fundo Ele quis propagar as glórias do amor de Srimati Radharani por Ele e quis pagar a dívida que tinha para com Ela. Externamente, desejou divulgar o yugadharma para Kali-yuga—harinamasankirtana.

 

Não devemos pensar que uma missão do Senhor é superior à outra. No plano absoluto, são iguais. Devido a que Krsna é absoluto, não existe diferença entre o Seu interior e exterior. Nas almas condicionadas, existe diferença entre a alma que está dentro e o corpo que está no exterior, porém, em Krsna, que é espírito absoluto (saccidanandavigraha), não existe diferença entre o Seu interior e exterior. De igual modo, na plataforma absoluta não existe diferença de valor entre as razões internas e externas da vinda do Senhor a este mundo.

 

O Senhor Jagannatha, como Krsna, quer reciprocar com o amor que Srimati Radharani sente por Ele, quer dar misericórdia a todos os Seus devotos e, na verdade, a todas as entidades vivas. Ambos os desejos realizam-se durante o Ratha-yatra. Geralmente os devotos vão ao templo para ver o Senhor, mas as pessoas em Kali-yuga são tão caídas que não têm tempo para ir à igreja ou ao templo-nem sequer têm inclinação. Portanto, o Senhor sai do templo para dar misericórdia aos Seus devotos e às almas caídas.

 

O Senhor manifesta-se de duas formas: uma é a deidade, o Senhor Jagannatha, e a outra é o santo nome, o harinamasankirtana. O Sri Caitanya-caritamrta afirma que o santo nome de Krsna, a deidade de Krsna e a forma original de Krsna são todos idênticos.

 

‘nama’, ‘vigraha’, ‘svarupa’—tina eka-rupa

tine ‘bheda’ nahi,—tina ‘cid-ananda-rupa’

 

“O santo nome do Senhor, a Sua forma e a Sua personalidade são todos idênticos. Não existe diferença entre eles. Porque todos são absolutos, eles são transcendentalmente bem aventurados.” (Cc Madhya 17.131)

 

No Ratha-yatra, o Senhor dá a Sua associação aos devotos bem como às almas condicionadas comuns, na forma da Deidade—o Senhor Jaganatha—e na forma do santo nome, o Hare Krsna mahamantrasendo ambos o próprio Senhor. O Senhor também dá a Sua associação na forma do Seu carro, e das cordas que puxam o carro porque, na plataforma absoluta, a parafernália do Senhor e o Senhor são idênticos.

 

Na época de Mahaprabhu, o rei de Orissa era Maharaja Prataparudra. Ele era um grande devoto, e muitos dos associados de Caitanya Mahaprabhu queriam induzir o Senhor Caitanya a encontrar-se com ele mas, porque Caitanya Mahaprabhu estava a desempenhar o papel de um sannyasi numa sociedade muito estrita, recusou o encontro com o rei. Ele escutou sobre as glórias do rei, mas disse: “Ainda assim, o rei tem uma falta: ele é um rei.” O próprio nome rei, sugere opulência material e gratificação dos sentidos. Sri Caitanya Mahaprabhu, sendo um sannyasi inserido naquela cultura, não queria associar-se com um rei. Ele não queria que a Sua reputação fosse manchada. Apesar disso, os devotos apelaram ao Senhor para que fosse misericordioso com o rei, porque sabiam o quão apegado estava ao Senhor Caitanya; ele estava preparado para abandonar o seu reino e viver como um mendigo, se não obtivesse a misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu. Na corte do rei encontravam-se muitos associados íntimos de Caitanya Mahaprabhu. Sarvabhauma Battacarya era o sacerdote principal, ou conselheiro espiritual do rei Prataparudra, e Ramananda Raya era o governador do rei no Sul da India. O rei era tão amável e generoso, que dispensou Ramananda Raya do seu serviço como governador, e permitiu que ele fosse para Jagannatha Puri servir Caitanya Mahaprabhu. Estes devotos informaram Caitanya Mahaprabhu acerca das boas qualidades e do desejo intenso do rei de alcançar a Sua misericórdia. Ainda assim, apesar de Seu coração ter-se suavizado, Caitanya permaneceu inalterado. 

 

Finalmente, Nityananda Prabhu fez uma proposta. Sugeriu que Caitanya Mahaprabhu enviasse um pedaço de Sua roupa usada ao rei, para que este ficasse esperançoso de que Mahaprabhu, de facto, derramaria sobre ele a Sua misericórdia. Quando o rei recebeu a roupa, começou a adorá-la como se fosse exactamente o próprio Caitanya. Na plataforma absoluta, o Senhor e a Sua parafernália são idênticos. São adorados no mesmo nível. Na realidade, a adoração da parafernália e associados do Senhor, pode ser mais favorável que a adoração directa ao Senhor. O Senhor Siva disse a Parvati,

 

aradhananam sarvesam

 visnor aradhanam param

tasmat parataram devi

 tadiyanam samarcanam

 

“O Devi, de todos os tipos de adoração, a adoração ao Senhor Visnu é a melhor mas, superior à adoração ao Senhor Visnu, é a adoração a algo que pertença a Visnu.” (Padma Purana)

 

Assim, com muita felicidade, o rei recebeu a roupa e adorou-a como se fosse o próprio Caitanya Mahaprabhu.

 

Na plataforma absoluta, o carro de Ratha-yatra e as cordas do carro, sendo parafernália do Senhor, são adoráveis e, se as pessoas tocarem no carro ou nas cordas, beneficiam-se como se estivessem a tocar os pés de lótus da Deidade – o próprio Senhor. Portanto, o Senhor é extremamente magnânimo ao distribuir a Sua misericórdia durante o Ratha-yatra. Quando Ele sorri e derrama Seu olhar sobre Seus devotos e todas as almas, eles recebem a Sua misericórdia e amor mais sublimes.

 

O Ratha-yatra é um festival muito jubilante, porque o Senhor sai do Templo para dar o Seu darsana, a Sua audiência aos Seus devotos – para lhes dar a Sua misericórdia. Srila Prabhupada mencionou que este festival está carregado de emoção. Depois de uma longa separação, Srimati Radharani encontra-se com Krsna em Kuruksetra, e, ao não saborear a mesma felicidade, quer levá-lo de volta a Vrndavana.

 

Quando Sri Caitanya Mahaprabhu celebrava o festival de Ratha-yatra, recitava regularmente um verso de poesia mundana, cujo propósito ninguém podia entender; ninguém conseguia compreender o seu significado profundo. No verso, a amada dirige-se a seu amado, “Continuo a mesma pessoa desde que nos encontrámos na nossa juventude, e tu também és a mesma pessoa, mas onde está essa árvore à margem do rio, na qual nos divertíamos nas noites de luar? Quero voltar aí.”

 

yah kaumara-harah sa eva hi varas ta eva caitra-ksapas

 te conmilita-malati-surabhayah praudhah kadambanilah

sa caivasmi tathapi tatra surata-vyapara-lila-vidhau

 reva-rodhasi vetasi-taru-tale cetah samutkanthate

 

“Aquela mesma personalidade que cativou o meu coração durante a minha juventude é novamente o meu amo. Estas são as mesmas noites enluaradas do mês de Caitra. Há a mesma fragância de flores malati, e as mesmas brisas doces sopram da floresta de kadamba. Na nossa relação íntima, sou também a mesma amante, todavia, a minha mente não está feliz aqui. Anseio voltar àquele local às margens do rio Reva, ao pé da árvore Vetasi. É isto o que desejo.” (Padyavali 386, citado no Cc Madhya 13.121)

 

À excepção de Svarupa Damodara Gosvami, práticamente ninguém compreendia o significado desse verso. Entretanto, um ano, Rupa Gosvami participou no Ratha-yatra e ouviu o Senhor cantar o verso. Depois da procissão voltou para a sua residência e, numa folha de palmeira, escreveu o seu próprio verso explicando o original, prendeu-a no telhado da sua cabana, e foi tomar banho no mar.

 

Nessa altura, Sri Caitanya Mahaprabhu foi à cabana de Rupa Goswami para se encontrar com ele. Estas três personalidades importantes—Rupa Gosvami, Sanatana Gosvami, e Haridasa Thakura—não estavam autorizados a entrar no templo de Jagannatha. Haridasa Thakura nasceu numa familia muçulmana e Rupa Gosvami e Sanatana Gosvami serviram no governo de Nawab Hussain Shah, associando-se intimamente com os muçulmanos. Deste modo, todos eles eram considerados caídos—desqualificados. Assim sendo, Caitanya Mahaprabhu ia visitá-los diáriamente e, nesta ocasião, notou a folha de palmeira pendurada no telhado. Agarrou na folha e leu o verso de Rupa Gosvami—um verso muito bonito que descreve os sentimentos de Srimati Radharani ao encontrar-se com Krsna em Kuruksetra, baseando-se no verso poético que Mahaprabhu tinha recitado. Nele Srimati Radharani diz à Sua amiga, “Ele é o mesmo Krsna, e Eu sou a mesma Radha mas, sem Vrndavana, não podemos experimentar a mesma felicidade. Sinto um desejo muito grande em levá-Lo comigo para Vrndavana.”

 

priyah so ’yam krsnah saha-cari kuru-ksetra-militas

 tathaham sa radha tad idam ubhayoh sangama-sukham

tathapy antah-khelan-madhura-murali-pancama-juse

 mano me kalindi-pulina-vipinaya sprhayati

 

“Minha querida amiga, agora, neste campo de Kuruksetra, estou na presença do meu muito querido amigo Krsna. Agora que estamos juntos, continuo a mesma Radharani. Apesar de ser muito agradável, quero ir para as margens do Yamuna, perto das árvores da floresta que aí existe. Desejo escutar a vibração da Sua doce flauta, tocando a quinta nota, nessa floresta de Vrndavana.” (Padyavali 387, citado no Cc Madhya 1.76)

 

Sri Caitanya Mahaprabhu ficou espantado: “Como é que Rupa Gosvami pode entender o meu coração?” Mais tarde, Caitanya Mahaprabhu mostrou o verso a Svarupa Damodara Gosvami que, em Puri, era Seu secretário pessoal e associado muito íntimo. Svarupa Damodara compreendeu o significado desse verso aparentemente mundano, mas, para além dele, ninguém mais foi capaz de compreendê-lo, por isso manteve-o confidencial. O senhor Caitanya perguntou-lhe, “Como pode Rupa Goswami conhecer o meu coração?” Svarupa Damodara respondeu, “Ele deve ter sido agraciado de forma especial pela Sua misericórdia, de outra forma não lhe seria possível conhecer o Seu coração.”

 

Srila Prabhupada salienta, que recebeu uma benção semelhante de seu guru maharaja. Um ano, ele escreveu um ensaio muito bonito, na ocasião da cerimónia de Vyasapuja de seu guru maharaja e que leu nas instalações da Gaudiya Matha, juntamente com um poema que compôs apreciando seu guru maharaja.

 

O Absoluto é consciente

Vós haveis provado

Calamidade impessoal

Vós haveis rejeitado

 

Este verso está de acordo com o conceito que Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura estabeleceu para a sua missão de pregação. Assim como o Senhor Caitanya mostrou o verso de Rupa Gosvami a Svarupa Damodara Gosvami, também Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura mostrava o verso de Prabhupada aos seus associados mais íntimos: “Como pode ele compreender as minhas intenções?”

 

Assim, pela misericórdia de Srila Rupa Gosvami, o sentimento confidencial e interno de Sri Caitanya Mahaprabhu pela ocasião do Ratha-yatra foi revelado, e esta informação confidencial foi compilada e expandida por Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami no seu Caitanya-caritamrta. Pessoalmente, Kaviraja Gosvami não testemunhou as actividades de Mahaprabhu, mas escutou sobre elas mais tarde, enquanto residia em Vrndavana. Srila Raghunatha dasa Gosvami estava muito desapontado com a partida de Caitanya Mahaprabhu e da maior parte de Seus associados, por isso pensou, “Qual é o valor de viver em Puri sem Mahaprabhu e os Seus associados?” Portanto, ele decidiu ir para Vrndavana e cometer suicídio Vaisnava, ao atirar-se da colina de Govardhana. Contudo, antes de agir dessa maneira, ele quis oferecer os seus respeitos aos pés de lótus de Rupa e Sanatana, que, ao encontrarem-se com ele, pediram-lhe, “Não faças isso. É melhor que fiques connosco.” Eles aceitaram-no como seu irmão mais novo, como o terceiro irmão deles. “Porque estiveste com Caitanya Mahaprabhu em Jagannatha Puri, conheces tudo acerca das actividades posteriores do Senhor. Deves contá-las para nós.” Raghunatha dasa Gosvami concordou e, cada dia, discursava durante três horas sobre as actividades de Sri Caitanya Mahaprabhu em Puri—um dos devotos na audiência era Kaviraja Gosvami.

 

Tanto Svarupa Damodara Gosvami quanto Raghunatha dasa Gosvami, fizeram anotações enquanto permaneceram com Mahaprabhu. (Do mesmo modo, os assistentes pessoais de Srila Prabhupada também fizeram anotações e assim temos o Diário Transcendental de Hari Sauri, o Diário de TKG, e outras obras do género.) Portanto, Svarupa Damodara Gosvami e Raghunatha dasa Gosvami fizeram as suas anotações e Krsnadasa Kaviraja Gosvami ficou com elas. Baseado no que ele escutou de Raghunatha dasa Gosvami e aprendido dos diários e outras fontes de informação autorizadas, ele compilou o Sri Caitanya-caritamrta e revelou estes assuntos mais confidenciais sobre o sentimento interno de Sri Caitanya Mahaprabhu durante o Ratha-yatra.

 

Externamente, durante o Ratha-yatra, houve um harinamasankirtana espantoso. Vamos ler agora sobre isso, e assim ficaremos com uma ideia do que aconteceu, e talvez consigamos alguma inspiração para a nossa execução de harinamasankirtana.

 

VERSO 25

 

suksma sveta-balu pathe pulinera sama

dui dike tota, saba—yena vrndavana

 

TRADUÇÃO

 

A fina areia branca espalhada por todo o caminho assemelhava-se às margens do rio Yamuna e, em ambos os lados, os pequenos jardins pareciam-se com os de Vrndavana.

 

VERSO 26

 

rathe cadi’ jagannatha karila gamana

dui-parsve dekh’ cale anandita-mana

 

TRADUÇÃO

 

Enquanto o Senhor Jagannatha passeava no Seu carro e se deparava com o belo cenário, tanto à Sua direita quanto à Sua esquerda, a Sua mente enchia-se de prazer.

 

VERSO 27

 

Os puxadores do carro eram conhecidos como gaudas, e puxavam-no com muito prazer. Contudo, às vezes o carro ia muito depressa, e, às vezes, muito devagar.

 

COMENTÁRIO

 

No primeiro Ratha-yatra da ISKCON, celebrado em São Francisco com uma camioneta de caixa baixa a fazer de carro, o veículo teve alguns problemas, e avariou ao subir uma encosta. Os devotos ficaram sem saber se poderiam pô-lo a trabalhar de novo. Nessa altura Srila Prabhupada não pode participar no Ratha-yatra, porque estava doente e fazia a sua recuperação em Stinson Beach, nos arredores de São Francisco. Quando no dia seguinte, os devotos foram visitá-lo para lhe informarem sobre o Ratha-yatra, falaram-lhe sobre a avaria da camioneta. Srila Prabhupada afirmou, “Esse é um divertimento do Senhor Jagannatha. Aconteceu a mesma coisa quando o Senhor Caitanya participou no Ratha-yatra em Puri e, agora que o Ratha-yatra veio para o Ocidente, este divertimento do Senhor Jagannatha também veio.”

 

VERSOS 2830

 

Outras vezes, o carro ficava estancado e não se movia, embora fosse puxado muito vigorosamente. Portanto, a carruagem movia-se pela vontade do Senhor, e não pela força de alguma pessoa comum.

 

Como o carro estivesse parado, Sri Caitanya Mahaprabhu reuniu todos os Seus devotos e, com as Suas próprias mãos, decorou-os com guirlandas de flores e polpa de sândalo.

 

Ao receberem pessoalmente guirlandas e polpa de sândalo das mãos do próprio Sri Caitanya Mahaprabhu, Paramananda Puri e Brahmananda Bharati sentiram o seu prazer transcendental aumentar intensamente.

 

 

COMENTÁRIO

 

Eles eram considerados superiores a Sri Caitanya Mahaprabhu e Ele adorava-os e servia-os no mesmo nível que a Seu mestre espiritual.

 

VERSOS 3134

 

De maneira semelhante, ao sentirem o toque da mão transcendental de Sri Caitanya Mahaprabhu, Advaita Acarya e Nityananda Prabhu ficaram muito satisfeitos.

 

O Senhor também deu guirlandas e polpa de sândalo aos executantes do sankirtana, dos quais se destacavam Svarupa Damodara e Srivasa Thakura.

 

Havia, ao todo, quatro grupos de kirtana, perfazendo um total de vinte e quatro cantores. Em cada grupo, havia também dois tocadores de mrdanga, o que acrescentava mais oito pessoas àquele total.

