Aulas de Giriraj Swami em Português

Sri Krsna Janmastami

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Sri Krsna Janmastami

Uma Aula Dada por Giriraj Swami

2 de Setembro de 2007

Ojai, California

 

 

Lemos do Srimad-Bhagavatam, Décimo canto, Capítulo Dois: “Orações dos Semideuses ao Senhor Krsna no Ventre.”

 

VERSO 18

 

tato jagan-mangalam acyutamsam

  samahitam sura-sutena devi

dadhara sarvatmakam atma-bhutam

  kastha yathananda-karam manastah

 

SINÓNIMOS

 

tatah—em seguida; jagat-mangalam—ventura para todas as entidades vivas em todos os universos da criação; acyuta-amsam—a Suprema Personalidade de Deus, que nunca está desprovido das seis opulências, todas as quais estão presentes em todas as Suas expansões plenárias; samahitam—transferido com toda a plenitude; sura-sutena—por Vasudeva, o filho de Surasena; devi—Devaki; dadhara—carregava; sarva-atmakam—a Alma Suprema de todos; atma-bhutam—a causa de todas as causas; kastha—o oriente; yatha—assim como; ananda-karam—a bem-aventurada (lua); manastah—estando situado na mente.

 

TRADUÇÃO

 

Em seguida, acompanhado pelas expansões plenárias, a opulentíssima Suprema Personalidade de Deus, que é muito auspicioso para o universo inteiro, foi transferido da mente de Vasudeva para a mente de Devaki. Devaki, sendo assim iniciada por Vasudeva, tornou-se bela ao carregar no âmago de seu coração o Senhor Krsna, a consciência original de todos, a causa de todas as causas, assim como o oriente se torna belo ao abrigar a lua nascente.

 

SIGNIFICADO de Srila Prabhupada

 

Como indica aqui a palavra manastah, a Suprema Personalidade de Deus foi transferido de dentro da mente ou do coração de Vasudeva para dentro do coração de Devaki. Devemos atentar para o facto de que o Senhor não foi transferido a Devaki através do processo humano comum, mas através de diksa, iniciação. Menciona-se aqui, pois, a importância da iniciação. A menos que alguém seja iniciado pela pessoa certa, que sempre conserva no seu coração a Suprema Personalidade de Deus, ele não adquire poder de carregar a Divindade Suprema no âmago do seu próprio coração.

 

A palavra acyutamsam é usada porque a Suprema Personalidade de Deus é sad-aisvarya-purna, pleno das seguintes opulências: riqueza, força, fama, conhecimento, beleza e renúncia. A Divindade Suprema nunca se separa de Suas opulências pessoais. Como se afirma no Brahma-samhita (5.39), ramadi-murtisu kalah-niyamena tisthan: o Senhor sempre se apresenta com todas as Suas expansões plenárias, tais como Rama, Nrsimha e Varaha. Portanto a palavra acyutamsam, é especificamente usada aqui, significando que o Senhor sempre está presente com as Suas expansões plenárias e com as Suas opulências. Ao contrário do que fazem os yogis, não há necessidade de pensar artificialmente no Senhor. Dhyanavasthita-tad-gatena manasa pasyanti yam yoginah (SB 12.13.1). Nas suas mentes, os yogis meditam na Pessoa Suprema. Para o devoto, entretanto, o Senhor está presente, e Sua presença precisa apenas ser despertada através da iniciação concedida pelo mestre espiritual genuíno. O Senhor não precisava viver dentro do ventre de Devaki, pois estando presente no âmago do coração dela, bastava isso para ela levá-Lo consigo. Jamais se deve pensar que Vasudeva gerou Krsna no ventre de Devaki e que ela levava a criança em seu ventre.

 

Ao conservar a forma da Suprema Personalidade de Deus em seu coração, Vasudeva parecia o sol refulgente, cujos raios brilhantes sempre são insuportáveis e estorricantes para o homem comum. A forma do Senhor situada no coração puro e imaculado de Vasudeva não é diferente da forma original de Krsna. O aparecimento da forma de Krsna em qualquer parte, e especificamente no coração, chama-se dhama. Dhama refere-se não apenas à forma de Krsna, mas ao Seu nome, à Sua forma, à Sua qualidade e à Sua parafernália. Tudo se manifesta simultaneamente.

 

Portanto, a forma eterna da Suprema Personalidade de Deus, a qual tinha potências plenas, foi transferida da mente de Vasudeva para a mente de Devaki, assim como os raios do sol poente são transferidos para a lua cheia que surge no oriente.

 

Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, veio do corpo de Vasudeva e entrou no corpo de Devaki. As suas condições são bem diferentes daquelas em que está situada a entidade viva comum. Quando Krsna está presente, é bom que se saiba que todas as Suas expansões plenárias, tais como Narayana, e encarnações como Nrsimha e Varaha, estão com Ele, e elas não estão sujeitas às condições da existência material. Dessa maneira, Devaki tornou-se a residência da Suprema Personalidade de Deus, que, único e inigualável, é a causa de toda a criação. Devaki tornou-se a residência da Verdade Absoluta, porém, como estava na casa de Kamsa, ela parecia um fogo abafado, ou o conhecimento mal-usado. Quando o fogo é coberto pelas paredes de um pote ou é mantido numa jarra, os raios iluminantes do fogo não são muito valorizados. Igualmente, o conhecimento mal-usado, que não beneficia as pessoas em geral, não é muito apreciado. Assim, Devaki foi mantida entre as paredes da prisão do palácio de Kamsa, e ninguém podia ver a sua beleza transcendental, resultante do facto de ela ter concebido a Suprema Personalidade de Deus.

 

Comentando este verso, Srila Viraraghava Acarya escreve: vasudeva-devaki jatharayor hrdayayor bhagavatah sambandhah. O episódio em que o Senhor Supremo vem do coração de Vasudeva e entra no ventre de Devaki foi um relacionamento de coração para coração.

 

COMENTÁRIO por Giriraj Swami

 

Reunimo-nos aqui, aos pés de lótus do Senhor Krsna, para lembrarmos e celebrarmos o Seu aparecimento dentro deste mundo.

 

De acordo com a literatura védica, Krsna é a Suprema Personalidade de Deus (krsnas tu bhagavan svayam). Ele é a Verdade Absoluta, a origem de tudo o que existe. E Ele é realizado em três aspectos, não duais (advaya) com está explicado no Srimad-Bhagavatam (1.2.11):

 

vadanti tat tattva-vidas

  tattvam yaj jnanam advayam

brahmeti paramatmeti

  bhagavan iti sabdyate

 

“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta, chamam a essa substância não dual Brahman, Paramatma, ou Bhagavan.”

 

Brahman, é a refulgência impessoal que emana da forma transcendental do Senhor, Paramatma é o aspecto localizado do Senhor dentro do coração, e Bhagavan é a Suprema Personalidade de Deus, o próprio Krsna, pleno em seis opulências.

 

A forma de Krsna não é material. Os nossos corpos são materiais, distintos da alma, que é espiritual. O Bhagavad-gita (2.13) explica,

 

dehino ’smin yatha dehe

  kaumaram yauvanam jara

tatha dehantara-praptir

  dhiras tatra na muhyati

 

“Assim como a alma corporificada passa continuamente neste corpo, da infância à juventude e à velhice, de igual modo a alma passa a outro corpo no momento da morte. A pessoa sóbria não se confunde com tal mudança.”

 

A alma é uma partícula de energia espiritual, que não é física nem química, e é a alma que dá vida ao corpo. Enquanto a alma estiver no corpo, dizemos que o corpo está vivo. Na verdade o corpo nunca está vivo; ele é tão só uma máquina. Mas aparenta estar vivo enquanto a alma estiver presente para o animar. E quando a alma abandona o corpo, o corpo deixa de ter capacidade para actuar, para funcionar, e então dizemos que o corpo está morto. Nos seres condicionados, como nós, existe uma diferença entre o corpo, que está feito de energia material, e a alma, que é composta de energia espiritual. Mas, no que respeita a Krsna, não existe diferença entre o Seu corpo e a alma. Sendo absoluto, o Seu corpo e Ele, são a mesma coisa. No nosso caso existe uma diferença entre nós e o corpo, porque a nossa verdadeira identidade é a alma. Se o pai de alguém falece, ele ou ela começará a chorar. “Oh, o meu pai abandonou-me. O meu pai foi-se embora.” Apesar do corpo do pai estar aí, porque é que dizemos “O meu pai foi-se embora”?

Intuitivamente sabemos, especialmente num momento como o da morte, que o corpo que jaz ali no quarto não é a pessoa. O corpo é somente um saco de químicos. A verdadeira pessoa é a alma que abandonou o corpo, e assim as crianças e outros familiares e amigos exclamam, “Oh ele partiu,” porque ele é a alma, não é o corpo.

 

Mas, no caso de Krsna, Ele e o Seu corpo não são diferentes porque Ele é absoluto. Não existe diferença entre o Seu interior e o Seu exterior. Ele é completamente espiritual. O Brahma-samhita diz, isvara parama krsnah sac-cid-ananda-vigraha: “Krsna é o Supremo Deus. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado.” Anadir adir govindah sarva-karana-karanam: “Ele é a origem de tudo, mas Ele não tem origem. Ele é a causa primordial de todas as causas.” Esse é Krsna.

 

No mundo material, tudo o que vemos tem uma causa. A um nível muito simples podemos dizer, “Tive como origem os meus pais” ou (o meu corpo teve origem nos meus pais). Eles, por sua vez, tiveram origem nos pais deles, e estes tiveram origem nos pais deles. E se continuarmos a investigar mais e mais e mais, chegaremos, eventualmente, à causa original que é Krsna (sarva-karana-karanam). Ele é a causa de tudo—a causa de todas as causas. Mas Ele não tem causa.

 

No estado condicionado é muito dificil termos essa compreensão, porque tudo o que é material tem uma causa. Todas as coisas têm um começo e um fim, mas Krsna não tem começo nem fim. Ele é eterno (sanatana). “Eterno” quer dizer “sem começo nem fim.” Mesmo nós, almas espirituais, também somos eternos. Não temos começo nem fim. A vida num corpo particular tem um começo a que chamamos “nascimento” (ou “concepção”), e tem um fim dentro desse corpo particular, a que chamamos “morte”. Mas nós, como almas espirituais, não temos começo nem fim, porque somos partes integrantes de Krsna. Temos a mesma qualidade de Krsna mas em diferente quantidade. O Senhor diz,

 

mamaivamso jiva-loke

  jiva-bhutah sanatanah

manah-sasthanindriyani

  prakrti-sthani karsati

 

“As entidades vivas neste mundo condicionado são minhas partes fragmentárias. Devido à vida condicionada, elas estão a lutar árduamente com os seis sentidos, os quais incluem a mente.” (Bg 15.7)

 

A entidade viva é uma parte eterna e fragmentária de Krsna. Esta é a filosofia sublime de Sri Caitanya Mahaprabhu chamada acintya-bhedabheda-tattva: a “inconcebível união e diferença, em simultâneo” da entidade viva e o Senhor Supremo. Com o Senhor, somos unos em qualidade mas diferentes em quantidade—Ele é infinito e nós somos infinitesimais. Porque temos as mesmas qualidades, podemos ter um relacionamento com Ele. A menos que haja algo em comum, não se consegue estabelecer uma relação. E devido à diferença em quantidade—Ele é o todo e nós a parte—a nossa relação é de serviço. Para a parte, é uma função natural servir o todo. Por exemplo, a mão é uma parte do corpo, por isso, a função da mão é servir o corpo. Se a mão não servir ao corpo algo de errado está a acontecer; está doente ou morta. De igual modo, a nossa actividade natural é de servir a Krsna (jivera ‘svarupa’ haya—krsnera ‘nitya-dasa’). Nós somos eternos,{}assim como Krsna é eterno, e a nossa relação, o nosso serviço, também é eterno. Nunca acaba.

 

Anteriormente mencionamos os três aspectos da Verdade Absoluta: Brahman, Paramatma e Bhagavan. Existem diferentes transcendentalistas que têm diferentes aspirações espirituais. A maior parte das pessoas são materialistas. Elas nem sequer se interessam pela vida espiritual. Só querem desfrutar do mundo. Entretanto, quando nos tornamos um pouco mais elevados, um pouco mais purificados na consciência, pensamos em incrementar a nossa vida espiritual. E quando nos tornamos suficientemente sérios, adoptamos uma disciplina numa escola de pensamento e prática. Os jñanis são uma categoria de transcendentalistas. A meta deles é submergirem-se e tornarem-se unos com o Brahman, a refulgência que emana do corpo transcendental de Krsna. Superiores aos jñanis, são os yogis. Eles pretendem realizar o aspecto localizado, o Senhor dentro do coração (dhyanavasthita-tad-gatena manasa pasyanti yam yogino). E os mais elevados são os bhaktas. Eles querem estabelecer uma relação amorosa com Bhagavan, Sri Krsna, a Suprema Personalidade de Deus.

 

Num sentido, porque a Verdade Absoluta é não-dual (advaya), todos os transcendentalistas estão na mesma plataforma, contudo, de um ponto de vista analítico ou objectivo, existem graus de realização. Como foi dito anteriormente, Krsna é sac-cid-ananda-vigraha. Sat significa “eterno”, cit quer dizer “consciente,” e ananda significa “bem-aventurado.” Os jñanis  que alcançam o Brahman impessoal realizam somente o aspecto sat, existência eterna. Os yogis que realizam Paramatma têm percepção de sat (eternidade) e cit (conhecimento), porque se apercebem da individualidade do Senhor no coração. E os bhaktas têm uma realização completa de sat, cit e ananda (eternidade, conhecimento e bem-aventurança), porque a verdadeira felicidade emana das relações amorosas. Apesar de se poder dizer que existe alguma bem-aventurança no Brahman impessoal, quando comparada com a felicidade extática do serviço amoroso a Krsna, é insignificante. Existem muitas afirmações no sastra, as escrituras védicas, corroborando que a felicidade experimentada em relação com Krsna é tal e qual um oceano e que, comparativamente, a felicidade de submergir (ou tentar submergir) no Brahman impessoal é como uma poça de água.

 

tvat-saksat-karanahlada-

  visuddhabdhi-sthitasya me

sukhani gospadayante

  brahmany api jagad-guro

 

“Meu querido Senhor, Ó mestre do universo, desde que Vos vi directamente, a minha bem-aventurança transcendental tomou a forma de um grande oceano. Estando situado nesse oceano, agora realizo que todas as outras assim chamadas felicidades, como o prazer derivado do Brahman impessoal, são tal como a água contida na pegada de um bezerro.” (Hari-bhakti-sudhodaya 14.36). Na prática, não existe comparação.

 

Além disso, realizar o Brahman impessoal é muito dificil, especialmente nesta presente era. E mesmo que a pessoa seja êxitosa—ou pense que o seja—existe toda a possibilidade de cair dessa posição.

 

ye ’nye ’ravindaksa vimukta-maninas

  tvayy asta-bhavad avisuddha-buddhayah

aruhya krcchrena param padam tatah

  patanty adho ’nadrta-yusmad-anghrayah

 

“Ó Senhor de olhos de lótus, embora os não-devotos que aceitaram rigorosas austeridades e penitências para atingir a posição mais elevada possam julgar-se liberados, a inteligência deles é impura. Eles caem das suas posições aparentemente superiores, pois não dão importância alguma a Vossos pés de lótus.” (SB 10.2.32)

 

O mais provável, é que eles imaginem que realizaram o Brahman mas, quer eles o tenham realizado de facto ou simplesmente imaginem que o tenham realizado, devido a que negligenciaram o serviço aos pés de lótus de Krsna, caem da sua posição (patanty adhah).

 

Nós, as almas condicionadas, giramos no ciclo da repetição do nascimento e da morte (samsara), e a nossa meta é a de alcançar o alívio desta samsara-cakra. Tal liberação é chamada mukti, ou moksa. O tipo de liberação impessoal, na qual a alma individual submerge na luz espiritual, é muito dificil de alcançar—se porventura alguém a alcançar. Mas mesmo que alguém consiga, não perdura. Portanto, o Bhagavatam diz patanty adhah: eles caem. Porquê? Porque eles não se ocupam no serviço transcendental amoroso ao Senhor.

 

A liberação impessoal é tal como ir dormir. As pessoas inteligentes apercebem-se de que existem dificuldades na existência material, e querem alívio. Este é um factor que pode levar alguém a pensar em vida espiritual. Portanto, a pessoa que tenta alcançar a liberação impessoal, assemelha-se a alguém que sofre e tenta escapar do sofrimento, dormindo—“O mundo é muito dificil.” Bem, temporariamente podes escapar do sofrimento através do sono mas, quanto tempo vais ficar a dormir? A seu devido tempo acordarás e os problemas permanecerão.

 

Ficar suspenso na refulgência do Brahman impessoal pode tornar-se aborrecido. É um alívio—definitivamente é um alívio sair deste mundo material—mas eventualmente pode tornar-se um aborrecimento. Alguém pode viajar num cruzeiro: “Céus, preciso sair deste ambiente. Vou fazer uma viagem de cruzeiro. Quero desfrutar do mar.” Por algum tempo pode ser muito bom mas, eventualmente, fica-se aborrecido—só água, ondas e vento. A seu devido tempo querer-se-á regressar a terra—apesar de ser aquela situação que anteriormente quisemos abandonar. Apesar de haver frustação e dificuldades na terra, pelo menos havia alguns estímulos e alguma variedade.

 

Portanto, os jñanis impersonalistas que desejam submergir e tornarem-se unos com o Brahman, a seu devido tempo caem da sua posição(patanty adhah), porque ficam inquietos. Eles querem actuar, mas como não conhecem as actividades espirituais da consciência de Krsna, o serviço devocional a Krsna, patanty adhah—eles envolvem-se em actividades materiais e de novo sofrem, porque a actividade material resulta em sofrimento material.

 

Assim sendo, porque é que o Senhor descende? Ele é sac-cid-ananda-vigraha. eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança.Ele vive na Sua morada espiritual, onde tudo é eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. E Ele é servido por grandes almas que estão completamente livres da contaminação material, livres dos corpos materiais que causam tanta dor. Então, porque é que o Senhor aparece aqui? O que é que ganha com isso?

 

Para si, Ele não tem nada a ganhar. Mas manifesta-se por Sua misericórdia sem causa, para nos libertar. Compara-se o mundo material a uma prisão e nós, as almas condicionadas, somos os prisioneiros. Estamos restringidos, tal como os prisioneiros. Não nos podemos movimentar livremente, nem sempre que nos apetece.

 

As almas liberadas podem viajar a qualquer parte do universo. Não necessitam de espaçonaves ou qualquer outro meio de locomoção. Podem movimentar-se livremente, mas nós, as almas condicionadas, estamos atadas. Não nos é permitido sair deste planeta muito fácilmente mas, se o conseguirmos fazer, ficamos sem lugar onde permanecer. Portanto, estamos restringidos e ao mesmo tempo temos que sofrer.

 

Anteriormente, mencionei que no corpo existe muito sofrimento. Alguém pode pensar, “Este swami é muito negativo acerca do corpo.” Mas o Bhagavad-gita diz, janma-mrtyu-jara-vyadhi-duhkha-dosanudarsanam: deve-se estar sempre consciente do sofrimento do nascimento, morte, velhice e doença. Pode-se dizer, “Porque é que o swami tem que ser tão negativo? Quero desfrutar do corpo. Quero gozar da vida. Quero gozar aqui e agora”—num certo contexto está correcto—mas se eu perguntar a qualquer um de vocês, “Sinceramente, queres adoecer?” “Não.” “Queres envelhecer?” “Não.” “Queres morrer?” “Não.” Bom, mas isso é o que vem com o corpo. Quando se obtém um corpo material, isso é o que vem na encomenda; é o que se compra juntamente com o corpo. Pode-se pensar, “Mas existe tanta felicidade  no corpo. Posso ir surfar, caminhar, comer gelados, posso beber, comer e desfrutar do corpo. “Bom, está bem, mas na verdade não é o corpo que te permite desfrutar; é a alma dentro do corpo. Todas as partes do corpo podem estar presentes quando a alma se vai embora, mas onde está o desfrute? Para o corpo não existe desfrute depois da alma partir. Podemos pensar que desfrutamos com os sentidos, mas na verdade é devido à presença da alma que somos capazes de desfrutar, trabalhar e viver.

 

O corpo é o meio pelo qual a alma condicionada pode experienciar. Por exemplo, eu tenho estes óculos. Vejo através deles—os óculos em si não veêm. Similarmente, temos estes sentidos—olhos, ouvidos, nariz,língua, pele—e nós percepcionamos através deles. Na verdade os sentidos por si não têm percepção. É a alma que tem a percepção—através dos sentidos do corpo. Na verade, não precisamos do corpo para experimentar felicidade. Com o corpo existe alguma percepção de felicidade—mas com  muito sofrimento.

 

Existem diferentes escolas de filosofia—sad-darsana—e um dos filósofos analisou e concluiu que o corpo está feito para sofrer. Ele dá o exemplo do dedo mindinho. De quantas maneiras o dedo mindinho pode desfrutar? Não muitas. E de quantas pode ele sofrer? Tantas. Até um pequeno corte ou bolha podem ser muito dolorosos. E o dedo pode ser cortado, queimado, esmagado. O corpo é muito vulnerável. Mas não a alma. Como diz o Gita, ela não pode ser cortada, nem queimada, nem molhada, nem pode ser seca—está mais além do alcance dos elementos materiais.

 

nainam chindanti sastrani

  nainam dahati pavakah

na cainam kledayanty apo

  na sosayati marutah

 

“A alma nunca pode ser cortada por arma alguma, nem pode ser queimada pelo fogo, ou humedecida pela água ou definhada pelo vento.” (Bg 2.23) Sem o corpo, a alma pode desfrutar livremente, de todas as maneiras, porém sem dor.

 

E, porque a alma é parte integrante de Krsna, deriva a sua verdadeira felicidade em relação com Krsna. Neste momento, somos como peixes fora da água, por que originalmente viemos de Krsna, da atmosfera espiritual, e entrámos no mundo material para sofrer, numa atmosfera que nos é alheia. Sempre estamos inquietos, ansiosos e temerosos.

 

Portanto, porque é que Krsna vem a este mundo? Ele vem para nos resgatar, os Seus filhos perdidos, para nos levar de volta a casa, de volta para Ele. Esta é a razão da Sua vinda. Não há outra. Para Ele, não existe nada aqui. Ele vem apenas por nossa causa.

 

Apesar de vir a este mundo material, não vem com um corpo físico. Ele vem com a Sua forma espiritual original (sac-cid-ananda-vigraha). Krsna, em particular, vem numa forma que se assemelha à de um ser humano. “O homem é feito à imagem de Deus.” O facto de Krsna vir numa forma semelhante à humana, é muito bom, porque torna-se mais fácil para nós, com corpos humanos, relacionarmo-nos com Ele.

 

anugrahaya bhaktanam

  manusam deham asthitah

bhajate tadrsih krida

  yah srutva tat-paro bhavet

 

“Quando o Senhor assume uma forma semelhante à humana para mostrar misericórdia aos Seus devotos, Ele ocupa-se em passatempos, que atraem aqueles que escutam sobre eles, a dedicarem-se a Ele.” (SB 10.33.36) Ele vem para nos resgatar e libertar, pois somos os Seus filhos e devotos perdidos.

 

E como é que Ele descende? Ele não nasce como os seres humanos comuns, através da descarga seminal. Pelo contrário, Ele manifesta-se, ou aparece.

 

ajo ’pi sann avyayatma

  bhutanam isvaro ’pi san

prakrtim svam adhisthaya

  sambhavamy atma-mayaya

 

“Embora Eu seja não nascido e o Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todas as entidades vivas, mesmo assim, em cada milénio Eu apareço na Minha forma transcendental original.” (Bg 4.6)

 

E isso foi o que lemos esta tarde. A maneira como o Senhor aparece, é um assunto bastante esotérico. Ele escolhe um devoto completamente purificado, e entra na mente desse devoto completamente purificado. O nome do devoto em cuja mente Krsna entra, é dado aqui—Vasudeva. E o estado que o capacita para receber Krsna dentro da sua mente pura é chamado vasudeva, que significa completamente além dos três modos da natureza material, completamente transcendental—o estado da bondade pura, suddha-sattva. Como se afirma no Srimad-Bhagavatam, sattvam visuddham vasudeva-sabditam: a consciência pura plena é conhecida como vasudeva.

 

sattvam visuddham vasudeva-sabditam

  yad iyate tatra puman apavrtah

sattve ca tasmin bhagavan vasudevo

  hy adhoksajo me manasa vidhiyate

 

“A condição da bondade pura, suddha-sattva, na qual a Suprema Personalidade de Deus é revelada sem nenhuma cobertura, é chamada vasudeva. Nesse estado puro, o Deus Supremo, que está mais além dos sentidos materiais e é conhecido como Vasudeva, é percebido pela minha mente.” (SB 4.3.23, citado no Cc Adi 4.66)

 

Depois de Vasudeva ter recebido Krsna dentro de sua mente, ou coração purificado, ele, através de seu poder espiritual, transferiu-O para o coração purificado de Devaki. Nesta actividade, não houve nenhuma descarga seminal. E o processo pelo qual a Suprema Personalidade de Deus foi transferido do coração de Vasudeva para o coração de Devaki, chama-se diksa. Diksa significa “iniciação espiritual.” Diksa acontece entre o professor, ou guru, e o discípulo. Quando o guru está suficientemente qualificado, pode transportar Krsna dentro de seu coração. E, quando o discípulo está suficientemente qualificado, pode receber Krsna do guru—através de um intercâmbio que se chama diksa.

 

O processo de diksa, é essencial para a realização de Deus (Krsna). Existe uma ciência completa de bhakti-yoga que está descrita no Bhakti-rasamrta-sindhu, de Srila Rupa Gosvami e que começa com este processo, Guru-padasrayas tasmat: “Deve-se aceitar refúgio aos pés de lótus de um mestre espiritual.” Krsna-diksadi-siksanam: “Deve-se aceitar iniciação dele e também receber instrução.” E visrambhena guroh seva: “Deve-se servi-lo com afecto.”

 

Não podemos alcançar Krsna através dos nossos próprios esforços. Devemos receber Krsna de alguém que já O tem. Por isso Srila Bhaktivinoda Thakura, um grande preceptor espiritual, ora ao devoto puro:

 

krsna se tomara, krsna dite paro,

        tomara sakati ache

ami to’ kangala, ‘krsna’ ‘krsna’ boli’,

        dhai tava pache pache

 

“Krsna é teu; tens o poder de O dares a mim. Estou simplesmente correndo atrás de ti, gritando, ‘Krsna! Krsna!’” (Saranagati, “Ohe! Vaisnava Thakura”)

 

Na verdade, este acto de diksa, como está descrito no verso de hoje, é o culminar de um processo gradual. Não é assim tão fácil, a ponto de decidirmos, “Bom, agora vou encontrar um guru que tenha Krsna, e ele vai dá-Lo a mim, e assim não tenho mais nada a fazer.” Temos que estar qualificados para receber Krsna, e o processo para nos tornarmos qualificados desenvolve-se gradualmente. Temos que nos esforçar para chegarmos a esse estágio de pureza em que possamos receber Krsna nos nossos corações—e não só recebê-Lo nos nossos corações, mas realmente vê-Lo cara a cara. Depois  de permanecer por algum tempo no coração de Devaki, Krsna manifestou-se perante ela, e eles puderam ver-se cara a cara. Ela viu-O cara a cara, e Ele também. Esta é a perfeição da consciência de Krsna.