 

Quando os quatro grupos estavam formados, Sri Caitanya Mahaprabhu, após analisar um pouco, dividiu os cantores.

 

COMENTÁRIO

 

Caitanya Mahaprabhu também era um organizador muito bom.

 

VERSOS 3537

 

Sri Caitanya Mahaprabhu ordenou que Nityananda Prabhu, Advaita Acarya, Haridasa Thakura e Vakresvara Pandita dançassem, cada um, num dos quatro grupos a que foram designados.

 

Svarupa Damodara foi escolhido como líder do primeiro grupo e deram-lhe cinco assistentes para responderem ao seu canto.

 

Os cinco que faziam coro ao canto de Svarupa Damodara eram Damodara Pandita, Narayana, Govinda Datta, Raghava Pandita e Sri Govindananda.

 

VERSO 38

 

advaitere nrtya karibare ajna dila

srivasa-pradhana ara sampradaya kaila

 

TRADUÇÃO

 

Advaita Acarya Prabhu recebeu ordem de dançar no primeiro grupo. Então, o Senhor formou outro grupo com Srivasa Thakura como líder.

 

SIGNIFICADO

 

No primeiro grupo, Damodara Svarupa foi apontado como o cantor líder, e os cantores que o acompanhariam eram Damodara Pandita, Narayana, Govinda Datta, Raghava Pandita e Govindananda. Sri Advaita Acarya foi apontado como dançarino. Formou-se o grupo seguinte, que tinha Srivasa Thakura como líder.

 

VERSOS 3954

 

Os cinco cantores que responderiam ao canto de Srivasa Thakura eram, Gangadasa, Haridasa, Sriman, Subhananda e Sri Rama Pandita.

 

Formou-se outro grupo, para o qual foram designados Vasudeva, Gopinatha e Murari. Todos estes cantavam na segunda voz, e Mukunda seria o cantor líder.

 

Duas outras pessoas, Srikanta e Vallabha Sena, juntaram-se como cantores acompanhantes. Neste grupo, Haridasa Thakura seria o dançarino.

 

O Senhor formou um outro grupo, designando Govinda Ghosa como líder. Neste grupo junior Haridasa, Visnudasa e Raghava seriam os cantores acompanhantes.

 

Dois irmãos chamados Madhava Ghosh e Vasudeva Ghosh, também se juntaram a este grupo como cantores acompanhantes. Vakresvara Pandita seria o dançarino deste grupo.

 

Na aldeia conhecida como Kulina-grama, havia um grupo de sankirtana, para o qual Ramananda e Satyaraja foram indicados como dançarinos.

 

Havia outro grupo, proveniente de Santipura, que era formado por Advaita Acarya. Acyutananda era o dançarino, e os demais componentes cantavam.

 

Formou-se outro grupo com as pessoas de Khanda. Elas cantavam num lugar diferente. Neste grupo, Narahari Prabhu e Raghunandana cantavam.

 

Quatro grupos cantavam e dançavam em frente ao Senhor Jagannatha, e em ambos os lados havia mais dois grupos. Outro vinha atrás.

 

Ao todo, havia sete grupos de sankirtana, e em cada grupo dois homens batiam tambores. Assim, tocavam-se quatorze tambores de uma só vez. O som era tonitruante, e todos os devotos ficaram loucos.

 

Todos os Vaisnavas reuniram-se, parecendo-se a nuvens agrupadas. Enquanto os devotos em êxtase cantavam os santos nomes, lágrimas caíam de seus olhos como torrentes de chuva.

 

Os três mundos foram inundados pela vibração sonora do sankirtana. Com efeito, a não ser pelo som e pelos instrumentos musicais do sankirtana, tudo o mais emudecera.

 

O Senhor Caitanya Mahaprabhu vagueava por todos os sete grupos, cantando o santo nome: “Hari, Hari!” Levantando os braços, Ele exclamava: “Todas as glórias ao Senhor Jagannatha!”

 

Então, o Senhor Caitanya Mahaprabhu demonstrou outro poder místico, realizando simultaneamente passatempos em todos os sete grupos.

 

Todos diziam: “O Senhor Caitanya Mahaprabhu está presente no meu grupo. Na verdade, Ele não está em mais nenhum outro lugar. Ele está a mostrar-nos a Sua misericórdia.”

 

Na realidade, ninguém podia entender a potência inconcebível do Senhor. Apenas os devotos mais íntimos, aqueles imersos em serviço devocional puro, podiam compreender.

 

COMENTÁRIO

 

Durante a dança da rasa, Sri Krsna também se expandiu para estar presente ao lado de cada gopi. Ele relacionou-se de uma forma tão afectuosa e pessoal com cada gopi, que cada uma delas pensava, “Krsna está comigo. Krsna não pode abandonar-me. Krsna está a favorecer-me.”

 

VERSOS 5559

 

O sankirtana agradou muito ao Senhor Jagannatha, e Ele manteve Seu carro parado num determinado local, só para assistir ao desempenho.

 

O rei Patraparudra também ficou admirado ao ver o sankirtana. Ficando sem acção, passou a sentir amor extático por Krsna.

 

Quando o rei informou a Kasi Misra sobre as glórias do Senhor, Kasi Misra respondeu. “Ó rei,a tua fortuna não conhece limites!”

 

Tanto o rei quanto Sarvabhauma Battacarya estavam a par das actividades do Senhor, mas nenhuma outra pessoa pode perceber as artimanhas do Senhor Caitanya Mahaprabhu.

 

Só alguém que tenha recebido a misericórdia do Senhor pode compreender. Sem a misericórdia do Senhor, nem mesmo os semideuses, encabeçados pelo Senhor Brahma, podem compreender.

 

VERSO 60

 

rajara tuccha seva dekhi’ prabhura tusta mana

sei ta’ prasade paila ‘rahasya-darsana’

 

TRADUÇÃO

 

Sri Caitanya Mahaprabhu ficou muito satisfeito ao ver o rei aceitar a tarefa subalterna de varrer a rua, e, por esta atitude humilde, o rei recebeu a misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu. Por isso, ele pode observar o mistério das actividades de Sri Caitanya Mahaprabhu.

 

SIGNIFICADO

 

Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura descreve o mistério das actividades do Senhor. O Senhor Jagannatha, admirando-se de ver a dança e o canto transcendental de Sri Caitanya Mahaprabhu, parou o Seu carro só para assistir à dança. Então, o Senhor Caitanya Mahaprabhu dançou com tanto misticismo que agradou o Senhor Jagannatha. O espectador e o dançarino eram a mesma Pessoa Suprema, porém, o Senhor, sendo ao mesmo tempo um e muitos, manifestava a variedade de Seus passatempos. Este é o significado subjacente à Sua demonstração misteriosa. Pela misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu, o rei pode compreender como ambos desfrutavam das actividades mútuas. Outra demonstração misteriosa foi a presença simultânea de Sri Caitanya Mahaprabhu nos sete grupos. Pela misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu, o rei também pode compreender isto.

 

COMENTÁRIO

 

O rei estava ansioso por obter darsana do Senhor Caitanya mas devido à sua posição como rei, Caitanya Mahaprabhu recusou encontrar-se com ele. Entretanto, quando o rei prestou um serviço humilde ao Senhor Jagannatha varrendo a estrada diante d`Ele, o coração de Sri Caitanya Mahaprabhu suavizou-se, e outorgou-lhe uma misericórdia tão especial, que o rei foi capaz de aperceber-se das actividades confidenciais do Senhor, durante o Ratha-yatra. Poderemos pensar que o facto do rei ter limpo a estrada diante da Deidade foi algo insignificante, mas nesse tempo não era bem assim. Na verdade o rei foi criticado pela outra realeza: “Que classe de rei é ele?Está a varrer a estrada.” Mas o rei não dava importância à reputação mundana. Ele prestou, de uma forma sincera, serviço subalterno ao Senhor e, devido ao seu serviço humilde, o Senhor Caitanya, que não é diferente do Senhor Jagannatha, deu-lhe um pouco de misericórdia especial para que ele pudesse observar o mistério das actividades do Senhor.

 

VERSO 61

 

saksate na deya dekha, parokse ta’ daya

ke bujhite pare caitanya-candrera maya

 

TRADUÇÃO

 

Apesar de não ter conseguido uma entrevista com o Senhor, o rei recebeu, indirectamente, a misericórdia imotivada do Senhor. Quem pode entender a potência interna de Sri Caitanya Mahaprabhu?

 

SIGNIFICADO

 

Como Sri Caitanya Mahaprabhu estava a desempenhar o papel de um mestre mundial, Ele não concordou em ver o rei, pois o rei é uma pessoa mundana, interessada em dinheiro e mulheres. Na verdade a própria palavra “rei” dá a ideia de alguém que está sempre rodeado de dinheiro e mulheres. Como um sannyasi, Sri Caitanya Mahaprabhu temia tanto o dinheiro quanto as mulheres. A própria palavra “rei” é repugnante para quem pertence à ordem de vida renunciada. Sri Caitanya Mahaprabhu recusou-se a receber o rei mas, indirectamente, o rei foi capaz de entender as actividades misteriosas do Senhor, pela misericórdia imotivada do Senhor. As actividades do Senhor Caitanya Mahaprabhu foram manifestas, quer para O revelarem como a Suprema Personalidade de Deus, quer para O exporem como um devoto. Ambas as classes de actividades são misteriosas e entendidas, na sua essência, somente pelos devotos puros.

 

COMENTÁRIO

 

Nesta passagem, existem muitos assuntos confidenciais. Vasudeva Ghosa, um grande poeta e cantor entre os associados do Senhor (mencionado no verso 43), escreveu, jei gaura sei krsna sei jagannath: “Ele que é Gaura, é Ele que é Krsna, é Ele que é Jagannatha.” O Senhor Caitanya é Krsna, o Senhor Jagannatha é Krsna, e Krsna é Krsna, mas assumem diferentes formas e diferentes sentimentos para reciprocarem em divertimentos amorosos-inclusive entre si. O rei Prataparudra, pela misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu, pode ver e compreender tudo isso. Ele também pode ver Sri Caitanya Mahaprabhu expandir-se em formas múltiplas e movimentar-se entre os sete grupos de kirtana. Nem todos puderam ter essa percepção. Portanto, essa também foi uma misericórdia especial que lhe foi outorgada. Mas, a maior misericórdia, aquela que o rei há muito desejava, foi-lhe dada mais tarde, quando o Senhor Caitanya foi descansar num jardim próximo. Nessa altura, Caitanya Mahaprabhu deu-lhe uma audiência pessoal (darsana). Ele abraçou o rei e juntos choraram em amor extático.

 

Quando chegaram a Balagandi, os carros pararam por algum tempo, para permitir aos devotos oferecerem alimento (bhoga) ao Senhor Jagannatha. Nessa altura Sri Caitanya Mahaprabhu e os Seus seguidores, exautos de tanto dançar, foram relaxar num jardim próximo. Nesse momento, o rei, desfazendo-se da vestimenta real, vestiu-se como um vaisnava. Entrou no jardim, começou a massajar as pernas do Senhor com muita perícia- e a recitar para Ele o Gopigita, o trigésimo primeiro capítulo do Décimo Canto, “As Gopis´ Canções de Separação por Krsna,” que serviu para aumentar o sentimento que Sri Caitanya Mahaprabhu trazia do Ratha-yatra. Caitanya Mahaprabhu já estava muito feliz mas, quando escutou o rei recitar o Gopigita, ficou extremamente maravilhado dizendo repetidamente “Continua a recitar. Continua a recitar.” Quando o rei chegou ao verso que começa com tava kathamrtam, Sri Caitanya Mahaprabhu, como se não soubesse quem era o rei, levantou-se em amor extático e abraçou-o. Extraindo uma frase do verso, Ele exclamou, “Tu és o mais magnânimo! Tu és o mais magnânimo!

 

tava kathamrtam tapta-jivanam

 kavibhir iditam kalmasapaham

sravana-mangalam srimad-atatam

 bhuvi grnanti ye bhurida janah

 

“Meu Senhor, o néctar de Vossas palavras e as descrições de Vossas actividades são a vida e a alma daqueles que vivem aflitos neste mundo material. Personalidades gloriosas transmitem estas narrações, as quais erradicam todas as reacções pecaminosas. Quem quer que ouça estas narrações, que são difundidas por todo o mundo e são cheias de poder espiritual, alcança toda a boa fortuna. Aqueles que propagam a mensagem de Deus decerto que são os trabalhadores mais magnânimos para o bem-estar de todos os seres vivos.” (SB 10.31.9, citado no Cc Madhya 14.13)

 

Sri Caitanya Mahaprabhu, ficou tão sensibilizado pelo serviço excelente e humilde do rei, que lhe deu a Sua misericórdia—a Sua audiência pessoal—mas manteve a integridade do sannyasadharma praticado nesses tempos.

 

Essa é a misericórdia do guru e de Krsna. Podemos ver Caitanya Mahaprabhu como o guru e o Senhor Jagannatha como Krsna. Tal como Srila Prabhupada disse, pela misericórdia mútua de guru e de Krsna podemos tornar-nos completamente exitosos em serviço devocional. Devido ao serviço humilde e subalterno do rei ao Senhor Jagannatha, o Senhor Caitanya também ficou satisfeito com ele, e, pela misericórdia mútua de guru e Krsna, o serviço devocional do rei alcançou o êxito. Portanto, podemos depreender como é que através do serviço humilde podemos satisfazer o mestre espiritual e o Senhor e, como através da misericórdia deles, podemos alcançar o sucesso em consciência de Krsna.

 

No serviço devocional não existe diferença entre superior e inferior, porque todo o serviço é absoluto. Na plataforma absoluta não existe diferença entre limpar a casa de banho utilizada pelos devotos e limpar a parafernália das Deidades. Se alguém prestar serviço com atitude humilde (trnad api sunicena), sentindo-se humilde e caído, o Senhor ficará predisposto para lhe dar misericórdia. Como diz o ditado “Aqueles que se glorificam serão humilhados, e aqueles que se humilham serão glorificados.” Esta é uma grande lição a ser aprendida dos divertimentos de Sri Caitanya Mahaprabhu com o Senhor Jagannatha no Ratha-yatra.

 

Para concluir este capitulo do Sri Caitanya-caritamrta, Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami cita um verso do Caitanyastaka de Srila Rupa Gosvami (7):

 

ratharudhasyarad adhipadavi nilacala-pater

 adabhra-premormi-sphurita-natanollasa-vivasah

sa-harsam gayadbhih parivrta-tanur vaisnava-janaih

 sa caitanyah kim me punar api drsor yasyati padam

 

“Sri Caitanya Mahaprabhu dançou ao longo da estrada principal em grande êxtase perante o Senhor Jagannatha, o Senhor de Nilacala, que estava sentado em Seu carro. Arrebatado em bem-aventurança transcendental produzida pela dança e rodeado por vaisnavas que cantavam os santos nomes, Ele manifestou ondas de amor extático por Deus. Quando é que Sri Caitanya Mahaprabhu aparecerá novamente diante de minha visão?” (Cc Madhya 13.207)

 

E ele abençoa os seus leitores e ouvintes:

 

iha yei sune sei sri-caitanya paya

sudrdha visvasa-saha prema-bhakti haya

 

“Quem quer que ouça esta descrição do festival dos carros terá acesso a Sri Caitanya Mahaprabhu, e atingirá o estado elevado pelo qual se ganha firme convicção no serviço devocional e se desenvolve amor por Deus.” (Cc Madhya 13.208)

 

Hare Krsna.

 

Srila Prabhupada ki jaya!

Sri Jagannatha Ratha-yatra ki jaya!

Sri Caitanya Mahaprabhu ki jaya!

Gaura-bhakta-vrnda ki jaya!

Nitai-gaura-premanande hari-haribol!

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 1:11 pm

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Nrsimha Caturdasi – 1.ª parte

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Nrsimha-caturdasi

 Uma aula dada por Giriraj Swami

30 de Abril, 2007

Dallas

 

Vamos ler do SrimadBhagavatam, Quinto Canto, Capítulo Dezoito: ”Os residentes de Jambudvipa oferecem orações.” O verso 8 é o primeiro numa série de orações recitadas por Prahlada Maharaja ao Senhor Nrsimhadeva; portanto, iremos começar com o verso  8 e depois continuaremos com verso 9, cujo significado também se refere ao verso 8.

 

O verso 8 é uma oração, ou mantra, muito importante, e nele muitas palavras são repetidas duas vezes. Quando algo é repetido duas vezes, torna-se mais enfático. Por exemplo, podemos dizer, “É uma coisa terrível, muito terrível.” A repetição de terrível serve para dar um tom enfático.

 

 

VERSO 8

 

om namo bhagavate narasimhaya namas tejas-tejase avir-avirbhava vajra-nakha vajra-damstra karmasayan randhaya randhaya tamo grasa grasa om svaha; abhayam abhayam atmani bhuyistha om ksraum.