 

Portanto, temos que nos qualificar. Temos que limpar o espelho do coração (ceto-darpana-marjanam).

 

O processo de purificação varia consoante a era. Embora o processo básico seja o mesmo—consciência de Krsna—na era actual, o processo específico recomendado é cantar dos santos nomes do Senhor:

 

harer nama harer nama

  harer namaiva kevalam

kalau nasty eva nasty eva

  nasty eva gatir anyatha

 

“Deve-se cantar o santo nome, cantar o santo nome, cantar o santo nome  do Senhor Hari [Krsna]. Não há outra maneira, não há outra maneira, não há outra maneira para alcançar sucesso nesta era.” (Brhan-naradiya Purana 38.126)

 

Cantar é repetido três vezes para enfatizar. “Deves fazê-lo, deves fazê-lo, deves fazê-lo.” Uma vez, apareceu um cartoon num jornal, que mostrava um senhor idoso sentado em frente a sua esposa. Ela dizia-lhe “Canta [Chant], canta [chant], canta [chant], ao que ele respondia, não posso [can’t], não posso [can’t], não posso [can’t].” Esse é o nosso infortúnio. O sastra, as escrituras dizem-nos, “Canta [Chant], canta [chant], canta [chant] (harer nama harer nama harer nama), e por nenhuma razão aparente—simplesmente devido a uma aversão sem causa—nós dizemos (não necessáriamente verbalizando mas através do nosso comportamento), “Não posso [Can’t], não posso [can’t], não posso [can’t]. “Não posso porque estou muito ocupado.”  “Não posso porque prefiro fazer outras coisas.”  “Não posso porque. . .”—porque, porque, porque. Portanto harer nama harer nama harer nama é enfático: canta, canta, canta. E kalau nasty eva kalau nasty eva kalau nasty eva: não há outra maneira, não há outra maneira, não há outra maneira. Esta frase pode trazer-nos à memória a imagem de um cristão fanático repetindo, “Jesus é o único caminho.”  Mas este nasty eva, “a única maneira” é um pouco diferente. (E também não queremos dar a entender que a frase “Jesus é o único caminho”, esteja errada.) Mas neste contexto , nasty eva “não há outra maneira,” tem um significado especial.

 

Para diferentes eras, diferentes métodos de auto-realização são recomendados—para Satya-yuga é a meditação, para Treta-yuga é a execução de rituais védicos e para Dvapara-yuga é a adoração opulenta no templo. Contudo, nesta presente era, harer nama, o cantar dos santos nomes de Deus, é o método recomendado. Portanto, nasty eva nasty eva nasty eva quer dizer, “não é através da meditação silenciosa, nem através dos rituais védicos elaborados, nem sequer através da adoração ritualistica no templo,” mas sim, através dos santos nomes.

 

Mas os santos nomes não são sectários. Na verdade existem seitas cristãs cujos praticantes repetem constantemente o nome de Jesus. Nós não dizemos que se deve cantar somente o santo nome de Krsna. Pode-se cantar qualquer nome de Deus. Porque Deus é absoluto, qualquer nome de Deus é tão bom como qualquer outro. Mas deve-se cantar algum nome. Também a tradição muçulmana recomenda cantar o nome de Deus, de Allah. No Paquistão vi um livro que se chamava, Os Noventa e Nove Nomes de Allah. Na tradição védica existe o Visnu-sahasra-nama, “Os mil nomes de Visnu.” Portanto, o principio de cantar os nomes de Deus é uma prática corrente mas, invarialvelmente, é neglicenciado. Entretanto, também se pode dizer que, em qualquer tradição a maioria é convencional. Só uma minoria é verdadeiramente mística, ou espiritual. No interior das tradições místicas ou espirituais,aconselha-se o cantar dos santos nomes.

 

O processo de cantar (sankirtana) limpa o coração (ceto-darpana-marjanam) e faz dele um lugar adequado para o Senhor residir. Isso é o que temos que fazer para nos prepararmos para recebê-Lo. Temos que cantar. O cantar é agradável e espero que todos tenham essa experiência. Dá alegria. Esse é outro aspecto: embora os resultados da consciência de Krsna sejam os mais elevados, o processo também é o mais fácil e o mais sublime. Parece demasiado bom para ser verdade, mas é verdade. O cantar é fácil,  traz alegria e ao mesmo tempo limpa o coração (ceto-darpana-marjanam) e faz dele um lugar adequado para o Senhor residir. E esse processo acontece através de diksa, o processo continuado de diksa, que culmina na realização perfeita de Krsna. E então, quando se está completamente purificado e realizado, Krsna não se pode conter dentro do coração. Ele fica tão satisfeito com o serviço da pessoa e tão ansioso de a ver e abraçar, que vem para fora do coração. (Claro que, ao mesmo tempo, Ele permanece lá.) À Sua maneira, Ele sai do coração da pessoa para vê-la, tocá-la, abraçá-la e levá-la pela mão convidando-a para ir com Ele para a Sua morada eterna. 

 

Essa é a perfeição da consciência de Krsna, e é possivel para todos, e cada um de nós. Tão só, temos que fazer o esforço para cantar sem ofensas, e permanecer animado e fixo nesse empreendimento. Para tal, precisamos de associação. Em cada esforço precisamos de associação. Em cada esfera da vida existem associações de pessoas que estão ocupadas na mesma actividade porque, dessa maneira,  encorajam-se mutuamente. Existe a câmara do comércio, a sociedade dos diabéticos, a associação dos observadores de pássaros—existem sociedades para todas as esferas da vida, porque na associação de outras pessoas que têm o mesmo objectivo, animamo-nos a permanecer no mesmo caminho e também aprendemos com os outros, da experiência deles, em como aumentar os nossos esforços e maximizar o  progresso. É algo natural. E a associação é essencial. Quando nos tornamos um pouquinho sérios, quando desenvolvemos um pouco de fé e atracção, o seguinte passo é a associação com devotos (adau sraddha tatah sadhu-sanga). Esta associação vai ajudar-nos.

 

O cantar é simples, mas a verdadeira arte é escutar enquanto cantamos. Qualquer pessoa pode cantar sem ter a mente focada, “Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna. . .” e olhar para as árvores, para a lua, para o jornal, para a televisão, mas esse não é o verdadeiro cantar. O verdadeiro canto ocorre quando escutamos com a mente fixa no som. Isso é meditação. Meditação no mantra, mas isso requer prática. Seremos capazes de manter a mente fixa no som do santo nome, se cantarmos por cinco minutos? É um desafio. Mesmo só por um minuto é um desafio, porque a natureza da mente é inconstante. É inquieta. Adora divagar—como o vento. No Bhagavad-gita Arjuna diz que é tão dificil controlar a mente como controlar o vento.

 

cancalam hi manah krsna

  pramathi balavad drdham

tasyaham nigraham manye

  vayor iva su-duskaram

 

“Ó Krsna, a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, e controlá-la, parece-me mais difícil do que controlar o vento.” (Bg 6.34)

 

Com é que podemos controlar o vento? Vai sempre para aqui e para acolá. Ninguém pode pará-lo. Do mesmo modo, como é que se pode controlar a mente? Não é possivel. Contudo, o Bhagavad-gita afirma que é possivel—pela prática (abhyasa) e desapego.

 

asamsayam maha-baho

  mano durnigraham calam

abhyasena tu kaunteya

  vairagyena ca grhyate

 

“Indubitavelmente, é muito dificil refrear a mente inquieta, mas é possivel através da prática adequada e do desapego.” (Bg 6.35)

 

Esta é a prática adequada: escutar sobre a consciência de Krsna e depois cantar—e escutar—o nome do Senhor Krsna. Cantamos e escutamos. Praticamos o fixar a nossa mente no som do santo nome do Senhor. Este é o nosso sadhana; esta é a nossa prática. E é um assunto muito sério e que requer muito esforço. Como disse Srila Prabhupada o nosso mestre espiritual, “Cantar é fácil”—todos podem articular os sons do maha-mantra Hare Krsna, Hare Krsna, Hare Krsna—“mas a determinação de cantar[e escutar com atenção] não é assim tão fácil.” Mas isso é o que precisamos. Dessa determinação (drdha-vratah). E essa determinação desenvolve-se na associação de devotos que são sérios no cantar e escutar. Portanto, a associação de devotos é muito valiosa, e é de suma importância manter relações favoráveis com os devotos.

 

Existem diferentes ofensas que devem ser evitadas quando cantamos. A principal ofensa, é estar desatento enquanto cantamos, mas outra, é ofendermos os devotos. Os devotos são os nossos melhores bem-querentes. Dão-nos o santo nome. Dão-nos ânimo nos nossos esforços por cantar. E se os ofendemos, ficamos privados dos nossos melhores bem-querentes, os nossos melhores amigos, o nosso melhor suporte para cantarmos. Ficamos privados da misericórdia que, desesperadamente, precisamos para progredir. Mas se prestamos atenção a estes dois pontos—cantar atentamente e manter relações favoráveis com os devotos—então, gradualmente, podemos chegar à plataforma da perfeição. Leva o seu tempo, mas podemos chegar a esse estágio quando Krsna entrar nos nossos corações. Ele já está lá, mas manifestar-se-á plenamente e, a seu devido tempo, vê-Lo-emos cara a cara. Portanto, devemos sempre, em todo o momento livre, kirtaniyah-sada-harih, cantar Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. O que quer que façamos que não esteja acompanhado pelo canto, deve ser com a ideia de nos posicionarmos de tal modo que possamos cantar. Podemos dizer, “Não posso estar sempre a cantar. Tenho que trabalhar. Tenho que ganhar dinheiro. Tenho que pagar as contas.” Isso está bem, mas qual é o objectivo de todo esse esforço? Qual é a finalidade de ter uma casa? Para que serve o alimento que vamos comer? O objectivo último deve ser o de manter o corpo e a alma juntos para que possamos cantar os santos nomes e realizar Deus. Isso é “Kirtaniyah-sada-harih, “cantar sempre o nome de Deus.” Temos um corpo. Devemos cuidar dele. Devemos tomar banho, vestir, comer e dormir. Devemos executar as necessidades da vida de uma forma completa. Mas, qual é o objectivo de tudo isso? A meta deve ser a de cantar os santos nomes de Krsna e realizar Krsna.

 

Portanto, Krsna vem para nos dar esta mensagem,e se a partir deste dia, Sri Krsna Janmastami, pudermos aceitá—la no nosso coração—será o começo da nossa perfeição. Devemos aceitá-la no nosso coração, praticá-la e repeti-la a outros-repeti—la tanto para o beneficio dos outros, como para o nosso. E os resultados serão gloriosos. O propósito do aparecimento de Krsna será satisfeito, e o nosso, como seres humanos, também será satisfeito. E todos, em conjunto, seremos felizes em consciência de Krsna. Hare Krsna

 

Têm algumas perguntas ou comentários a fazer?

 

Convidado (1): Esta é uma pergunta que sempre me coloco a mim mesmo. Os cristãos acreditam na ressurreição, e os Buddhistas e os Hindus acreditam na reencarnação mas, “Qual é o propósito de começar e acabar algo? Qual o significado de várias ou até muitas vidas, quando poderíamos ficar satisfeitos só com uma? Porque é que temos que nos aperfeiçoar através de muitas vidas?

 

Giriraj Swami: Essa é uma pergunta muito boa. O Miguel diz que os cristãos acreditam na ressurreição, e os Buddhistas e os Hindus acreditam na reencarnação, mas qual é a necessidade de passar por muitas vidas quando podemos realizar a Deus só numa?

 

Concordamos contigo plenamente. Essa é a ideia. Especialmente agora que alcançámos esta forma humana de vida, que se obtém depois de passarmos por muitas vidas; e em particular porque entrámos em contacto com os devotos, que nos falam de Krsna e o processo de bhakti-yoga; podemos e devemos satisfazer o nosso propósito neste mundo, nesta mesma vida.

 

labdhva su-durlabham idam bahu-sambhavante

  manusyam artha-dam anityam apiha dhirah

turnam yateta na pated anu-mrtyu yavan

  nihsreyasaya visayah khalu sarvatah syat

 

“Depois de muitíssimos nascimentos chegamos a esta forma humana que é muito dificil de obter, e, embora seja temporária, permite-nos alcançar a perfeição mais elevada. Portanto, um ser humano sóbrio, deve esforçar-se diligentemente para conseguir essa perfeição última antes que este corpo, que está sempre sujeito à morte, se deteriore. Em última instância, a gratificação dos sentidos está disponível mesmo nas espécies de vida mais abomináveis, enquanto que a consciência de Krsna, só é possível para o ser humano.” (SB 11.9.29)

 

E se cantamos seriamente—cantamos, escutamos e seguimos os principios reguladores que mantêm o cantar e o escutar—podemos alcançar a perfeição completa nesta mesma  vida. E essa deve ser a nossa determinação.

 

Contudo, o Bhagavad-gita explica que, se por acaso, não alcançarmos a perfeição completa, na próxima vida  prosseguiremos a partir do ponto onde deixámos na vida anterior. Não precisamos de começar tudo da estaca zero. Materialmente falando, temos que começar tudo de novo na próxima vida. Nesta vida podemos saber falar sete linguas mas na próxima, depois de nascermos, a única coisa que sabemos dizer é “Ga, Ga, Ga,” e nem sequer conhecemos o ABC. Tudo o que se relaciona com assuntos materiais, é perdido no momento da morte. contudo, na próxima vida, continuaremos do ponto em que chegámos por termos praticado a bhakti-yoga. Suponhamos que nesta vida só completamos 50 por cento; na seguinte vida continuamos a partir dos 51 por cento. Não temos que começar tudo de novo.Agora que temos esta forma humana de vida e a associação com os devotos, porquê correr riscos? Tal como disseste, devemos ter essa determinação para nos tornarmos completamente exitosos nesta vida.

 

Convidado (1): Porque é que viemos parar a este lugar? Porque é que temos que passar por tantas vidas?

 

Giriraj Swami: Na verdade, com se mencionou anteriormente, todos emanámos de Krsna, mas quando Lhe voltamos as costas—quando O esquecemos e queremos desfrutar separados d`Ele—somos controlados por maya e sofremos neste mundo material.

 

krsna-bahirmukha hana bhoga-vancha kare

nikata-stha maya tare japatiya dhare

 

“Quando a entidade viva deseja desfrutar separadamente de Krsna, virando-lhe as costas, a energia ilusória do Senhor, maya, prende imediatamente a alma nas suas garras.” (Prema-vivarta)

 

Mas neste processo, não começamos de baixo; começamos de cima. Começamos sendo um ser elevado num planeta elevado. Portanto, podemos alterar o processo e, a partir dessa posição , voltarmos a Deus. Não começamos sendo um germe ou um organismo unicelular. Mas se nos descuidamos, podemos resvalar até à forma de um organismo unicelular, num corpo de organismo celular. Na realidade, não começamos de baixo, começamos de cima, e se somos atentos e vigilantes, podemos alterar todo o processo numa só vida. Não temos que passar mais do que uma vida, e não precisamos de experimentar mais nenhuma forma inferior de vida.

 

Convidado (1): Pode-se dizer que tudo à nossa volta-no mundo material—é energia? Animais, vegetais, minerais—tudo na vida, mesmo que não tenha própriamente consciência?

 

Giriraj Swami: Bom, isso é verdade—tudo é energia—mas como se afirma no Bhagavad-gita, existem dois tipos de energias. Uma é a energia material, e a outra é a energia espiritual. A energia espiritual é consciente, é viva. E a energia material é inerte, é morta.

 

bhumir apo ’nalo vayuh

  kham mano buddhir eva ca

ahankara itiyam me

  bhinna prakrtir astadha

 

“Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego—em conjunto, constituem as minhas energias materiais separadas.” (Bg 7.4)

 

apareyam itas tv anyam

  prakrtim viddhi me param

jiva-bhutam maha-baho

  yayedam dharyate jagat

 

“Além dessas, ó Arjuna de braços poderoso, existe uma outra energia, a Minha energia superior, que consiste das entidades vivas que exploram os recursos desta natureza material inferior.” (Bg 7.5)

 

O que vemos com vida neste mundo material é, na verdade, uma combinação das energias espiritual e material—a centelha espiritual dentro do corpo físico. Enquanto a alma está presente, existe consciência. Mas um objecto inanimado—como por exemplo este pedaço de metal—não tem consciência. Em ultima análise, naturalmente, podemos dizer que existe consciência em toda a parte, porque Krsna está em toda a parte. Ele expande-se dentro dos átomos, e no espaço entre eles, através do universo inteiro (andantara-stha-paramanu-cayantara-stham).

 

Convidado (1): Será que existem outras formas de inteligência noutros planetas no universo, ou só existem neste planeta?

 

Giriraj Swami: Na verdade, existe inteligência ainda mais avançada noutros planetas além da terra. Tudo é a criação de Deus. Não acreditamos que exista algo que tenha surgido por acidente ou casualidade. Deus criou todos estes planetas para fornecer vários ambientes a diferentes tipos de pessoas. Assim como existem diferentes relatividades na terra—Ojai ou Santa Barbara podem ser relativamente mais congeniais do que Alaska ou Antártida—portanto, existe relatividade dentro do unniverso. Alguns planetas são mais celestiais, e outros mais infernais. Considera-se que o planeta Terra está no meio, embora um pouco para o lado inferior. Mas existe vida inteligente em toda a parte—e sofrimento também—e todos estão, em última instância, designados para se tornarem conscientes de Deus e poderem voltar a casa, voltar a Deus.

 

a-brahma-bhuvanal lokah

  punar avartino ‘rjuna

mam upetya tu kaunteya

  punar janma na vidyate

 

[Krsna, o Supremo Senhor, disse:] “Do planeta mais elevado no mundo material, até ao mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kunti, jamais volta a nascer.” (Bg 8.16)

 

Convidado (2): Você disse que a única prática que precisamos fazer é o cantar do santo nome. Parece-me ser pedir a Deus a graça do santo nome. Mas o que é que podemos fazer para nos prepararmos, no nosso dia-a-dia, a melhor compreender e receber essa graça?

 

Giriraj Swami: Sim, existem práticas. Embora o canto seja suficiente, existem disciplinas que podemos executar que nos ajudam a adquirir o beneficio pleno do cantar, a graça completa do Senhor. Existem algumas restrições pessoais. Apesar de no início ser difícil aceitar essas restrições, a beleza do cantar, o próprio processo de cantar,o processo de purificação, torna mais fácil aceitá-las-até ao ponto em que não queremos ocupar—nos mais em tais actividades adversas.

 

A primeira restrição é não comer carne. A segunda é não tomar intoxicantes. A terceira é não praticar sexo ilícito—nenhum sexo fora do matrimónio, nenhum sexo frívolo. A quarta é não praticar jogos de azar. Se formos capazes de seguir estes principios reguladores, o nosso cantar será mais efectivo, e seremos melhores recipientes para a graça de Deus.

 

E também existem outras coisas, tais como levantar cedo pela manhã. “Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.” As horas matutinas, especialmente as anteriores ao nascer do sol, são consideradas as melhores para as práticas espirituais, portanto, normalmente levantamo-nos cedo. Alguns devotos, quando podem, levantam-se às duas da manhã. Costumam deitar-se às oito e levantar-se às duas. Como regra geral, tentamos levantar-nos às quatro da manhã. Os discipulos iniciados têm uma cota especifica de canto, que leva mais ou menos duas horas a completar. Portanto, eles levantam-se às quatro e entre as cinco e as sete completam a sua cota de voltas, o que lhes deixa o resto do dia por sua conta.

E quanto mais sérios nos tornarmos, mais coisas podemos aprender para melhorar a nossa prática. Mas, se conseguirmos seguir esssas quatro restrições—e levantar cedo—já estamos a começar bem. E se quisermos conhecer mais, temos volumes de livros . . .

 

Convidado (2): Más noticias. Muito obrigado.

 

Giriraj Swami: A uma certa altura, pensei em perguntar-te, antes de te dar a resposta, se estarias preparado para a receber, mas decidi dar-ta porque fizeste a pergunta e pareces uma pessoa sincera.

 

Voltando ao assunto, as boas noticias são que, se cantarmos, tudo o resto se torna mais fácil. Essa é a razão de nós não enfatizarmos as restrições na primeira abordagem, porque sabemos que se as pessoas cantarem, perderão interesse naqueles actos indulgentes, e tornar-se-ão mais e mais desejosos de avançar em consciência de Krsna.

 

Convidado (2): Inshallah.

 

Giriraj Swami: Quando disseste “inshallah”, lembrei-me de um grupo de Muçulmanos Ahmadiyya que costumavam visitar-me no nosso templo em Juhu Beach. Eles disseram—me o mesmo, que as orações oferecidas antes do nascer do sol-à semelhança do que nós dizemos, começando uma hora e meia antes do nascer do sol—são as mais escutadas por Deus, do que aquelas que são oferecidas mais tarde.

 

Inshallah, ou insha’Allah, quer dizer “se Allah desejar.” Allah é um nome de Deus, portanto insha’Allah significa “desejo de Deus.” Naturalmente que também aceitamos o nome de Allah. Allah e Krsna não são diferentes. Mas os nossos devotos no Paquistão, em vez de dizerem “insha’Allah” costumavam dizer, “insha Krsna”, querendo dizer a mesma coisa—“O desejo de Deus.”

 

Krsna Bamani dasi: Maharaja, ia precisamente agora dar um exemplo. No principio algumas pessoas pensam, “Oh, tenho que me tornar vegetariano” quando escutam falar sobre todas as restrições negativas. Mas o processo da vida espiritual é tão agradável, que eles experimentam um gosto superior. Na verdade eles preferem o nosso alimento, prasada, às outras coisas que costumam comer. E o mesmo acontece com as outras aparentes restrições. À medida que cantamos e nos associamos com os devotos, provamos um gosto superior.

 

Giriraj Swami: É um bom ponto.

 

Krsna Bamani dasi: Queria dizer algo mais. Você já o explicou. No mundo moderno, os fanáticos Muçulmanos, ou os fanáticos de qualquer outra religião— podem estar a cantar os nomes de Deus, enquanto se produz tanta violência. Por exemplo, eles podem cantar, “Allah, Allah,” e ainda assim ocuparem-se em tanta actividade violenta. Eles são “os guerreiros de Deus”, por assim dizer. Portanto, você já explicou que existem métodos para se cantar os nomes de Deus apropriadamente.

 

Giriraj Swami: Certo. Devemos evitar essa ofensa de ofender os devotos, e existem devotos em todas as tradições. Podemos adoptar o nome de Deus da nossa tradição, mas se criamos inimizade com os outros devotos das outras tradições, isso é uma ofensa, não só contra os devotos em si, mas também contra o santo nome. E se cometemos ofensas contra o santo nome, não derivamos o beneficio. Na verdade, está explicado que quando ofendemos os devotos, o santo nome fica ofendido e retrai a sua misericórdia. Portanto, apesar desses fanáticos pronunciarem o nome de Deus, para eles Deus está quase ausente. Para eles, Ele retraiu a Sua misericórdia, porque são ofensivos.

 

Naturalmente que ofender os devotos é o pior, mas ofender a qualquer ser—causar dor a qualquer entidade viva—está proibido. Esse é o mandamento completo. E essa é uma das razões pelas quais nós não matamos animais ou comemos carne.

 

Portanto, não chega pronunciarmos somente os nomes de Deus. Devemos ter a consciência apropriada, a mentalidade adequada de serviço a Deus e aos devotos de Deus—em qualquer tradição, cultura ou comunidade a que pertençamos. Devemos respeitar e apreciar todos os devotos genuínos, serventes de Deus, encorajar os devotos e cantar os nomes de Deus. Essa atitude levar-nos-á ao sucesso completo, e um dia o santo nome revelar-se-á a nós e veremos Krsna cara a cara. 

 

prabhu kahe,—“vaisnava-seva, nama-sankirtana

dui kara, sighra pabe sri-krsna-carana”

 

O Senhor [Sri Krsna Caitanya Mahaprabhu] disse, “Devemos ocupar-nos no serviço dos serventes de Krsna, e cantarmos o santo nome de Krsna. Se fizermos essas duas coisas, muito em breve alcançaremos refúgio aos pés de lótus de Krsna.” (Cc Madhya 16.70)

 

Hare Krsna!

 

 

 

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Written by nityananda108

Agosto 24, 2008 at 3:01 am

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Dia de Balarama

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O Dia do Aparecimento do Senhor Balarama

Aula Dada por Giriraj Swami

14 de Agosto, 2000

Chicago

 

 

Para glorificar Deus, a Pessoa Suprema, para auto purificação e para aumentar a satisfação dos devotos, vamos ler agora do Sri Caitanya-caritamrta, Adi-lila, quinto capítulo, “As glórias do Senhor Nityananda-Balarama”:

 

Este capítulo está principalmente direccionado para a descrição da natureza essencial e das glórias de Sri Nityananda Prabhu. O Senhor Sri Krsna é a Personalidade de Deus absoluta e a Sua primeira expansão para passatempos, é a forma de Sri Balarama.

 

VERSO 1

 

vande ’nantadbhutaisvaryam

  sri-nityanandam isvaram

yasyecchaya tat-svarupam

  ajnenapi nirupyate

 

TRADUÇÃO

 

Deixai-me oferecer as minhas reverências ao Senhor Sri Nityananda, a Suprema Personalidade de Deus, cuja opulência é maravilhosa e ilimitada. Por sua vontade, mesmo um tolo pode compreender a Sua identidade.

 

VERSO 2

 

jaya jaya sri-caitanya jaya nityananda

jayadvaita-candra jaya gaura-bhakta-vrnda

 

TRADUÇÃO

 

Todas as glórias a Sri Caitanya Mahaprabhu! Todas as glórias ao Senhor Nityananda! Todas as glórias a Advaita Acarya! E todas as glórias a todos os devotos do Senhor Caitanya Mahaprabhu!

 

VERSO 4

 

sarva-avatari krsna svayam bhagavan

tanhara dvitiya deha sri-balarama

 

TRADUÇÃO

 

A Suprema Personalidade de Deus, Krsna, é o manancial de todas as encarnações. O Senhor Balarama é o Seu segundo corpo.

 

SIGNIFICADO dado por Srila Prabhupada

 

O Senhor Sri Krsna, a absoluta Personalidade de Deus, é o Senhor primordial, a forma original de Deus, e a Sua primeira expansão é Sri Balarama. A Personalidade de Deus pode expandir-se em formas inumeráveis. As formas que têm energia ilimitada chamam-se svamsa, e as formas que têm energias limitadas (as entidades vivas) chamam-se vibhinnamsa.

 

VERSO 5

 

eka-i svarupa donhe, bhinna-matra kaya

adya kaya-vyuha, krsna-lilara sahaya

 

TRADUÇÃO

 

Ambos, têm a mesma identidade. Diferem apenas em forma. O Senhor Balarama é a primeira expansão corpórea de Krsna, e ajuda nos passatempos transcendentais de Krsna.

 

SIGNIFICADO

 

Balarama é uma expansão svamsa do Senhor e, por isso, não há diferença em potência entre Krsna e Balarama. A única diferença está na estrutura corpórea d`Eles. Sendo a primeira expansão da Divindade, Balarama é a Deidade principal entre as primeiras expansões quádruplas, e Ele é o principal assistente de Sri Krsna em Suas actividades transcendentais.

 

COMENTÁRIO de Giriraj Swami

 

No começo do Srimad-Bhagavatam, Srila Prabhupada explica a diferença entre o conceito de Verdade Absoluta e o conceito de Deus. Deus (isvara, em sânscrito) significa “controlador.” Mas a Verdade Absoluta, como se define no Vedanta-sutra e se explica no Srimad-Bhagavatam, é “Aquele de onde tudo emana.” Alguém pode ser Deus, criador e controlador de um cosmos inteiro, mas não necessáriamente tem que ser a origem de todas as coisas. Portanto, o conceito de Verdade Absoluta vai mais além do conceito de Deus como controlador. Janmady asya yatah. Om namo bhagavate vasudevaya, janmady asya yatah: O Senhor Krsna é a Verdade Absoluta. Ele é a origem de tudo, tanto material quanto espiritual.

 

O Senhor Balarama é a primeira expansão do Senhor Krsna. O Brahma-samhita dá um exemplo: a partir de uma vela pode-se acender uma segunda vela, da segunda pode-se acender uma terceira, da terceira uma quarta, etc. Todas têm a mesma energia enquanto velas, mas só há uma vela original. Da mesma maneira, o Senhor Krsna expande-se em inumeráveis porções plenárias e porções das porções plenárias, mas Krsna é a Verdade Absoluta original, a Personalidade de Deus original. E Balarama é a primeira expansão, a primeira vela a ser acendida pela vela original. 

 

Aqui, Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami e Srila Prabhupada explicam que, a nível de potência, não existe diferença entre Krsna e Balarama; a única diferença é a constituição física. Uma vez, durante a Kumbha-mela, em Allahabad, surgiu um argumento entre dois devotos, precisamente sobre este mesmo  ponto. Um devoto, Madhudvisa Prabhu disse, “Não existe diferença entre Krsna e Balarama. A única diferença é que Krsna é negro e Balarama é branco.” Porém a Mataji Yamuna não concordou. “Não,” assegurou ela. “Existe uma outra diferença, Krsna é o único desfrutador de Radharani.” Assim,  os dois continuaram argumentando até que Sua Santidade Tamal Krishna Maharaja, que era nessa altura o secretário de Srila Prabhupada para a India, levou o assunto a Srila Prabhupada. Ele disse, “Srila Prabhupada, Madhudvisa Prabhu diz que a única diferença entre Krsna e Balarama é a cor-Krsna é negro e Balarama é branco.” Srila Prabhupada respondeu, “Ele tem razão.” Entretanto Tamal Krishna Goswami continuou, “Mas a Mataji Yamuna diz que existe uma outra diferença, porque Krsna é o único desfrutador de Srimati Radharani.” E Srila Prabhupada respondeu, “Ela tem razão.” Então Tamal Krishna Goswami sugeriu, “Srila Prabhupada eles estão a dizer coisas diferentes. Não podem ter os dois razão. Ao que Srila Prabhupada respondeu, “ Tens razão.” Então Tamal Krishna Goswami perguntou, “Então quem é que tem razão?” Srila Prabhupada respondeu, “Decide tu.”

 

VERSO 6

 

sei krsna—navadvipe sri-caitanya-candra

sei balarama—sange sri-nityananda

 

TRADUÇÃO

 

Esse Senhor Krsna original apareceu em Navadvipa como o Senhor Caitanya, e Balarama apareceu com Ele como o Senhor Nityananda.

 

COMENTÁRIO

 

Houve outro incidente acerca de um tema semelhante. Srila Prabhupada perguntou, “Quem é mais forte, Krsna ou Balarama?” Embora ambos, como svamsa, têm potências iguais, pode ser que haja alguma diferença. Portanto, Srila Prabhupada perguntou, “Quem é o mais forte?” E eu também farei a todos a mesma pergunta.

 

Devoto (1): Krsna é mais forte, porque Balarama recebe a Sua força de Krsna.

 

Giriraj Swami: Bem, é verdade. Tens razão.

 

Murari Caitanya: Krsna é  mais forte, porque Krsna é completo em todas as opulências, e uma delas é a força.

 

Giriraj Swami: Sim.

 

Devoto (2): Balarama é mais forte, porque é o irmão mais velho de Krsna.

 

Giriraj Swami: Srila Prabhupada respondeu, “Krsna é mais forte,”mas a evidência que deu é diferente daquelas sugeridas por todos vós. A evidência que Srila Prabhupada ofereceu não vem dos livros. Srila Prabhupada explicou, “Krsna é mais forte porque a Deidade de Balarama repousa o seu braço no ombro de Krsna.”

 

Agora vamos entrar nos passatempos.

 

VERSO 149

 

nityananda-svarupa purve ha-iya laksmana

laghu-bhrata haiya kare ramera sevana

 

TRADUÇÃO

 

Anteriormente, o Senhor Nityananda Svarupa apareceu como Laksmana e serviu o Senhor Ramacandra como o Seu irmão mais novo.

 

SIGNIFICADO

 

Entre os sannyasis da Sankara-sampradaya, há diferentes nomes para brahmacaris. Cada sannyasi tem alguns auxiliares, conhecidos como brahmacaris, que recebem diferentes nomes segundo os nomes do sannyasi. Entre tais brahmacaris há quatro nomes: Svarupa, Ananda, Prakasa e Caitanya. Nityananda Prabhu manteve-se como brahmacari: Ele jamais tomou sannyasa. Como brahmacari, Seu nome era Nityananda Svarupa e por isso, o sannyasi com quem Ele vivia deve ter sido dos tirthas ou asramas, porque o brahmacari auxiliar de tal sannyasi chama-se Nityananda Svarupa

 

VERSO 150

 

ramera caritra saba,—duhkhera karana

svatantra lilaya duhkha sahena laksmana

 

TRADUÇÃO

 

As actividades do Senhor Rama estavam repletas de sofrimento, porém, Laksmana tolerava esse sofrimento voluntariamente.

 

VERSO 151

 

nisedha karite nare, yate chota bhai

mauna dhari’ rahe laksmana mane duhkha pai’

 

TRADUÇÃO

 

Ele não podia contrariar a resolução do Senhor Rama, por ser Seu irmão mais novo, e assim permanecia calado, embora mentalmente infeliz.

 

COMENTÁRIO

 

Assim como Krsna apareceu como o Senhor Ramacandra, Balarama apareceu como Laksmana. Se analizarmos em termos do ciclo de eras, o Senhor Ramacandra apareceu anteriormente, em Treta-yuga, e o Senhor Krsna apareceu posteriormente, em Dvapara-yuga. Os passatempos do Senhor Ramacandra estavam cheios de sofrimento. Rama e Laksmana eram os filhos mais qualificados do rei Dasaratha, e todos esperavam que o Senhor Rama fosse coroado como o rei de Ayodhya. No último momento, no entanto, a Rainha Kaikeyi lembrou a Dasaratha que ele lhe tinha concedido dois desejos, em reconhecida retribuição pelo seu serviço, quando ele se encontrava em grande perigo. No momento em que Dasaratha lhe concedeu estes dois pedidos, Kaikeyi disse que não os aceitaria no momento, mas mais tarde reclama-los-ia. Por várias razões, Kaikeyi queria que o seu filho Bharata se tornasse rei em lugar do Senhor Rama, por isso ela fez esse pedido ao rei. Devido a que o rei Dasaratha lhe tinha dado a sua palavra,  sentia-se na obrigação de mantê-la. Ela também pediu que o Senhor Rama fosse enviado para o exílio por um período de catorze anos, para que Bharata pudesse desfrutar do trono sem perturbações.

 

O Ramayana está repleto de exemplos perfeitos. O Senhor Rama é o rei ideal, o filho ideal, o enteado ideal, o marido ideal; Sita é a esposa ideal, Laksmana é o irmão ideal. O Senhor Ramacandra, o filho ideal, vendo o quão perturbado estava o seu pai, quando foi obrigado a pedir-lhe para abandonar o trono e partir para a floresta, voluntáriamente disse, “Sim, eu ficarei feliz por partir. Não se preocupe.” Quando o Senhor Rama decidiu partir, Laksmana declarou, “Não podes ir para a floresta sózinho. Eu também irei contigo.” O Senhor Rama aceitou. Então, Sitadevi salientou, “Eu sou a tua esposa e devo acompanhar-te em todas as circunstâncias.” Na verdade, quase todos os habitantes de Ayodhya queriam acompanhar Rama. No entanto, o Senhor Ramacandra disse-lhes: “Se todos vocês me acompanharem, não ficará ninguém em Ayodhya. Por isso, fiquem aqui.

 

Na floresta, o Senhor Ramacandra passou por muitas dificuldades. No Srimad-Bhagavatam existe um belo verso que descreve como os suaves pés de lótus de Ramacandra tiveram que atravessar o solo da selva, que estava cheio de pedras, calhaus e espinhos. As gopis também costumavam chorar, ao pensarem que os pés de lótus de Krsna seriam picados e espetados pelas pedras e espinhos. Assim como os devotos de Krsna consideram os Seus passatempos em Vrndavana os mais agradáveis, por causa da sua doçura e intimidade, os devotos do Senhor Rama consideram os Seus passatempos na floresta como os mais doces e os mais saborosos. No entanto, externamente, o Senhor sofreu na floresta, e Laksmana não pode fazer nada para impedir que isso acontecesse.

 

Krsnadasa Kaviraja Gosvami explica maravilhosamente no Caitanya-caritamrta que todos-desde o Senhor Balarama, a primeira expansão, até às outras expansões de Krsna-possuem o sentimento de servidão para com o Senhor Krsna, e mesmo as outras expansões de Krsna sentem prazer em servir Krsna. Por outras palavras, sentem-se felizes quando Krsna está feliz. Laksmana não conseguia tolerar todo o sofrimento pelo qual o Senhor Rama passou, mas porque Ele era o irmão mais novo, não podia impedir o Senhor Rama de agir. Houveram outros momentos em que Ele se sentiu na mesma posição desconfortável.

 

Por exemplo, quando Ravana foi morto e Sitadevi foi libertada, Laksmana foi obrigado a fazer algo muito doloroso. O Senhor Ramacandra declarou que Ele não levaria Sita consigo. Sita respondeu, “Se não me vais levar contigo, qual foi a finalidade desta guerra-de tanto derramar de sangue e de tantas mortes?” Rama respondeu, “ Não lutámos nesta guerra para te recuperar. Lutámos para mostrar a força da nossa dinastia, para que o mundo não julgue que somos fracos. Passaste a noite com outro homem, e por isso não posso levar-te comigo.”Então o Senhor Rama disse a Laksmana, “Agora deves agarrar em Sita e colocá-la no fogo.” A Mãe Sita era a deidade adorável de Laksmana. Como poderia Ele colocá-la no fogo? No entanto, sendo o irmão mais novo, não tinha outra escolha.

 

Assim, Laksmana teve de executar muitas actividades que lhe causavam dor, porque, em última instância, causavam dor a Sita-Rama, e ele não podia fazer nada por causa da Sua posição subalterna. Por isso, Ele fez o voto de que, no futuro, nunca mais apareceria como o irmão mais novo do Senhor Supremo. Dessa forma, podemos constatar que em krsna-lila Ele aparece como o irmão mais velho, Balarama, e em gaura-lila Ele também aparece como o irmão mais velho, Nityananda.

 

VERSO 152

 

krsna-avatare jyestha haila sevara karana

krsnake karaila nana sukha asvadana

 

TRADUÇÃO

 

Quando o Senhor Krsna apareceu, Ele [Balarama] tornou-se Seu irmão mais velho para servi-Lo como desejava e fazê-Lo desfrutar de todas as espécies de felicidade.

 

VERSO 153

 

rama-laksmana—krsna-ramera amsa-visesa

avatara-kale donhe donhate pravesa

 

TRADUÇÃO

 

Sri Rama e Sri Laksmana, que são porções plenárias do Senhor Krsna e do Senhor Balarama, entraram n`Eles na época do aparecimento de Krsna e Balarama.

 

SIGNIFICADO

 

Citando o Visnu-dharmottara, o Laghu-bagavatamrta explica que Rama é uma encarnação de Vasudeva, Laksmana é uma encarnação de Sankarsana, Bharata é uma encarnação de Pradyumna e Satrughna é uma encarnação de Anirudha. O Padma Purana descreve que Ramacandra é Narayana e Laksmana, Bharata e Satrughna, são respectivamente, Sesa, Cakra e Sankha (o búzio na mão de Narayana). No Rama-gita do Skanda Purana, Laksmana, Bharata e Satrughna são descritos como os três auxiliares do Senhor Rama.

 

VERSO 154

 

sei amsa lana jyestha-kanisthabhimana

amsamsi-rupe sastre karaye vyakhyana

 

TRADUÇÃO

 

Krsna e Balarama apresentaram-se como irmão mais velho ou mais novo, porém, nas escrituras, descrevem-se-Os como a Suprema Personalidade de Deus original e Sua expansão.

 

VERSO 155

 

ramadi-murtisu kala-niyamena tisthan

  nanavataram akarod bhuvanesu kintu

krsnah svayam samabhavat paramah puman yo

  govindam adi-purusam tam aham bhajami

 

TRADUÇÃO

 

“Adoro Govinda, o Senhor primordial, que, mediante Suas diversas porções plenárias, apareceu no mundo sob diferentes formas e encarnações, tais como o Senhor Rama, mas que pessoalmente aparece sob Sua suprema forma original como o Senhor Krsna.”

 

SIGNIFICADO

 

Esta é uma citação do Brahma-samhita (5.39).

 

VERSO 156

 

sri-caitanya—sei krsna, nityananda—rama

nityananda purna kare caitanyera kama

 

TRADUÇÃO

 

O Senhor Caitanya é o mesmo Senhor Krsna, e o Senhor Nityananda é o Senhor Balarama. O Senhor Nityananda satisfaz todos os desejos do Senhor Caitanya.

 

VERSO 157

 

nityananda-mahima-sindhu ananta, apara

eka kana sparsi matra,—se krpa tanhara

 

TRADUÇÃO

 

O oceano das glórias do Senhor Nityananda é infinito e insondável. Apenas por Sua misericórdia posso tocar uma só gota deste oceano.

 

VERSO 134

 

ei-rupe nityananda ‘ananta’-prakasa

sei-bhave—kahe muni caitanyera dasa

 

TRADUÇÃO

 

Dessa maneira o Senhor Nityananda tem ilimitadas encarnações. Com emoção transcendental, Ele diz-se servo do Senhor Caitanya.

 

VERSO 135

 

kabhu guru, kabhu sakha, kabhu bhrtya-lila

purve yena tina-bhave vraje kaila khela

 

TRADUÇÃO

 

Às vezes, Ele serve o Senhor Caitanya como guru, às vezes, como Seu amigo e, às vezes, como Seu servo, assim como o Senhor Balarama brincava com o Senhor Krsna nestes três diferentes sentimentos em Vraja.

 

COMENTÁRIO

 

“Por vezes Ele serve o Senhor Caitanya como Seu guru” significa que ele presta serviço no papel de irmão mais velho, como professor. O Senhor Balarama, sendo o irmão mais velho do Senhor Krsna, encontrava-se na posição de professor e autoridade para o Senhor Krsna, e por isso Ele serviu o Senhor com alguma vatsalya-rasa. Vatsa em Sânscrito significa “bezerro” ou “filho querido”, pois a vaca é também uma das nossas mães. Assim, a afeição maternal ou paternal é vatsalya-rasa. Assim como o irmão mais velho é solicitado para cuidar do irmão mais novo, o Senhor Balarama em Vrndavana, serviu algumas vezes o Senhor Krsna em vatsalya-rasa. Ele prestava serviço a Krsna como guru, e, por vezes, também servia a Krsna como amigo, ou em igualdade, em sakhya-rasa, e por vezes também como Seu servente, em dasya-rasa. O Senhor Nityananda serve o Senhor Caitanya com os mesmos três sentimentos.

 

 

VERSO 136

 

vrsa hana krsna-sane matha-mathi rana

kabhu krsna kare tanra pada-samvahana

 

TRADUÇÃO

 

Actuando como um touro, o Senhor Balarama luta com Krsna, cabeça a cabeça. E às vezes o Senhor Krsna massaja os pés do Senhor Balarama.

 

COMENTÁRIO

 

Certa vez, depois da Ardha-kumbha-mela em 1971, íamos de comboio com Srila Prabhupada, e alguns de nós estávamos com Srila Prabhupada no seu compartimento. Srila Prabhupada pediu a um devoto para ler do livro de Krsna. O devoto perguntou, “Devo ler de alguma parte em particular?” Srila Prabhupada respondeu, “Não, tudo é néctar.” Assim, o devoto abriu o livro na história de Dhenukasura, o demónio asno que foi morto por Balarama. No principio da história os vaqueirinhos aproximaram-se ao Senhor Krsna dizendo, “Da floresta de Talavana vem um aroma a frutas muito doces, mas não as podemos desfrutar devido aos demónios que vivem lá.” Depois do devoto ter lido essa passagem, Srila Prabhupada abriu muito os olhos e exclamou, “Vejam só como os vaqueirinhos tentaram ocupar o Senhor Krsna na gratificação dos seus sentidos!” Depois de ler por algum tempo mais, o devoto mostrou a todos a pintura do passatempo. Ao vê-la, Srila Prabhupada ficou muito agradado e disse, “Os artistas fizeram um grande serviço; o seu serviço não foi em vão.”

 

No quarto de Srila Prabhupada, em Juhu, havia uma pintura muito bonita do Senhor Balarama deitado debaixo de uma árvore, enquanto o Senhor Krsna  lhe massajava os pés de lótus. Isto é mencionado aqui: Ás vezes Krsna massajava os pés de lótus de Balarama, assim como um discípulo serve o guru, ou como um filho serve o seu pai.

 

VERSO 137

 

apanake bhrtya kari’ krsne prabhu jane

krsnera kalara kala apanake mane

 

TRADUÇÃO

 

Ele considera-se um servo e sabe que Krsna é Seu amo. Assim, Ele considera-se um fragmento de Sua porção plenária.

 

COMENTÁRIO

 

Até mesmo o Senhor Balarama deseja servir Krsna, considerando-Se muito insignificante em comparação. Embora, na verdade, ele seja a primeira expansão do Senhor com as mesmas potências de Krsna, Ele considera-se apenas um fragremento de um fragmento de Krsna (kalara kala). Por outras palavras, Ele é humilde. O sentimento de serviço e o sentimento de humildade caminham juntos. Quando eu me considero muito pequeno, naturalmente quero servir quem é grande. O Senhor Balarama é o mestre espiritual original, por isso devemos aprender com ele a como nos sentir humildes e insignificantes, e assim desenvolver o sentimento de querer servir quem é grande, o Supremo.

 

VERSO 138

 

vrsayamanau nardantau

  yuyudhate parasparam

anukrtya rutair jantums

  ceratuh prakrtau yatha

 

TRADUÇÃO

 

“Agindo como meninos comuns,  Eles faziam o papel de touros mugindo, enquanto lutavam um com o outro, e imitavam os gritos de diversos animais.”

 

SIGNIFICADO

 

Esta e as citações seguintes são do Bhagavatam (10.11.40) e (10.15.14).

 

COMENTÁRIO

 

Krsna, Balarama, e os vaqueirinhos brincam tal e qual como os amigos comuns.

 

VERSO 139

 

kvacit krida-parisrantam

  gopotsangopabarhanam

svayam visramayaty aryam

  pada-samvahanadibhih

 

TRADUÇÃO

 

“Às vezes, quando o Senhor Balarama, o irmão mais velho do Senhor Krsna, Se sentia cansado após brincar e deitava a Sua mão no colo de um vaqueirinho, o próprio Senhor Krsna servia-O, massajando-lhe os pés.”

 

VERSO 140

 

keyam va kuta ayata

  daivi va nary utasuri

prayo mayastu me bhartur

  nanya me ’pi vimohini

 

TRADUÇÃO

 

“Quem é esta mística poderosa, e de onde vem ela? Será uma semideusa ou uma demónia? Deve ser a energia ilusória de Meu amo, o Senhor Krsna, pois quem mais Me pode confundir?”

 

SIGNIFICADO

 

Os passatempos brincalhões do Senhor causaram suspeitas na mente do Senhor Brahma, que por isso roubou todas as vacas e vaqueirinhos do Senhor com o seu próprio poder místico, com o intuito de testar a omnipotência de Krsna. No entanto, Sri Krsna respondeu substituindo todas as vacas e meninos no campo. Os pensamentos de espanto do Senhor Balarama ao presenciar tão maravilhosa vingança são registados neste verso (SB. 10.13.37).

 

COMENTÁRIO

 

O Senhor Brahma ficou maravilhado ao ver como os habitantes de Vrndavana sentiam tanta afeição por Krsna. Assim, para poder ver mais passatempos gloriosos de Krsna, ele roubou os vaqueirinhos e os bezerros através do seu poder místico. Então, o Senhor Krsna, através de Seu poder místico superior, expandiu-Se em vários duplicados que se assemelhavam exactamente aos vaqueirinhos e aos bezerros. Durante um ano os vaqueirinhos e os bezerros eram, na verdade, expansões directas do Senhor Krsna. Muitos acontecimentos fora de série se passaram durante esse ano, e o Senhor Balarama suspeitava que algo estava diferente-embora Ele não soubesse dizer o quê. Então pensou, “Como foi possível Eu ter ficado iludido? Como foi possível Eu ter ficado confuso?” Concluiu, “Somente pelas potências do Senhor Krsna, foi possível Eu ter ficado confundido.”Dessa forma, Ele glorifica a potência do Senhor Krsna.

 

VERSO 141

 

yasyanghri-pankaja-rajo ’khila-loka-palair

  mauly-uttamair dhrtam upasita-tirtha-tirtham

brahma bhavo ’ham api yasya kalah kalayah

  sris codvahema ciram asya nrpasanam kva

 

“Qual é o valor de um trono para o Senhor Krsna? Os senhores dos diversos sistemas planetários aceitam a poeira de Seus pés de lótus em suas cabeças coroadas. Essa poeira faz os locais santos, sagrados, e mesmo o Senhor Brahma, o Senhor Siva, Laksmi, e Eu próprio, que somos todos porções de Sua porção plenária, transportamos eternamente essa poeira sobre nossas cabeças.”

 

SIGNIFICADO

 

Quando os Kauravas, para lisonjear Baladeva de modo a que Ele se tornasse aliado deles, falaram mal de Sri Krsna, o Senhor Baladeva irritou-se e falou este verso (SB 10.68.37).

 

COMENTÁRIO

 

Como Srila Prabhupada afirmou aqui, os Kauravas queriam convencer o Senhor Balarama a tornar-se seu aliado, contra Krsna e o Seu grupo, por isso acusaram o Senhor Krsna de ser arrogante e impudente. O Senhor Balarama, no entanto, defendeu o Senhor Krsna e declarou, “Qual é o valor de um trono para o Senhor Krsna? Os senhores de vários sistemas planetários aceitam a poeira dos Seus pés de lótus nas suas cabeças coroadas. Eles são os reis do universo, mas em vez das suas coroas de valor inestimável, preferem aceitar em suas cabeças a poeira dos pés de lótus do Senhor Krsna. Assim sendo, qual é o valor de um trono qualquer para o Senhor Krsna?” O Senhor Balarama declara-se como kalah kalayah, a porção da porção, ou o fragmento do fragmento do Senhor Krsna, assim como Krsnadasa Kaviraja também menciona  (kalara kala).

 

Nesta passagem podemos ver o quão humilde o Senhor Balarama é, o quanto Ele aprecia o Senhor Krsna, e também o quão leal Ele é. A caracteristica da politica é criar divisões, fazer com que um grupo enfraqueça, dividindo-o. (Portanto Srila Prabhupada disse, que a única coisa que pode destruir ISKCON é lutarmos entre nós. Desde o exterior nada pode destruir ISKCON.) Aqui vemos o quão fiel o Senhor Balarama era ao Senhor Krsna.

 

Por vezes, podemos escutar falar mal de um devoto e podemos pensar que uma boa maneira de fazer amizade com a pessoa que está a criticar, é concordar com ele, ou ela. Mas, se alinharmos nessa critica, especialmente na ausência do devoto que está a ser criticado, e sem a intenção de o ajudar, fragilizamos a nossa posição espiritual, e também enfraquecemos a missão de Srila Prabhupada.

 

Srila Prabhupada citava regularmente, “Existe força na união.” Ele comentou a história de um pai que queria que os seus filhos colaborassem entre si. Primeiro, o pai deu a cada um dos filhos um pau fininho e pediu-lhes para que o partissem, e cada um partiu o seu pau muito fácilmente. Então, apanhou um molho de paus da mesma espessura e, atando-os todos, pediu para que os filhos os partissem. Porque os paus estavam todos atados, nenhum dos filhos pode parti-los. Assim, o pai disse-lhes, “Do mesmo modo, se permanecerem unidos, niguém será capaz de vos derrotar. Mas se permanecerem sózinhos, cada um de vós pode ser derrotado. Sózinho, cada um de vocês pode ser partido.” Srila Prabhupada queria que permanecessemos unidos. Da união, surge a força-com Srila Prabhupada, Sri Caitanya Mahaprabhu e o Senhor Krsna no centro.

 

Srila Prabhupada deu um outro exemplo de um pai e os seus filhos. O pai estava doente e precisava que os seus filhos o massajassem mas, entre eles, começaram a lutar para decidir quem iria massajar as diferentes partes do corpo do pai. Um irmão massajava a cabeça, mas o irmão que estava a massajar os pés disse, “Eu quero massajar a cabeça-tu massajas os pés.” Outro irmão, que massajava o braço esquerdo, começou a argumentar com o irmão que massajava o braço direito: “Eu massajo o braço direito-tu, o braço esquerdo.” Ficaram tão envolvidos em argumentar entre si sobre quem iria massajar que parte do corpo, que o pai acabou por morrer. “Portanto,” Srila Prabhupada concluiu, “Deveis cooperar no serviço do vosso pai, não fiquem tão absortos sobre quem vai fazer que tipo de serviço a ele, que se esquecem completamente do pai.” 

 

Aqui está um muito bom exemplo do Senhor Balarama para nós seguirmos: como nos tornármos um servente humilde, como sermos fiéis e destemidos. Balarama não tinha medo de expressar a Sua devoção pelo Senhor Krsna, de proclamar as glórias do Senhor Krsna-até aos inimigos de Krsna. Devemos aprender isto do Senhor Balarama. Devemos rogar pela Sua misericórdia, para que Ele nos ensine essa atitude de serviço humilde, e também o sentimento de devoção fiel, de defesa de Krsna sem temor, de pregar as glórias de Krsna destemidamente.

 

Os versos anteriores descrevem um contraste muito interessante. Um verso explica como o Senhor Krsna massajava os pés de lótus do Senhor Balarama e o seguinte explica como o Senhor Balarama considera o Senhor Krsna Seu mestre. Também podemos ter sentimentos similares quando nos associamos, porque também nós somos irmãos e irmãs-irmãos e irmãs espirituais-e cada um de nós deve ter esse sentimento de serviço para com os outros. Por isso Srila Prabhupada disse que, entre nós, devemos dirigir-nos como prabhu, porque prabhu significa “mestre.” Nós somos os serventes, e os nossos prabhus são os nossos mestres-apesar de, também eles, serem serventes. Por vezes Balarama massajava os pés de lótus de Krsna e, algumas vezes Krsna massajava os pés de lótus de Balarama. Cada um estava imbuido do sentimento de dar prazer ao outro, por isso o Seu relacionamento era tão doce e sublime. Também nós, devemos ter essa predisposição de serviço.