 

TRADUÇÃO

 

Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Nrsimhadeva, a fonte de todo o poder. Ó meu Senhor, possuidor de garras e dentes que parecem raios, por favor, eliminai nossos desejos demoníacos que , neste mundo material, nos impelem às actividades fruitivas. Fazei o obséquio de manifestar-Vos em nossos corações e dissipai a nossa ignorância para que, por Vossa misericordia, possamos tornar-nos destemidos na luta pela existência neste mundo material.

 

Verso 9

 

svasty astu visvasya khalah prasidatam

  dhyayantu bhutani sivam mitho dhiya

manas ca bhadram bhajatad adhoksaje

  avesyatam no matir apy ahaituki

 

SINÓNIMOS

 

svasti—ventura; astu—que haja; visvasya—de todo o universo; khalah—as invejosas(quase todas); prasidatam—que elas se apaziguém; dhyayantu—que elas considerem; bhutani—todas as entidades vivas; sivam—ventura; mithah—mútua; dhiya—por intermédio de sua inteligência; manah—a mente; ca—e; bhadram—tranquilidade; bhajatat—que se experimente; adhoksaje—na SupremaPersonalidade deDeus,que está além da percepção através da mente, inteligência e sentidos; avesyatam—que se absorva; nah—nossa; matih—inteligência, api—na verdade; ahaituki—sem motivo algum.

 

TRADUÇÃO

 

Que haja boa fortuna em todo o universo,e que todas as pessoas invejosas possam apaziguar-se. Que todas as entidades vivas se tornem tranquilas praticando bhaktiyoga pois, aceitando o serviço devocional, pensarão no bem-estar recíproco. Portanto, ocupemo-nos a serviço do Senhor Sri Krsna, a transcendência suprema, e permaneçamos sempre absortos em pensar n´Ele.

 

SIGNIFICADO dado por Srila Prabhupada

 

O seguinte verso descreve um Vaisnava:

 

vancha-kalpa-tarubhyas ca

  krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo

  vaisnavebhyo namo namah

 

Assim como a árvore dos desejos, o vaisnava pode satisfazer todos os desejos de qualquer pessoa que se refugie a seus pés de lótus. Prahlada Maharaja era um vaisnava típico. Ele não ora em prol de si mesmo, senão que ora em prol de todas as entidades vivas—sejam elas corteses, invejosas ou perversas. Ele pensava sempre no bem-estar das pessoas mesquinhas como, por exemplo, o seu pai Hiranyakasipu. Prahlada Maharaja, não pedia nada para si próprio;ao contrário, ele orou ao Senhor para que perdoasse seu pai demoníaco. Esta é a atitude do vaisnava, que vive a pensar no bem-estar de todo o universo.

O Srimad-Bhagavatam e o bhagavata-dharma destinam-se a pessoas que são inteiramente desprovidas de inveja( parama-nirmatsaranam). Portanto, na sua oração neste verso, Prahlada Maharaja deseja que khalah prasidatam: “Possam todas as pessoas invejosas apaziguarem-se.” O mundo material fervilha de pessoas invejosas, mas quem se livra da inveja mostra prodigalidade em seus relacionamentos sociais e passa a pensar no bem-estar alheio. Todo aquele que adopta a consciência de Krsna e ocupa-se plenamente a serviço do Senhor, tira da sua mente toda a inveja (manas ca bhadram bhajatad adhoksaje). Por isso, devemos orar ao Senhor Nrsimhadeva que Se sente em nossos corações. Devemos pedir que bahir nrsimho hrdaye nrsimhah: “Que o Senhor Nrsimhadeva Se sente no âmago do meu coração, e extermine todas as minhas más propensões. Que minha mente se torne limpa para que eu possa pacificamente adorar o Senhor e levar a paz ao mundo inteiro.”

 

Com relação a isto, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura deu-nos um significado muito esmerado. Sempre que oferece uma oração à Suprema Personalidade de Deus, a pessoa pede-Lhe uma benção. Como o Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu ensina em Seu Siksastaka, mesmo os devotos puros (niskama) suplicam por alguma benção:

 

ayi nanda tanuja kinkaram

  patitam mam visame bhavambudhau

krpaya tava pada pankaja-

  sthiti-dhuli-sadrsam vicintaya

 

“Ó filho de Maharaja Nanda (Krsna) sou Vosso servo eterno, mas de alguma forma acabei caindo no oceano de nascimentos e mortes. Por favor, tirai-me do oceano de mortes e colocai-me como um dos átomos a Vossos pés de lótus.” Noutra oração, o Senhor Caitanya diz que mama janmani janmanisvare bhavatad bhaktir ahaituki tvayi: “Vida após vida, por favor, permiti que eu dedique amor imaculado e devoção aos pés de lótus de Vossa Omnipotência.” Ao cantar om namo bhagavate narasimhaya, Prahlada Maharaja pede uma benção ao Senhor mas, porque ele também é um vaisnava grandioso, nada deseja para o gozo de seus próprios sentidos. O primeiro desejo expresso em sua oração é svasty astu visvasya: “Que haja boa fortuna em todo o universo.” Portanto, Prahlada Maharaja pediu que o Senhor fosse misericordioso com todos, incluindo seu pai, que era uma pessoa muito invejosa. De acordo com Canakya Pandita, existem duas classes de entidades vivas invejosas: uma são as serpentes, e a outra são os homens da laia de Hiranyakasipu que , por natureza, invejam todos inclusive seu pai ou filho. Hiranyakasipu tinha inveja de seu filhinho Prahlada, mas Prahlada Maharaja pediu uma benção em favor de seu pai. Hiranyakasipu invejava muito os devotos, mas Prahlada desejava que, pela graça do Senhor, o seu pai e outros demónios com ele parecidos abandonassem sua natureza invejosa e parassem de atormentar os devotos (khalah prasidatam). O problema é que khalah ( a entidade viva invejosa) raramente se apazigua. Uma espécie de khalah, a serpente, pode ser apaziguada simplesmente com mantras ou com a acção de uma erva específica (mantrausadhi-vasah sarpah khalakena nivaryate). Contudo, não há como apaziguar uma pessoa invejosa. Portanto, Prahlada Maharaja ora para que todas as pessoas invejosas, passem por uma mudança de coração e pensem no bem-estar alheio.

 

Se o movimento da consciência de Krsna se espalhar por todo o mundo e se, pela graça de Krsna, todos vierem a aceitá-lo, o pensamento das pessoas invejosas mudará. Todos pensarão no bem-estar alheio. Portanto, Prahlada Maharaja ora: sivam mitho dhiya. Nas actividades materiais, todos invejam os demais, porém, em consciência de Krsna, ninguém inveja outrem; todos pensam no bem-estar alheio. Portanto, Prahlada Maharaja implora que as mentes de todos possam tornar-se benévolas e se fixem aos pés de lótus de Krsna (bhajatad adhoksaje). Como se indica noutra passagem do Srimad-Bhagavatam (sa vai manah krsna-padaravindayoh) e como o Senhor Krsna aconselha no Bhagavad-gita (18.65), manmana bhava mad-bhaktah, devemos pensar constantemente nos pés de lótus do Senhor Krsna. Então, as nossas mentes concerteza tornar-se-ão limpas (ceto darpanam-marjanam). Os materialistas vivem a pensar no gozo dos sentidos, mas Prahlada Maharaja ora para que a misericórdia do Senhor lhes mude as mentes e eles deixem de pensar no gozo dos sentidos. Se eles pensarem sempre em Krsna, tudo dará certo. Algumas pessoas argumentam que, se todos pensarem em Krsna dessa maneira, o mundo inteiro ficará vazio porque todos voltarão ao lar, voltarão ao Supremo. Contudo, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura diz que isto é impossivel, pois existem muitas entidades vivas. Se o movimento da consciência de Krsna libertar de facto um determinado conjunto de entidades vivas, outro grupo encherá o universo inteiro.

 

COMENTÁRIO feito por Giriraj Swami

 

vancha-kalpatarubhyas ca

  krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo

  vaisnavebhyo namo namah

 

No significado, Srila Prabhupada citou este verso porque ele descreve um Vaisnava, e porque Prahlada Maharaja,que recitou estas orações que estamos a ler e a comentar, é um exemplo excelente de um Vaisnava.

 

Hiranyakasipu, o pai de Prahlada, era um grande demónio e executou austeridades tão severas, que perturbou todo o universo. Finalmente o Senhor Brahma aproximou-se pessoalmente a Hiranyakasipu para lhe perguntar que benção é que ele queria. Deste modo ele acabaria com as suas austeridades e pararia com a perturbação dentro do universo.

 

Hiranyakasipu pediu a benção de se tornar imortal, mas o Senhor Brahma respondeu, “Eu próprio, não sou imortal.” Hiranyakasipu então pediu varias bençãos que, pensou ele, o fariam imortal. Ele pediu para que não fosse morto dentro ou fora de um edificio. Ele pediu para não ser morto nem de dia nem de noite. Ele orou para não ser morto na terra ou no ar. Ele orou para não ser morto por nenhum ser humano ou animal, semideus, demónio ou qualquer outra criatura. Orou para não ser morto por nenhuma arma. Ele pensou que, ao pedir tais bençãos, eventualmente tornar-se-ía imortal e ficaría com supremacia absoluta sobre o universo. O Senhor Brahma concordou com todos os pedidos dizendo, “Que assim seja.”

 

No transcurso do tempo, Hiranyakasipu teve um filho chamado Prahlada, que era um devoto. Anteriormente o Senhor, na forma de Varahadeva, tinha morto o irmão de Hiranyakasipu, Hiranyaksa,e Hiranyakasipu estava determinado em vingar a morte de seu irmão—na verdade ele pensava que podia matar Visnu. Ele sabia que Visnu tinha aparecido como Varaha e tinha morto Hiranyaksa. Mais tarde, Diti, a mãe de Hiranyaksa e Hiranyakasipu, desejou ter um filho que pudesse matar Indra porque ela pensava que Indra, com a ajuda de Visnu, era o responsável pela morte de seus filhos.

 

Com as escrituras aprendemos—sadhu-sastra-guru-vakya—que Visnu é Deus. Poderíamos perguntar, “Como poderia alguém imaginar matar Deus?” mas se Deus viesse a esta sala, e não O reconhecêssemos pelos aspectos que estão mencionados nas escrituras, não saberíamos que era Deus porque Deus é parecido com o ser humano. Na Biblia está dito, “Deus criou o homem à Sua própria imagem.” Deus, tal como nós, tem braços, pernas, mãos, pés, olhos, nariz, boca e todos os outros aspectos corporais. O Seu corpo é como o nosso. O que O distingue de nós são as Suas potências imensuráveis. Por exemplo,, o presidente dos Estados Unidos tem poderes imensos (mais do que alguns gostam). Se ele quiser, pode dar ordens ao exército para invadir um país, ou pode enviar a polícia prender um cidadão. Ele parece-se connosco mas não temos o mesmo poder. Podemos querer fazer certas coisas, mas não temos o poder. Ele sim, tem o poder mas, mesmo assim, é parecido connosco.

 

Quando alguém executa grandes austeridades pode conseguir grandes poderes. Mesmo os demónios, se executam as austeridades prescritas, podem tornar-se muito poderosos e alcançar várias perfeições místicas. Os demónios também podem conseguir poderes apesar do Senhor Visnu ter todo o poder e potência mística. Hiranyakasipu pensou que, através das austeridades e poderes derivados delas, juntamente com as bençãos que tinha conseguido do Senhor Brahma, poderia tornar-se imortal e conquistar o universo. Ele criou uma grande perturbação no universo ao executar grandes austeridades; essa perturbação consistia em ter declarado guerra aos semideuses e conquistado os territórios deles.

 

Naturalmente que Hiranyakasipu queria que seu filho fosse como ele, um grande materialista, e para tal educou-o adequadamente. Ele ocupou professores a instruir o rapaz a tornar-se perito na política e na diplomacia. Apesar de ser um demónio, Hiranyakasipu tinha afeição natural pelo seu filho. Por vezes os pais perguntam aos seus filhos, “Que é que aprendeste hoje na escola? Qual é o tema que gostas mais?” desse modo Hiranyakasipu perguntou a Prahlada, “Qual foi o assunto que gostastes mais de aprender?” Ele pensou que Prahlada diria alguma coisa engraçada, alguma coisa doce, mas Prahlada deu a pior resposta alguma vez imaginada por Hiranyakasipu. Ele disse, “A melhor coisa que aprendi foi sravanam kirtanam visnoh smaranam pada-sevanam/ arcanam vandanam dasyam sakhyam atma-nivedanam.” Escutar e glorificar sobre Visnu. Sim, Visnu, a quem Hiranyakasipu considerava o seu pior inimigo. Visnu. Portanto Hiranyakasipu ficou furioso e decidiu matar Prahlada. Ele argumentou que se uma parte do corpo fica infectada, a doença pode expandir-se por todo o corpo e matar a pessoa. Apesar de ser parte do nosso corpo, devemos amputá-la para salvar o resto do corpo. Ele pensou “apesar de Prahlada ser meu filho, ele ficou infectado pela doença do Vaisnavismo e, portanto, temos de matá-lo antes que a doença se espalhe e acabe connosco.”    

 

Como se descreve no Sétimo Canto do Srimad-Bhagavatam, ele tentou matar Prahlada de diferentes maneiras mas, apesar de ser tão poderoso . . . Hiranyakasipu tinha conquistado os semideuses. Ele ocupava o trono do rei Indra e governava os habitantes de todos os outros planetas muito severamente. À excepção de Brahma e Siva, todos os outros semideuses ocupavam-se a seu serviço, oferecendo-lhe reverências e glorificação. Era tão poderoso—mas não foi capaz de matar Prahlada. Ele fez com que demónios de aspecto horrível, tentassem trespassar o corpo de Prahlada com tridentes. Ele atirou Prahlada para baixo dos pés de elefantes muito grandes, e para o meio de enormes serpentes mas, apesar de tudo, não foi capaz de o matar. Atirou-o do cimo de uma montanha, deu-lhe veneno para tomar, fê-lo passar fome e atirou-lhe pedras gigantescas para esmagá-lo. Nada funcionava—Prahlada não ficava minimamente afectado—e Hiranyakasipu estava surpreendido. Tinha conquistado os exércitos dos semideuses mas não conseguia subjugar o seu filho de cinco anos de idade.

 

Finalmente, quando todos os seus esforços fracassaram, Hiranyakasipu perguntou a Prahlada, “De onde consegues o teu poder? Tu estás consciente que, quando fico zangado, todos os planetas dos três mundos, bem como os seus governantes tremem? Tu não tens medo e ultrapassaste a minha capacidade de te controlar. De onde consegues a tua força?” Prahlada respondeu, “Eu consigo-a da mesma fonte que tu, da fonte de toda a energia-de Deus.” Nesse momento, Hiranyakasipu ficou verdadeiramente enfurecido, porque ele pensava que era a fonte de seu próprio poder. Essa é a mentalidade demoníaca. Pensamos que somos os executores—kartaham iti manyate. Pensamos, isvaro´ham aham bhogi siddho ´ham balavan sukhi: “eu sou o controlador, o desfrutador. Eu sou perfeito, poderoso e feliz.” Essa é a tendência demoníaca. Hiranyakasipu não queria escutar que o seu poder vinha de outra pessoa-e que dizer da pessoa que Prahlada tinha mencionado: o Supremo Senhor ilimitado.

 

Nessa altura Hiranyakasipu ficou ainda mais enfurecido e mais desafiador. Ele disse a Prahlada, “Se esse teu Deus está em todo o lado, porque é que ele não está presente diante de mim, nesta coluna? Agora vou matar-te e vamos ver se esse teu Deus te protege!” Cheio de raiva, Hiranyakasipu levantou-se de seu trono, agarrou na sua espada e com grande ira esmorrou a coluna. Então, de dentro da coluna emergiu a forma maravilhosa de Nrsimhadeva. Nrsimha Bhagavan ki jaya!

 

Nrsimhadeva era único. Não era um homem, nem um animal mas tinha uma forma de metade leão e metade homem. O Seu aparecimento preencheu todas as condições dadas pelo Senhor Brahma. Não era um semideus, nem ser humano nem animal- Ele não era nenhuma das criaturas. A seu devido tempo, agarrou Hiranyakasipu, colocou-o no Seu regaço, e com as Suas unhas abriu-lhe o peito. Hiranyakasipu era extraordinariamente poderoso e o seu peito podia tolerar o raio de Indra. Ninguém podia ferir o seu corpo. Era muito poderoso.

 

Podia-se atirar flechas, bem como todo o tipo de armas contra ele, que estas eram projectadas como se fossem insignificantes. Não era fácil abrir o seu peito. Contudo Nrsimhadeva abriu-o com as suas unhas grandes, extraíu-lhe o coração e assim matou este grande demónio.