 

Uma vez, em Mayapur, logo depois de ter tomado prasada, Srila Prabhupada ouviu gritos vindos do quarto ao lado. Ele enviou o seu servente, Hari-sauri prabhu, averiguar sobre a razão de tanta gritaria. Hari-sauri voltou e explicou, “Srila Prabhupada, os seus secretários envolveram-se numa discussão.” Então, Srila Prabhupada chamou-os e perguntou-lhes, “Qual é a dificuldade?”

 

Um secretário respondeu, “Srila Prabhupada, eu estou doente e o único alimento que eu realmente posso comer são os seus remanescentes, por isso quis ficar com eles.”

 

O outro secretário contra-argumentou, “Srila Prabhupada, sinto que todos os seus discipulos devem obter um pouco dos seus remanescentes, não somente um.

 

Então Srila Prabhupada respondeu: “Ele está doente, e se tudo o que pode comer e digerir são os meus remanescentes, deverias ter-lhos dado.” Srila Prabhupada explicou, “Não é suficiente ser o servente do mestre espiritual; também deves ser o servente dos outros serventes do mestre espiritual.” Srila Prabhupada disse que, por desenvolver essa atitude humilde de ser servente do servente, o devoto pode avançar maravilhosamente. Ele deu o exemplo de que na Bengala, sempre que uma pessoa santa visitava uma aldeia os aldeãos aproximavam-se a ele querendo obter um pouco de pó de seus pés, e convidavam-no a suas casas para o alimentar e servir. Todos eles pensavam, “Oh, ele é uma pessoa tão santa. Quero obter o pó de seus pés e servi-lo.” E a pessoa santa pensava, “Porque será que querem o pó de meus pés? Porque é que me querem servir? Sou apenas uma pessoa comum.” Srila Prabhupada disse, “Porque todos eram humildes, avançavam maravilhosamente.”

 

Entre nós, tal como Krsna e Balarama, devemos pensar que o outro é meu prabhu: “Quero servir o meu prabhu.” Deste modo todos avançaremos maravilhosamente e os nossos relacionamentos serão doces e puros e sublimes. As pessoas ficarão atraídas. Não somente se atrairão mas, de uma forma natural, quererão trazer outras pessoas também.

 

Numa tarde anterior, celebrámos Jhulana-yatra em Santa Barbara. Houve uma palestra e, naturalmente, também o balançar de Radha e Krsna mas sobretudo fazíamos kirtana. Havia uma atmosfera muito agradável. Tive o desejo de ir para a rua e dizer às pessoas, “Isto é algo tão agradável. Venham e experimentem.” Mas, depois de ter sentido esse desejo espontâneo de sair e chamar as pessoas para que elas também pudessem experimentar a doçura da consciência de Krsna, pensei, “Por vezes, não sinto esse desejo de convidar as pessoas para o templo, porque não sei o que experimentarão quando forem lá.” Estou seguro que aqui em Chicago é diferente e, provavelmente, é devido à minha natureza caída que sinto tais reservas, mas sei que nem sempre tenho a mesma confiança que senti na outra tarde em Santa Barbara. À medida que eu e os outros devotos presentes desfrutávamos do kirtana e do festival do baloiço, realizei que o processo da consciência de Krsna na sua essência-o processo de cantar os santos nomes em conjunto com outros devotos-é naturalmente doce, bem-aventurado e agradável. E quando sentimos esse prazer, queremos, de uma forma natural, convidar outros: “Venham, é algo tão maravilhoso. Venham e experimentem.”

 

Também pude realizar a razão de nós não sentirmos constantemente esse prazer, e porque é que enfrentamos tantas perturbações que minam o nosso desejo espontâneo e entusiasta de sair à rua para trazer outros que também possam experimentar essa satisfação. Qual é a razão? Realizei que é a maneira como muitas vezes lidamos uns com os outros, especialmente a maneira como lutamos entre nós e nos criticamos. Isso é o que polui toda a atmosfera. Isso é o que cobre a beleza pura, natural e o esplendor e prazer de cantar os santos nomes na associação de devotos, que é, verdadeiramente, o nosso único interesse e meta. Se pudessemos relacionar-nos da maneira como Krsna e Balarama lidavam entre si, não teríamos tal problema. Não faz nenhuma diferença o facto de Eles serem grandes e nós pequenos. O ponto é que, no relacionamento entre Eles, cada um é humilde e quer servir e agradar o outro. Por vezes Krsna faz o papel de mestre  e Balarama serve-O; por vezes acontece o oposto e Krsna serve Balarama. E é assim que deve ser entre nós-nenhuma politica, só serviço humilde e fiel. Naturalmente que não quero simplificar demasiado os problemas, mas estes são alguns dos meus pensamentos.

Agora chegámos ao famoso verso:

 

VERSO 142

 

ekale isvara krsna, ara saba bhrtya

yare yaiche nacaya, se taiche kare nrtya

 

TRADUÇÃO

 

O Senhor Krsna é o único controlador supremo, e todos os outros são Seus servos. Eles dançam como Ele os faz dançar.

 

VERSOS 143145

 

ei mata caitanya-gosani ekale isvara

ara saba parisada, keha va kinkara

 

guru-varga,—nityananda, advaita acarya

srivasadi, ara yata-laghu, sama, arya

 

sabe parisada, sabe lilara sahaya

saba lana nija-karya sadhe gaura-raya

 

TRADUÇÃO

 

Assim o Senhor Caitanya é também o único controlador. Todos os outros são Seus associados ou servos. Associados mais velhos que Ele, tais como o Senhor Nityananda, Advaita Acarya e Srivasa Thakura, bem como Seus outros devotos-sejam eles mais novos que Ele, iguais ou superiores-todos eles O ajudam em Seus passatempos. O Senhor Gauranga cumpre os Seus objectivos com a ajuda deles.

 

COMENTÁRIO

 

Alguém pode actuar como mais velho, outro pode actuar como igual, e outro como mais novo, mas a atitude de todos é a de servir o Supremo Senhor e de quererem satisfazer os desejos do Supremo Senhor. Também nos nossos relacionamentos, porque existem diferenças de avanço e idade, alguém pode actuar como mais velho, outro como igual, e outro como mais novo. Contudo, independentemente do papel que tenhamos, a nossa atitude interna deve ser sempre a de servir os outros devotos, ajudá-los em consciência de Krsna e no serviço devocional, e fazê-los felizes. Quando adoptarmos essa atitude, Srila Prabhupada ficará feliz, Sri Sri Gaura-Nitai ficarão felizes, Sri Sri Krsna-Balarama ficarão felizes e, automaticamente, nós também ficaremos felizes.

 

Bala significa “força,” e rama quer dizer “prazer.” O Senhor Balarama é a fonte da força espiritual dos devotos. Ele é o mestre espiritual original e d´Ele podemos conseguir força espiritual. Uma vez, Srila Prabhupada comentou, “Força significa inteligência.” Portanto, podemos orar ao Senhor Balarama por força espiritual e inteligência para que possamos ser serventes fieis do nosso mestre espiritual, de Srila Prabhupada, dos outros serventes seus, e de todas as entidades vivas-porque na verdade, a missão de Srila Prabhupada é a de libertar todas as entidades vivas para a consciência de Krsna. Naturalmente que fazemos amizade com os devotos, mas também somos misericordiosos com os inocentes, tentando animá-los em consciência de Krsna. Tentamos encorajar os nossos superiores no seu serviço em consciência de Krsna, tentamos animar os nossos amigos na consciência de Krsna, e tentamos animar os mais novos em consciência de Krsna. Por tal serviço-dando, encorajando, e ajudando os outros-o Senhor Balarama pode ficar satisfeito.

Hare Krsna.

 

Têm algumas perguntas ou comentários?

 

Devoto: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Estivemos a ler sobre o passatempo em que Brahma rouba os vaqueirinhos e os bezerros ao Senhor Krsna. Este foi o último capitulo do Srimad-Bhagavatam  que Srila Prabhupada traduziu enquanto jazia na sua cama, em Vrndavana. Ele estava muito débil. Os seus discipulos tinham que segurar o ditafone e colocá-lo perto de sua boca; tinhamos muitas dificuldades em ouvir o que ele dizia. E um dos últimos significados que ele ditou foi, “Devemos analisar o SrimadBhagavatam diáriamente, tanto quanto possível, e então tudo se tornará claro. Quanto mais lemos o Srimad-Bhagavatam, mais o seu conhecimento se tornará claro. Todos e cada um dos versos são transcendentais.” (SB 10.13.54 significado)

 

Portanto, um método de chegar a uma conclusão sobre um tema controverso é analisá-lo. Srila Prabhupada disse que devemos reunir-nos e analisar o assunto exaustivamente. Se não houver motivações pessoais, e se discutirmos com o propósito de chegarmos à conclusão apropriada, então-por escutar as ideias dos outros e clarificar as nossas, através da discussão-obtemos respostas, pela misericórdia do Senhor dentro dos corações dos devotos que sinceramente expõem o Seu serviço.

 

Mas por vezes-devido a que a consciência de Krsna é inconcebível-dois pontos de vista opostos podem estar certos. Uma coisa pode ser boa para uma pessoa mas não para outra, e é um sinal de maturidade apreciar tais diferenças e não estabelecer um braço de ferro por causa delas. Uma vez, logo depois de me ter unido aos devotos, viajava no carro do templo. Lembro-me que um devoto dizia que tínhamos que seguir um certo caminho para chegar ao nosso destino e outro dizia que deveríamos ir por outro. Ness altura, um devoto sábio e consciente de Krsna disse, “Ambos estão correctos porque os dois querem servir a Krsna da melhor maneira.”

 

Por vezes, não podemos dizer claramente qual é o melhor caminho. Pode haver um caminho mais curto que vai pela parte mais degradada da cidade, e outro mais extenso que é mais agradável à vista. Ou pode haver um caminho mais curto que gaste menos gasolina,e um caminho mais longo que seja mais rápido porque a estrada é melhor. Portanto, em termos absolutos, não podemos dizer qual o melhor: dependendo das circunstâncias, uma pessoa pode valorizar mais o seu tempo, e outra pode valorizar mais o seu dinheiro.

 

Assim que, é um sinal de imaturidade argumentar fortemente sobre um tema como se fosse absoluto quando na realidade não o é. Absoluto, é o desejo de servir a Krsna. Contudo, podem haver diferentes maneiras de O servir. Não necessáriamente um caminho tem que ser melhor que outro-pelo contrário, pode ser melhor para uma pessoa ou numa circunstância específica.

 

A minha própria conclusão é de que Srila Prabhupada tinha tanto amor pelas entidades vivas, e tanta energia, que conseguia fazer coisas que nunca ninguém conseguiu fazer. Mesmo a maior parte de seus irmãos espirituais não conseguiam sondar a sua grandeza. Por isso, eles aplicaram-lhe normas comuns, mas um critério assim, não era, na verdade, apropriado-porque ele era inconcevívelmente poderoso. (Ao mesmo tempo, Srila Prabhupada disse que não queria que a ISKCON se tornasse num culto de personalidade. Ele estava a ensinar uma ciência e queria que nós a conhecêssemos e a seguissemos.) Portanto, temos  que apreciar a grandeza de Srila Prabhupada. Pessoalmente sinto que, qualquer coisa que eu queira em consciência de Krsna, posso consegui-la de Srila Prabhupada. Não sinto que tenha que ir a outro sitio qualquer para a conseguir. Não sinto que falte alguma coisa naquilo que Srila Prabhupada nos deu.

 

Por vezes Krsna massajava os pés de lótus de Balarama, e algumas vezes Balarama massajava os pés de lótus de Krsna. Deste modo, algumas vezes Krsna era superior, outras um igual ou amigo, e ainda outras um júnior. Em qualquer posição fomos feitos para servir, e todo o serviço é absoluto. Numa carta, Srila Prabhupada escreveu a um discípulo: “A prática de servir os nossos irmãos espirituais é muito boa. O mestre espiritual nunca está sem os seus seguidores, portanto servir o mestre espiritual também significa servir os seus discípulos. Quando se serve o rei também se deve servir os seus ministros, os seus secretários, e todos os que o servem. E o rei pode ficar mais satisfeito se servimos os seus serventes do que se o servimos pessoalmente. Portanto o mestre espiritual não se encontra sózinho. Sempre está com o seu séquito. Não somos impersonalistas. Queremos servir a cada parte do todo, assim como cuidamos do chapéu e dos sapatos. Ambos são importantes para a manutenção do corpo.”

 

Uma vez, um irmão spiritual comentou que nós queremos Srila Prabhupada no centro, e os ritviks querem Srila Prabhupada no centro, mas a diferença é que eles querem Srila Prabhupada sem os associados enquanto que nós queremos Srila Prabhupada com os associados. Esse era o sentimento de Prabhupada e essa é a diferença entre um devoto neófito e um mais avançado. O devoto neófito só conhece a Krsna e o seu guru. Um devoto mais avançado pode reconhecer outros devotos e apreciar o relacionamento deles com Krsna e com o guru e ele, ou ela, também quer servi-los.

 

Na verdade, é inconcebível: inconcebivelmente uno e diferente. O sol e os raios do sol são a mesma coisa contudo, simultaneamente, não são  a mesma coisa. Ainda assim eles formam um todo completo. Portanto, Krsna com os Seus devotos são um todo completo, e servir Krsna sem servir os Seus devotos não é completo. De igual modo, Srila Prabhupada com os seus devotos é um todo completo e, só servir Srila Prabhupada sem servir os seus devotos não satisfará Srila Prabhupada tão completamente como se o servirmos com os seus outros serventes. Portanto, lutar por supremacia-supremacia filosófica, supremacia politica-não é a atitude que queremos ou necessitamos.

 

Mas existem outros que também queriam falar. Eles poderão dizer algo mais.

 

Murari Caitanya: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Quando Murari Prabhu iniciou a sua pergunta, eu pensei na primeira vez que Tamal Krishna Goswami e Brahmananda Prabhu visitaram Boston. Naquela altura eles eram ídolos. Brahmananda disse algo que me tocou. Foi algo muito simples. Ele disse, “Todos queremos amor. Portanto, se tão só dermos a cada um o amor que queremos para nós próprios, ficaremos todos satisfeitos.”

 

Também sinto que precisamos de escutar e cantar mais sobre Krsna porque, só por nos sentarmos e cantarmos o maha-mantra Hare Krsna, o coração abre. Muitos problemas desaparecem simplesmente por cantar. Em 1977, Srila Prabhupada estabeleceu um programa aos Domingos, em Juhu, que consistia em cantar todo o dia no templo, desde as nove da manhã, até às nove da noite. Eu era o presidente do templo e estavamos com problemas (sempre existem problemas no mundo material), mas lembro-me, que a partir de quinta-feira, não lidava com eles porque sabia que no Domingo conseguia todas as soluções. E era sempre assim. Só por cantar, obtinha muitas respostas. A mesma situação ocorreu durante o pada-yatra. Quando estava com dificuldades com o visto e não podia entrar na India, fizemos pada-yatra nas Mauricias desde Radhastami de 1984, até Gaura Purnima em 1986 e aconteceu a mesma coisa: com a minha mente e inteligência, não conseguia descobrir as soluções para tantos problemas mas, simplesmente por cantar durante horas-caminhando e cantando-obtive muitas respostas. Num sentido, ISKCON é um veículo que transporta a consciência de Krsna mas, o verdadeiro meio, é o escutar, cantar e lembrar de Krsna.

 

Devoto: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Ista-gosthi: ista quer dizer “desejável,” e gosthi significa “associação.” Portanto, é esse o significado. Devemos juntar-nos e falar sobre Krsna e o serviço a Krsna. Não quis sugerir que, como cantamos juntos, não precisamos de dialogar uns com os outros. Pelo contrário, quis dizer que, cantando juntos podemos criar um bom sentimento dentro de nós e entre nós para que, quando tenhamos que falar, seja mais espiritual e agradável. Até os assuntos mais práticos Srila Prabhupada tinha por costume discuti-los durante muitas horas. Por exemplo, uma vez Gargamuni fez uma importação de umas carrinhas Mercedes para o sankirtan viajante, mas nessa altura o governo indiano era muito estrito: ou pagava-se um imposto muito grande para o veículo entrar no país, ou então tinha que se tirar o veículo para fora do país no prazo de seis meses e mantê-lo fora por, pelo menos, mais seis meses. Assim, Gargamuni tinha feito esta importação e o tempo estava a aproximar-se para o desalfandegamento; de outro modo ele teria que pagar o imposto que era de 220% sobre o custo original. Foi um tema muito importante. Gargamuni perguntou a Srila Prabhupada, “O que devo fazer com as carrinhas? Devo levá-las para o Nepal e fico por lá a pregar durante seis meses e depois trago-as de volta ou devo enviá-las de volta para a Europa?” Literalmente, Srila Prabhupada passou horas com ele. Haviam tantas alternativas e tantos prós e contras.

 

Também no projecto de Juhu, Srila Prabhupada ficava connosco até altas horas da noite tentando descobrir o que fazer. É impessoal pensar, “Oh, eu só quero cantar o santo nome. Não me interessa nada deste mundo. Não quero falar nem fazer nada; só quero fundir-me no Brahman.” Não posso dizer quantas horas Srila Prabhupada dispendia tentando ajudar os devotos a encontrar soluções para os seus problemas. Sentia-se que ele estava connosco.

 

Mas, por vezes, ele também nos dizia que não o importunássemos tanto. Lembro-me que uma vez nós exagerámos. Íamos a ele com todo o tipo de perguntas práticas e administrativas que tivessemos e, finalmente, depois de se ter disponibilizado tão generosamente, bem como ao seu tempo, disse, “O guru não é uma máquina de perguntas-respostas.” Então disse, “Fulano de tal deve ser o vice-presidente e acabaram-se os argumentos. Agora tenho que traduzir os meus livros.”

 

Mas, sim, precisamos de dialogar. Em qualquer relacionamento, devemos ser capazes de dialogar.

 

Damodar Pandit: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Muito obrigado por essa descrição emocionante. Recentemente, também passei por uma agitação. Depois, enquanto folheava o Bhagavad-gita deparei com o verso, api cet su-duracaro bhajante mam ananya-bhak sadhur eva sa mantavya: “Mesmo que alguém cometa acções das mais abomináveis, se estiver ocupado no serviço devocional, deve ser considerado santo, porque está devidamente ocupado em sua determinação.” “Devidamente ocupado” quer dizer ocupado em serviço devocional-mesmo se a pessoa comete a acção mais abominável.

 

Estava a ler o Bhagavad-gita juntamente com o livro que se intitula Surrender Unto Me, escrito por Bhurijana Prabhu. Bhurijana Prabhu inclui alguns comentários de acaryas anteriores e, num lugar, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura desenvolve o diálogo entre Krsna e Arjuna, onde Krsna diz, “Declara abertamente que o Meu devoto jamais perece,” Srila Visvanatha Cakravarti Thakura parafraseia, “Ó Kaunteya, declara com tambores e címbalos, que meu devoto jamais perece.” Então Sri Visvanatha introduz um hipotético questionador. Quando Krsna diz que, mesmo se o devoto comete a acção mais abominável “ainda é considerado santo,” este questionador faz uma objecção, “Sim, ele pode ser considerado santo até ao ponto em que ele está ocupado em serviço devocional puro,” à qual o Senhor Krsna responde, “Não. Ainda que ele não esteja ocupado a cem por cento, deve ser considerado santo.” Então o questionador hipotético pergunta, “Mas, e se o devoto fracassa em abandonar o seu mau comportamento durante toda a vida?” Krsna responde, “Eu, Krsna, sou o Supremo Senhor e, mesmo que um devoto fracasse, jamais perecerá. Pelo contrário, na certeza que terá sucesso.”

 

Bom, quando eu li isso (e eu, nessa altura, sentia-me muito caído), tive uma realização semelhante aquela que acabas de descrever. (Penso que o que experimentei foi o extremo daquilo que tu experimentaste, porque eu tinha acabado de passar por uma cirurgia de coração aberto, e pensava, “Que falhado que sou! Nem sequer consigo executar a função mais básica de manter o corpo e a alma juntos. Sou um fracasso completo!”)  Entretanto quando li essa afirmação enfática e misericordiosa, realizei que, aos olhos de Krsna, pela graça dos acaryas, ainda sou considerado um devoto.

 

A outra realização que vivenciei nessa altura foi que, apesar de ser um devoto, também sou um indivíduo. Não existe um esteriótipo de como deve ser um devoto. Assim como não existem dois indivíduos iguais, também não existem dois devotos iguais. E o facto de eu não ser exactamente o mesmo que outra pessoa, que é um melhor devoto, não significa que eu não sou um devoto. Sendo um devoto, o meu ponto de vista é intrínsecamente válido porque, de uma ou outra forma sou um devoto-apesar de não ser tão influente ou exitoso ou erudito como outro devoto possa ser. Assim, penso que o que tu dizes está correcto: temos que aceitar a nossa própria individualidade para depois aceitar a individualidade dos outros. De outro modo, se tentarmos fazer uma estimativa de nós próprios em relação a uma fasquia artificial ou impossível de chegar e não aceitarmos a nossa própria individualidade, então, também faremos uma estimativa dos outros com a mesma fasquia artificial e observaremos que nós fracassamos, eles fracassam, todos fracassam e, como consequência, todo o processo torna-se deprimente.

 

Muitíssimo obrigado. Todas as glórias a Srila Prabhupada! Sri Balarama Prabhu ki jaya!

 

 

 

 

 

 

 

 

Written by nityananda108

Agosto 15, 2008 at 12:00 am

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Guru Purnima

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Guru-purnima

 

Uma Aula Dada por Giriraja Swami

29 de Julho, 2007

Dallas

 

 

om ajnana-timirandhasya jnananjana-salakaya

caksur unmilitam yena tasmai sri-gurave namah

 

sri-caitanya-mano ’bhistam sthapitam yena bhutale

svayam rupah kada mahyam dadati sva-padantikam

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

 

Hoje é Guru Purnima. Srila Prabhupada explicou que o sistema de honrar o mestre spiritual é comum em todas as secções dos seguidores védicos. Nas seitas Mayavadis (impersonalistas), os discípulos oferecem respeitos ao mestre espiritual uma vez por ano, em Guru-purnima. Na sampradaya Gaudiya Vaisnava, os discípulos oferecem homenagem anualmente, no dia do aparecimento do mestre espiritual; este dia é chamado Vyasa-puja porque o mestre espiritual representa Vedavyasa, a manifestação de Krsna com poderes excepcionais, que compilou as literaturas védicas e, o mestre espiritual fidedigno, apresenta o mesmo conhecimento através da sucessão discipular. Apesar de Guru-purnima ser geralmente celebrado pelos grupos Mayavadis, vamos aproveitar-nos desta oportunidade para falar sobre o princípio do guru-e glorificar o acaryasampradaya, porque hoje é o dia de Guru-purnima.

 

Guru é um assunto profundo. Nós cantamos, vande´ham sri-guroh sri-yuta-pada-kamalam sri-gurun vaisnavams ca. Oferecemos respeitos ao mestre espiritual, no singular, aos mestres espirituais, no plural, e a todos os Vaisnavas. O mestre espiritual, no singular, é o mestre espiritual pessoal, os mestres espirituais, no plural, são os acaryas predecessores, e os Vaisnavas são os seguidores do mestre espiritual. Oferecemos respeitos a todos eles, porque vêm na mesma linha, na sucessão discipular (parampara) que começa com o próprio Krsna.

 

Srila Prabhupada explica, “Oferecer respeitos ao mestre espiritual significa oferecer respeitos a todos os acaryas anteriores. Gurun encontra-se no plural. Os acaryas não são diferentes entre si, porque todos pertencem à sucessão discipular que começa com o mestre espiritual original e, portanto, não têm pontos de vista diferentes.” Deste modo oferecemos respeitos aos predecessores.

 

Similarmente, oferecemos respeitos aos seguidores. Srila Prabhupada continua a explicar, “Mestre espiritual significa alguém que deve ter muitos seguidores, que, por sua vez, são todos Vaisnavas. São chamados prabhus, e o mestre espiritual é chamado Prabhupada porque, a seus pés de lótus, estão muitos prabhus. Pada significa “pé de lótus.” Todos estes Vaisnavas são prabhus. A eles também se lhes oferece reverências-não somente ao mestre espiritual , mas também aos seus associados. E estes associados, os seus discípulos, são todos Vaisnavas. Portanto também a eles se lhes deve oferecer respeitosas reverências.” (Comentário de SP ao Mangalacarana, 8 de Janeiro, 1969)

 

Para nós, na ISKCON, Srila Prabhupada é o guru mais importante; ele é o acarya-fundador. Mas ele também tem os seus associados—Srila Gour Govinda Swami Maharaja, Srila Tamal Krishna Goswami Maharaja, Srila Sridhar Swami, Srila Bhakti Tirtha Swami, Srila Bhaktisvarupa Damodara Swami—isto para enumerar alguns que já partiram. Naturalmente que Srila Prabhupada está a ser servido, no presente, por tantos outros aos quais podemos servir e com os quais podemos aprender.

 

“Aquele que ensina pode ser tratado como mestre espiritual. . . . Todos os irmãos espirituais mais velhos podem ser tratados por gurus, porque nos instruem. Não há nenhum problema. Na verdade, assim como só temos um pai, também só temos um guru, que é aquele que nos inicia. Mas todos os Vaisnavas devem ser tratados por prabhu, mestre, superior a mim e, neste sentido, se eu aprendo dele, posso aceitá-lo como guru.” (Carta de SP datada de 20 de Novembro, 1971)

 

O guru original é Krsna. Ele fala o conhecimento do Bhagavad-gita e estabelece os princípios da religião. Dharmam tu saksad bhagavat-pranitam: os princípios de dharma-bhagavata-dharma, prema-dharma-são estabelecidos por Deus, a Pessoa Suprema. Não podemos manufacturar o dharma. Na verdade, dharma quer dizer “as leis de Deus” ou “as ordens de Deus.” Portanto, dharmam tu saksad bhagavat-pranitam: os princípios da religião são estabelecidos pelo próprio Senhor. Assim como não podemos fazer as nossas próprias leis, também não podemos inventar os princípios religiosos. Srila Prabhupada dá o exemplo de uns amigos que se reunem para fazerem as suas próprias leis. “Bom, agora penso que devemos legalizar a marijuana. Estão todos de acordo? Muito bem. Está aprovada.” A lei tem que, obrigatóriamente, ser estabelecida pelo governo, pelo parlamento ou pela legislatura. Do mesmo modo dharma é estabelecido por Deus.

 

dharmam tu saksad bhagavat-pranitam

 na vai vidur rsayo napi devah

na siddha-mukhya asura manusyah

 kuto nu vidyadhara-caranadayah

 

“Os verdadeiros princípios religiosos são decretados pela Suprema Personalidade de Deus. Embora plenamente situados no modo da bondade, nem mesmo os grandes rsis que ocupam os planetas mais elevados podem definir os verdadeiros princípios religiosos, tampouco o podem os semideuses ou os líderes de Siddhaloka, e isto para não mencionar os asuras, os seres humanos comuns, os Vidyadharas e os Caranas.” (SB 6.3.19)

 

A conclusão do Bhagavad-gita é sarva-dharma parityajya mam ekam saranam vraja-abandonarmos todas as variedades de dharmas e simplesmente rendermo-nos a Krsna. Para compreendermos estas verdades confidenciais sobre os princípios religiosos e o conhecimento do Bhagavad-gita, precisamos da ajuda dos mahajanas, as autoridades na consciência de Krsna—gurus.

 

svayambhur naradah sambhuh

 kumarah kapilo manuh

prahlado janako bhismo

 balir vaiyasakir vayam

 

dvadasaite vijanimo

 dharmam bhagavatam bhatah

guhyam visuddham durbodham

 yam jnatvamrtam asnute

 

“O Senhor Brahma, Bhagavan Narada, o Senhor Siva, os quatro Kumaras, o Senhor Kapila[o filho de Devahuti], Svayambhuva Manu, Prahlada Maharaja, Janaka Maharaja, o avô Bhisma, Bali Maharaja, Sukadeva Gosvami e eu próprio [Yamaraja] conhecemos o verdadeiro princípio religioso. Meus queridos serventes, este princípio religioso transcendental, conhecido como bhagavata-dharma, ou rendição ao Senhor Supremo e amor a Ele, não está contaminado pelos modos materiais da natureza. Ele é muito confidencial e difícil de ser entendido pelos seres humanos comuns mas se, por acaso, alguém tem a boa fortuna de compreendê-lo, liberta-se de imediato, e assim retorna ao lar, retorna ao Supremo.” (SB 6.3.20–21)

 

Este conhecimento confidencial é dado por Deus nas escrituras e transmitido através da sucessão discipular (evam parampara-praptam) às grandes almas, que por sua vez, transmitem-no aos seus seguidores entusiastas. De todas as escrituras, o Srimad-Bhagavatam é considerada a mais importante, o fruto maduro da árvore do conhecimento védico.

 

nigama-kalpa-taror galitam phalam

 suka-mukhad amrta-drava-samyutam

pibata bhagavatam rasam alayam

 muhur aho rasika bhuvi bhavukah

 

“Ó homens sábios e pensativos, saboreai o SrimadBhagavatam, o fruto maduro da árvore dos desejos das literaturas védicas. Ele emanou dos lábios de Sukadeva Gosvami. Portanto este fruto tornou-se ainda mais saboroso, apesar do seu sumo nectáreo já ser agradável para todos, até mesmo para as almas liberadas.” (SB 1.1.3)

 

Este fruto néctareo é-nos transmitido através da sucessão discipular. Ao comentar sobre este verso, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura dá o exemplo de uma árvore de mangas. Para apanhar uma manga madura que esteja no cimo da árvore, vários rapazes sobem para diferentes ramos. O rapaz que está no cimo da árvore apanha a fruta e dá-a ao rapaz que está no ramo mais abaixo, que, por sua vez, a dá a outro que está no outro ramo e assim vai, até que chega finalmente àquele que está no chão-na mesma condição perfeita como quando estava no cimo da árvore. Foi passada intacta, tal como estava antes, sem ser machucada nem aberta.

 

No cimo da árvore está Krsna e Ele transmite o conhecimento a Brahma. Brahma transmite-o a Narada que por sua vez o transmite a Vyasa. (Hoje também se chama Vyasa Purnima porque Vyasadeva, que compilou a literatura védica, apareceu nesta data.) Vyasa transmite-o a Madhvacarya, etc—Caitanya Mahaprabhu, os Seis Gosvamis e mais tarde, Srila Bhaktivinoda Thakura, Srila Gaurakisora dasa Babaji Maharaja, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura e Srila Prabhupada. E agora os seguidores de Srila Prabhupada apresentam o mesmo conhecimento. Os mesmos ensinamentos são apresentados e seguidos por eles—essa é a sua única qualificação.

 

Srila Prabhupada escreveu sobre Vedavyasa: “Vyasadeva foi uma pessoa que existiu e é aceite por todas as autoridades e qualquer pessoa pode realizar o quão maravilhoso foi, por ter compilado as literaturas védicas. Portanto ele conhecido como Mahamuni. Muni significa “pensador” ou “grande pensador” ou “grande poeta” e maha significa ainda maior. Não existe nenhuma comparação entre Vyasadeva e qualquer outro escritor ou pensador ou filósofo. Ninguém pode estimar a importância académica de Srila Vyasadeva. Ele compôs muitos milhões de versos em sânscrito e nós, através de nossos esforços diminutos, tentamos receber um fragmento que seja desse conhecimento que existe neles. Portanto, Srila Vyasadeva sumarizou todo o conhecimento védico no Srimad-Bhagavatam, que é conhecido como o fruto maduro da árvore dos desejos do conhecimento védico. O fruto maduro é recebido de mão em mão através da sucessão discipular e qualquer pessoa que execute este trabalho em sucessão discipular a partir de Srila Vyasadeva, é considerado um representante de Vyasadeva, e como tal, o dia do aparecimento do mestre espiritual fidedigno é adorado como Vyasa-puja.” (Carta de Srila Prabhupada datada de 25 de Agosto de 1970)

 

Hoje, é não só Vyasa Purnima, o dia de aparecimento de Vedavyasa, mas é também o dia de desaparecimento de Srila Sanatana Gosvami, o mais sénior dos Seis Gosvamis de Vrndavana. O seu livro, Brhad-Bhagavatamrta, foi o primeiro trabalho literário importante dos Seis Gosvamis. Sanatana Gosvami também aparece na sucessão discipular a partir do Senhor Krsna e que passa por Brahma, mas ele é uma figura especialmente importante porque é um seguidor directo de Sri Caitanya Mahaprabhu, que é o próprio Krsna. Porque o Senhor Caitanya é Krsna, pode criar a sua própria sucessão discipular mas, porque actuava como um devoto, escolheu aceitar iniciação na sucessão discipular que começa com Krsna e Brahma. Contudo Ele é Deus e o processo que utilizou para impartir conhecimento aos Seus seguidores imediatos-Rupa e Sanatana Gosvamis-é comparado à forma como o Senhor Krsna impartiu conhecimento ao Senhor Brahma. No seu Caitanya-caritamrta Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami escreve sobre Rupa, o irmão mais novo de Sanatana Gosvami.

 

vrndavaniyam rasa-keli-vartam

 kalena luptam nija-saktim utkah

sancarya rupe vyatanot punah sa

 prabhur vidhau prag iva loka-srstim

 

“Antes que esta manifestação cósmica fosse criada, o Senhor iluminou o coração do Senhor Brahma, fornecendo-lhe os pormenores da criação, e manifestou-lhe o conhecimento védico. Da mesmíssima maneira, o Senhor, desejando ardentemente reviver os passatempos do Senhor Krsna em Vrndavana,imbuiu o coração de Rupa Gosvami de potência espiritual. Por meio desta potência, Srila Rupa Gosvami pode reviver as actividades de Krsna em Vrndavana, as quais estavam quase que completamente esquecidas. Dessa maneira, Ele propagou a consciência de Krsna por todo o mundo.” (Cc Madhya 19.1) O Senhor Caitanya outorgou-lhe poder para que escrevesse livros sobre a bhakti-yoga, e o mesmo pode ser dito acerca de Sanatana Gosvami.

 

Nós somos seguidores dos Seis Gosvamis—seguidores dos seus seguidores. Srila Narottama dasa Thakura ora,

 

ei chaya gosai yara-mui tara dasa

tan’-sabara pada-renu mora panca-grasa

 

“Eu sou o servente dessa pessoa que é um servente dos Seis Gosvamis. A poeira dos seus pés de lótus são os meus cinco tipos de alimento.”

 

E:

 

tandera carana sevi-bhakta-sane vasa

janame janame hoy ei abhilasa

 

“O meu desejo é que, nascimento após nascimento, eu possa viver com aqueles devotos que servem os pés de lótus dos Seis Gosvamis.”

 

Fomos muito afortunados em ter recebido em Santa Bárbara, há umas semanas atrás, quatro devotos provenientes de Dallas, díscípulos de Tamal Krishna Goswami—Dharma Prabhu e a sua esposa, a irmã desta, Saibya e a Mataji Padma. Nessa mesma altura também estava connosco Mayapur dasa, que foi o servente pessoal de Sridhar Swami durante muitos anos. Pensámos ser uma boa ocasião para glorificar esses dois serventes corajosos de Srila Prabhupada, esses dois pregadores poderosos, Tamal Krishna Goswami e Sridhar Swami. Foi muito inspirador e purificante. Todos os devotos falaram de uma forma muito bonita—cada um deles—na verdade podia-se perceber a presença de Tamal Krishna Goswami e de Sridhar Swami e verdadeiramente sentir essa união com Srila Prabhupada e os seus associados. Sua Santidade Niranjana Swami liderou o kirtana e também falou de uma forma muito bonita.

 

Na verdade sinto que estes líderes do movimento . . . Apesar de sermos todos irmãos espirituais, na medida em que fomos todos iniciados por Srila Prabhupada, existem alguns seguidores de Srila Prabhupada que foram—e são—verdadeiramente líderes do movimento e estão a mostrar o caminho para os outros seguirem. Certamente que Sua Santidade Tamal Krishna Goswami foi um grande pioneiro bem como Sua Santidade Sridhara Swami e os outros que eu mencionei. Mesmo agora os devotos continuam a seguir Srila Prabhupada e, ao liderar-nos, mostram-nos o caminho. Também nós estamos a tentar dar o nosso pequeno contributo, contudo, existem alguns que estão à nossa frente, mostrando-nos o caminho e tornando-o mais fácil, para que o possamos seguir. E isso é natural. Sempre haverá esta situação.                                       

 

Ao mesmo tempo, é algo muito pessoal e individual—quem é que Krsna utiliza para falar com esta ou aquela pessoa. Nem todos têm que seguir uma pessoa em particular. Krsna pode manifestar-Se—Srila Prabhupada pode manifestar-se—através de diferentes serventes, diferentes Vaisnavas, e devemos estar receptivos a esse fluir de misericórdia, não nos importando como chega até nós, ou quem a transporta. Não é algo esteriotipado, ou fixo, ou rígido. Essa misericórdia pode chegar de diferentes maneiras e devemos estar receptivos a ela. Na verdade, este é o princípio de guru: as instruções de Krsna chegam até nós através de algum servente de Krsna, algum representante de Krsna—e não está limitado a uma única pessoa. Krsna pode falar connosco através de muitas bocas, de muitas personalidades, e devemos estar com o coração aberto a essa guia. Devemos colocar as Suas instrucções sobre a nossa cabeça e segui-las. É desta maneira que Krsna guia as almas condicionadas de volta a casa, de volta ao Supremo. Ele pode ocupar diferentes serventes para nos ajudarem;e Deus sabe que precisamos de toda a ajuda possível. Portanto, não devemos ser sectários. Não nos devemos fechar ao fluxo de misericórdia que possa chegar até nós pelo arranjo do Supremo, pelo arranjo de Srila Prabhupada, ou pelo arranjo de qualquer um de nossos mestres espirituais.

 

Eu medito sempre no exemplo de Raghunatha dasa Gosvami, porque teve muitos gurus. Naturalmente que era um associado directo do próprio Senhor Caitanya mas, mesmo assim, ele foi ajudado por muitos bem-querentes e guias. Primeiro, foi iniciado por Yadunandana Acarya, o mestre espiritual da família de Raghunatha. O próprio Yadunandana Acarya era um Vaisnava muito importante, um discípulo iniciado de Advaita Acarya e um estudante íntimo de Vasudeva Datta. Balarama Acarya, um associado muito querido de Haridasa Thakura, era o sacerdote da família de Raghunatha. Raghunatha também aprendeu dele. Balarama Acarya e Yadunandana Acarya eram ambos amigos e costumavam hospedar Haridasa Thakura em suas casas. Durante algum tempo, Balarama Acarya disponibilizou a Haridasa uma cabana de palha e prasada,e simultaneamente,enquanto estudante, Raghunatha visitava Haridasa Thakura diáriamente; está dito que devido à misericórdia que recebeu de Haridasa, Raghunatha alcançou a misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu. Certa vez, Balarama Acarya convidou Haridasa Thakura para palestrar na assembleia da família de Raghunatha, os Majumdars, e assim Raghunatha pode escutá-lo novamente acerca das glórias do santo nome.

 

A seu devido tempo, Raghunatha dasa encontrou-se com Nityananda Prabhu em Panihati, onde recebeu a Sua benção de que se libertaria de todos os obstáculos e alcançaria refúgio aos pés de lótus de Sri Caitanya Mahaparabhu. Em breve Raghunatha fugiu de casa, viajou a pé para Puri, e alcançou o refúgio misericordioso de Sri Caitanya Mahaprabhu—pela misericórdia de Nityananda Prabhu. Então, Caitanya Mahaprabhu confiou Raghunatha dasa a Svarupa Damodara Gosvami: “Eu confio-te Raghunatha. Por favor aceita-o como teu filho ou servente.” Raghunatha ainda era muito jovem; tinha mais ou menos vinte e dois anos. Então, o Senhor agarrou na mão de Raghunatha e, pessoalmente, colocou-o aos cuidados de Svarupa Damodara Gosvami. Deste modo, Raghunatha tornou-se o assistente de Svarupa Damodara. Svarupa Damodara era o secretário de Sri Caitanya Mahaprabhu e Raghunatha dasa tornou-se, na prática, o secretário assistente.

 

Depois de Caitanya Mahaprabhu ter abandonado este mundo, seguido por Svarupa Damodara e por quase todos os outros associados íntimos, Raghunatha dasa sentiu-se vazio: “Estou completamente sózinho. Não existe nenhuma razão para eu continuar a viver. Como posso eu viver sem os meus prabhus, sem todos os meus mestres?”

 

Raghunatha dasa sentiu tanta saudade, que decidiu ir a Vrndavana ver os pés de lótus de Rupa e Sanatana e depois abandonar a sua vida saltando da Colina de Govardhana. Entretanto os dois irmãos não lhe permitiram morrer. Eles convenceram-no a permanecer com eles e falar sobre os últimos passatempos de Mahaprabhu. “Não deves desistir de viver.” disseram-lhe eles. “Estiveste com Sri Caitanya Mahaprabhu em Puri onde foste testemunha de muitos de Seus passatempos íntimos. Deves permanecer connosco para contar-nos acerca das tuas vivências com Ele.” E eles aceitaram-no como o seu terceiro irmão. 

 

Sanatana Gosvami, em particular, deu-lhe refúgio e cuidou dele. Nos primeiros dias, em Radha Kunda, quando Raghunatha dasa Gosvami fazia o seu bhajana, nao tinha nenhum lugar onde residir. E enquanto fazia o seu bhajana estava completamente alheio ao que acontecia à sua volta. Ele recitava mas tornava-se muito difícil porque entrava em transe. Contudo, ele recitava no minimo cem mil nomes. Por vezes, acontecia que ele recitava um nome e entrava em transe profundo enquanto os passatempos de Krsna se manifestavam em sua mente. Um dia, enquanto o sol escaldante brilhava sobre a sua cabeça, ele estava a recitar o nome de Krsna e a lembrar-se dos passatempos de Krsna. Sem o seu conhecimento, porque estava meditando profundamente, Srimati Radharani aproximou-se com um tecido e colocou-o sobre a sua cabeça. Ao aperceber-se disto, Sanatana Gosvami construiu, pessoalmente, um bhajana-kutir para Raghunatha dasa Gosvami. Ele cuidou de Raghunatha dasa em todos os aspectos.

No seu livro Vilapa-kusumanjali, Raghunatha dasa Gosvami começa por oferecer os seus respeitos aos seus gurus. Na literatura devocional escrita em sânscrito, os seus autores começam por oferecer respeitos aos seus gurus e às suas Deidades adoráveis. Por isso, no principio, ele oferece os seus respeitos a Sanatana Gosvami.

 

vairagya-yug-bhakti-rasam prayatnair

  apayayan mam anabhipsum andham

krpambudhir yah para-duhkha-duhkhi

 sanatanas tam prabhum asrayami

 

“Eu estava pouco disposto a beber o néctar do serviço devocional impregnado de renúncia, mas Sanatana Gosvami, devido à sua misericórdia sem causa, obrigou-me a bebê-lo apesar de, por minha conta, não ser capaz de o beber. Portanto, ele é um oceano de misericórdia. Ele é muito compassivo para com as almas caídas do meu calibre e por isso é meu dever prestar as minhas respeitosas reverências a seus pés de lótus.” (Vilapa-kusumanjali 6)

 

Neste verso, Raghunatha dasa Gosvami descreve Sanatana Gosvami com uma frase que Srila Prabhupada citou frequentemente (para todos os Vaisnavas compassivos): para-dukha-dukhi—“ele sentia tristeza na tristeza dos outros.” Raghunatha dasa diz, vairagya-yug-bhakti-rasam prayatnair—ele deu-me o néctar do serviço devocional enriquecido com renúncia; anabhipsum andham—mas eu não estava disposto (anabhipsum) a bebê-lo, porque eu estava cego (andham) ao meu bem-estar espiritual; portanto apayayan mam—ele obrigou-me a bebê-lo. Sanatana Gosvami é um oceano de misericórdia (krpambudhi), e, portanto, eu presto-lhe as minhas respeitosas reverências. Refugio-me nele, meu mestre (prabhum asrayami).

 

Srila Prabhupada parafraseou este verso quando compôs um outro em honra de seu sannyasa-guru, Srila Bhaktiprajnana Kesava Gosvami Maharaja. Ele usou quase as mesmas palavras. A ideia que transmite o verso, é de que é muito difícil abandonar as algemas da vida familiar. Naturalmente que se pode ser um devoto puro no grhastaasrama-isso é outra coisa-mas para a pregação, aconselha-se a sannyasa.

 

Como descreve Srila Prabhupada, ele tinha uns sonhos-na linguagem moderna de psicologia pode-se falar de pesadelos sucessivos-em que seu guru maharaja lhe pedia para que o seguisse e pregasse. Ele costumava despertar-se horrorizado. Assim descreveu Prabhupada a experiência: “Como posso aceitar sannyasa e tornar-me um mendigo? Como vou eu abandonar a minha esposa e filhos? O que é que vai acontecer no futuro?” É uma longa história mas eventualmente Prabhupada aceitou vanaprastha. Ele foi para Jhansi e aí estabeleceu a Liga dos Devotos. Mas houveram algumas intrigas. A esposa do governador queria a propriedade que Srila Prabhupada estava a usar para a Liga dos Devotos. Ela fez todo o possível para conseguir esta propriedade para uns programas com senhoras e, devido a que era muito influente, Prabhupada decidiu não lutar contra ela. Ele então decidiu ir para Mathura, e permanecer na matha de seu irmão espiritual Bhaktiprajnana Kesava Gosvami Maharaja. E Kesava Maharaja insistia, “Deves aceitar sannyasa.” Para aceitar plenamente a ordem do mestre espiritual e pregar, o devoto deve aceitar a ordem renunciada de vida. Foi o que fez Prabhupada. Aceitou sannyasa.

 

Então, em 1968—os primeiros dias do movimento no Ocidente—em Seatle, Srila Prabhupada recebeu a notícia que Sua Santidade Kesava Maharaja tinha falecido. Nessa altura, convocou uma reunião com os seus discipulos para falar sobre a história de como seu guru maharaja e o seu irmão espiritual o “forçaram” a aceitar sannyasa: “O meu irmão espiritual insistiu. Na verdade ele não insistiu-foi o meu mestre espiritual que insistiu através dele: `Tens que aceitar.´ Ele queria que eu me tornasse um pregador, assim que ele forçou-me através do meu irmão espiritual: `Tens de aceitar.´ Foi assim que, contra a minha vontade, eu aceitei.”

 

Srila Prabhupada apercebeu-se que o seu mestre espiritual actuou através do seu irmão espiritual, falando através dele—também um vaisnava—e assim ele compôs este verso, muito semelhante áquele composto por Raghunatha dasa a Sanatana Goswami—mas para Kesava Maharaja. Apayayan mam anabhipsum andham. “Eu não queria tomar o medicamento de Bhakti com desapego, porque me encontrava cego. Não podia antever o meu futuro, que a vida espiritual é o futuro mais brilhante. Então, os vaisnavas, o mestre espiritual, forçaram-me: “Deves tomar este medicamento.” Sri-kesava-bhakti-prajnana-nama krpambudhir yas tam aham prapadye: “Sri Bhaktiprajnana Kesava é um oceano de misericórdia, e eu ofereço-lhe as minhas respeitosas reverências.”

 

Em Vrndavana, Sanatana Gosvami era um grande refúgio para os Vaisnavas. Ele era não só inteligente—todos os Gosvamis eram muito inteligentes—mas também era muito perspicaz, ou esperto. Ele compreendia a diplomacia e a política. Está dito que Rupa Gosvami era muito simples, mas Sanata Gosvami era muito astuto; ele era capaz de compreender as motivações e intenções das pessoas. Assim, ele era capaz de proteger os devotos na mais práctica das formas, porque ele tinha esse tipo de inteligência. E ele protegeu Raghunatha das Gosvami a todos os níveis.

 

Então, no dia de Guru-purnima, devido a que Sanatana Gosvami era o mais velho de todos os Gosvamis e o siksa-guru de praticamente todos os habitantes de Vrndavana, os Vaisnavas foram até Govardhana para lhe prestar respeitos. Ao chegarem ao seu bhajana-kutira em Manasi-ganga, observaram que ele estava em transe. Práticamente não se movia. Então eles esperaram. Não queriam perturbá-lo.

 

A seu devido tempo, eles compreenderam que Sanatana tinha abandonado o corpo, e ficaram dominados por sentimentos de separação. Eles levaram-no em parikrama à Colina de Govardhana. Sanatana Gosvami executava fielmente parikrama da Colina de Govardhana todos os dias. No entanto, eles não tinham a certeza acerca do local onde deveriam depositar o seu corpo. Então, Jiva Gosvami, que era o líder depois de Sanatana, decidiu que deveriam trazê-lo de volta a Vrndavana, para perto do templo da deidade de Madana-mohana, que ele tanto adorava. Tudo isto aconteceu no dia de Guru-purnima.

 

Podemos observar como os devotos se ajudavam uns aos outros. Todos se entreajudavam. No Sri Caitanya-caritamrta, encontramos que os Vaisnavas estavam sempre a ajudar-se entre si. Devemos aprender com o seu exemplo. Devemos desenvolver esse sentimento. Obviamente, a ajuda pode manifestar-se de formas diversas. Por vezes manifesta-se em termos de instrução, outras vezes manifesta-se de maneiras mais prácticas, como aconteceu com Sanatana Gosvami ao construir um bhajana-kutira para Raghunatha dasa Gosvami. Estes devotos excelsos estavam sempre a servir uns aos outros—a servir Sri Caitanya Mahaprabhu e a servirem-se mutuamente. Esse deve ser o nosso sentimento: servirmos uns aos outros, ajudarmos verdadeiramente uns aos outros—e aprendermos uns com os outros.

 

No décimo-primeiro canto do Srimad-Bhagavatam, escutamos como um avadhuta brahmana aceitou lições dos outros, dos vinte e quatro siksa-gurus: dos elementos da matéria, dos fenómenos naturais, plantas, animais—até de uma prostituta. Através da sua inteligência, ele aprendeu de todos eles, e aceitou-os a todos como gurus. Por exemplo, da montanha ele aprendeu que uma pessoa santa deve dedicar todos os seus esforços ao serviço dos outros, fazendo do seu bem-estar a única razão de sua existência (assim como aprendemos com a colina de Govardhana). Da cobra python ele aprendeu que se deve abandonar o esforço material e aceitar aquilo que vem por si mesmo—deve-se permanecer pacífico e fixo, indiferente ao ganho material, mas sempre alerta para a auto-realização. Até com Pingala, a prostituta, ele aprendeu. Porque ela não tinha outra fonte de rendimento, estava muito ansiosa pela chegada dos clientes. Uma noite ela esperou, esperou, esperou, e aínda assim, não apareceu nenhum cliente. Finalmente, na calada da noite, ela sentiu-se angustiada com a sua situação e desapegou-se dela. Com Pingala ele aprendeu o desapego—e o apego à Suprema Personalidade de Deus, que ela aceitou como o seu refúgio último e objecto de amor.

 

Assim sendo, podemos aprender com tudo e com todos. Se estivermos sinceramente a tentar servir Krsna e a tentar compreender qual a melhor forma de servi-Lo, o Senhor no coração dar-nos-á a inteligência com a qual podemos aprender com os outros—até mesmo com as árvores e a erva. Caitanya Mahaprabhu glorificou as árvores e a erva, porque com elas aprendemos a ser tolerantes e humildes. Assim, podemos aprender com tudo e com todos.

 

Podemos aprender até com os demónios—e estamos cercados por eles. Grandes homens de negócios, são muito espertos com a sua propaganda e outras estratégias. Devemos ser assim, muito perspicazes e espertos para Krsna. Os líderes materialistas planeiam como  atraír as pessoas às suas redes, encurralando-as e prendendo-as. Podemos aprender com tais materialistas poderosos como atrair as pessoas e mantê-las, para Krsna-podemos aprender a ser organizados e inteligentes, para Krsna. Se os nossos sentimentos forem os correctos, tudo nos recordará o serviço devocional, e tudo poderá ser usado para Krsna. Todos podem ser um siksa-guru, se estivermos absortos no serviço a Krsna, se estivermos fixos em consciência de Krsna.

 

Mas em particular, e especialmente em ocasiões como a de hoje, devemos oferecer as nossas humildes reverências aos nossos diksa- e siksa-gurus, na sucessão discipular que se ínicia com Krsna, a Brahma, a Narada, a Vyasa, a Caitanya Mahaprabhu, a Sanantana Gosvami, e de Srila Prabhupada para os seus seguidores, que inclui todos vós.

 

Muito obrigado.

 

Hare Krsna.

 

 

 

 

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 1:14 pm

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Ratha-Yatra 2008

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Ratha-Yatra

Palestra dada por Giriraj Swami

15 de Março, 2008

Dallas

 

Hoje, passearemos em procissão com o Senhor Jagannatha, Baladeva e Subhadra, cantaremos os santos nomes do Senhor e dançaremos para o Seu prazer. Vamos então ler do Sri Caitanya-caritamrta, Madhya-lila, Capítulo Treze: “A Dança Extática do Senhor no Ratha-yatra.”      

 

VERSO 1

 

sa jiyat krsna-caitanyah

 sri-rathagre nanarta yah

yenasij jagatam citram

 jagannatho ’pi vismitah

 

TRADUÇÃO

 

Que a Suprema Personalidade de Deus, Sri Krsna Caitanya, que dançou em frente ao carro de Sri Jagannatha, receba todas as glórias! Vendo a Sua dança, não apenas o universo inteiro ficou tomado de espanto, mas o próprio Senhor Jagannatha ficou muito maravilhado.

 

VERSO 2

 

jaya jaya sri-krsna-caitanya nityananda

jayadvaita-candra jaya gaura-bhakta-vrnda

 

TRADUÇÃO

 

Todas as glórias a Sri Krsna Caitanya e a Prabhu Nityananda! Todas as glórias a Advaitacandra! E todas as glórias aos devotos de Sri Caitanya Mahaprabhu!