 

Diariamente glorificamos o Senhor Nrsimha com a oração, (uma linha dessa oração foi citada no significado de Srila Prabhupada):

 

ito nrsimhah parato nrsimho

  yato yato yami tato nrsimhah

bahir nrsimho hrdaye nrsimho

  nrsimham adim saranam prapadye

 

Ito nrsimhah significa “Nrsimha está aqui”; parato nrsimho quer dizer “Nrsimha tambem está lá, do outro lado: “yato yato yami tato nrsimho: “onde quer que vá, aí está Nrsimha.” Bahir nrsimho: “Nrsimha está no exterior”. Hrdaye nrsimho: “Nrsimha está no meu coração.” Nrsimham adim saranam prapadye: “Eu refugio-me no Senhor Nrsimha, o Senhor original.” Ele está em todo o lado.

 

Nós também cantamos:

 

namas te nara-simhaya

  prahladahlada-dayine

hiranyakasipor vaksah-

  sila-tanka-nakhalaye

 

Sila-tanka-nakhalaye. Sila quer dizer “pedra” como em saligrama-sila; nakha significa “unhas”; e tanka significa “cinzel”. Se queremos quebrar uma pedra dura, temos de utilizar um cinzel. As unhas do Senhor Nrsimha eram como cinzeis que cortaram o peito de Hiranyakasipu—o seu peito e coração, que eram duros como pedra.

 

Hirianyakasipu pensava que, através do seu próprio poder e inteligência, poderia tornar-se imortal. Porém a sua inteligência não era tão grande quanto a de Nrsimha, que manteve todas as bençãos de Brahma intactas e, ainda assim, conseguiu matar o demónio. Nrsimhadeva assumiu esta forma maravilhosa-adbhuta significa “maravilhosa”—que era metade homem e metade leão. Ele sentou-se no umbral do palácio, que não era dentro nem fora do mesmo. Apareceu no crepúsculo, que não era de dia nem de noite. Matou Hiranyakasipu no Seu regaço-não foi no ar nem na terra. Não o matou com armas, mas com as Suas unhas. Portanto, manteve intactas todas as bençãos e, ainda assim, matou-o.

 

Srila Prabhupada explica que, não importa o quão inteligente possamos ser, Krsna é sempre um pouco mais inteligente. Mãe Yasoda tentou atar Krsna com cordas, mas apesar de ter unido muitas cordas, Ele permanecia sempre dois dedos maior que elas. Faltava sempre um pouquinho para atá-Lo. Do mesmo modo, se tentarmos competir com Deus-tentarmos superar Deus, tentarmos enganar Deus-nunca o conseguiremos. Srila Prabhupada explica, “Hiranyakasipu pensava somente na bomba atómica, em como proteger-se da bomba mas, esqueceu-se das unhas.” Fez tantos arranjos para se proteger, mas nem sequer se deu ao trabalho de pensar nas unhas. Portanto, a conclusão deverá ser “se não pudemos lutar com Ele, devemos unir-nos a Ele.” Nrsimham adim saranyam prapadye. Devemos render-nos a Nrsimhadeva. Não devemos competir com Ele, nem lutar com Ele. Essa é a essência das orações de Prahlada.

 

Depois de Nrsimhadeva ter morto Hiranyakasipu, pediu a Prahlada para aceitar alguma benção, mas Prahlada não quis nenhum favorecimento material porque era um devoto puro. No verso de hoje encontramos a palavra ahaituki: sem nenhum motivo. Prahlada não tinha motivações materiais, por isso, quando o Senhor Nrsimhadeva lhe pediu que aceitasse uma benção, ele recusou. Disse, “Porque me está a tentar com expectativas materiais? Se eu desejasse beneficios materiais em troca do serviço devocional, não seria um servente. Seria como um homem de negócios que quer lucros em troca do serviço. Senhor, sou Vosso servente eterno e Vós sois o meu mestre eterno. Não temos outro relacionamento.” Prahlada pediu somente para que não houvesse nenhuns desejos materiais dentro de seu coração.

 

Porém, Nrsimhadeva insistia para que Prahlada aceitasse alguma benção e, finalmente, Prahlada concordou: “Se realmente quer que aceite algo de Vós, então peço-Vos para que purifique o meu pai.” Esta situação mostra o carácter exemplar de Prahlada que, como diz Srila Prabhupada, é um Vaisnava no verdadeiro sentido da palavra. O Vaisnava, é o amigo de todos, de todas as entidades vivas (suhrdah sarva-dehinam). Nunca se torna o inimigo de seu inimigo. Permanece sempre o amigo de todos-até de seus inimigos. Portanto, apesar de Hiranyakasipu ter sido tão invejoso-mesmo de seu próprio filho-tentando matá-lo de tantas maneiras, Prahlada permaneceu fiel ao seu carácter como um Vaisnava. Pensou no bem-estar de seu pai. Desejou-lhe o bem.

 

Prahlada, nesta oração ao Senhor Nrsimhadeva, ora por seu pai e por todas as pessoas invejosas, para que se tornem pacíficas. Khalah prasidatam: “Que todas as pessoas invejosas se apaziguem.” Srila Prabhupada esclarece que quase todos são invejosos. Na realidade, entramos neste mundo material, porque somos invejosos de Krsna. Essa é a razão pela qual estamos aqui. Portanto Srila Prabhupada diz “quase todos.” As únicas excepções são os devotos puros. Todos os outros, têm alguma inveja. É como dizer, “quase todos na prisão são criminosos.” Sim, em princípio, todos os prisioneiros são criminosos. Existem alguns colaboradores da prisão que não o são, que estão lá para orientar os internos, mas os prisioneiros, esses são criminosos. Portanto, à excepção dos devotos que trabalham para o bem-estar das almas caídas, todos são invejosos. Ninguém é poupado pela inveja. Hiranyakasipu, era invejoso de um devoto puro, o seu filho de cinco anos. Diti ficou invejosa de Indra que era seu sobrinho. Quis matá-lo ou contratar alguém para o matar. Ninguém é poupado.

 

Se quisermos sair do enredo da existência material, teremos que libertar-nos da inveja. Como é que nos libertamos da inveja? Através do processo da consciência de Krsna. Essa é a oração de Prahlada: bhajatad adhoksaje. Bhaja significa adorar e servir. A palavra bhakti, vem da raíz verbal bhaj: servir com devoção. Servir a quem? Adhoksaja: Krsna, que está além da percepção material dos sentidos. Hiranyakasipu não podia ver Visnu; o Senhor estava além da sua percepção sensorial. Só quando Visnu decidiu aparecer diante dele, ao saír da coluna como Nrsimhadeva, é que Hiranyakasipu pode vê-Lo. Só os devotos puros podem ver a Krsna, ninguém mais. Ele está além da percepção materialmente contaminada dos sentidos, da mente e inteligência das almas condicionadas.

 

Portanto, o processo é a consciência de Krsna (bhajatad adhoksaje). Como Prahlada explicou, ocupamo-nos em serviço devocional em consciência de Krsna, através de sravanam kirtanam visnoh smaranam: escutar e recitar sobre Visnu e lembrar-se d´Ele. Srila Prabhupada citou do Siksastaka, ceto-darpanammarjanam: sankirtana, a recitação dos santos nomes do Senhor, limpa o coração. Esse é o processo. Quando o coração se limpa tornamo-nos pacificos e calmos (bhadram).

 

Este processo, está descrito em dois versos muito importantes do Segundo Capítulo do SrimadBhagavatam:

 

srnvatam sva-kathah krsnah

  punya-sravana-kirtanah

hrdy antah-stho hy abhadrani

  vidhunoti suhrt satam

 

“Sri Krsna a Personalidade de Deus, que é o Paramatma [Superalma] no coração de todos e o benfeitor do devoto veraz, purifica do desejo de gozo material o coração do devoto que desenvolveu o desejo ardente por ouvir Suas mensagens, que por si só são virtuosas, quando adequadamente ouvidas e recitadas.” (SB 1.2.17)

 

Srnvatam sva-katha krsnah. Quando escutamos krsnakatha, todo o abhadrani, todos os desejos materiais, todas as perturbações dentro do coração, são limpas pelo próprio Senhor, que está sentado dentro do coração como um amigo bem-querente do devoto veraz (vidhunoti suhrt satam). O som transcendental é Krsna. Krsna entra no ouvido na forma de som trancendental e, quando escutamos apropiadamente, o som entra no coração e limpa-o. Krsna, na forma de som transcendental, limpará as coisas sujas que estão no coração (ceto-darpana-marjanam).

 

O verso seguinte explica ainda que:

 

nasta-prayesv abhadresu

  nityam bhagavata-sevaya

bhagavaty uttama-sloke

  bhaktir bhavati naisthiki

 

“Assistindo regularmente às aulas sobre Bhagavatam e prestando serviço ao devoto puro, tudo o que é molesto ao coração é quase que completamente destruído, e o serviço amoroso à Personalidade de Deus, o qual se louva com canções transcendentais, é estabelecido como um facto irrevogável.” (SB 1.2.18)

 

Bhagavatasevaya: por servir a pessoa bhagavata ou o livro bhagavata, tudo o que é perturbador no coração-a mesma palavra, abhadrani (abhadra, nasta-prayesv abhadresu), tudo o que é problemático, tudo o que perturba o coração nesta plataforma, é praticamente destruído. Quando Prahlada ora para que as pessoas invejosas se pacifiquem (bhadram), ele ora para que todas as abhadra, as perturbações, os desejos materiais dentro do coração, sejam removidos. O processo da remoção é a consciência de Krsna, através de absorver a mente em Krsna. Este método é recomendado no Bhagavad-gita (manmana bhava madbhakto)e no Srimad-Bhagavatam (sa vai manah krsnapadaravindayoh)-absorver a mente em Krsna. Isto é consciência de Krsna, e pode purificar o nosso coração e tornar-nos calmos e pacíficos. Então, em vez de invejarmos os outros e querermos explorá-los e dominá-los, pensaremos no seu bem estar. Vamos querer ajudá-los e encorajá-los em consciência de Krsna.

 

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 1:02 pm

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Nrsimha Caturdasi – 2.ª parte

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(continuação de Nrsimha caturdasi – parte I)

 

O nosso processo principal, que nos foi dado especialmente por Sri Caitanya Mahaparabhu em Kaliyuga, é sankirtana, a recitação dos santos nomes do Senhor. Entretanto, devemos fazê-lo de tal maneira que a nossa mente fique absorta. Esta é a oração de Prahlada: que as nossas mentes se absorvam em Krsna. Quando recitamos, queremos escutar-queremos que as nossas mentes se absorvam no som do santo nome do Senhor Krsna. Mas quando tentamos praticar o que é que observamos? A nossa mente está tranquila? Está absorta no santo nome de Krsna ou está a vaguear daqui para ali pensando em diferentes situações para controlar e desfrutar, sugerindo a mentalidade descrita no Bhagavadgita e atribuída aos demónios: isvaro`ham aham bhogi—“Eu sou o controlador; eu sou o desfrutador”? Quando analisamos os pensamentos que temos enquanto recitamos-enquanto supostamente recitamos e ouvimos-constataremos que o substrato é “Eu sou o desfrutador; Eu sou o controlador.” Recitamos mas estamos distraídos pensando, “Oh, tenho que fazer isto. Tenho que fazer aquilo.” O que está implícito é que pensamos que somos o controlador. “Tenho que controlar todas estas coisas. Não posso ouvir o nome de Krsna. Tenho que controlar estas coisas todas.” Porque é que queremos controlar? Embora possamos querer controlar para o serviço de Krsna, a tendência é controlar para a gratificação dos sentidos. Queremos controlar as pessoas e as situações de forma a tornar as nossas vidas mais prazeirosas. Fazemos planos para tornar as nossas vidas mais agradáveis.

 

 Também existe em nós esta inclinação demoníaca, da qual falámos em relação a Hiranyakasipu. Ravindra Svarupa Prabhu, nosso irmão espiritual, cita regularmente, “vimos o inimigo e o inimigo somos nós” (risos). Nós somos o inimigo. Não está fora de nós. Nós somos o inimigo-as nossas más inclinações, as nossas mentes e sentidos descontrolados. O problema não está fora, mas sim dentro de nós.

 

Portanto, temos que nos esforçar muito. Temos que nos esforçar para recitar e escutar com atenção, com sentimento. Para onde quer que a mente divague, temos que trazê-la de volta para o som do santo nome de Krsna. Isto é algo dificil de fazer. Na verdade é um esforço em vão, se o tentarmos fazer por nossa conta. Precisamos de ajuda, de misericórdia; precisamos da misericórdia de Krsna, e Prahlada está a ajudar-nos. Devemos orar, mas é Prahlada quem nos guia na oração. No verso 8 ele orou ao Senhor Nrsimhadeva, situado no coração, “Bondosamente aniquile os meus desejos demoníacos. Assim como destruiu Hiranyakasipu, bondosamente destrua os meus desejos que se assemelham a demónios, mate as minhas más propensões, e sente-se no trono do meu coração.

 

Devemos actuar de duas maneiras: esforçando-nos, e orando por misericórdia. Quando o Senhor vê que nos estamos a esforçar honestamente, fica inclinado a dar a Sua misericórdia. Não devemos ficar parados, sem fazer nada, e orar por misericórdia. Temos que nos esforçar, mas também compreender que, só com o nosso esforço, não conseguiremos ser exitosos; necessitamos da ajuda do Senhor. Ele será misericordioso, quando vir o nosso esforço genuíno, sincero e incansável. Mencionámos Mãe Yasoda. Ela não pode atar Krsna juntando todas as cordas de Vraja mas, quando Krsna se apercebeu do seu esforço incansável para O atar, sentiu compaixão e permitiu que ela O atasse. Os nossos acaryas explicam que os dois dedos de corda que sempre faltavam podem ser supridos (1) pelo nosso esforço intenso (parisrama), e (2) pela misericórdia de Krsna (krsna-krpa). Estes dois elementos podem cobrir a distância, e tornar os nossos esforços exitosos—pela graça de Krsna.

 

Srila Visvanatha Cakravarti Thakura, citado por Prabhupada no significado, explica que sempre que um devoto oferece uma oração ao Senhor, pede-Lhe alguma benção. Na oração om namo bhagavate narasimhaya, um pedido de benção está implícito. Entretanto, um devoto nunca pedirá bençãos materiais, como o fez Hiranyakasipu. “Quero tornar-me imortal, para que possa conquistar o universo e fazer de todos, meus servos.” O devoto pedirá uma benção que esteja relacionada com o serviço devocional e isso não está errado. Não pedirá nada que seja para a sua gratificação dos sentidos. Pedirá algo para a consciência de Krsna-a sua consciência de Krsna e a consciência de Krsna dos outros.

 

Encontramos este exemplo no Siksastaka (5):

 

ayi nanda-tanuja kinkaram

 patitam mam visame bhavambudhau

krpaya tava pada-pankaja-

 sthita-dhuli-sadrsam vicintaya

 

“Ó filho de Maharaja Nanda (Krsna), seu Teu servo eterno porém, caí neste oceano horrível de nascimento e morte. Por favor tire-me deste oceano de morte e coloque-me como um dos átomos a Seus pés de lótus. ”

 

Este é um verso muito importante. Ayi nanda tanuja kinkaram: “Sou Seu servo eterno.” Somos serventes de Krsna-específicamente de Krsna, o filho de Nanda. Nanda tanuja é um termo íntimo. Tanu quer dizer “corpo” e ja signica “nascido”. Apesar do Senhor ser aja, não nascido; para executar os Seus divertimentos em Vrndavana, ele aparece como nanda tanuja, Aquele que “nasceu do corpo de Nanda.” É um termo muito íntimo. “Apesar de ser Seu servo (kinkaram), de alguma forma caí neste terrível oceano de nascimento e morte (patitam mam visame bhavambudhau).

 

Bhava significa “existir” ou “passar a existir e depois cessar a existência.” Prabhupada traduz visame como “horrível”. Literalmente visa quer dizer “veneno.” Esta existência material é como um oceano de veneno. Dentro deste oceano existem aquáticos ferozes tais como tubarões, que estão prontos para nos devorar. Estas criaturas mortíferas são comparadas à luxúria, ira e cobiça-sempre preparadas para nos devorar e acabar connosco. No oceano existem ondas, ondas terríveis, que são comparadas às falsas esperanças e às ansiedades. Elas atiram-nos daqui para acolá. Também existem ventos fortes–ventos fortes e tempestades-que são comparados à má associação. O oceano por si, já é bastante mau mas, torna-se pior quando nos sujeitamos à má associação. Tal associação, actua como os ventos fortes que nos arrastam para o caminho errado e nos podem fazer caír. Enquanto estamos aflitos no oceano, a afogar-nos no mar, podemos encontrar pequenos pedaços de madeira e pensar, “Oh, aqui está um pequeno pedaço de madeira. Vou agarrar-me a ele.” Estes pedaços insignificantes de madeira são comparados a karma, jnana, yoga, etc… Eles não podem salvar-nos.

 

A única coisa que nos pode salvar, é a misericórdia (tava krpa). Sri Caitanya Mahaprabhu, que pronunciou os versos chamados Siksastaka, ora “Por Sua misericórdia, por favor, liberte-me deste oceano horrível de nascimento e morte, e coloque-me como um dos átomos a Seus pés de lótus.” É a misericórdia divina que nos pode salvar. Ele ora para ser um átomo aos pés de lótus de Krsna. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura explica que, originalmente, somos todos partes integrantes de Krsna. Dhuli significa literalmente “poeira.” Pada-dhuli: “a poeira dos pés de lótus.” Sri Caitanya Mahaprabhu ora, “Tenha misericórdia imotivada para comigo. Considere-me Seu servo eterno, uma partícula de pó a Seus pés de lótus.”