 

VERSO 3

 

jaya srota-gana, suna, kari’ eka mana

ratha-yatraya nrtya prabhura parama mohana

 

TRADUÇÃO

 

Todas as glórias àqueles que ouvem o Sri Caitanyacaritamrta! Por favor, escutai a descrição da dança do Senhor Caitanya Mahaprabhu por ocasião do festival de Ratha-yatra. Sua dança é muito encantadora. Por favor, escutai sobre ela com muita atenção.

 

VERSO 23

 

panca-dasa dina isvara maha-laksmi lana

tanra sange krida kaila nibhrte vasiya

 

TRADUÇÃO

 

O Senhor permanecera por quinze dias num lugar recluso com a suprema deusa da fortuna e realizara Seus passatempos com ela.

 

SIGNIFICADO de Srila Prabhupada

 

ão à deusa da fortuna para partir.

 

 

VERSO 24

 

tanhara sammati lana bhakte sukha dite

rathe cadi’ bahira haila vihara karate

 

TRADUÇÃO

 

Pedindo permissão à deusa da fortuna, o Senhor saiu para passear no carro do Ratha e realizar Seus passatempos para o prazer dos devotos.

 

SIGNIFICADO

 

A este respeito, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura comenta que, como um esposo ideal, o Senhor Jagannatha permaneceu quinze dias num lugar recluso com a Sua esposa, a suprema deusa da fortuna. Não obstante, o Senhor quis sair da reclusão para alegrar a Seus devotos. O Senhor diverte-Se de duas maneiras, conhecidas como svakiya e parakiya. O amor conjugal do Senhor na svakiyarasa relaciona-se aos princípios regulativos observados em Dvaraka. Lá, o Senhor é casado com muitas rainhas, porém, em Vrndavana, o amor conjugal do Senhor não é com as Suas esposas, mas com as Suas namoradas, as gopis. O amor conjugal com as gopis chama-se parakiyarasa. O Senhor Jagannatha deixa o lugar recluso, onde desfruta da companhia da suprema deusa da fortuna em svakiyarasa, e vai para Vrndavana, onde desfruta da parakiyarasa. Portanto, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura lembra-nos que o prazer do Senhor em parakiyarasa é superior a Seu prazer em svakiyarasa.

 

No mundo material, parakiyarasa, ou romances amorosos com moças solteiras, é uma relação muito degradada, mas, no mundo espiritual, esta espécie de romance amororoso é considerada o desfrute supremo. No mundo material, tudo não passa de um reflexo do mundo espiritual, e, não obstante, um reflexo pervertido. Não podemos compreender os assuntos do mundo espiritual, tomando como base a nossa experiência no mundo material. Por isso, os académicos e polemistas mundanos interpretam mal os passatempos do Senhor com as gopis. Ninguém, a não ser aquele que é muito avançado em serviço devocional puro, deve discutir a parakiyarasa do mundo espiritual. Não se pode comparar a parakiyarasa do mundo espiritual com a do mundo material. Aquela é como ouro, e esta é como ferro. Por haver tamanha diferença entre as duas, na realidade, não há como compará-las. No entanto, pode-se facilmente distinguir o valor do ouro ao ver-se o valor do ferro. Aquele que têm o devido discernimento pode facilmente distinguir as actividades transcendentais do mundo espiritual das actividades materiais.

 

COMENTÁRIO dado por Giriraj Swami

 

Quinze dias antes do festival de Ratha-yatra em Puri, o Senhor Jagannatha é conduzido desde o interior do Seu templo até um balcão no topo de um edifício dentro do complexo, e aí é banhado à vista do público, numa cerimónia chamada Snana-yatra. Depois da cerimónia do banho, o Senhor retira-se para um lugar isolado, numa área do interior do templo, reservada à suprema deusa da fortuna. Durante quinze dias ela serve-O com grande amor e devoção e, depois desse periodo chamado anavasara, Ele deseja saír da reclusão para dar prazer aos Seus devotos. Com a permissão da deusa da fortuna, sai na procissão chamada Ratha-yatra.

 

O templo do Senhor Jagannatha em Nilacala é comparado a Dvaraka, onde o Senhor Krsna vive com as Suas esposas rainhas, e o templo de Sundaracala, chamado Gundica, em honra da esposa do rei Indradyumna, é considerado Vrndavana. Sri Caitanya Mahaprabhu, no Seu sentimento interno, é Srimati Radharani sentindo separação de Krsna quando Ele sai de Vrndavana para Mathura e Dvaraka. O sentimento que Sri Caitanya Mahaprabhu apresenta durante o Ratha-yatra, é o de Srimati Radharani querendo levar Krsna de volta a Vrndavana.

 

Em krsna-lila, depois de Krsna ter ido para Dvaraka e residido lá por alguns anos, houve um eclipse solar. Como se recomenda nos Vedas, muitas pessoas foram para Kuruksetra para se banharem. Os eclipses são considerados inauspiciosos e, para anular os seus maus efeitos, as pessoas submergem-se em águas sagradas e recitam os santos nomes do Senhor. Quando Krsna foi informado do eclipse decidiu, “Vamos a Kuruksetra pela ocasião do eclipse”—Kuruksetra é um lugar sagrado (kuruksetre dharmaksetre). Quando a noticia da ida de Krsna a Kuruksetra se espalhou, devotos de todo o mundo decidiram ir também—não para participar nos rituais do eclipse, mas para ver o Senhor Krsna. Portanto, devotos, jnanis, yogis, santos, sábios e reis de todas as partes da India, foram a Kuruksetra. Os residentes de Vrndavana também decidiram ir. Nanda Maharaja, Mãe Yasoda, os habitantes mais velhos de Vrndavana, os pastorinhos e as gopis jovens também foram.

 

O encontro de Krsna com a Sua mãe e pai de Vrndavana, depois de uma separação tão prolongada, foi muito emocional. Ele ficou tão afectado que nem sequer conseguia falar. Contudo, dentro de Seu coração, Ele estava muito ansioso por se encontrar com as gopis jovens. Eventualmente desculpou-Se para poder encontrar-Se com elas. Porém, quando se encontraram, Srimati Radharani e as gopis não puderam sentir o mesmo prazer que tinham experimentado com Ele em Vrndavana, porque lá não havia o rio Yamuna, nem a floresta de Vrndavana, nem a colina de Govardhana. Ao invés do zumbir das abelhas e o chilrear dos pássaros, haviam os sons dos cavalos, dos elefantes e das quadrigas em movimento. Em vez de Krsna estar vestido com o Seu dhoti amarelo (pitambara), com a pena de pavão real no Seu cabelo e a flauta na Sua mão, estava vestido como um principe real, acompanhado de guerreiros valorosos e rodeado de muita opulência. Apesar de serem o mesmo Krsna e a mesma Radharani, não podiam desfrutar da mesma felicidade. Portanto, Srimati Radharani quis levar Krsna de volta a Vrndavana para puderem saborear o mesmo êxtase que tinham desfrutado na Sua juventude.

 

O festival de Ratha-yatra, como executado por Sri Caitanya Mahaprabhu e Seus seguidores, é o intercâmbio emocional entre Srimati Radharani e o Senhor Krsna, no qual Srimati Radharani quer levar Krsna de volta a Vrndavana. Este é o sentimento interno de Sri Caitanya Mahaprabhu. Como explica o Sri Caitanyacaritamrta, o aparecimento de Sriman Mahaprabhu deve-se a duas razões. Internamente, quis experimentar o amor de Srimati Radharani por Krsna-a glória do amor d´Ela, as qualidades maravilhosas d´Ele, que só Ela saboreia através do Seu amor, e a felicidade que Ela sente no Seu amor. No fundo Ele quis propagar as glórias do amor de Srimati Radharani por Ele e quis pagar a dívida que tinha para com Ela. Externamente, desejou divulgar o yugadharma para Kali-yuga—harinamasankirtana.

 

Não devemos pensar que uma missão do Senhor é superior à outra. No plano absoluto, são iguais. Devido a que Krsna é absoluto, não existe diferença entre o Seu interior e exterior. Nas almas condicionadas, existe diferença entre a alma que está dentro e o corpo que está no exterior, porém, em Krsna, que é espírito absoluto (saccidanandavigraha), não existe diferença entre o Seu interior e exterior. De igual modo, na plataforma absoluta não existe diferença de valor entre as razões internas e externas da vinda do Senhor a este mundo.

 

O Senhor Jagannatha, como Krsna, quer reciprocar com o amor que Srimati Radharani sente por Ele, quer dar misericórdia a todos os Seus devotos e, na verdade, a todas as entidades vivas. Ambos os desejos realizam-se durante o Ratha-yatra. Geralmente os devotos vão ao templo para ver o Senhor, mas as pessoas em Kali-yuga são tão caídas que não têm tempo para ir à igreja ou ao templo-nem sequer têm inclinação. Portanto, o Senhor sai do templo para dar misericórdia aos Seus devotos e às almas caídas.

 

O Senhor manifesta-se de duas formas: uma é a deidade, o Senhor Jagannatha, e a outra é o santo nome, o harinamasankirtana. O Sri Caitanya-caritamrta afirma que o santo nome de Krsna, a deidade de Krsna e a forma original de Krsna são todos idênticos.

 

‘nama’, ‘vigraha’, ‘svarupa’—tina eka-rupa

tine ‘bheda’ nahi,—tina ‘cid-ananda-rupa’

 

“O santo nome do Senhor, a Sua forma e a Sua personalidade são todos idênticos. Não existe diferença entre eles. Porque todos são absolutos, eles são transcendentalmente bem aventurados.” (Cc Madhya 17.131)

 

No Ratha-yatra, o Senhor dá a Sua associação aos devotos bem como às almas condicionadas comuns, na forma da Deidade—o Senhor Jaganatha—e na forma do santo nome, o Hare Krsna mahamantrasendo ambos o próprio Senhor. O Senhor também dá a Sua associação na forma do Seu carro, e das cordas que puxam o carro porque, na plataforma absoluta, a parafernália do Senhor e o Senhor são idênticos.

 

Na época de Mahaprabhu, o rei de Orissa era Maharaja Prataparudra. Ele era um grande devoto, e muitos dos associados de Caitanya Mahaprabhu queriam induzir o Senhor Caitanya a encontrar-se com ele mas, porque Caitanya Mahaprabhu estava a desempenhar o papel de um sannyasi numa sociedade muito estrita, recusou o encontro com o rei. Ele escutou sobre as glórias do rei, mas disse: “Ainda assim, o rei tem uma falta: ele é um rei.” O próprio nome rei, sugere opulência material e gratificação dos sentidos. Sri Caitanya Mahaprabhu, sendo um sannyasi inserido naquela cultura, não queria associar-se com um rei. Ele não queria que a Sua reputação fosse manchada. Apesar disso, os devotos apelaram ao Senhor para que fosse misericordioso com o rei, porque sabiam o quão apegado estava ao Senhor Caitanya; ele estava preparado para abandonar o seu reino e viver como um mendigo, se não obtivesse a misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu. Na corte do rei encontravam-se muitos associados íntimos de Caitanya Mahaprabhu. Sarvabhauma Battacarya era o sacerdote principal, ou conselheiro espiritual do rei Prataparudra, e Ramananda Raya era o governador do rei no Sul da India. O rei era tão amável e generoso, que dispensou Ramananda Raya do seu serviço como governador, e permitiu que ele fosse para Jagannatha Puri servir Caitanya Mahaprabhu. Estes devotos informaram Caitanya Mahaprabhu acerca das boas qualidades e do desejo intenso do rei de alcançar a Sua misericórdia. Ainda assim, apesar de Seu coração ter-se suavizado, Caitanya permaneceu inalterado. 

 

Finalmente, Nityananda Prabhu fez uma proposta. Sugeriu que Caitanya Mahaprabhu enviasse um pedaço de Sua roupa usada ao rei, para que este ficasse esperançoso de que Mahaprabhu, de facto, derramaria sobre ele a Sua misericórdia. Quando o rei recebeu a roupa, começou a adorá-la como se fosse exactamente o próprio Caitanya. Na plataforma absoluta, o Senhor e a Sua parafernália são idênticos. São adorados no mesmo nível. Na realidade, a adoração da parafernália e associados do Senhor, pode ser mais favorável que a adoração directa ao Senhor. O Senhor Siva disse a Parvati,

 

aradhananam sarvesam

 visnor aradhanam param

tasmat parataram devi

 tadiyanam samarcanam

 

“O Devi, de todos os tipos de adoração, a adoração ao Senhor Visnu é a melhor mas, superior à adoração ao Senhor Visnu, é a adoração a algo que pertença a Visnu.” (Padma Purana)

 

Assim, com muita felicidade, o rei recebeu a roupa e adorou-a como se fosse o próprio Caitanya Mahaprabhu.

 

Na plataforma absoluta, o carro de Ratha-yatra e as cordas do carro, sendo parafernália do Senhor, são adoráveis e, se as pessoas tocarem no carro ou nas cordas, beneficiam-se como se estivessem a tocar os pés de lótus da Deidade – o próprio Senhor. Portanto, o Senhor é extremamente magnânimo ao distribuir a Sua misericórdia durante o Ratha-yatra. Quando Ele sorri e derrama Seu olhar sobre Seus devotos e todas as almas, eles recebem a Sua misericórdia e amor mais sublimes.

 

O Ratha-yatra é um festival muito jubilante, porque o Senhor sai do Templo para dar o Seu darsana, a Sua audiência aos Seus devotos – para lhes dar a Sua misericórdia. Srila Prabhupada mencionou que este festival está carregado de emoção. Depois de uma longa separação, Srimati Radharani encontra-se com Krsna em Kuruksetra, e, ao não saborear a mesma felicidade, quer levá-lo de volta a Vrndavana.

 

Quando Sri Caitanya Mahaprabhu celebrava o festival de Ratha-yatra, recitava regularmente um verso de poesia mundana, cujo propósito ninguém podia entender; ninguém conseguia compreender o seu significado profundo. No verso, a amada dirige-se a seu amado, “Continuo a mesma pessoa desde que nos encontrámos na nossa juventude, e tu também és a mesma pessoa, mas onde está essa árvore à margem do rio, na qual nos divertíamos nas noites de luar? Quero voltar aí.”

 

yah kaumara-harah sa eva hi varas ta eva caitra-ksapas

 te conmilita-malati-surabhayah praudhah kadambanilah

sa caivasmi tathapi tatra surata-vyapara-lila-vidhau

 reva-rodhasi vetasi-taru-tale cetah samutkanthate

 

“Aquela mesma personalidade que cativou o meu coração durante a minha juventude é novamente o meu amo. Estas são as mesmas noites enluaradas do mês de Caitra. Há a mesma fragância de flores malati, e as mesmas brisas doces sopram da floresta de kadamba. Na nossa relação íntima, sou também a mesma amante, todavia, a minha mente não está feliz aqui. Anseio voltar àquele local às margens do rio Reva, ao pé da árvore Vetasi. É isto o que desejo.” (Padyavali 386, citado no Cc Madhya 13.121)

 

À excepção de Svarupa Damodara Gosvami, práticamente ninguém compreendia o significado desse verso. Entretanto, um ano, Rupa Gosvami participou no Ratha-yatra e ouviu o Senhor cantar o verso. Depois da procissão voltou para a sua residência e, numa folha de palmeira, escreveu o seu próprio verso explicando o original, prendeu-a no telhado da sua cabana, e foi tomar banho no mar.

 

Nessa altura, Sri Caitanya Mahaprabhu foi à cabana de Rupa Goswami para se encontrar com ele. Estas três personalidades importantes—Rupa Gosvami, Sanatana Gosvami, e Haridasa Thakura—não estavam autorizados a entrar no templo de Jagannatha. Haridasa Thakura nasceu numa familia muçulmana e Rupa Gosvami e Sanatana Gosvami serviram no governo de Nawab Hussain Shah, associando-se intimamente com os muçulmanos. Deste modo, todos eles eram considerados caídos—desqualificados. Assim sendo, Caitanya Mahaprabhu ia visitá-los diáriamente e, nesta ocasião, notou a folha de palmeira pendurada no telhado. Agarrou na folha e leu o verso de Rupa Gosvami—um verso muito bonito que descreve os sentimentos de Srimati Radharani ao encontrar-se com Krsna em Kuruksetra, baseando-se no verso poético que Mahaprabhu tinha recitado. Nele Srimati Radharani diz à Sua amiga, “Ele é o mesmo Krsna, e Eu sou a mesma Radha mas, sem Vrndavana, não podemos experimentar a mesma felicidade. Sinto um desejo muito grande em levá-Lo comigo para Vrndavana.”

 

priyah so ’yam krsnah saha-cari kuru-ksetra-militas

 tathaham sa radha tad idam ubhayoh sangama-sukham

tathapy antah-khelan-madhura-murali-pancama-juse

 mano me kalindi-pulina-vipinaya sprhayati

 

“Minha querida amiga, agora, neste campo de Kuruksetra, estou na presença do meu muito querido amigo Krsna. Agora que estamos juntos, continuo a mesma Radharani. Apesar de ser muito agradável, quero ir para as margens do Yamuna, perto das árvores da floresta que aí existe. Desejo escutar a vibração da Sua doce flauta, tocando a quinta nota, nessa floresta de Vrndavana.” (Padyavali 387, citado no Cc Madhya 1.76)

 

Sri Caitanya Mahaprabhu ficou espantado: “Como é que Rupa Gosvami pode entender o meu coração?” Mais tarde, Caitanya Mahaprabhu mostrou o verso a Svarupa Damodara Gosvami que, em Puri, era Seu secretário pessoal e associado muito íntimo. Svarupa Damodara compreendeu o significado desse verso aparentemente mundano, mas, para além dele, ninguém mais foi capaz de compreendê-lo, por isso manteve-o confidencial. O senhor Caitanya perguntou-lhe, “Como pode Rupa Goswami conhecer o meu coração?” Svarupa Damodara respondeu, “Ele deve ter sido agraciado de forma especial pela Sua misericórdia, de outra forma não lhe seria possível conhecer o Seu coração.”

 

Srila Prabhupada salienta, que recebeu uma benção semelhante de seu guru maharaja. Um ano, ele escreveu um ensaio muito bonito, na ocasião da cerimónia de Vyasapuja de seu guru maharaja e que leu nas instalações da Gaudiya Matha, juntamente com um poema que compôs apreciando seu guru maharaja.

 

O Absoluto é consciente

Vós haveis provado

Calamidade impessoal

Vós haveis rejeitado

 

Este verso está de acordo com o conceito que Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura estabeleceu para a sua missão de pregação. Assim como o Senhor Caitanya mostrou o verso de Rupa Gosvami a Svarupa Damodara Gosvami, também Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura mostrava o verso de Prabhupada aos seus associados mais íntimos: “Como pode ele compreender as minhas intenções?”

 

Assim, pela misericórdia de Srila Rupa Gosvami, o sentimento confidencial e interno de Sri Caitanya Mahaprabhu pela ocasião do Ratha-yatra foi revelado, e esta informação confidencial foi compilada e expandida por Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami no seu Caitanya-caritamrta. Pessoalmente, Kaviraja Gosvami não testemunhou as actividades de Mahaprabhu, mas escutou sobre elas mais tarde, enquanto residia em Vrndavana. Srila Raghunatha dasa Gosvami estava muito desapontado com a partida de Caitanya Mahaprabhu e da maior parte de Seus associados, por isso pensou, “Qual é o valor de viver em Puri sem Mahaprabhu e os Seus associados?” Portanto, ele decidiu ir para Vrndavana e cometer suicídio Vaisnava, ao atirar-se da colina de Govardhana. Contudo, antes de agir dessa maneira, ele quis oferecer os seus respeitos aos pés de lótus de Rupa e Sanatana, que, ao encontrarem-se com ele, pediram-lhe, “Não faças isso. É melhor que fiques connosco.” Eles aceitaram-no como seu irmão mais novo, como o terceiro irmão deles. “Porque estiveste com Caitanya Mahaprabhu em Jagannatha Puri, conheces tudo acerca das actividades posteriores do Senhor. Deves contá-las para nós.” Raghunatha dasa Gosvami concordou e, cada dia, discursava durante três horas sobre as actividades de Sri Caitanya Mahaprabhu em Puri—um dos devotos na audiência era Kaviraja Gosvami.

 

Tanto Svarupa Damodara Gosvami quanto Raghunatha dasa Gosvami, fizeram anotações enquanto permaneceram com Mahaprabhu. (Do mesmo modo, os assistentes pessoais de Srila Prabhupada também fizeram anotações e assim temos o Diário Transcendental de Hari Sauri, o Diário de TKG, e outras obras do género.) Portanto, Svarupa Damodara Gosvami e Raghunatha dasa Gosvami fizeram as suas anotações e Krsnadasa Kaviraja Gosvami ficou com elas. Baseado no que ele escutou de Raghunatha dasa Gosvami e aprendido dos diários e outras fontes de informação autorizadas, ele compilou o Sri Caitanya-caritamrta e revelou estes assuntos mais confidenciais sobre o sentimento interno de Sri Caitanya Mahaprabhu durante o Ratha-yatra.

 

Externamente, durante o Ratha-yatra, houve um harinamasankirtana espantoso. Vamos ler agora sobre isso, e assim ficaremos com uma ideia do que aconteceu, e talvez consigamos alguma inspiração para a nossa execução de harinamasankirtana.

 

VERSO 25

 

suksma sveta-balu pathe pulinera sama

dui dike tota, saba—yena vrndavana

 

TRADUÇÃO

 

A fina areia branca espalhada por todo o caminho assemelhava-se às margens do rio Yamuna e, em ambos os lados, os pequenos jardins pareciam-se com os de Vrndavana.

 

VERSO 26

 

rathe cadi’ jagannatha karila gamana

dui-parsve dekh’ cale anandita-mana

 

TRADUÇÃO

 

Enquanto o Senhor Jagannatha passeava no Seu carro e se deparava com o belo cenário, tanto à Sua direita quanto à Sua esquerda, a Sua mente enchia-se de prazer.

 

VERSO 27

 

Os puxadores do carro eram conhecidos como gaudas, e puxavam-no com muito prazer. Contudo, às vezes o carro ia muito depressa, e, às vezes, muito devagar.

 

COMENTÁRIO

 

No primeiro Ratha-yatra da ISKCON, celebrado em São Francisco com uma camioneta de caixa baixa a fazer de carro, o veículo teve alguns problemas, e avariou ao subir uma encosta. Os devotos ficaram sem saber se poderiam pô-lo a trabalhar de novo. Nessa altura Srila Prabhupada não pode participar no Ratha-yatra, porque estava doente e fazia a sua recuperação em Stinson Beach, nos arredores de São Francisco. Quando no dia seguinte, os devotos foram visitá-lo para lhe informarem sobre o Ratha-yatra, falaram-lhe sobre a avaria da camioneta. Srila Prabhupada afirmou, “Esse é um divertimento do Senhor Jagannatha. Aconteceu a mesma coisa quando o Senhor Caitanya participou no Ratha-yatra em Puri e, agora que o Ratha-yatra veio para o Ocidente, este divertimento do Senhor Jagannatha também veio.”

 

VERSOS 2830

 

Outras vezes, o carro ficava estancado e não se movia, embora fosse puxado muito vigorosamente. Portanto, a carruagem movia-se pela vontade do Senhor, e não pela força de alguma pessoa comum.

 

Como o carro estivesse parado, Sri Caitanya Mahaprabhu reuniu todos os Seus devotos e, com as Suas próprias mãos, decorou-os com guirlandas de flores e polpa de sândalo.

 

Ao receberem pessoalmente guirlandas e polpa de sândalo das mãos do próprio Sri Caitanya Mahaprabhu, Paramananda Puri e Brahmananda Bharati sentiram o seu prazer transcendental aumentar intensamente.

 

 

COMENTÁRIO

 

Eles eram considerados superiores a Sri Caitanya Mahaprabhu e Ele adorava-os e servia-os no mesmo nível que a Seu mestre espiritual.

 

VERSOS 3134

 

De maneira semelhante, ao sentirem o toque da mão transcendental de Sri Caitanya Mahaprabhu, Advaita Acarya e Nityananda Prabhu ficaram muito satisfeitos.

 

O Senhor também deu guirlandas e polpa de sândalo aos executantes do sankirtana, dos quais se destacavam Svarupa Damodara e Srivasa Thakura.

 

Havia, ao todo, quatro grupos de kirtana, perfazendo um total de vinte e quatro cantores. Em cada grupo, havia também dois tocadores de mrdanga, o que acrescentava mais oito pessoas àquele total.

 

Quando os quatro grupos estavam formados, Sri Caitanya Mahaprabhu, após analisar um pouco, dividiu os cantores.

 

COMENTÁRIO

 

Caitanya Mahaprabhu também era um organizador muito bom.

 

VERSOS 3537

 

Sri Caitanya Mahaprabhu ordenou que Nityananda Prabhu, Advaita Acarya, Haridasa Thakura e Vakresvara Pandita dançassem, cada um, num dos quatro grupos a que foram designados.

 

Svarupa Damodara foi escolhido como líder do primeiro grupo e deram-lhe cinco assistentes para responderem ao seu canto.

 

Os cinco que faziam coro ao canto de Svarupa Damodara eram Damodara Pandita, Narayana, Govinda Datta, Raghava Pandita e Sri Govindananda.

 

VERSO 38

 

advaitere nrtya karibare ajna dila

srivasa-pradhana ara sampradaya kaila

 

TRADUÇÃO

 

Advaita Acarya Prabhu recebeu ordem de dançar no primeiro grupo. Então, o Senhor formou outro grupo com Srivasa Thakura como líder.

 

SIGNIFICADO

 

No primeiro grupo, Damodara Svarupa foi apontado como o cantor líder, e os cantores que o acompanhariam eram Damodara Pandita, Narayana, Govinda Datta, Raghava Pandita e Govindananda. Sri Advaita Acarya foi apontado como dançarino. Formou-se o grupo seguinte, que tinha Srivasa Thakura como líder.

 

VERSOS 3954

 

Os cinco cantores que responderiam ao canto de Srivasa Thakura eram, Gangadasa, Haridasa, Sriman, Subhananda e Sri Rama Pandita.

 

Formou-se outro grupo, para o qual foram designados Vasudeva, Gopinatha e Murari. Todos estes cantavam na segunda voz, e Mukunda seria o cantor líder.

 

Duas outras pessoas, Srikanta e Vallabha Sena, juntaram-se como cantores acompanhantes. Neste grupo, Haridasa Thakura seria o dançarino.

 

O Senhor formou um outro grupo, designando Govinda Ghosa como líder. Neste grupo junior Haridasa, Visnudasa e Raghava seriam os cantores acompanhantes.

 

Dois irmãos chamados Madhava Ghosh e Vasudeva Ghosh, também se juntaram a este grupo como cantores acompanhantes. Vakresvara Pandita seria o dançarino deste grupo.

 

Na aldeia conhecida como Kulina-grama, havia um grupo de sankirtana, para o qual Ramananda e Satyaraja foram indicados como dançarinos.

 

Havia outro grupo, proveniente de Santipura, que era formado por Advaita Acarya. Acyutananda era o dançarino, e os demais componentes cantavam.

 

Formou-se outro grupo com as pessoas de Khanda. Elas cantavam num lugar diferente. Neste grupo, Narahari Prabhu e Raghunandana cantavam.

 

Quatro grupos cantavam e dançavam em frente ao Senhor Jagannatha, e em ambos os lados havia mais dois grupos. Outro vinha atrás.

 

Ao todo, havia sete grupos de sankirtana, e em cada grupo dois homens batiam tambores. Assim, tocavam-se quatorze tambores de uma só vez. O som era tonitruante, e todos os devotos ficaram loucos.

 

Todos os Vaisnavas reuniram-se, parecendo-se a nuvens agrupadas. Enquanto os devotos em êxtase cantavam os santos nomes, lágrimas caíam de seus olhos como torrentes de chuva.

 

Os três mundos foram inundados pela vibração sonora do sankirtana. Com efeito, a não ser pelo som e pelos instrumentos musicais do sankirtana, tudo o mais emudecera.

 

O Senhor Caitanya Mahaprabhu vagueava por todos os sete grupos, cantando o santo nome: “Hari, Hari!” Levantando os braços, Ele exclamava: “Todas as glórias ao Senhor Jagannatha!”

 

Então, o Senhor Caitanya Mahaprabhu demonstrou outro poder místico, realizando simultaneamente passatempos em todos os sete grupos.

 

Todos diziam: “O Senhor Caitanya Mahaprabhu está presente no meu grupo. Na verdade, Ele não está em mais nenhum outro lugar. Ele está a mostrar-nos a Sua misericórdia.”

 

Na realidade, ninguém podia entender a potência inconcebível do Senhor. Apenas os devotos mais íntimos, aqueles imersos em serviço devocional puro, podiam compreender.

 

COMENTÁRIO

 

Durante a dança da rasa, Sri Krsna também se expandiu para estar presente ao lado de cada gopi. Ele relacionou-se de uma forma tão afectuosa e pessoal com cada gopi, que cada uma delas pensava, “Krsna está comigo. Krsna não pode abandonar-me. Krsna está a favorecer-me.”

 

VERSOS 5559

 

O sankirtana agradou muito ao Senhor Jagannatha, e Ele manteve Seu carro parado num determinado local, só para assistir ao desempenho.

 

O rei Patraparudra também ficou admirado ao ver o sankirtana. Ficando sem acção, passou a sentir amor extático por Krsna.

 

Quando o rei informou a Kasi Misra sobre as glórias do Senhor, Kasi Misra respondeu. “Ó rei,a tua fortuna não conhece limites!”

 

Tanto o rei quanto Sarvabhauma Battacarya estavam a par das actividades do Senhor, mas nenhuma outra pessoa pode perceber as artimanhas do Senhor Caitanya Mahaprabhu.

 

Só alguém que tenha recebido a misericórdia do Senhor pode compreender. Sem a misericórdia do Senhor, nem mesmo os semideuses, encabeçados pelo Senhor Brahma, podem compreender.

 

VERSO 60

 

rajara tuccha seva dekhi’ prabhura tusta mana

sei ta’ prasade paila ‘rahasya-darsana’

 

TRADUÇÃO

 

Sri Caitanya Mahaprabhu ficou muito satisfeito ao ver o rei aceitar a tarefa subalterna de varrer a rua, e, por esta atitude humilde, o rei recebeu a misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu. Por isso, ele pode observar o mistério das actividades de Sri Caitanya Mahaprabhu.

 

SIGNIFICADO

 

Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura descreve o mistério das actividades do Senhor. O Senhor Jagannatha, admirando-se de ver a dança e o canto transcendental de Sri Caitanya Mahaprabhu, parou o Seu carro só para assistir à dança. Então, o Senhor Caitanya Mahaprabhu dançou com tanto misticismo que agradou o Senhor Jagannatha. O espectador e o dançarino eram a mesma Pessoa Suprema, porém, o Senhor, sendo ao mesmo tempo um e muitos, manifestava a variedade de Seus passatempos. Este é o significado subjacente à Sua demonstração misteriosa. Pela misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu, o rei pode compreender como ambos desfrutavam das actividades mútuas. Outra demonstração misteriosa foi a presença simultânea de Sri Caitanya Mahaprabhu nos sete grupos. Pela misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu, o rei também pode compreender isto.

 

COMENTÁRIO

 

O rei estava ansioso por obter darsana do Senhor Caitanya mas devido à sua posição como rei, Caitanya Mahaprabhu recusou encontrar-se com ele. Entretanto, quando o rei prestou um serviço humilde ao Senhor Jagannatha varrendo a estrada diante d`Ele, o coração de Sri Caitanya Mahaprabhu suavizou-se, e outorgou-lhe uma misericórdia tão especial, que o rei foi capaz de aperceber-se das actividades confidenciais do Senhor, durante o Ratha-yatra. Poderemos pensar que o facto do rei ter limpo a estrada diante da Deidade foi algo insignificante, mas nesse tempo não era bem assim. Na verdade o rei foi criticado pela outra realeza: “Que classe de rei é ele?Está a varrer a estrada.” Mas o rei não dava importância à reputação mundana. Ele prestou, de uma forma sincera, serviço subalterno ao Senhor e, devido ao seu serviço humilde, o Senhor Caitanya, que não é diferente do Senhor Jagannatha, deu-lhe um pouco de misericórdia especial para que ele pudesse observar o mistério das actividades do Senhor.

 

VERSO 61

 

saksate na deya dekha, parokse ta’ daya

ke bujhite pare caitanya-candrera maya

 

TRADUÇÃO

 

Apesar de não ter conseguido uma entrevista com o Senhor, o rei recebeu, indirectamente, a misericórdia imotivada do Senhor. Quem pode entender a potência interna de Sri Caitanya Mahaprabhu?

 

SIGNIFICADO

 

Como Sri Caitanya Mahaprabhu estava a desempenhar o papel de um mestre mundial, Ele não concordou em ver o rei, pois o rei é uma pessoa mundana, interessada em dinheiro e mulheres. Na verdade a própria palavra “rei” dá a ideia de alguém que está sempre rodeado de dinheiro e mulheres. Como um sannyasi, Sri Caitanya Mahaprabhu temia tanto o dinheiro quanto as mulheres. A própria palavra “rei” é repugnante para quem pertence à ordem de vida renunciada. Sri Caitanya Mahaprabhu recusou-se a receber o rei mas, indirectamente, o rei foi capaz de entender as actividades misteriosas do Senhor, pela misericórdia imotivada do Senhor. As actividades do Senhor Caitanya Mahaprabhu foram manifestas, quer para O revelarem como a Suprema Personalidade de Deus, quer para O exporem como um devoto. Ambas as classes de actividades são misteriosas e entendidas, na sua essência, somente pelos devotos puros.

 

COMENTÁRIO

 

Nesta passagem, existem muitos assuntos confidenciais. Vasudeva Ghosa, um grande poeta e cantor entre os associados do Senhor (mencionado no verso 43), escreveu, jei gaura sei krsna sei jagannath: “Ele que é Gaura, é Ele que é Krsna, é Ele que é Jagannatha.” O Senhor Caitanya é Krsna, o Senhor Jagannatha é Krsna, e Krsna é Krsna, mas assumem diferentes formas e diferentes sentimentos para reciprocarem em divertimentos amorosos-inclusive entre si. O rei Prataparudra, pela misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu, pode ver e compreender tudo isso. Ele também pode ver Sri Caitanya Mahaprabhu expandir-se em formas múltiplas e movimentar-se entre os sete grupos de kirtana. Nem todos puderam ter essa percepção. Portanto, essa também foi uma misericórdia especial que lhe foi outorgada. Mas, a maior misericórdia, aquela que o rei há muito desejava, foi-lhe dada mais tarde, quando o Senhor Caitanya foi descansar num jardim próximo. Nessa altura, Caitanya Mahaprabhu deu-lhe uma audiência pessoal (darsana). Ele abraçou o rei e juntos choraram em amor extático.

 

Quando chegaram a Balagandi, os carros pararam por algum tempo, para permitir aos devotos oferecerem alimento (bhoga) ao Senhor Jagannatha. Nessa altura Sri Caitanya Mahaprabhu e os Seus seguidores, exautos de tanto dançar, foram relaxar num jardim próximo. Nesse momento, o rei, desfazendo-se da vestimenta real, vestiu-se como um vaisnava. Entrou no jardim, começou a massajar as pernas do Senhor com muita perícia- e a recitar para Ele o Gopigita, o trigésimo primeiro capítulo do Décimo Canto, “As Gopis´ Canções de Separação por Krsna,” que serviu para aumentar o sentimento que Sri Caitanya Mahaprabhu trazia do Ratha-yatra. Caitanya Mahaprabhu já estava muito feliz mas, quando escutou o rei recitar o Gopigita, ficou extremamente maravilhado dizendo repetidamente “Continua a recitar. Continua a recitar.” Quando o rei chegou ao verso que começa com tava kathamrtam, Sri Caitanya Mahaprabhu, como se não soubesse quem era o rei, levantou-se em amor extático e abraçou-o. Extraindo uma frase do verso, Ele exclamou, “Tu és o mais magnânimo! Tu és o mais magnânimo!

 

tava kathamrtam tapta-jivanam

 kavibhir iditam kalmasapaham

sravana-mangalam srimad-atatam

 bhuvi grnanti ye bhurida janah

 

“Meu Senhor, o néctar de Vossas palavras e as descrições de Vossas actividades são a vida e a alma daqueles que vivem aflitos neste mundo material. Personalidades gloriosas transmitem estas narrações, as quais erradicam todas as reacções pecaminosas. Quem quer que ouça estas narrações, que são difundidas por todo o mundo e são cheias de poder espiritual, alcança toda a boa fortuna. Aqueles que propagam a mensagem de Deus decerto que são os trabalhadores mais magnânimos para o bem-estar de todos os seres vivos.” (SB 10.31.9, citado no Cc Madhya 14.13)

 

Sri Caitanya Mahaprabhu, ficou tão sensibilizado pelo serviço excelente e humilde do rei, que lhe deu a Sua misericórdia—a Sua audiência pessoal—mas manteve a integridade do sannyasadharma praticado nesses tempos.

 

Essa é a misericórdia do guru e de Krsna. Podemos ver Caitanya Mahaprabhu como o guru e o Senhor Jagannatha como Krsna. Tal como Srila Prabhupada disse, pela misericórdia mútua de guru e de Krsna podemos tornar-nos completamente exitosos em serviço devocional. Devido ao serviço humilde e subalterno do rei ao Senhor Jagannatha, o Senhor Caitanya também ficou satisfeito com ele, e, pela misericórdia mútua de guru e Krsna, o serviço devocional do rei alcançou o êxito. Portanto, podemos depreender como é que através do serviço humilde podemos satisfazer o mestre espiritual e o Senhor e, como através da misericórdia deles, podemos alcançar o sucesso em consciência de Krsna.

 

No serviço devocional não existe diferença entre superior e inferior, porque todo o serviço é absoluto. Na plataforma absoluta não existe diferença entre limpar a casa de banho utilizada pelos devotos e limpar a parafernália das Deidades. Se alguém prestar serviço com atitude humilde (trnad api sunicena), sentindo-se humilde e caído, o Senhor ficará predisposto para lhe dar misericórdia. Como diz o ditado “Aqueles que se glorificam serão humilhados, e aqueles que se humilham serão glorificados.” Esta é uma grande lição a ser aprendida dos divertimentos de Sri Caitanya Mahaprabhu com o Senhor Jagannatha no Ratha-yatra.

 

Para concluir este capitulo do Sri Caitanya-caritamrta, Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami cita um verso do Caitanyastaka de Srila Rupa Gosvami (7):

 

ratharudhasyarad adhipadavi nilacala-pater

 adabhra-premormi-sphurita-natanollasa-vivasah

sa-harsam gayadbhih parivrta-tanur vaisnava-janaih

 sa caitanyah kim me punar api drsor yasyati padam

 

“Sri Caitanya Mahaprabhu dançou ao longo da estrada principal em grande êxtase perante o Senhor Jagannatha, o Senhor de Nilacala, que estava sentado em Seu carro. Arrebatado em bem-aventurança transcendental produzida pela dança e rodeado por vaisnavas que cantavam os santos nomes, Ele manifestou ondas de amor extático por Deus. Quando é que Sri Caitanya Mahaprabhu aparecerá novamente diante de minha visão?” (Cc Madhya 13.207)

 

E ele abençoa os seus leitores e ouvintes:

 

iha yei sune sei sri-caitanya paya

sudrdha visvasa-saha prema-bhakti haya

 

“Quem quer que ouça esta descrição do festival dos carros terá acesso a Sri Caitanya Mahaprabhu, e atingirá o estado elevado pelo qual se ganha firme convicção no serviço devocional e se desenvolve amor por Deus.” (Cc Madhya 13.208)

 

Hare Krsna.

 

Srila Prabhupada ki jaya!

Sri Jagannatha Ratha-yatra ki jaya!

Sri Caitanya Mahaprabhu ki jaya!

Gaura-bhakta-vrnda ki jaya!

Nitai-gaura-premanande hari-haribol!

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 1:11 pm

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Nrsimha Caturdasi – 1.ª parte

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Nrsimha-caturdasi

 Uma aula dada por Giriraj Swami

30 de Abril, 2007

Dallas

 

Vamos ler do SrimadBhagavatam, Quinto Canto, Capítulo Dezoito: ”Os residentes de Jambudvipa oferecem orações.” O verso 8 é o primeiro numa série de orações recitadas por Prahlada Maharaja ao Senhor Nrsimhadeva; portanto, iremos começar com o verso  8 e depois continuaremos com verso 9, cujo significado também se refere ao verso 8.

 

O verso 8 é uma oração, ou mantra, muito importante, e nele muitas palavras são repetidas duas vezes. Quando algo é repetido duas vezes, torna-se mais enfático. Por exemplo, podemos dizer, “É uma coisa terrível, muito terrível.” A repetição de terrível serve para dar um tom enfático.

 

 

VERSO 8

 

om namo bhagavate narasimhaya namas tejas-tejase avir-avirbhava vajra-nakha vajra-damstra karmasayan randhaya randhaya tamo grasa grasa om svaha; abhayam abhayam atmani bhuyistha om ksraum.

 

TRADUÇÃO

 

Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Nrsimhadeva, a fonte de todo o poder. Ó meu Senhor, possuidor de garras e dentes que parecem raios, por favor, eliminai nossos desejos demoníacos que , neste mundo material, nos impelem às actividades fruitivas. Fazei o obséquio de manifestar-Vos em nossos corações e dissipai a nossa ignorância para que, por Vossa misericordia, possamos tornar-nos destemidos na luta pela existência neste mundo material.

 

Verso 9

 

svasty astu visvasya khalah prasidatam

  dhyayantu bhutani sivam mitho dhiya

manas ca bhadram bhajatad adhoksaje

  avesyatam no matir apy ahaituki

 

SINÓNIMOS

 

svasti—ventura; astu—que haja; visvasya—de todo o universo; khalah—as invejosas(quase todas); prasidatam—que elas se apaziguém; dhyayantu—que elas considerem; bhutani—todas as entidades vivas; sivam—ventura; mithah—mútua; dhiya—por intermédio de sua inteligência; manah—a mente; ca—e; bhadram—tranquilidade; bhajatat—que se experimente; adhoksaje—na SupremaPersonalidade deDeus,que está além da percepção através da mente, inteligência e sentidos; avesyatam—que se absorva; nah—nossa; matih—inteligência, api—na verdade; ahaituki—sem motivo algum.

 

TRADUÇÃO

 

Que haja boa fortuna em todo o universo,e que todas as pessoas invejosas possam apaziguar-se. Que todas as entidades vivas se tornem tranquilas praticando bhaktiyoga pois, aceitando o serviço devocional, pensarão no bem-estar recíproco. Portanto, ocupemo-nos a serviço do Senhor Sri Krsna, a transcendência suprema, e permaneçamos sempre absortos em pensar n´Ele.

 

SIGNIFICADO dado por Srila Prabhupada

 

O seguinte verso descreve um Vaisnava:

 

vancha-kalpa-tarubhyas ca

  krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo

  vaisnavebhyo namo namah

 

Assim como a árvore dos desejos, o vaisnava pode satisfazer todos os desejos de qualquer pessoa que se refugie a seus pés de lótus. Prahlada Maharaja era um vaisnava típico. Ele não ora em prol de si mesmo, senão que ora em prol de todas as entidades vivas—sejam elas corteses, invejosas ou perversas. Ele pensava sempre no bem-estar das pessoas mesquinhas como, por exemplo, o seu pai Hiranyakasipu. Prahlada Maharaja, não pedia nada para si próprio;ao contrário, ele orou ao Senhor para que perdoasse seu pai demoníaco. Esta é a atitude do vaisnava, que vive a pensar no bem-estar de todo o universo.

O Srimad-Bhagavatam e o bhagavata-dharma destinam-se a pessoas que são inteiramente desprovidas de inveja( parama-nirmatsaranam). Portanto, na sua oração neste verso, Prahlada Maharaja deseja que khalah prasidatam: “Possam todas as pessoas invejosas apaziguarem-se.” O mundo material fervilha de pessoas invejosas, mas quem se livra da inveja mostra prodigalidade em seus relacionamentos sociais e passa a pensar no bem-estar alheio. Todo aquele que adopta a consciência de Krsna e ocupa-se plenamente a serviço do Senhor, tira da sua mente toda a inveja (manas ca bhadram bhajatad adhoksaje). Por isso, devemos orar ao Senhor Nrsimhadeva que Se sente em nossos corações. Devemos pedir que bahir nrsimho hrdaye nrsimhah: “Que o Senhor Nrsimhadeva Se sente no âmago do meu coração, e extermine todas as minhas más propensões. Que minha mente se torne limpa para que eu possa pacificamente adorar o Senhor e levar a paz ao mundo inteiro.”

 

Com relação a isto, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura deu-nos um significado muito esmerado. Sempre que oferece uma oração à Suprema Personalidade de Deus, a pessoa pede-Lhe uma benção. Como o Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu ensina em Seu Siksastaka, mesmo os devotos puros (niskama) suplicam por alguma benção:

 

ayi nanda tanuja kinkaram

  patitam mam visame bhavambudhau

krpaya tava pada pankaja-

  sthiti-dhuli-sadrsam vicintaya

 

“Ó filho de Maharaja Nanda (Krsna) sou Vosso servo eterno, mas de alguma forma acabei caindo no oceano de nascimentos e mortes. Por favor, tirai-me do oceano de mortes e colocai-me como um dos átomos a Vossos pés de lótus.” Noutra oração, o Senhor Caitanya diz que mama janmani janmanisvare bhavatad bhaktir ahaituki tvayi: “Vida após vida, por favor, permiti que eu dedique amor imaculado e devoção aos pés de lótus de Vossa Omnipotência.” Ao cantar om namo bhagavate narasimhaya, Prahlada Maharaja pede uma benção ao Senhor mas, porque ele também é um vaisnava grandioso, nada deseja para o gozo de seus próprios sentidos. O primeiro desejo expresso em sua oração é svasty astu visvasya: “Que haja boa fortuna em todo o universo.” Portanto, Prahlada Maharaja pediu que o Senhor fosse misericordioso com todos, incluindo seu pai, que era uma pessoa muito invejosa. De acordo com Canakya Pandita, existem duas classes de entidades vivas invejosas: uma são as serpentes, e a outra são os homens da laia de Hiranyakasipu que , por natureza, invejam todos inclusive seu pai ou filho. Hiranyakasipu tinha inveja de seu filhinho Prahlada, mas Prahlada Maharaja pediu uma benção em favor de seu pai. Hiranyakasipu invejava muito os devotos, mas Prahlada desejava que, pela graça do Senhor, o seu pai e outros demónios com ele parecidos abandonassem sua natureza invejosa e parassem de atormentar os devotos (khalah prasidatam). O problema é que khalah ( a entidade viva invejosa) raramente se apazigua. Uma espécie de khalah, a serpente, pode ser apaziguada simplesmente com mantras ou com a acção de uma erva específica (mantrausadhi-vasah sarpah khalakena nivaryate). Contudo, não há como apaziguar uma pessoa invejosa. Portanto, Prahlada Maharaja ora para que todas as pessoas invejosas, passem por uma mudança de coração e pensem no bem-estar alheio.

 

Se o movimento da consciência de Krsna se espalhar por todo o mundo e se, pela graça de Krsna, todos vierem a aceitá-lo, o pensamento das pessoas invejosas mudará. Todos pensarão no bem-estar alheio. Portanto, Prahlada Maharaja ora: sivam mitho dhiya. Nas actividades materiais, todos invejam os demais, porém, em consciência de Krsna, ninguém inveja outrem; todos pensam no bem-estar alheio. Portanto, Prahlada Maharaja implora que as mentes de todos possam tornar-se benévolas e se fixem aos pés de lótus de Krsna (bhajatad adhoksaje). Como se indica noutra passagem do Srimad-Bhagavatam (sa vai manah krsna-padaravindayoh) e como o Senhor Krsna aconselha no Bhagavad-gita (18.65), manmana bhava mad-bhaktah, devemos pensar constantemente nos pés de lótus do Senhor Krsna. Então, as nossas mentes concerteza tornar-se-ão limpas (ceto darpanam-marjanam). Os materialistas vivem a pensar no gozo dos sentidos, mas Prahlada Maharaja ora para que a misericórdia do Senhor lhes mude as mentes e eles deixem de pensar no gozo dos sentidos. Se eles pensarem sempre em Krsna, tudo dará certo. Algumas pessoas argumentam que, se todos pensarem em Krsna dessa maneira, o mundo inteiro ficará vazio porque todos voltarão ao lar, voltarão ao Supremo. Contudo, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura diz que isto é impossivel, pois existem muitas entidades vivas. Se o movimento da consciência de Krsna libertar de facto um determinado conjunto de entidades vivas, outro grupo encherá o universo inteiro.

 

COMENTÁRIO feito por Giriraj Swami

 

vancha-kalpatarubhyas ca

  krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo

  vaisnavebhyo namo namah

 

No significado, Srila Prabhupada citou este verso porque ele descreve um Vaisnava, e porque Prahlada Maharaja,que recitou estas orações que estamos a ler e a comentar, é um exemplo excelente de um Vaisnava.

 

Hiranyakasipu, o pai de Prahlada, era um grande demónio e executou austeridades tão severas, que perturbou todo o universo. Finalmente o Senhor Brahma aproximou-se pessoalmente a Hiranyakasipu para lhe perguntar que benção é que ele queria. Deste modo ele acabaria com as suas austeridades e pararia com a perturbação dentro do universo.

 

Hiranyakasipu pediu a benção de se tornar imortal, mas o Senhor Brahma respondeu, “Eu próprio, não sou imortal.” Hiranyakasipu então pediu varias bençãos que, pensou ele, o fariam imortal. Ele pediu para que não fosse morto dentro ou fora de um edificio. Ele pediu para não ser morto nem de dia nem de noite. Ele orou para não ser morto na terra ou no ar. Ele orou para não ser morto por nenhum ser humano ou animal, semideus, demónio ou qualquer outra criatura. Orou para não ser morto por nenhuma arma. Ele pensou que, ao pedir tais bençãos, eventualmente tornar-se-ía imortal e ficaría com supremacia absoluta sobre o universo. O Senhor Brahma concordou com todos os pedidos dizendo, “Que assim seja.”

 

No transcurso do tempo, Hiranyakasipu teve um filho chamado Prahlada, que era um devoto. Anteriormente o Senhor, na forma de Varahadeva, tinha morto o irmão de Hiranyakasipu, Hiranyaksa,e Hiranyakasipu estava determinado em vingar a morte de seu irmão—na verdade ele pensava que podia matar Visnu. Ele sabia que Visnu tinha aparecido como Varaha e tinha morto Hiranyaksa. Mais tarde, Diti, a mãe de Hiranyaksa e Hiranyakasipu, desejou ter um filho que pudesse matar Indra porque ela pensava que Indra, com a ajuda de Visnu, era o responsável pela morte de seus filhos.

 

Com as escrituras aprendemos—sadhu-sastra-guru-vakya—que Visnu é Deus. Poderíamos perguntar, “Como poderia alguém imaginar matar Deus?” mas se Deus viesse a esta sala, e não O reconhecêssemos pelos aspectos que estão mencionados nas escrituras, não saberíamos que era Deus porque Deus é parecido com o ser humano. Na Biblia está dito, “Deus criou o homem à Sua própria imagem.” Deus, tal como nós, tem braços, pernas, mãos, pés, olhos, nariz, boca e todos os outros aspectos corporais. O Seu corpo é como o nosso. O que O distingue de nós são as Suas potências imensuráveis. Por exemplo,, o presidente dos Estados Unidos tem poderes imensos (mais do que alguns gostam). Se ele quiser, pode dar ordens ao exército para invadir um país, ou pode enviar a polícia prender um cidadão. Ele parece-se connosco mas não temos o mesmo poder. Podemos querer fazer certas coisas, mas não temos o poder. Ele sim, tem o poder mas, mesmo assim, é parecido connosco.

 

Quando alguém executa grandes austeridades pode conseguir grandes poderes. Mesmo os demónios, se executam as austeridades prescritas, podem tornar-se muito poderosos e alcançar várias perfeições místicas. Os demónios também podem conseguir poderes apesar do Senhor Visnu ter todo o poder e potência mística. Hiranyakasipu pensou que, através das austeridades e poderes derivados delas, juntamente com as bençãos que tinha conseguido do Senhor Brahma, poderia tornar-se imortal e conquistar o universo. Ele criou uma grande perturbação no universo ao executar grandes austeridades; essa perturbação consistia em ter declarado guerra aos semideuses e conquistado os territórios deles.

 

Naturalmente que Hiranyakasipu queria que seu filho fosse como ele, um grande materialista, e para tal educou-o adequadamente. Ele ocupou professores a instruir o rapaz a tornar-se perito na política e na diplomacia. Apesar de ser um demónio, Hiranyakasipu tinha afeição natural pelo seu filho. Por vezes os pais perguntam aos seus filhos, “Que é que aprendeste hoje na escola? Qual é o tema que gostas mais?” desse modo Hiranyakasipu perguntou a Prahlada, “Qual foi o assunto que gostastes mais de aprender?” Ele pensou que Prahlada diria alguma coisa engraçada, alguma coisa doce, mas Prahlada deu a pior resposta alguma vez imaginada por Hiranyakasipu. Ele disse, “A melhor coisa que aprendi foi sravanam kirtanam visnoh smaranam pada-sevanam/ arcanam vandanam dasyam sakhyam atma-nivedanam.” Escutar e glorificar sobre Visnu. Sim, Visnu, a quem Hiranyakasipu considerava o seu pior inimigo. Visnu. Portanto Hiranyakasipu ficou furioso e decidiu matar Prahlada. Ele argumentou que se uma parte do corpo fica infectada, a doença pode expandir-se por todo o corpo e matar a pessoa. Apesar de ser parte do nosso corpo, devemos amputá-la para salvar o resto do corpo. Ele pensou “apesar de Prahlada ser meu filho, ele ficou infectado pela doença do Vaisnavismo e, portanto, temos de matá-lo antes que a doença se espalhe e acabe connosco.”    