 

Alguém poderá perguntar, “É apropriado, para um devoto que se refugiou no santo nome de Krsna, falar das misérias da existência material?” Bom, Sri Caitanya Mahaprabhu fez isso. Portanto, não é errado falar das misérias da existência material, como também não é errado orar por misericórdia para ser reínstalado na nossa relação constitucional com Krsna. Estas são coisas que os devotos fazem. Esta deve ser a nossa mentalidade quando recitamos: o santo nome é Krsna e nós queremos restabelecer a relação perdida com Ele. Deste modo, queremos restabelecer a nossa relação com o santo nome—Krsna como o santo nome. A nossa recitação é uma reciprocação pessoal com o santo nome. Quando a nossa mente vagueia, e todos estes anarthas surgem, porque essa é a tendência, oramos por misericórdia, “por favor salve-me. Eu penso que sou Deus, o controlador e desfrutador. Por favor salve-me destes anarthas.” Este é um aspecto da oração. O outro aspecto é “por favor ocupe-me em Seu serviço. Por favor aceite-me como Seu servo eterno. Por favor considere-me um átomo a Seus pés de lótus, uma partícula de poeira a Seus pés de lótus.”

 

Temos outro exemplo do Siksastaka (4):

 

na dhanam na janam na sundarim

  kavitam va jagad-isa kamaye

mama janmani janmanisvare

  bhavatad bhaktir ahaituki tvayi

 

“Ó Senhor do universo, não desejo riqueza material, seguidores materialistas, uma esposa bonita, ou actividades fruitivas descritas em linguagem florida. Tudo o quero, vida após vida, é o Seu serviço devocional sem causa.”

 

 Ahaituki. De novo a palavra ahaituki: “sem causa, sem nenhum motivo de ganho material de qualquer tipo.” Serviço devocional puro é anyabhilasita-sunyam jnana-karmady-anavrtam. Anyabhilasita sunyam: sem nenhum motivo adjacente. Jnana-karmady-anavrtam: não é coberto por karma, jnana, ou outros processos. No Seu Siksastaka, Sri Caitanya Mahaprabhu ora na mentalidade da devoção pura: na dhanam na janam na sundarim kavitam. Dhanam significa “riqueza.” Janam quer dizer “seguidores.” Sundarim significa “mulheres bonitas, esposa bonita.” Kavitam significa “poesia” ou “as palavras floridas dos Vedas.” Por vezes sundarim é colocado ao lado de kavitam significando assim “poesia bonita.” Algumas pessoas pensam que podem realizar a Deus através da poesia, música, ou a arte e estão apegadas a tais prazeres subtís, quase celestiais. Eles dizem que podem realizar Deus escutando música sinfónica ou qualquer outra coisa. Portanto sundarim kavitam: poesia bonita. Quando sundarim é colocado com kavitam, então belas mulheres, bela esposa, crianças, parentes e amigos, estão incluídos em janam. Todos estes ganhos são alcançados através de actividades materiais piedosas-em outras palavras, karma. Portanto quando Ele diz na dhanam na janam na sundarim kavitam, quer dizer que não quer nada que possa ser alcançado por karma. Quando Ele diz mama janmana janmanisvare, quer estar ocupado nascimento após nascimento em serviço devocional puro. Ele diz-nos que não quer nem mesmo a liberação, que é a meta de jnana. Por outras palavras, Ele não ora pelos resultados de karma e jnana, mas pede somente serviço devocional puro. Este é o calibre de um devoto puro. Isso é o que devemos almejar.

 

Entretanto Prahlada não pede para si mesmo. Ele ora por todas as entidades vivas. Aqui também o mesmo principio é aplicado: nós oramos, mas também devemos esforçar-nos. Não é suficiente estarmos parados e orar, “Por favor liberte todas as entidades vivas do universo” enquanto nos ocupamos em comer e dormir, ou mesmo enquanto recitamos o santo nome para o nosso beneficio. Também temos que trabalhar para a libertação das almas caídas. Esta combinação de esforço e oração será efectiva. Mais tarde, no Sétimo Canto (SB 7.9.44), nas orações de Prahlada a Nrsimhadeva, encontramos:

 

prayena deva munayah sva-vimukti-kama

  maunam caranti vijane na parartha-nisthah

naitan vihaya krpanan vimumuksa eko

  nanyam tvad asya saranam bhramato ’nupasye

 

“Meu querido Senhor Nrsimhadeva, vejo que, na verdade, existem muitas pessoas santas, mas elas estão interessadas unicamente em sua própia liberação. Não se preocupando com as grandes cidades e províncias, elas, sob voto de silêncio [mauna vrata], vão aos Himalaias ou às florestas para meditar. Elas não estão interessadas em libertar os outros. Entretanto, quanto a mim, não quero libertar-me sozinho e deixar de lado todos esses pobres tolos e patifes. Sei que, sem consciência de Krsna, sem refugiar-se nos Vossos pés de lótus, ninguém pode ser feliz. Portanto, desejo trazer todos de volta ao refúgio de Vossos pés de lótus.”

 

Prahlada não tem por que se preocupar com a sua liberação porque, sendo um devoto puro, já está liberado. Onde quer que se encontre pode sempre submergir-se no oceano nectáreo das glórias e dos santos nomes do Senhor, e experimentar bem aventurança transcendental. Ele explica, “No que me diz respeito, não tenho qualquer ansiedade, mas tenho uma preocupação. Lamento-me (soce) porque as pessoas sofrem pela ausência da consciência de Krsna, e por isso encontro-me sempre a fazer planos para ocupá-las em serviço devocional.”

 

naivodvije para duratyaya-vaitaranyas

  tvad-virya-gayana-mahamrta-magna-cittah

soce tato vimukha-cetasa indriyartha-

  maya-sukhaya bharam udvahato vimudhan

 

“Ó melhor das grandes personalidades, não temo nem um pouquinho a existência material, pois, em qualquer lugar onde eu permaneça, estarei plenamente absorto em pensar em Vossas gloriosas actividades. Fico preocupado apenas com os tolos e patifes que andam às voltas com planos elaborados, através dos quais procuram obter felicidade material e manter suas famílias, sociedade e países. Estou preocupado com eles porque lhes quero bem.”

 

Prahlada Maharaja é um dos nossos acaryas-um dos doze mahajanas-e ele está a ensinar-nos com o seu exemplo. Ele medita em como liberar as almas caídas, como induzí-las a aceitar a consciência de Krsna. Ele está também a orar à sua deidade adorável, o Senhor Nrsimhadeva, para que seja misericordioso com as almas caídas e as libere, porque ele sabe que por si mesmo não pode liberá-las—e que por si mesmas, elas também não se podem liberar. Como tal, precisamos da misericórdia do Senhor para pregar. Para practicar a consciência de Krsna, também necessitamos da misericórdia do Senhor. Em cada etapa, precisamos dessa misericórdia. Porém, ao mesmo tempo, temos também de nos esforçar.

 

Para concluir, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura levanta a questão, “O que acontecerá se a oração de Prahlada Maharaja for aceite e todos se tornarem conscientes de Krsna? Todos abandonarão o universo material e voltarão ao supremo. Assim sendo, o que acontecerá ao universo?”

 

No Ardha-kumbha-mela em 1971, tive uma rara oportunidade de estar com Srila Prabhupada na sua tenda, enquanto ele dava um darsana, recebendo visitantes pela tarde. Um homem perguntou-lhe, “E se todos se tornarem devotos, o que será do mundo?” Prabhupada pediu-me para eu responder. Eu não me lembro exactamente o que disse, talvez algo sobre como pode a prisão continuar se todos os prisioneiros se redimirem e forem libertos; mas eu fiquei muito atento para escutar aquilo que Prabhupada tinha para dizer depois da minha tentativa de resposta. Srila Prabhupada disse, “E se todos se tornarem ricos? Quem será o chauffeur? Todos querem ser ricos. Não se pode argumentar: e se todos se tornarem ricos? para dizer que as pessoas não tentam tornar-se ricas.” Prabhupada continuou, “o problema não é que demasiadas pessoas se tornarão conscientes de Krsna; o problema é que um número insuficiente de pessoas se tornarão conscientes de Krsna. Pensa que isso é um problema – que pessoas em demasia se tornarão conscientes de Krsna? Esse não é o problema. O problema é que um número insuficiente de pessoas se tornarão conscientes de Krsna.”

 

Um dia, uma das nossas irmãs espirituais, Jahnava devi dasi, imbuída com o sentimento de pensar no bem estar de cada entidade viva, perguntou a Srila Prabhupada, “Quando recitamos o mantra, devemos pensar no bem estar de todas as entidades vivas?” Srila Prabhupada respondeu, “Oh, podes pensar em todas as entidades vivas? Melhor que penses no Senhor Caitanya, e Ele pensará em todas as entidades vivas.” (risos) Podemos desejar o bem estar de todas as entidades vivas, mas não temos capacidade para pensar no bem estar de todas em simultâneo. Mas podemos pensar no Senhor Caitanya, e Ele pensará em todas as entidades vivas. Podemos orar ao Senhor Nrsimhadeva, e Ele pensará em todas as entidades vivas. Podemos orar para nos tornarmos uma pequena partícula de poeira ao serviço deles—um pequeno instrumento na missão d`Eles—pela divina graça d`Eles.

 

Hare Krsna.

 

Nrsimha Bhagavan ki jaya!

Prahlada Maharaja ki jaya!

Srila Prabhupada ki jaya!

Nitai-gaura-premanande hari haribol!

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 12:57 pm

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Dia de Aparecimento de Gadhadhara Pandita

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Dia de Aparecimento de Gadadhara Pandita

Uma palestra dada por Giriraja Swami

17 de Abril de 2007

Dallas

 

 

Hoje comemoramos a auspiciosa ocasião do dia de aparecimento de Sri Gadhadara Pandita. Como muitos de vós sabeis, o Senhor Caitanya é o próprio Krsna que apareceu como Seu próprio devoto. Ele é Krsna, porém tem o brilho corpóreo e o estado emocional de Srimati Radharani. Existem diferentes razões para o Seu aparecimento. A razão interna para o aparecimento do Senhor Caitanya tem a ver com o facto de Krsna querer experimentar a glória do amor que Srimati Radharani sente por Ele; as  Suas qualidades maravilhosas, que só Radharani pode experimentar através do Seu amor por Ele, e a felicidade que Radha sente quando experimenta a doçura do amor de Krsna por Ela—somente Radharani pode experimentar estas emoções.

A razão externa (que em nada é menos significativa) tem a ver com a propagação do yuga-dharma, o método recomendado para a auto-realização em cada era (yuga) específica.

Quatro associados principais descendem com o Senhor para acompanhá-Lo nos Seus divertimentos—Nityananda Prabhu, Advaita Prabhu, Srivasa Thakura, e Gadadhara Pandita. Juntos, com Sri Caitanya Mahaprabhu, formam o Panca-tattva. No Sri Caitanya-caritamrta (Adi 1.14) o autor oferece os seus respeitos a todos os cinco:

 

panca-tattvatmakam krsnam

bhakta-rupa-svarupakam

bhaktavataram bhaktakhyam

namami bhakta-saktikam

 

“Ofereço as minhas reverências ao Supremo Senhor, Krsna, que não é diferente de Seus aspectos como devoto, encarnação devocional, manifestação devocional, devoto puro e energia devocional.”

Krsna apareceu na forma de um devoto (bhakta-rupa), como Sri Caitanya Mahaprabhu; apareceu como a expansão de um devoto (sva-rupakam), como Nityananda Prabhu; apareceu como a encarnação de um devoto (bhakta-avataram), como Advaita Prabhu; apareceu como um devoto (bhakta) como Srivasa Thakura; e apareceu como a energia devocional, que inspira o devoto (bhakta-saktikam), como Gadadhara Pandita. Juntos, vieram propagar o harinam-sankirtan: o yuga-dharma da era actual.

Agora encontramo-nos em  Kali-yuga, a pior era. Apesar de Kali-yuga ser a pior, dá-nos a melhor oportunidade para realizar Deus através do cantar dos santos nomes. No final do Srimad-Bhagavatam, Sri Sukadeva Gosvami diz, kaler dosha- nide rajann: esta Kali-yuga é um oceano de faltas. Um oceano—não se pode medir a largura e o comprimento de um oceano. Asti hy eko mahan guna: mas dentro da Kali-yuga existe uma grande oportunidade. Qual é ela? Kirtanad eva krsnasya mukta-sangah param vrajet: por cantar os santos nomes de Krsna, a pessoa liberta—e da associação material e alcança a suprema meta da vida.

Sanga—associação. Sanga sanjayate kamah. O desejo deriva da associação. Geralmente, neste mundo material, as pessoas estão associadas com os três modos da natureza material: sattva-guna, rajo-guna, e tamo-guna. Devido à sua associação com os três modos elas desenvolvem corpos materiais e mentalidades influenciadas pelos mesmos modos. É muito dificil superar a influência de maya, que é formada por estes três modos:

 

daivi hi esa guna-mayi

mama maya duratyaya

mam eva ye prapadayante

mayam etam taranti te

 

No Bhagavad-gita ( 7.14 ) o Senhor Krsna diz que esta natureza material, que consiste dos três modos, é muito dificil de superar, mas, aquele que se rende a Ele, pode facilmente superá—la e libertar—se  da influência destes modos.

O Senhor Caitanya e  Seus associados do Panca-tattva, vieram saborear e distribuir amor a Deus. Vieram para saborear os santos nomes de Krsna e para distribuir os santos nomes de Krsna. No Sri Caitanya-caritamrta descreve-se que o armazém de amor a Deus tinha permanecido fechado, mas os membros do Panca-tattva quebraram a fechadura, assaltaram o armazém, comeram a mercadoria e ficaram intoxicados com amor a Deus. Entretanto, eles não quiseram desfrutar da mercadoria sozinhos: também a quiseram desfrutar com os outros; essa  era a vida deles—saborear o amor extático a Deus, e distribuí-lo.

O principal método pelo qual eles distribuíram amor a Deus, foi o cantar dos santos nomes de Deus, particularmente o maha-mantra: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Os membros do Panca-tattva ficavam tão intoxicados com o cantar e dançar, que não sabiam se era de dia ou de noite. Certo dia, Nityananda Prabhu liderava um grupo de devotos desde Puri que, no caminho, cantavam e bailavam constantemente. Tentavam voltar à Bengala mas Nityananda Prabhu e os outros estavam tão intoxicados com amor a Deus, que não sabiam que direcção seguir. Seguiam uma direcção e, dias mais tarde, apercebiam-se que não sabiam que caminho tinham seguido. Então pediam a alguém que os orientasse no caminho certo. De novo dias se passavam a cantar e a bailar . . . Eles nem sequer comiam nem dormiam e, passado algum tempo, davam-se conta que, de novo, não sabiam onde estavam. Este era o nível elevado do seu kirtana em amor extático a Deus.

Portanto, isso era o que eles saboreavam e queriam distribuir. De igual modo, isso é o que eles querem que nós aceitemos: o grande presente do santo nome, o grande tesouro de amor a Deus. Golokera prema-dhana, hari-nama-sankirtana: o grande tesouro do amor a Deus, desceu de Goloka Vrndavana, o mundo espiritual, na forma do canto congregacional do santo nome. O santo nome não é uma vibração sonora material. O nome de Krsna é o proprio Krsna. É completamente espiritual.

 

nama cintamanih krsnas

caitanya-rasa-vigraha

purnah suddho nitya-mukto

’bhinnatvan nama-naminoh

 

Nama cintamanih krsnas: o santo nome de Krsna é uma pedra filosofal transcendental que dá todas as bençãos espirituais. Caitanya-rasa-vigraha: é a forma de todas as doçuras transcendentais. É completo (purnah), puro (suddha), e eternamente liberado (nitya-muktah) da influencia de maya, ou seja, dos modos da natureza material. ’Bhinnatvan nama-naminoh: o santo nome de Krsna é, em todos os aspectos,  igual ao próprio Krsna.

Quando recitamos Hare Krsna estamos, em princípio, a associar-nos com Krsna. Srila Prabhupada explicou que o nome de uma substância e a própria substância são diferentes. Portanto, se estamos com sede  e recitamos “água, água, água, água,” o simples recitar “água, água,” não saciará a nossa sede, porque  a palavra água e a substância água são diferentes. Mas, no mundo espiritual, no mundo absoluto, o nome de uma substância e a própria substância são o mesmo. Quando cantamos “Hare Krsna, Hare Krsna,” Krsna está presente em pessoa na nossa língua. Grandes devotos que realizaram Krsna através do processo de recitar, não querem fazer nada mais, excepto recitar. Srila Rupa Gosvami orou, “Com uma língua e dois ouvidos, que posso eu recitar ou saborear? Se tivesse milhões de línguas e biliões de ouvidos então sim, poderia começar a recitar.”  Essa é a plataforma de saborear o santo nome, quando se é capaz de recitar puramente .

Desafortunadamente, não temos tal atracção. No segundo verso do Siksastaka de Caitanya Mahaprabhu, encontramos a palavra “durdaivam” que significa  infortúnio.  Somos desafortunados. Naturalmente, também somos afortunados, porque entrámos em contacto com Srila Prabhupada, que serviu o Panca-tattva ao executar a sua missão, viajando por todo o mundo e distribuindo o santo nome de Krsna. Somos afortunados, mas ao mesmo tempo não somos, pois não experimentamos amor extático quando recitamos, devido às ofensas que cometemos. O grande valor do santo nome pode ser experimentado somente quando recitamos sem ofensas.

Mas mesmo no estágio em que nos encontramos, o Panca-tattva ajuda-nos, pois não leva em consideração as ofensas. Eles são tão liberais e magnânimos que não levam em consideração qualquer ofensa. Assim, se a pessoa recita os santos nomes do Panca-tattva com entusiasmo, com absorção completa, sentir-se-à em êxtase; neste estado pode-se recitar os santos nomes do maha-mantra Hare Krsna sem cometer ofensas.

No entanto, temos de trabalhar. Temos de praticar. Tal como Srila Prabhupada afirmou, “ Recitar é fácil, mas a determinação para cantar não é tão fácil.” Temos de estar determinados a recitar com atenção, sem ofensas. Se somos capazes de recitar sem ofensas, obteremos o grande tesouro do amor a Deus. Como o Senhor Caitanya instruíu, o recitar é muito importante.

 

tara madhye sarva-srestha nama-sankirtana

niraparadhe nama laile paya prema-dhana

 

“Dos nove processos de serviço devocional, o mais importante é o recitar constante do santo nome do Senhor. Se se fizer isso, evitando os dez tipos de ofensas, será possível alcançar o mais valioso amor pela Suprema Personalidade de Deus.” (Cc Antya 4.71)

Existem dez ofensas mencionadas no Padma Purana. Srila Jiva Goswami explicou-as em detalhe no seu Bhakti-sandarbha, e Srila Bhaktivinoda Thakura também as explicou, no seu Sri Hari-nama-cintamani. Nos livros de Srila Prabhupada encontramos, em vários lugares, explicações sobre as dez ofensas. A lista de ofensas que se encontra no Néctar da Devoção é lida regularmente nos templos, como parte do programa espiritual, depois do mangala-arati, no momento em que os devotos se preparam para recitar as suas voltas de japa; ler ou recitar esta lista, escutá-la e orar, ajuda-nos a evitar as ofensas. A última ofensa desta lista é “não ter fé completa no cantar dos santos nomes e manter apegos materiais, mesmo depois de escutar tantas instruções sobre o assunto.” Frequentemente, os devotos acrescentam: “Também é uma ofensa o recitar desatento.” De facto, encontramos na oitava ofensa as últimas palavras em sânscrito api pramada. Pramada significa “desatenção.” No Hari-nama-cintamani, Srila Bhaktivinoda Thakura considerou pramada como um item separado, constituindo a nona ofensa—o recitar desatento. Ele afirmou que ao recitar atentamente, todas as ofensas são destruídas, e que o recitar desatento permite que as restantes ofensas cresçam e floresçam.

Assim sendo, devemos fazer um esforço concentrado para nos livrar-mos desta ofensa (pramada), recitando e escutando com atenção; tal como Krsna diz no Bhagavad-gita (6.26):

 

yato yato niscalati

manas cancalam asthiram

tatas tato niyamyaitad

atmany eva vasam nayet

 

“Sempre que a mente divague, devido à sua natureza instável e inconstante, deve-se com certeza coíbi-la e trazê-la sobre o controle do eu.” Este é, portanto, o nosso dever.

Enquanto recitamos o santo nome, se observarmos as actividades da mente e pensarmos verdadeiramente no que está a acontecer—“porque é que a minha mente está sempre a vaguear? Em que pensa?” (existe uma lista tão vasta  de coisas em que pensamos que nem sequer dá para enumerar)—se pensarmos profundamente, “o que é que está a acontecer? Porque é que tenho todos estes pensamentos quando deveria estar a escutar o santo nome?” verificaremos (pelo menos essa é a minha experiência) que tudo se resume ao facto de pensarmos que somos os executores, os controladores, os proprietários, e os desfrutadores. Na verdade, o santo nome é Krsna, e Ele é o controlador, Ele é o proprietário e Ele é o desfrutador. Portanto rendamo-nos a Ele. Vamos render-nos ao santo nome, render-nos a Krsna na forma de som transcendental e vamos deixar que Ele controle.

     Essas duas horas, ou o tempo que for necessário enquanto recitamos as dezasseis voltas, é o nosso tempo com Krsna. Pelo menos nessas duas horas, não devemos ter nenhum outro pensamento excepto o de estar com Krsna, de nos associarmos com Krsna. Srila Prabhupada explicou que o recitar é uma oração a Radha e Krsna. O nome “Krsna” refere-se, naturalmente, a Krsna e “Hare” é uma forma de nos dirigirmos a Radha. Portanto Hare Krsna significa, “Oh Radha, Oh Krsna.” Quando chamamos pelos nomes das pessoas queremos atraír-lhes a atenção, e quando o conseguimos, elas podem perguntar, “Sim, que queres? Que posso fazer por ti?” Portanto, quando conseguimos a atenção de Radha e Krsna, através de recitar os Seus santos nomes, Hare Krsna, que é que vamos pedir? Um devoto puro pedirá somente uma coisa: serviço. “Quero servir-Vos. Por favor ocupem-me no Vosso serviço.” Essa é a nossa oração quando recitamos o santo nome.

Srila Bhaktivinoda Thakura escreveu muito sobre o Siksastaka e o santo nome. Ele explicou, no Sri Bhajana-rahasya, que as oito orações do Siksastaka correspondem aos oito pares de nomes no maha-mantra. Quando recitamos o maha-mantra Hare Krsna—Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare—os versos do Siksastaka estão incluídos. Se realmente nos concentramos, podemos focalizar em cada par de nomes e compreender, que o verso correspondente do Siksastaka está incluído. Não devemos apressar-nos com as voltas simplesmente para chegar ao fim—“Oh meu Deus . . . bom . . . Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna . . . bom, uma menos, ainda faltam quinze.”  Não devemos ter pressa. Este é o nosso tempo com Krsna. Num sentido, é o momento mais importante do dia—o nosso tempo com Krsna e devemos entregar-nos a Krsna. Naturalmente que O servimos durante o dia—em principio vinte e quatro horas—mas esse é o nosso momento especial de nos associarmos directamente com Ele, directamente com o hari-nam.

Gopala Bhatta Prabhu, nosso irmão espiriual, é dono de uma grande empresa. Tem muitas responsabilidades e projectos mas ele disse-me que quando recita as suas voltas, tira os seus óculos e o relógio de pulso. Esse é o seu momento com Krsna e ele não pensa  noutra coisa. Naturalmente que ele é muito organizado. Faz grandes listas do que tem para fazer e, quando recita o santo nome, não tem que se preocupar com o facto de se lembrar ou esquecer de coisas planeadas. Esse é um defeito comum. É uma forma de desatenção—enquanto recitamos, elaboramos uma lista de coisas que temos para fazer dentro de nossas mentes.

Temos que escutar e, se o que temos que fazer é muito importante, vamos lembrar-nos mais tarde. Temos que abandonar todos os outros pensamentos enquanto recitamos o santo nome e devemos simplesmente escutar. Por vezes, durante esse processo purificatório da recitação, Krsna tenta dizer-nos algo, tenta lembrar-nos de alguma coisa e isso não sai de nossas mentes. Mesmo que tentemos não nos conseguimos esquecer do assunto. Nesse caso, será melhor anotarmos o que for necessário para que a nossa mente se pacifique. Por princípio, e salvo excepções, devemos deixar passar os pensamentos e escutar—tac chrnu—escutar o santo nome de Krsna.

Esta é a grande missão do Panca-tattva, propagar o canto puro do santo nome e, através dele, amor por Deus em extâse.

     Gadadhara Pandita, apareceu um ano depois de Sri Caitanya Mahaprabhu e, na Sua infância, eram inseparaveis. Estavam muito apegados um ao outro. Eles íam à mesma tola, ou escola, de Gangadasa Pandita e, como colegas de escola, desfrutavam de muitas actividades. O Senhor Caitanya, na Sua infancia, era chamado Nimai, porque tinha nascido debaixo de uma árvore de Nima. Nimai e Gadadhara íam juntos à escola em Ganganagara. Regressavam juntos a casa. Estudavam juntos. Banhavam-se juntos no Ganges. Eram inseparáveis. Não conseguíam estar  separados, mesmo que fosse por um só momento. Mais tarde, quando Sri Caitanya Mahaprabhu aceitou sannyasa e foi residir em Jaganatha Puri, Gadadhara Pandita foi com Ele. A maior parte dos associados de Mahaprabhu em Navadvipa permaneceram na Bengala; íam para Puri somente uma vez por ano, passar os quatro meses da estação das chuvas, participar no Ratha-yatra e ver Mahaprabhu. No entanto, Gadadhara Pandita não podia tolerar estar separado do Senhor e o Senhor não tolerava estar separado dele. Ele foi autorizado a permanecer com Mahaprabhu em Puri e aí ocuparam-se em divertimentos. Gadadhara Pandita aceitou ksetra-sannyasa, ou seja, fez um voto de nunca passar uma noite fora do dhama de Jaganatha Puri. Ele ocupou-se no serviço da deidade cujo nome é Tota Gopinatha.

     A primeira vez que Caitanya Mahaprabhu saíu de Puri para viajar a Vrndavana, Gadadhara Pandita seguiu—O, negligenciando o seu ksetra-sannyasa e o seu serviço a Gopinatha. Gadadhara desmaiou quando, finalmente, Caitanya Mahaprabhu o obrigou a regressar a Puri. Não conseguiu tolerar a separação. Também para Mahaprabhu a separação foi dificil, mas tolerou—a porque Ele queria que o voto e o serviço de Gadadhara se mantivessem intactos.

     Juntos em Puri, Gadadhara Pandita e Caitanya Mahaprabhu, partilharam muitas actividades íntimas e amorosas que estão descritas no Sri Caitanya-caritamrta. Regularmente, Sri Caitanya Mahaprabhu visitava Gadadhara Pandita para saborear a leitura que este fazia do Srimad-Bhagavatam. Diz-se que no final, Sri Caitanya Mahaprabhu entrou no templo de Tota Gopinatha e de lá nunca mais saiu. Entrou na divindade de Gopinatha para voltar às Suas diversões eternas.

Depois de Mahaprabhu ter ido embora, Gadadhara Pandita sentiu uma separação tão intensa, que o seu corpo começou a envelhecer muito rapidamente—apesar de ele nem sequer ter  quarenta e oito anos. A seu devido tempo ele nem mesmo conseguia esticar os seus braços para oferecer uma guirlanda à Divindade. Assim que, como escutámos, para facilitar o serviço de Gadadhara, a divindade sentou-se (ainda hoje podemos visitar Tota Gopinatha e ver a Divindade sentada). Passado pouco tempo, o próprio Gadadhara, entrou na Divindade para se juntar a Caitanya Mahaprabhu nas Suas diversões eternas.

O Sri Caitanya-caritamrta afirma que Gadadhara Pandita era uma encarnação da energia de prazer de Sri Krsna. O Sri Gaura-ganoddesa-dipika confirma que Srimati Radharani apareceu no gaura-lila como Gadadhara Pandita.

Quando o Senhor descende, não vem sózinho. Vem com os Seus associados eternos. Assim, quando o Senhor Krsna veio como Sri Krsna Caitanya  no papel de um devoto, os Seus associados eternos acompanharam—no, como devotos, para ajudá—Lo nas Suas actividades.

O Gaura-ganoddesa-dipika escrito por Kavi-karnapura, também ele um associado de Caitanya Mahaprabhu, explica que funções, os associados de Krsna em Krsna-lila, tiveram em gaura-lila.

O Sri Gaura-gannodesa-dipika (147—149) afirma: “Srimati Radharani, a personificação do amor puro por Krsna e a Rainha de Vrindavan, apareceu como Sri Gadadhara Pandita, que era muito querido pelo Senhor Caitanya. Srila Svarupa Damodara Gosvami também confirma que a deusa da fortuna, que apareceu em Vrndavana e era muito querida pelo Senhor Krsna, apareceu como Sri Gadadhara Pandita, que estava cheio de amor pelo Senhor Caitanya Mahaprabhu.”

     Gadadhara Pandita é uma encarnação de Srimati Radharani, a potência interna do Senhor  Krsna, mas, porque o Senhor Caitanya é Krsna actuando com o sentimento de Srimati Radharani, Gadadhara Pandita, apesar de ser Radharani, não actuou com o sentimento de Radharani—porque só pode existir uma Radharani. Gadadhara Pandita compreendeu, “este é o momento de Krsna. É a oportunidade de Krsna saborear o êxtase amoroso de Srimati Radharani, por isso vou manter o meu sentimento de Radha nos bastidores, para ajudá—Lo na Sua experiência de radha-bhava.”

Também está explicado que, se Gadadhara Pandita tivesse manifestado a natureza ou a aparência de Srimati Radharani, Krsna, que estava a tentar absorver-se no sentimento de Radharani, ter-se-ía sentido atraído pela Radha no Seu exterior, e não conseguiria manter o Seu sentimento interno como Radha. Portanto Gadadhara Pandita, para facilitar o Senhor Caitanya nas Suas actividades, executou o papel perfeito para complementar e ajudar o Senhor—o papel de um brahmana perfeito, muito gentil, muito submisso, muito erudito e muito sóbrio.

O Sri Caitanya-caritamrta (Antya 167, 163-164) conclui,

 

panditera saujanya, brahmanyata-guna

drdha prema-mudra loke karila khyapana

 

“Pelo seu comportamento gentil, as suas qualidades brahminicas, e o seu amor fixo por Sri Caitanya Mahaprabhu, Gadadhara Pandita é famoso em todo o mundo.”

 

panditera bhava-mudra kahana na yaya

“gadadhara-prana-natha” nama haila yaya

 

“Ninguém pode descrever as caracteristicas e o amor extático de Gadadhara Pandita. Portanto outro nome de Sri Caitanya Mahaprabhu é, Gadadhara- prananatha, ‘a vida e alma de Gadadhara Pandita.’

 

pandite prabhura prasada kahana na yaya

“gadaira  gauranga” bali’ yanre loke gaya

 

“Ninguém pode estimar quão misericordioso o Senhor é com Gadadhara Pandita mas, as pessoas conhecem o Senhor como Gadaira Gauranga ‘o Senhor Gauranga de Gadadhara Pandita.’ ”

Nesta ocasião auspiciosa, podemos orar a Gadadhara Pandita, um associado muito íntimo de Sri Caitanya Mahaprabhu, e membro do Panca-tattva, para que seja misericordioso connosco, para que nos ajude a saborear e a distribuir o néctar do santo nome, o néctar da consciência de Krsna, como serventes humildes dos seus serventes devotados.

 

Muito obrigado. Hare Krsna.

Sri Gadadhara Pandita ki jaya!

Sri Sri Panca-tattva ki jaya!

Srila Prabhupada ki jaya!

  

 

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 12:37 pm

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Satam Prasangat – 1.ª parte

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SATAM PRASANGAT: RECITAR E ESCUTAR COM DEVOTOS

 

Aula dada por Giriraj Swami

 

 

(ao telefone para os devotos nas Mauricias)

19 de Março 2007  

Carpinteria, California

 

 

Vamos ler do Srimad-Bhagavatam, Canto Três, Capitulo Vinte e Cinco: “As glorias do serviço devocional.”

  

TEXTO 25

 

satam prasangat mama virya-samvido

bhavanti hrt-karna-rasayana katha

taj-josanad asv apavarga-vartmani

sraddha ratir bhaktir anukramisyati

                                            

SINÓNIMOS

 

satam–dos devotos puros; prasangat–atraves da associação; mama–Minha; virya–actividades maravilhosas; samvidah–por discutir sobre; bhavanti–torna-se; hrt–ao coração; karna–ao ouvido; rasa-ayanah–agradavel; katha–as historias; tat–disso; josanat–pelo cultivo; asu–rapidamente; apavarga–da liberação; vartmani–no caminho; sraddha–fé firme; ratih–atração; bhaktih–devoção; anukramisyati–seguem respetivamente.

 

TRADUÇÃO

 

Na companhia de devotos puros, a conversa sobre os passatempos e actividades da Suprema Personalidade de Deus é muito agradável e satisfatória ao ouvido e ao coração. Aquele que cultiva tal conhecimento avança gradualmente no caminho da liberação, e em seguida liberta-se, fixando sua atenção. Então começam a verdadeira devoção e o serviço devocional.

 

 

SIGNIFICADO por Srila Prabhupada

 

Descreve-se aqui o processo de avançar em consciencia de Krsna e em serviço devocional. O primeiro passo é buscar a companhia de pessoas que sejam conscientes de Krsna e que se ocupem em serviço devocional. Sem tal companhia ninguém pode avançar. Com o simples conhecimento teórico ou o simples estudo, ninguém pode fazer nenhum avanço apreciável. É preciso abandonar a companhia de pessoas materialistas e buscar a companhia de devotos, porque, sem a companhia de devotos, ninguém pode entender as actividades do Senhor. Geralmente, as pessoas são persuadidas do aspecto impessoal da Verdade Absoluta. Por não se associarem com devotos, elas não podem entender que a Verdade Absoluta possa ser uma pessoa e ter actividades pessoais. Este é um assunto muito dificil e, a menos que se tenha compreensão pessoal da Verdade Absoluta, não há significado para a devoção. Não se pode oferecer serviço ou devoção a algo impessoal. Tem-se que prestar serviço a alguma pessoa. Os não-devotos não podem apreciar a consciência de Krsna, lendo o Srimad-Bhagavatam ou qualquer outra literatura védica em que se descrevam as actividades do Senhor; eles pensam que essas actividades são histórias de ficção e imaginadas, porque a vida espiritual não lhes é explicada de maneira correcta. Para entendermos as actividades pessoais do Senhor, precisamos buscar a companhia de devotos, e, em tal companhia, ao contemplarmos e tentarmos entender as actividades transcendentais do Senhor, abre-se-nos o caminho da liberação, e libertamo-nos. Aquele que tem fé firme na Suprema Personalidade de Deus torna-se fixo, e sua atracção por se associar com o Senhor e os devotos aumenta. Associar-se com os devotos significa associar-se com o Senhor. O devoto que estabelece esta associação desenvolve a consciência para prestar serviço ao Senhor, e então, situando-se na posição transcendental do serviço devocional, ele torna-se gradualmente perfeito.

 

AULA por Giriraj Swami

 

om ajnana-timirandhasya jnananjana-salakaya

caksur unmilitam yena tasmai sri-gurave namah

 

sri-caitanya-mano-’bhistam sthapitam yena bhu-tale

svayam rupah kada mahyam dadati sva-padantikam

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

vanca-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

Estou muito satisfeito por estar hoje, aqui, na vossa associação. Como afirma o verso, é atraves da associação dos devotos, que recebemos o conhecimento transcendental de Krsna e o serviço devocional.

 

Neste verso existem muitas palavras importantes. A primeira é satam–devotos puros. A palavra sat significa“eterno.” O Bhagavad-gita afirma que aquilo que é eterno existe; é verdadeiro. E aquilo que não é eterno não existe; não é verdadeiro. Os devotos são verazes. Existe outro verso no Srimad-Bhagavatam (1.2.17) que diz que o Senhor, situado dentro do coração, ajuda “o devoto veraz” que está ansioso por ouvir as Suas mensagens. Aí, a mesma palavra é usada, satam.

 

srnvatam sva-kathah krsnah

punya-sravana-kirtanah

hrdy antah stho hy abhadrani

vidhunoti suhrt satam

 

“Sri Krsna, a Personalidade de Deus, que é o Paramatma (Superalma) no coração de todos, e o benfeitor do devoto veraz, limpa o desejo pelo desfrute material do coração do devoto, que desenvolveu o desejo ardente por escutar as Suas mensagens, que são por si só virtuosas, quando adequadamente ouvidas e recitadas.”

 

Srila Prabhupada traduz satam como “devoto veraz”. Os verdadeiros devotos são verazes. Verazes significa que estão livres de duplicidade. Quando cantam Hare Krsna estão realmente a cantar Hare Krsna. Não estão a pensar noutras coisas ou a fazer outros planos. Naturalmente que se deve tentar escutar o Santo Nome, enquanto se O recita, e deve-se tentar escutá-Lo. Mesmo que o devoto não seja completamente exitoso, se ele estiver a esforçar-se, é considerado veraz–satam. Ele está a esforçar-se. Ele é sincero. Ele quer escutar o Santo Nome mesmo que a mente oscile e o leve de um lado para o outro. Como Arjuna diz no Bhagavad-gita(6.34),

 

cancalam hi manah krsna

pramathi balavad drdham

tasyaham nigraham manye

vayor iva suduskaram

 

“A mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte e, parece-me, que subjuga-la é mais dificil que controlar o vento.”

No entanto, como é dito no Bhagavad-gita(6.26):

 

yato yato niscalati

manas cancalam asthiram

tatas tato niyamyaitad

atmany eva vasam nayet

 

“De onde quer que a mente divague devido à sua natureza flutuante e instável deve-se, certamente, recolhê-la e trazê-la sob o controle do eu.”

 

Sempre que a mente divague, devemos trazê-la de volta. Enquanto recitamos devemos fazer um esforço constante para escutar o Santos Nomes. Sua Graça Bhurijana Prabhu, aconselhou-nos a fazer um voto, um sankalpa de pelo menos escutar um mantra cada dia: focarmos plenamente a mente num mantra a cada dia; nem sequer dois ou dez. Só um. Veremos o quão dificil é escutar um mantra completo com a mente fixa. Ele diz que, mesmo que não consigamos escutar um mantra, pelo menos podemos começar com uma palavra. “Hare” “Krsna” “Hare”  “Krsna”–sem a mente divagar: isso dar-nos-á grande inspiração no nosso esforço para recitar e no nosso progresso espiritual. Portanto, satam,“devoto veraz.”

 

Prasangat significa “atraves da associação.” Como diz Srila Prabhupada, o homem é um animal social. Um pouco antes, no mesmo capitulo do Srimad-Bhagavatam (3.25.20) podemos ler:

 

prasangam ajaram pasam

atmanah kavayo viduh

sa eva sadhus krto

moksa-dvaram apavrtam

 

“Toda a pessoa erudita sabe muito bem que o apego às coisas materiais é o maior enredo para a alma espiritual, mas esse mesmo apego, quando dirigido para os devotos auto-realizados, abre a porta para a liberação.”

 

O ser humano é um animal social. Necessita companhia, quer associação. Se não se associa com devotos, será obrigado a associar-se com não devotos. Dois dos primeiros aspetos do serviço devocional são: associar-se com devotos e abandonar a associação dos não devotos. Abandonar a companhia dos não devotos não significa que, quando vamos pregar, evitamos falar com eles, porque pregação significa aproximação aos não devotos. Porem, o proposito é dar-lhes a nossa associação ou a associação de Krsna e não receber a associação deles.

 

Naturalmente que em assuntos do quotidiano nós interagimos com pessoas que podem não ser devotos–no trabalho, na escola, com os membros familiares–e não existe proibição contra tais relacionamentos, mas, em assuntos espirituais, não devemos aceitar os seus conselhos e também não devemos perder tempo em actividades que não sejam conscientes de Krsna. Podemos dispender o mínino de tempo, tanto o quanto se necessite, de acordo à situação, mas não devemos perder tempo em tópicos mundanos–gramya katha–ou outros objetivos frívolos.

 

Devemos, isso sim, usar o nosso tempo para nos associarmos com devotos, porque associação com devotos significa associação com o processo de escutar e recitar sobre Krsna, que significa realmente associar-mo-nos com Krsna. Na plataforma absoluta não existe diferença entre Krsna e o nome de Krsna; não existe diferença entre Krsna e os tópicos sobre Krsna; não existe diferença entre Krsna e a lembrança de Krsna. Quando nos associamos com os devotos, naturalmente vibraremos o nome de Krsna, escutaremos as instruções e as lilas de Krsna e lembrar-nos-emos de Krsna. Por nos associarmos com Krsna através do processo da associação com os devotos, nas actividades de sravanam, kirtanam e smaranam associamo-nos com Krsna. Portanto Srila Prabhupada diz que a associação com devotos significa associação de Krsna.

 

No significado Srila Prabhupada explica que existem muitas pessoas que falam sobre Krsna e os passatempos de Krsna mas que realmente não têm fé em Krsna como uma pessoa. Eles acreditam que Krsna é, em última análise, impessoal ou mesmo imaginário. De todos os modos, quer pensem que Ele é impessoal ou mitológico, a sua conclusão é de que não existe Krsna. Ou existe o Brahman impessoal ou não existe nada–somente o mundo material e, para além disso, não existe devoção nem serviço devocional.

 

Portanto temos que escutar dos satam (devotos puros,devotos verazes) e, na associação deles, podemos compreender o aspecto pessoal da Verdade Absoluta. Podemos compreender que Krsna é uma pessoa, que Ele é real, mais real que qualquer outra coisa no mundo material. Não somente Ele é real, mas também o Seu nome, Sua forma, Suas qualidades e Seus passatempos são reais e eternos. A associação com devotos é verdadeira. É associação com a Verdade Absoluta que é absolutamente real. E qual é o resultado? Bhavanti hrt-karna-rasayana. Esse katha, hari-katha, krsna-katha, torna-se agradável ao coração e ao ouvido.

 

     Realmente o ouvido adquire prazer. Rupa Gosvami diz: “O que são uma língua e dois ouvidos para recitar e escutar o Santo Nome? Se eu tivesse milhares de línguas e milhões de ouvidos, então poderia começar . . .” o devoto torna-se tão desejoso de escutar e recitar que ele quer milhares de línguas e milhões de ouvidos, porque adquire muito prazer.

 

No mundo material existe a lei da saciedade, que significa que podemos ter algum sabor ou desejo por algum alimento como por exemplo, desejar comer gulabjamuns ou rasagullas. Eventualmente chegamos a um ponto em que estamos saciados e então não queremos mais–nem sequer mais uma bola saborosa, doce, suculenta e dourada. Não a queremos porque estamos saciados, plenamente satisfeitos. Já comemos o suficiente. Essa é a lei da natureza material, a lei da saciedade. Para o espírito não existe saciedade.

 

Podemos cantar, cantar e cantar. Escutar, escutar e escutar e nunca ficarmos cansados, em especial na associação de devotos puros, porque é muito agradável ao coração e ao ouvido–é agradável e dá satisfação. Satisfatório significa que não queremos nada mais; não significa que “bom, participei no satsanga por trinta minutos–estou satisfeito; é suficente.” Ou então “recitei as minhas dezasseis voltas–estou satisfeito é suficiente.” Não é esse o significado de satisfatório. Satisfatório significa que, por escutar e cantar sobre Krsna na associação de devotos, não quero nada mais, apesar de sentir que não consigo absorver o suficiente dessa associação. Nunca canto o suficiente. Nunca escuto o suficiente. Quero mais, mais e mais porque é muito agradável. Estou satisfeito fazendo simplesmente isso. Não necessito de nada mais para me divertir ou entreter.

 

Rasayanam: rasayana é um termo da medicina Ayurvédica. Rasayana é um tónico administrado a um enfermo com o propósito de lhe devolver vitalidade. Na existência material encontramo-nos doentes. Sofremos e estamos praticamente mortos. Rasayana é um medicamento que tomamos para recuperar a nossa saúde, recuperar a nossa vida. Tomamos esse medicamento em doses sucessivamente maiores. No Sri Upadesamrta, Srila Rupa Gosvami compara a pessoa doente de avidya (ignorância) com uma pessoa doente de icterícia. Alguém que sofre de icterícia não pode saborear a doçura do açúcar. Muito pelo contrário, devido à doença a pessoa saboreia o doce como amargo. Ainda assim, a cura Ayurvédica para a icterícia é o açúcar candy (açúcar solido). À medida que se vai recuperando da doença, o açúcar candy torna-se mais e mais doce até que finalmente pode-se saborea-lo tal como é–doce como néctar.

 

O mesmo se aplica ao Santo nome de Krsna, aos tópicos transcendentais de Krsna. À medida que os recitamos e escutamos na associação dos devotos, a condição da nossa consciência material melhora e eventualmente ficamos curados. Então, em vez de nos considerarmos o centro–“Eu” e “Meu”–Krsna torna-se o centro. Eu pertenço a Krsna e Krsna é meu. Krsna é a minha única posse. Niskincana, Akincana. Podemos conseguir Krsna quando vemos a Krsna como a nossa única posse, ou quando não desejamos possuir algo à parte de Krsna. É um processo gradual, e temos que lutar arduamente e esforçar-mo-nos–então poderemos alcançar Krsna e a consciência de Krsna.

 

Recentemente alguns devotos publicaram uma tradução inglesa do Sarartha Darsini, um comentario de Srila Visvanatha Cakravarti Thakura do Srimad-Bhagavatam. Publicaram o Décimo Canto. Aí,Visvanatha fala do Damodara-lila na qual mãe Yasoda ata a Krsna com cordas. Ele explica, com grande detalhe, que Krsna tem duas potências. Uma permite-Lhe satisfazer os Seus desejos (satya-sankalpa-sakti), e a outra permite-Lhe manifestar a Sua grande opulência (vibhuti sakti). Krsna desejou brincar, roubar manteiga e alimentar os Seus amigos macacos. Esse era o Seu desejo. A Sua potência vibhuti permitiu-Lhe manifestar poder extraordinário, para que mãe Yasoda não O pudesse atar. Apesar das muitas cordas que juntou ela não conseguiu atar Krsna. A Sua potência vibhuti actuou para ajudar a Sua potência satya sankalpa a satisfazer o Seu desejo. Mãe Yasoda tinha o seu desejo, que era o de atar a Krsna. Ensinar-Lhe uma lição e proibí-Lo de fazer mais traquinices. Ela tinha o seu desejo e, para o satisfazer trabalhou muitissimo; esforçou-se muito. Não desistiu. No final, o seu desejo prevaleceu sobre o desejo dEle: ser livre e brincar como Lhe aprouvesse.

 

Portanto, na competição entre o Senhor e o devoto puro, é a determinação do devoto que sempre predomina; não a do Senhor. Naturalmente que na consciência de Krsna, todos ganham e ninguém perde. Porém, na competição, o devoto ganha. A misericórdia do Senhor (o Senhor tem muitas potências mas a Sua potência de misericórdia é a mais excelente e reina sobre todas as outras), a Sua potencia de misericórdia intervém e derrete o coração do Senhor e, assim, Ele permite ser atado pelo Seu devoto. Do mesmo modo, quando recitamos o santo nome ou escutamos as glórias do Senhor, temos que nos esforçar para recitar sem ofensas e, particularmente, recitar com atenção. Esse esforço incansável e trabalho árduo (parisrama), invocará a misericordia do Senhor (krsna-krpa), e Ele permite ser atado por nós.

 

Nessa altura poderemos, verdadeiramente, experimentar o santo nome; seremos capazes de experimentar Krsna–e esse é o processo da consciência de Krsna. Somente fazer esse esforço, diz Srila Prabhupada, simplesmente fazer esse esforço consciente, planeado e contínuo para escutar os santos nomes, eleva-nos ao estagio de namasraya ou namabhasa e torna-nos liberados. Namabhasa também é uma meta porque com namabhasa, estamos liberados. Ficamos livres dos desejos materiais. Libertamo-nos das reacções pecaminosas. Libertamo-nos. Esse é o estagio de purificação. Somente esse esforço para recitar com atenção–esse esforço genuíno, sincero e permanente para escutar com atenção, torna-nos liberados. Escutando Krsna-katha com atenção, ou vendo a Deidade e estando absortos na beleza da Deidade, torna-nos inconscientemente liberados. Isto também é afirmado pelo Senhor Kapila nesta secção do Srimad-Bhagavatam (3.25.36)

 

tair darsaniyavayavair udara-

vilasa-haseknita-vama-suktaih

hrtatmano hrta-pranams ca bhaktir

anicchato me gatim anvim prayunkte

 

“Ao ver as formas encantadoras do Senhor, sorridentes e atractivas, e ao ouvir as Suas palavras tão agradáveis, o devoto puro quase perde todos os demais estados de consciência. Os seus sentidos livram-se de todas as demais ocupações, e ele absorve-se em serviço devocional. Assim, apesar de não o desejar, ele alcança a liberação sem esforço separado.”

 

Por nos associarmos com devotos puros, falar e escutar na sua associação, a porta da liberação abre-se. Imediatamente (asu), muito rapidamente ou imediatamente, a pessoa trilha o caminho da liberação (apavarga vartmani). Assim progride-se de um estagio para outro (sraddha ratir bhaktir anukramisyati), um após o outro, até que se alcança a perfeição última.

 

No Bhakti-rasamrita-sindhu Rupa Gosvami divide o serviço devocional em três estagios: sadhana-bhakti, bhava-bhakti e prema-bhakti. Em relação a este verso (3.25.25), os acaryas comentaram que sraddha refere-se a sadhana-bhakti que começa com sraddha e continua por diferentes estágios até asakti. Rati refere-se a bhava (rati é um sinonimo de bhava) e bhakti quer dizer prema. Por discutir os divertimentos e actividades da Personalidade de Deus, na associação de devotos puros, avança-se no caminho do serviço devocional puro desde sraddha, ou sadhana bhakti, passando por rati, ou bhava bhakti, até prema bhakti. Depois, como explica Srila Prabhupada, verdadeira devoção e serviço devocional começam.

 

Portanto, este é o grande legado que Srila Prabhupada nos deu: o processo de recitar os santos nomes e escutar os tópicos transcendentais de Krsna, na associação de devotos, e ele deu-nos os devotos com quem podemos escutar e recitar. Ele deu-nos o Santo Nome, deu-nos os seus livros, deu-nos templos com Deidades e deu-nos a associação com devotos puros, que é de importancia vital. Na associação de devotos, com as boas instruções dos devotos e a misericórdia dos devotos puros, podemos aprender verdadeiramente a recitar o santo nome, a compreender apropriadamente os divertimentos do Senhor, a ver e servir apropriadamente a Deidade e, em ultima instância, a tornarmo-nos perfeitos em consciência de Krsna, e voltarmos a casa, voltarmos a Deus. Hare Krsna.

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 12:07 pm

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Satam Prasangat – 2.ª parte

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Querem fazer algumas perguntas ou comentarios?

 

Sanatana-Dharma das: Qual é o segredo para apreciarmos os devotos?

 

Giriraj Swami: O segredo começa com o negativo que acompanha o positivo. O negativo é não criticar os devotos, não encontrar defeitos nos devotos. Temos a propensão de criticar os devotos de uma forma casual nas nossas conversas e não somente nas nossas conversas, mas também nas nossas mentes. Encontramos faltas e criticamo-los mental e verbalmente de uma forma muito casual. Isso perturba o coração. Isso causa uma perturbação no coração que nos traz dificuldades em escutar o santo nome com atenção, ou escutar os tópicos transcendentais com atenção. Assim, temos que abandonar o mau hábito de criticar os devotos de uma forma casual.

 

A mente–voltamos de novo à mente malévola–sempre nos arrasta de aqui para ali e o pior lugar para onde nos leva é para as faltas dos devotos. Temos que nos associar com devotos. Não podemos avançar sem a associação de devotos mas, quando nos associamos, existe sempre a possibilidade de encontrarmos faltas neles. Temos de parar essa tendência da mente–quer as faltas sejam reais ou não. Não devemos dar importancia à mente. Na realidade, o principal processo que Srila Prabhupada nos deu para controlar a mente, é ocupa-la no serviço devocional e negligenciá-la quando nos tenta atraír para quaquer actividade que não seja o serviço devocional.

 

Existe outro processo–bater na mente. Srila Bhaktisidhanta Sarasvati Thakura disse que, pela manhã, quando acordamos, devemos bater cem vezes na mente com sapatos, e à noite devemos bater nela cem vezes com um pau. Portanto esse é um processo: bater na mente até que se submeta. Outro processo é suplicar, orar à mente, tal como muitos de nossos acaryas fizeram: “Querida mente por favor, por favor, por favor, adora os pés de lotus de Krsna (bhajahu re mana,sri- nanda-nandana). Por favor refugia-te nos pés de lotus de Krsna que outorgam destemor (abhaya caranaravinda re). Tendo alcançado este nascimento humano tão dificil de conseguir, bondosamente atravessa este oceano de existência mundana na associação de devotos santos (durlabha manava-janama sat sangha taroho e bhava- sindhu re).”

 

O método dado por Srila Prabhupada foi o de negligenciar a mente. Estamos tão ocupados nas actividades positivas da consciencia de Krsna, que não nos sobra tempo para outras actividades, especialmente a pior actividade que é a ofensa (nama aparadha) de criticar devotos (sadhu ninda), ofender devotos. Temos que parar com isso. Devemos compreender que só nos prejudicará. Não vai ajudar-nos de nenhuma maneira. Só nos prejudicará. É subtil. Acontece constantemente. Mesmo se não falarmos abertamente contra os devotos, pensamentos negativos sobre eles surgem nas nossas mentes. Devemos ignorar tais pensamentos. Devemos ignorá-los. Não devemos tomá-los seriamente. Não levem a mente a sério. Permaneçam ocupados nas actividades positivas da consciência de Krsna. Recitem os santos nomes, sirvam e glorifiquem os devotos. Quando recitamos e ouvimos na associação de devotos puros e derivamos prazer no processo, apreciamos naturalmente os devotos, porque são eles que nos permitem aceder ao processo. Eles ajudam-nos na adquisição de muito prazer e satisfação no ouvir e recitar.

 

Depois, também existe a divulgação da mensagem. Podemos apreciar os devotos superficialmente, mas quando saímos a pregar–quando verdadeiramente nos encontramos com as almas condicionadas e pregamos (não só fazer amizade com elas, ou induzí-las a comprar algo . . . naturalmente isso tambem é bom, porque queremos que comprem coisas dos devotos, especialmente os livros de Prabhupada) tentando fazer com que as pessoas se rendam ao processo da consciência de Krsna e verificamos tanta oposição da parte delas, isso ajuda-nos a apreciar os devotos. Mesmo entre os assim chamados hindus piedosos, existem muitos não devotos impersonalistas e adoradores de semideuses. Poderemos verificar que existe uma diferença. De certo modo podem ser boas pessoas, mas existe uma diferença: não são devotos. Temos que nos confrontar com muçulmanos, cristãos, ateus, tanta gente… a pregação mantem-nos humildes e isso faz-nos apreciar mais os devotos. Sair às ruas ou fazer o porta-à-porta, casa após casa e visitar escritórios, mantém-nos humildes, especialmente se saímos a pregar . . . não somente a socializar com as pessoas. Isso mantem-nos humildes e ajuda-nos a apreciar os outros devotos.

 

Sundara Lal: A associação entre devotos pode variar de acordo com o nível de consciência dos mesmos. Qual é o do de verdadeira associação?

 

Giriraj Swami: Sim, varia de acordo à consciência da pessoa que está a receber a associação, e varia com o nível de consciência das pessoas que estão a dar associação. Naturalmente, queremos associação com os devotos mais avançados mas eles nem sempre estão disponíveis, nem por perto. Assim, podemos considerar: “o que é que está sob o meu controle?” Em certa medida podemos controlar a associação. Podemos, tanto quanto possível, procurar a associação com devotos mais avançados mas, mesmo que não estejam disponíveis, precisamos da associação dos devotos. Se não nos associamos com devotos, associar-nos-emos com não devotos, ou então com as nossas mentes. Assim que, queremos associar-nos com devotos, mas devemos fazê-lo com a consciência correcta. Vamos apreciar que os devotos estão a cantar os nomes de Krsna, que estão a falar sobre as glórias de Krsna, ou vamos centrar-nos nas suas faltas? Verdadeira associação significa que apreciamos a consciência de Krsna e não nos centramos nas faltas materiais, ou qualquer outra falta, seja ela verdadeira ou imaginária. Essa é a verdadeira associação. Quando escutamos com respeito, com apreciação, com gratidão e apreciamos os devotos com afecto, considera-se essa a verdadeira associação. Tanto quanto possível, devemos associar-nos com devotos mais avançados tomando como base essa atitude.

 

Assim que, temos que nos purificar para nos tornar-mos sinceros no nosso desejo de obter associação, de outro modo a mente . . . podemos estar sentados numa sala com o devoto mais avançado; e isso acontecia quando estavamos com Srila Prabhupada: estavamos sentados numa sala com o devoto mais avançado, mas a nossa mente leváva-nos para outro sítio. As nossas mentes podem levar-nos a qualquer lugar, porém compete-nos controlar a mente quando ela vagueia ou encontra faltas nos devotos. Podemos, isso sim, apreciar: “Oh! Este devoto está a falar sobre Krsna, ele está a repetir a mensagem do Srimad-Bhagavatam, a mensagem do Bhagavad-gita, a mensagem de Srila Prabhupada, a mensagem dos nossos acaryas. Sou tão afortunado por ter tal associação!”

 

Devemos ouvir com apreciação e então não fará grande diferença. Tal como Srila Prabhupada disse: “O pregador é uma pessoa comum, ele pode ser muito pobre, porém está a transmitir a mensagem de Krsna, que é a coisa mais valiosa.” Então, não nos importamos se essa pessoa comum, ou o carteiro, seja pobre, se ele nos entregar um milhão de rúpias: “Oh! Tu és só um instrumento, quem és tu? És só um carteiro. Quem és tu?” Não ! Nós apreciamos: “Oh! Trouxeste-me um cheque de um milhão de rúpias! Muito obrigado, fico-te muito grato. Muito obrigado.” Essa deve ser a nossa mentalidade e não a de julgar-mos o quão avançado ele é. Como é que nós, sendo neófitos, poderemos saber o quão avançado ele é? Podemos sim apreciar: “Oh! Ele está a dar-me o tesouro mais valioso, está a dar-me o santo nome de Krsna, está a dar-me a mensagem de Krsna do Srimad-Bhagavatam, do Bhagavad-gita, do Bhakti-rasamrta-sindhu, do Caitanya-caritamrta. É o trabalhador social mais magnânimo (bhuri-da janah ).”

 

tava kathamrtam tapta-jivanam

kavibhir iditam kalmasapaham

sravana-mangalam srimad-atatam

bhuvi grnanti ye bhurida janah

 

“Meu Senhor, o néctar de vossas palavras e as descrições de vossas actividades são a vida e a alma daqueles que estão sempre angustiados neste mundo material. Essas narrações são transmitidas por personalidades elevadas e irradicam todas as reacções pecaminosas. Quem escutar essas narrações alcança toda a boa fortuna. Essas narrações são divulgadas por todo o mundo e são plenas de poder espiritual. Aqueles que divulgam a mensagem de Deus são os trabalhadores sociais mais magnânimos.” (SB 10.31.9; Cc Madhya 14.13)

 

Tava kathamrtam bhuvi grnanti ye: Aqueles que distribuem a mensagem de Deus são os trabalhadores sociais mais magnânimos. “Oh! Ele é bhuri-da janah. Ele é o mais magnânimo. Está a dar o maior dos tesouros: Krsna–o néctar de krsna- katha. Ele é o meu maior bem-querente e amigo.” Essa deve ser a nossa atitude–não julgar: “Oh, ele não é tão avançado…” Tal como eu disse, será que temos a certeza de quão avançado ele é? Devemos estar receptivos a ver Krsna em toda a parte, alcançar Krsna sempre que possamos.

 

Prabhupada citava regularmente Canakya Pandita: “Deve-se extrair ouro mesmo de um lugar sujo ( visad apy amrtam grahyam amedhyad api kancanam/ nicad apy uttamam jnanam stri-ratnam duskulad api ). Devemos pensar: “Muito bem, talvez ele não seja um devoto perfeito, mas mesmo assim está a cantar o nome de Krsna, está a repetir a mensagem de Krsna. Vou centrar-me naquilo que ele tem de bom.” Essa é a qualificação de uma pessoa boa: não se centra nos aspectos negativos, mas sim nos positivos. Essa é a verdadeira associação com os devotos, baseada na apreciação. Essa atitude ajuda-nos, sem dúvida, a avançar. É mais fácil desenvolver essa atitude de apreciação quando estamos na associação de devotos mais maduros, mais puros, mas essa atitude tabém depende de nós, da nossa receptividade. Devemos estar muito receptivos a quem quer que recite o santo nome de Krsna e repita a mensagem transcendental de Krsna.

 

As escrituras recomendam que devemos associar-nos com devotos mais avançados, com devotos puros, por causa da qualidade do som que emana de suas bocas, e por causa da qualidade da devoção que preenche os seus corações. Tais devotos não têm falso ego quando falam. Quando falam, não têm motivação pessoal. Só querem glorificar Krsna e ajudar os outros a avançar em consciência de Krsna. Eles experimentam prazer e realização em consciência de Krsna e podem inspirar-nos.

 

Podemos orar da mesma forma que Prthu Maharaja:

 

sa uttamasloka mahan-mukta-cyuto

bhavat-padambhoja-sudha kananilah

smrtim punar vismrta-tattva-vartmanam

kuyoginam no vitaraty alam varaih

 

“Meu querido Senhor, sois glorificado com versos selectos pronunciados por grandes personalidades. Tal glorificação de Vossos pés de lótus é tal qual como partículas de açafrão. Quando a vibração transcendental das bocas de grandes devotos transportam o aroma do pó de açafrão de Vossos pés de lótus, a entidade viva em esquecimento lembra-se, gradualmente, da sua relação eterna convosco. Assim, os devotos chegam gradualmente à conclusão correcta sobre o valor da vida. Portanto, meu Senhor, não necessito de nenhuma outra benção além da oportunidade de escutar da boca de vosso devoto puro.” (SB 4.20.25)

 

Bhakta Hawoldar: Será que é possível para alguém fixar-se em krsna?

 

Giriraj Swami: Sim, esse é o objectivo da consciência de Krsna, mas, como já foi dito, existem diferentes níveis: sadhana-bhakti, bhava-bhakti e prema-bhakti. Em sadhana-bhakti ocupamos a mente e os sentidos no serviço a Krsna, mas porque a mente e os sentidos não estão completamente purificados existe a tendência de se agitarem. Verdadeiramente, temos que fazer um esforço para ocupá-los em Krsna. Não somos capazes de nos sentar por vinte e quatro horas seguidas e cantar os santos nomes como Haridasa Thakura; ainda assim devemos, de uma ou outra forma, manter-nos ocupados no serviço a Krsna–escutando, participando no programa da manhã, no programa do final de tarde, executando serviço, adorando a deidade, distribuindo livros, limpando o templo, pregando–de um ou outro modo, devemos manter-nos ocupados.

 

sa vai manah krsna-padaravindayor

vacamsi vaikuntha-gunanuvarnane

karau harer mandira-marjanadisu

srutim cakaracyuta-sat-kathodaye

 

mukunda-lingalaya-darsane drsau

tad-bhrtya-gatra-sparse`nga-sangamam

ghranam ca tat-pada-saroja-saurabhe

srimat-tulasya rasanam tad-arpite

 

padau hareh ksetra-padanusarpane

siro hrikesa-padabhivandane

kamam ca dasye na tu kama-kamyaya

yathottamasloka-janasraya ratih

 

“Maharaja Ambarisa ocupava sempre a sua mente em meditar nos pés de lótus do Senhor Krsna; suas palavras em descrever as glórias do Senhor; suas mãos em limpar o templo do Senhor e seus ouvidos em escutar as palavras proferidas por Krsna ou sobre Krsna. Ocupava os seus olhos em ver a deidade de Krsna, os templos de Krsna e as moradas de Krsna, tais como Mathura e Vrindavan. Ocupava o sentido do tacto em tocar os corpos dos devotos do Senhor, o sentido do olfacto em cheirar a fragrância da tulasi oferecida ao Senhor e ocupava a sua língua em saborear a prasadam do Senhor. Ocupava as suas pernas em peregrinação aos lugares sagrados e templos do Senhor, a sua cabeça em prostrar-se diante do Senhor, e todos os seus desejos em servir ao Senhor, vinte e quatro horas por dia. Realmente, Maharaja Ambarisa nunca desejou nada para a gratificação dos seus sentidos. Ocupou todos os sentidos em serviço devocional de várias maneiras relacionadas com o Senhor. Esta é a forma de incrementar o apego ao Senhor e ficar completamente livre de todos os desejos materiais.” (SB 9.24.18-20)

 

Mesmo que a nossa mente vagueie, pelo menos o nosso corpo estará ocupado. Quando a mente vaguear, tentamos trazê-la de volta, e deveremos ignorar qualquer disparate que ela nos diga. Continuamos com o nosso serviço e tentamos fixar a mente em Krsna.

 

Depois, quando avançamos até à plataforma de rati (apego ou atracção) naturalmente permaneceremos fixos, sem nos esforçarmos para isso. No ínicio, ao recitar os santos nomes, a nossa mente distrai-nos, leva-nos para outro lado. Nem sequer sabemos como ela faz isso, mas subitamente, somos levados por ela. Não podemos entender sequer como é que isso acontece. À medida que avançamos, o processo inverte-se, num instante contemplavamos algo e sem saber como, a mente leva-nos de volta a Krsna. Isso acontece progressivamente através dos diferentes estágios de sadhana-bhaktinistha, ruci, asakti–e quando alcançar-mos bhavabhakti, ou rati, a nossa atracção torna-se fixa.

 

Quando chegamos a prema-bhakti, as barreiras dissolvem-se: estamos plenamente absortos em amor puro por Deus–consciência de Krsna.

 

Concluindo, é possível fixarmo-nos em Krsna, mas no estágio de sadhana-bhakti (e aceitamos que estamos nessa plataforma), teremos de esforçar-nos nesse sentido. Devemos ter o cuidado de manter a mente sempre fixa em Krsna (sa vai manah krsna-padaravindayor) e de manter o corpo sempre ocupado no serviço a Krsna, como Maharaja Ambarisa. Certamente que isso é possível. O que Prabhupada nos deu não é impossível. Tal como ele disse: “Impossível é uma palavra do dicionário dos tolos.”

 

A verdadeira consciência de Krsna é possível e é prática. Temos de adoptar o processo seriamente e orar pela misericórdia de Krsna e das autoridades superiores. Devemos praticar de forma sincera e séria.

 

Hare Krsna.

 

 

 

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 11:15 am

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