 

Como se descreve no Sétimo Canto do Srimad-Bhagavatam, ele tentou matar Prahlada de diferentes maneiras mas, apesar de ser tão poderoso . . . Hiranyakasipu tinha conquistado os semideuses. Ele ocupava o trono do rei Indra e governava os habitantes de todos os outros planetas muito severamente. À excepção de Brahma e Siva, todos os outros semideuses ocupavam-se a seu serviço, oferecendo-lhe reverências e glorificação. Era tão poderoso—mas não foi capaz de matar Prahlada. Ele fez com que demónios de aspecto horrível, tentassem trespassar o corpo de Prahlada com tridentes. Ele atirou Prahlada para baixo dos pés de elefantes muito grandes, e para o meio de enormes serpentes mas, apesar de tudo, não foi capaz de o matar. Atirou-o do cimo de uma montanha, deu-lhe veneno para tomar, fê-lo passar fome e atirou-lhe pedras gigantescas para esmagá-lo. Nada funcionava—Prahlada não ficava minimamente afectado—e Hiranyakasipu estava surpreendido. Tinha conquistado os exércitos dos semideuses mas não conseguia subjugar o seu filho de cinco anos de idade.

 

Finalmente, quando todos os seus esforços fracassaram, Hiranyakasipu perguntou a Prahlada, “De onde consegues o teu poder? Tu estás consciente que, quando fico zangado, todos os planetas dos três mundos, bem como os seus governantes tremem? Tu não tens medo e ultrapassaste a minha capacidade de te controlar. De onde consegues a tua força?” Prahlada respondeu, “Eu consigo-a da mesma fonte que tu, da fonte de toda a energia-de Deus.” Nesse momento, Hiranyakasipu ficou verdadeiramente enfurecido, porque ele pensava que era a fonte de seu próprio poder. Essa é a mentalidade demoníaca. Pensamos que somos os executores—kartaham iti manyate. Pensamos, isvaro´ham aham bhogi siddho ´ham balavan sukhi: “eu sou o controlador, o desfrutador. Eu sou perfeito, poderoso e feliz.” Essa é a tendência demoníaca. Hiranyakasipu não queria escutar que o seu poder vinha de outra pessoa-e que dizer da pessoa que Prahlada tinha mencionado: o Supremo Senhor ilimitado.

 

Nessa altura Hiranyakasipu ficou ainda mais enfurecido e mais desafiador. Ele disse a Prahlada, “Se esse teu Deus está em todo o lado, porque é que ele não está presente diante de mim, nesta coluna? Agora vou matar-te e vamos ver se esse teu Deus te protege!” Cheio de raiva, Hiranyakasipu levantou-se de seu trono, agarrou na sua espada e com grande ira esmorrou a coluna. Então, de dentro da coluna emergiu a forma maravilhosa de Nrsimhadeva. Nrsimha Bhagavan ki jaya!

 

Nrsimhadeva era único. Não era um homem, nem um animal mas tinha uma forma de metade leão e metade homem. O Seu aparecimento preencheu todas as condições dadas pelo Senhor Brahma. Não era um semideus, nem ser humano nem animal- Ele não era nenhuma das criaturas. A seu devido tempo, agarrou Hiranyakasipu, colocou-o no Seu regaço, e com as Suas unhas abriu-lhe o peito. Hiranyakasipu era extraordinariamente poderoso e o seu peito podia tolerar o raio de Indra. Ninguém podia ferir o seu corpo. Era muito poderoso.

 

Podia-se atirar flechas, bem como todo o tipo de armas contra ele, que estas eram projectadas como se fossem insignificantes. Não era fácil abrir o seu peito. Contudo Nrsimhadeva abriu-o com as suas unhas grandes, extraíu-lhe o coração e assim matou este grande demónio.

 

Diariamente glorificamos o Senhor Nrsimha com a oração, (uma linha dessa oração foi citada no significado de Srila Prabhupada):

 

ito nrsimhah parato nrsimho

  yato yato yami tato nrsimhah

bahir nrsimho hrdaye nrsimho

  nrsimham adim saranam prapadye

 

Ito nrsimhah significa “Nrsimha está aqui”; parato nrsimho quer dizer “Nrsimha tambem está lá, do outro lado: “yato yato yami tato nrsimho: “onde quer que vá, aí está Nrsimha.” Bahir nrsimho: “Nrsimha está no exterior”. Hrdaye nrsimho: “Nrsimha está no meu coração.” Nrsimham adim saranam prapadye: “Eu refugio-me no Senhor Nrsimha, o Senhor original.” Ele está em todo o lado.

 

Nós também cantamos:

 

namas te nara-simhaya

  prahladahlada-dayine

hiranyakasipor vaksah-

  sila-tanka-nakhalaye

 

Sila-tanka-nakhalaye. Sila quer dizer “pedra” como em saligrama-sila; nakha significa “unhas”; e tanka significa “cinzel”. Se queremos quebrar uma pedra dura, temos de utilizar um cinzel. As unhas do Senhor Nrsimha eram como cinzeis que cortaram o peito de Hiranyakasipu—o seu peito e coração, que eram duros como pedra.

 

Hirianyakasipu pensava que, através do seu próprio poder e inteligência, poderia tornar-se imortal. Porém a sua inteligência não era tão grande quanto a de Nrsimha, que manteve todas as bençãos de Brahma intactas e, ainda assim, conseguiu matar o demónio. Nrsimhadeva assumiu esta forma maravilhosa-adbhuta significa “maravilhosa”—que era metade homem e metade leão. Ele sentou-se no umbral do palácio, que não era dentro nem fora do mesmo. Apareceu no crepúsculo, que não era de dia nem de noite. Matou Hiranyakasipu no Seu regaço-não foi no ar nem na terra. Não o matou com armas, mas com as Suas unhas. Portanto, manteve intactas todas as bençãos e, ainda assim, matou-o.

 

Srila Prabhupada explica que, não importa o quão inteligente possamos ser, Krsna é sempre um pouco mais inteligente. Mãe Yasoda tentou atar Krsna com cordas, mas apesar de ter unido muitas cordas, Ele permanecia sempre dois dedos maior que elas. Faltava sempre um pouquinho para atá-Lo. Do mesmo modo, se tentarmos competir com Deus-tentarmos superar Deus, tentarmos enganar Deus-nunca o conseguiremos. Srila Prabhupada explica, “Hiranyakasipu pensava somente na bomba atómica, em como proteger-se da bomba mas, esqueceu-se das unhas.” Fez tantos arranjos para se proteger, mas nem sequer se deu ao trabalho de pensar nas unhas. Portanto, a conclusão deverá ser “se não pudemos lutar com Ele, devemos unir-nos a Ele.” Nrsimham adim saranyam prapadye. Devemos render-nos a Nrsimhadeva. Não devemos competir com Ele, nem lutar com Ele. Essa é a essência das orações de Prahlada.

 

Depois de Nrsimhadeva ter morto Hiranyakasipu, pediu a Prahlada para aceitar alguma benção, mas Prahlada não quis nenhum favorecimento material porque era um devoto puro. No verso de hoje encontramos a palavra ahaituki: sem nenhum motivo. Prahlada não tinha motivações materiais, por isso, quando o Senhor Nrsimhadeva lhe pediu que aceitasse uma benção, ele recusou. Disse, “Porque me está a tentar com expectativas materiais? Se eu desejasse beneficios materiais em troca do serviço devocional, não seria um servente. Seria como um homem de negócios que quer lucros em troca do serviço. Senhor, sou Vosso servente eterno e Vós sois o meu mestre eterno. Não temos outro relacionamento.” Prahlada pediu somente para que não houvesse nenhuns desejos materiais dentro de seu coração.

 

Porém, Nrsimhadeva insistia para que Prahlada aceitasse alguma benção e, finalmente, Prahlada concordou: “Se realmente quer que aceite algo de Vós, então peço-Vos para que purifique o meu pai.” Esta situação mostra o carácter exemplar de Prahlada que, como diz Srila Prabhupada, é um Vaisnava no verdadeiro sentido da palavra. O Vaisnava, é o amigo de todos, de todas as entidades vivas (suhrdah sarva-dehinam). Nunca se torna o inimigo de seu inimigo. Permanece sempre o amigo de todos-até de seus inimigos. Portanto, apesar de Hiranyakasipu ter sido tão invejoso-mesmo de seu próprio filho-tentando matá-lo de tantas maneiras, Prahlada permaneceu fiel ao seu carácter como um Vaisnava. Pensou no bem-estar de seu pai. Desejou-lhe o bem.

 

Prahlada, nesta oração ao Senhor Nrsimhadeva, ora por seu pai e por todas as pessoas invejosas, para que se tornem pacíficas. Khalah prasidatam: “Que todas as pessoas invejosas se apaziguem.” Srila Prabhupada esclarece que quase todos são invejosos. Na realidade, entramos neste mundo material, porque somos invejosos de Krsna. Essa é a razão pela qual estamos aqui. Portanto Srila Prabhupada diz “quase todos.” As únicas excepções são os devotos puros. Todos os outros, têm alguma inveja. É como dizer, “quase todos na prisão são criminosos.” Sim, em princípio, todos os prisioneiros são criminosos. Existem alguns colaboradores da prisão que não o são, que estão lá para orientar os internos, mas os prisioneiros, esses são criminosos. Portanto, à excepção dos devotos que trabalham para o bem-estar das almas caídas, todos são invejosos. Ninguém é poupado pela inveja. Hiranyakasipu, era invejoso de um devoto puro, o seu filho de cinco anos. Diti ficou invejosa de Indra que era seu sobrinho. Quis matá-lo ou contratar alguém para o matar. Ninguém é poupado.

 

Se quisermos sair do enredo da existência material, teremos que libertar-nos da inveja. Como é que nos libertamos da inveja? Através do processo da consciência de Krsna. Essa é a oração de Prahlada: bhajatad adhoksaje. Bhaja significa adorar e servir. A palavra bhakti, vem da raíz verbal bhaj: servir com devoção. Servir a quem? Adhoksaja: Krsna, que está além da percepção material dos sentidos. Hiranyakasipu não podia ver Visnu; o Senhor estava além da sua percepção sensorial. Só quando Visnu decidiu aparecer diante dele, ao saír da coluna como Nrsimhadeva, é que Hiranyakasipu pode vê-Lo. Só os devotos puros podem ver a Krsna, ninguém mais. Ele está além da percepção materialmente contaminada dos sentidos, da mente e inteligência das almas condicionadas.

 

Portanto, o processo é a consciência de Krsna (bhajatad adhoksaje). Como Prahlada explicou, ocupamo-nos em serviço devocional em consciência de Krsna, através de sravanam kirtanam visnoh smaranam: escutar e recitar sobre Visnu e lembrar-se d´Ele. Srila Prabhupada citou do Siksastaka, ceto-darpanammarjanam: sankirtana, a recitação dos santos nomes do Senhor, limpa o coração. Esse é o processo. Quando o coração se limpa tornamo-nos pacificos e calmos (bhadram).

 

Este processo, está descrito em dois versos muito importantes do Segundo Capítulo do SrimadBhagavatam:

 

srnvatam sva-kathah krsnah

  punya-sravana-kirtanah

hrdy antah-stho hy abhadrani

  vidhunoti suhrt satam

 

“Sri Krsna a Personalidade de Deus, que é o Paramatma [Superalma] no coração de todos e o benfeitor do devoto veraz, purifica do desejo de gozo material o coração do devoto que desenvolveu o desejo ardente por ouvir Suas mensagens, que por si só são virtuosas, quando adequadamente ouvidas e recitadas.” (SB 1.2.17)

 

Srnvatam sva-katha krsnah. Quando escutamos krsnakatha, todo o abhadrani, todos os desejos materiais, todas as perturbações dentro do coração, são limpas pelo próprio Senhor, que está sentado dentro do coração como um amigo bem-querente do devoto veraz (vidhunoti suhrt satam). O som transcendental é Krsna. Krsna entra no ouvido na forma de som trancendental e, quando escutamos apropiadamente, o som entra no coração e limpa-o. Krsna, na forma de som transcendental, limpará as coisas sujas que estão no coração (ceto-darpana-marjanam).

 

O verso seguinte explica ainda que:

 

nasta-prayesv abhadresu

  nityam bhagavata-sevaya

bhagavaty uttama-sloke

  bhaktir bhavati naisthiki

 

“Assistindo regularmente às aulas sobre Bhagavatam e prestando serviço ao devoto puro, tudo o que é molesto ao coração é quase que completamente destruído, e o serviço amoroso à Personalidade de Deus, o qual se louva com canções transcendentais, é estabelecido como um facto irrevogável.” (SB 1.2.18)

 

Bhagavatasevaya: por servir a pessoa bhagavata ou o livro bhagavata, tudo o que é perturbador no coração-a mesma palavra, abhadrani (abhadra, nasta-prayesv abhadresu), tudo o que é problemático, tudo o que perturba o coração nesta plataforma, é praticamente destruído. Quando Prahlada ora para que as pessoas invejosas se pacifiquem (bhadram), ele ora para que todas as abhadra, as perturbações, os desejos materiais dentro do coração, sejam removidos. O processo da remoção é a consciência de Krsna, através de absorver a mente em Krsna. Este método é recomendado no Bhagavad-gita (manmana bhava madbhakto)e no Srimad-Bhagavatam (sa vai manah krsnapadaravindayoh)-absorver a mente em Krsna. Isto é consciência de Krsna, e pode purificar o nosso coração e tornar-nos calmos e pacíficos. Então, em vez de invejarmos os outros e querermos explorá-los e dominá-los, pensaremos no seu bem estar. Vamos querer ajudá-los e encorajá-los em consciência de Krsna.

 

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 1:02 pm

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Nrsimha Caturdasi – 2.ª parte

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(continuação de Nrsimha caturdasi – parte I)

 

O nosso processo principal, que nos foi dado especialmente por Sri Caitanya Mahaparabhu em Kaliyuga, é sankirtana, a recitação dos santos nomes do Senhor. Entretanto, devemos fazê-lo de tal maneira que a nossa mente fique absorta. Esta é a oração de Prahlada: que as nossas mentes se absorvam em Krsna. Quando recitamos, queremos escutar-queremos que as nossas mentes se absorvam no som do santo nome do Senhor Krsna. Mas quando tentamos praticar o que é que observamos? A nossa mente está tranquila? Está absorta no santo nome de Krsna ou está a vaguear daqui para ali pensando em diferentes situações para controlar e desfrutar, sugerindo a mentalidade descrita no Bhagavadgita e atribuída aos demónios: isvaro`ham aham bhogi—“Eu sou o controlador; eu sou o desfrutador”? Quando analisamos os pensamentos que temos enquanto recitamos-enquanto supostamente recitamos e ouvimos-constataremos que o substrato é “Eu sou o desfrutador; Eu sou o controlador.” Recitamos mas estamos distraídos pensando, “Oh, tenho que fazer isto. Tenho que fazer aquilo.” O que está implícito é que pensamos que somos o controlador. “Tenho que controlar todas estas coisas. Não posso ouvir o nome de Krsna. Tenho que controlar estas coisas todas.” Porque é que queremos controlar? Embora possamos querer controlar para o serviço de Krsna, a tendência é controlar para a gratificação dos sentidos. Queremos controlar as pessoas e as situações de forma a tornar as nossas vidas mais prazeirosas. Fazemos planos para tornar as nossas vidas mais agradáveis.

 

 Também existe em nós esta inclinação demoníaca, da qual falámos em relação a Hiranyakasipu. Ravindra Svarupa Prabhu, nosso irmão espiritual, cita regularmente, “vimos o inimigo e o inimigo somos nós” (risos). Nós somos o inimigo. Não está fora de nós. Nós somos o inimigo-as nossas más inclinações, as nossas mentes e sentidos descontrolados. O problema não está fora, mas sim dentro de nós.

 

Portanto, temos que nos esforçar muito. Temos que nos esforçar para recitar e escutar com atenção, com sentimento. Para onde quer que a mente divague, temos que trazê-la de volta para o som do santo nome de Krsna. Isto é algo dificil de fazer. Na verdade é um esforço em vão, se o tentarmos fazer por nossa conta. Precisamos de ajuda, de misericórdia; precisamos da misericórdia de Krsna, e Prahlada está a ajudar-nos. Devemos orar, mas é Prahlada quem nos guia na oração. No verso 8 ele orou ao Senhor Nrsimhadeva, situado no coração, “Bondosamente aniquile os meus desejos demoníacos. Assim como destruiu Hiranyakasipu, bondosamente destrua os meus desejos que se assemelham a demónios, mate as minhas más propensões, e sente-se no trono do meu coração.

 

Devemos actuar de duas maneiras: esforçando-nos, e orando por misericórdia. Quando o Senhor vê que nos estamos a esforçar honestamente, fica inclinado a dar a Sua misericórdia. Não devemos ficar parados, sem fazer nada, e orar por misericórdia. Temos que nos esforçar, mas também compreender que, só com o nosso esforço, não conseguiremos ser exitosos; necessitamos da ajuda do Senhor. Ele será misericordioso, quando vir o nosso esforço genuíno, sincero e incansável. Mencionámos Mãe Yasoda. Ela não pode atar Krsna juntando todas as cordas de Vraja mas, quando Krsna se apercebeu do seu esforço incansável para O atar, sentiu compaixão e permitiu que ela O atasse. Os nossos acaryas explicam que os dois dedos de corda que sempre faltavam podem ser supridos (1) pelo nosso esforço intenso (parisrama), e (2) pela misericórdia de Krsna (krsna-krpa). Estes dois elementos podem cobrir a distância, e tornar os nossos esforços exitosos—pela graça de Krsna.

 

Srila Visvanatha Cakravarti Thakura, citado por Prabhupada no significado, explica que sempre que um devoto oferece uma oração ao Senhor, pede-Lhe alguma benção. Na oração om namo bhagavate narasimhaya, um pedido de benção está implícito. Entretanto, um devoto nunca pedirá bençãos materiais, como o fez Hiranyakasipu. “Quero tornar-me imortal, para que possa conquistar o universo e fazer de todos, meus servos.” O devoto pedirá uma benção que esteja relacionada com o serviço devocional e isso não está errado. Não pedirá nada que seja para a sua gratificação dos sentidos. Pedirá algo para a consciência de Krsna-a sua consciência de Krsna e a consciência de Krsna dos outros.

 

Encontramos este exemplo no Siksastaka (5):

 

ayi nanda-tanuja kinkaram

 patitam mam visame bhavambudhau

krpaya tava pada-pankaja-

 sthita-dhuli-sadrsam vicintaya

 

“Ó filho de Maharaja Nanda (Krsna), seu Teu servo eterno porém, caí neste oceano horrível de nascimento e morte. Por favor tire-me deste oceano de morte e coloque-me como um dos átomos a Seus pés de lótus. ”

 

Este é um verso muito importante. Ayi nanda tanuja kinkaram: “Sou Seu servo eterno.” Somos serventes de Krsna-específicamente de Krsna, o filho de Nanda. Nanda tanuja é um termo íntimo. Tanu quer dizer “corpo” e ja signica “nascido”. Apesar do Senhor ser aja, não nascido; para executar os Seus divertimentos em Vrndavana, ele aparece como nanda tanuja, Aquele que “nasceu do corpo de Nanda.” É um termo muito íntimo. “Apesar de ser Seu servo (kinkaram), de alguma forma caí neste terrível oceano de nascimento e morte (patitam mam visame bhavambudhau).

 

Bhava significa “existir” ou “passar a existir e depois cessar a existência.” Prabhupada traduz visame como “horrível”. Literalmente visa quer dizer “veneno.” Esta existência material é como um oceano de veneno. Dentro deste oceano existem aquáticos ferozes tais como tubarões, que estão prontos para nos devorar. Estas criaturas mortíferas são comparadas à luxúria, ira e cobiça-sempre preparadas para nos devorar e acabar connosco. No oceano existem ondas, ondas terríveis, que são comparadas às falsas esperanças e às ansiedades. Elas atiram-nos daqui para acolá. Também existem ventos fortes–ventos fortes e tempestades-que são comparados à má associação. O oceano por si, já é bastante mau mas, torna-se pior quando nos sujeitamos à má associação. Tal associação, actua como os ventos fortes que nos arrastam para o caminho errado e nos podem fazer caír. Enquanto estamos aflitos no oceano, a afogar-nos no mar, podemos encontrar pequenos pedaços de madeira e pensar, “Oh, aqui está um pequeno pedaço de madeira. Vou agarrar-me a ele.” Estes pedaços insignificantes de madeira são comparados a karma, jnana, yoga, etc… Eles não podem salvar-nos.

 

A única coisa que nos pode salvar, é a misericórdia (tava krpa). Sri Caitanya Mahaprabhu, que pronunciou os versos chamados Siksastaka, ora “Por Sua misericórdia, por favor, liberte-me deste oceano horrível de nascimento e morte, e coloque-me como um dos átomos a Seus pés de lótus.” É a misericórdia divina que nos pode salvar. Ele ora para ser um átomo aos pés de lótus de Krsna. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura explica que, originalmente, somos todos partes integrantes de Krsna. Dhuli significa literalmente “poeira.” Pada-dhuli: “a poeira dos pés de lótus.” Sri Caitanya Mahaprabhu ora, “Tenha misericórdia imotivada para comigo. Considere-me Seu servo eterno, uma partícula de pó a Seus pés de lótus.”

 

Alguém poderá perguntar, “É apropriado, para um devoto que se refugiou no santo nome de Krsna, falar das misérias da existência material?” Bom, Sri Caitanya Mahaprabhu fez isso. Portanto, não é errado falar das misérias da existência material, como também não é errado orar por misericórdia para ser reínstalado na nossa relação constitucional com Krsna. Estas são coisas que os devotos fazem. Esta deve ser a nossa mentalidade quando recitamos: o santo nome é Krsna e nós queremos restabelecer a relação perdida com Ele. Deste modo, queremos restabelecer a nossa relação com o santo nome—Krsna como o santo nome. A nossa recitação é uma reciprocação pessoal com o santo nome. Quando a nossa mente vagueia, e todos estes anarthas surgem, porque essa é a tendência, oramos por misericórdia, “por favor salve-me. Eu penso que sou Deus, o controlador e desfrutador. Por favor salve-me destes anarthas.” Este é um aspecto da oração. O outro aspecto é “por favor ocupe-me em Seu serviço. Por favor aceite-me como Seu servo eterno. Por favor considere-me um átomo a Seus pés de lótus, uma partícula de poeira a Seus pés de lótus.”

 

Temos outro exemplo do Siksastaka (4):

 

na dhanam na janam na sundarim

  kavitam va jagad-isa kamaye

mama janmani janmanisvare

  bhavatad bhaktir ahaituki tvayi

 

“Ó Senhor do universo, não desejo riqueza material, seguidores materialistas, uma esposa bonita, ou actividades fruitivas descritas em linguagem florida. Tudo o quero, vida após vida, é o Seu serviço devocional sem causa.”

 

 Ahaituki. De novo a palavra ahaituki: “sem causa, sem nenhum motivo de ganho material de qualquer tipo.” Serviço devocional puro é anyabhilasita-sunyam jnana-karmady-anavrtam. Anyabhilasita sunyam: sem nenhum motivo adjacente. Jnana-karmady-anavrtam: não é coberto por karma, jnana, ou outros processos. No Seu Siksastaka, Sri Caitanya Mahaprabhu ora na mentalidade da devoção pura: na dhanam na janam na sundarim kavitam. Dhanam significa “riqueza.” Janam quer dizer “seguidores.” Sundarim significa “mulheres bonitas, esposa bonita.” Kavitam significa “poesia” ou “as palavras floridas dos Vedas.” Por vezes sundarim é colocado ao lado de kavitam significando assim “poesia bonita.” Algumas pessoas pensam que podem realizar a Deus através da poesia, música, ou a arte e estão apegadas a tais prazeres subtís, quase celestiais. Eles dizem que podem realizar Deus escutando música sinfónica ou qualquer outra coisa. Portanto sundarim kavitam: poesia bonita. Quando sundarim é colocado com kavitam, então belas mulheres, bela esposa, crianças, parentes e amigos, estão incluídos em janam. Todos estes ganhos são alcançados através de actividades materiais piedosas-em outras palavras, karma. Portanto quando Ele diz na dhanam na janam na sundarim kavitam, quer dizer que não quer nada que possa ser alcançado por karma. Quando Ele diz mama janmana janmanisvare, quer estar ocupado nascimento após nascimento em serviço devocional puro. Ele diz-nos que não quer nem mesmo a liberação, que é a meta de jnana. Por outras palavras, Ele não ora pelos resultados de karma e jnana, mas pede somente serviço devocional puro. Este é o calibre de um devoto puro. Isso é o que devemos almejar.

 

Entretanto Prahlada não pede para si mesmo. Ele ora por todas as entidades vivas. Aqui também o mesmo principio é aplicado: nós oramos, mas também devemos esforçar-nos. Não é suficiente estarmos parados e orar, “Por favor liberte todas as entidades vivas do universo” enquanto nos ocupamos em comer e dormir, ou mesmo enquanto recitamos o santo nome para o nosso beneficio. Também temos que trabalhar para a libertação das almas caídas. Esta combinação de esforço e oração será efectiva. Mais tarde, no Sétimo Canto (SB 7.9.44), nas orações de Prahlada a Nrsimhadeva, encontramos:

 

prayena deva munayah sva-vimukti-kama

  maunam caranti vijane na parartha-nisthah

naitan vihaya krpanan vimumuksa eko

  nanyam tvad asya saranam bhramato ’nupasye

 

“Meu querido Senhor Nrsimhadeva, vejo que, na verdade, existem muitas pessoas santas, mas elas estão interessadas unicamente em sua própia liberação. Não se preocupando com as grandes cidades e províncias, elas, sob voto de silêncio [mauna vrata], vão aos Himalaias ou às florestas para meditar. Elas não estão interessadas em libertar os outros. Entretanto, quanto a mim, não quero libertar-me sozinho e deixar de lado todos esses pobres tolos e patifes. Sei que, sem consciência de Krsna, sem refugiar-se nos Vossos pés de lótus, ninguém pode ser feliz. Portanto, desejo trazer todos de volta ao refúgio de Vossos pés de lótus.”

 

Prahlada não tem por que se preocupar com a sua liberação porque, sendo um devoto puro, já está liberado. Onde quer que se encontre pode sempre submergir-se no oceano nectáreo das glórias e dos santos nomes do Senhor, e experimentar bem aventurança transcendental. Ele explica, “No que me diz respeito, não tenho qualquer ansiedade, mas tenho uma preocupação. Lamento-me (soce) porque as pessoas sofrem pela ausência da consciência de Krsna, e por isso encontro-me sempre a fazer planos para ocupá-las em serviço devocional.”

 

naivodvije para duratyaya-vaitaranyas

  tvad-virya-gayana-mahamrta-magna-cittah

soce tato vimukha-cetasa indriyartha-

  maya-sukhaya bharam udvahato vimudhan

 

“Ó melhor das grandes personalidades, não temo nem um pouquinho a existência material, pois, em qualquer lugar onde eu permaneça, estarei plenamente absorto em pensar em Vossas gloriosas actividades. Fico preocupado apenas com os tolos e patifes que andam às voltas com planos elaborados, através dos quais procuram obter felicidade material e manter suas famílias, sociedade e países. Estou preocupado com eles porque lhes quero bem.”

 

Prahlada Maharaja é um dos nossos acaryas-um dos doze mahajanas-e ele está a ensinar-nos com o seu exemplo. Ele medita em como liberar as almas caídas, como induzí-las a aceitar a consciência de Krsna. Ele está também a orar à sua deidade adorável, o Senhor Nrsimhadeva, para que seja misericordioso com as almas caídas e as libere, porque ele sabe que por si mesmo não pode liberá-las—e que por si mesmas, elas também não se podem liberar. Como tal, precisamos da misericórdia do Senhor para pregar. Para practicar a consciência de Krsna, também necessitamos da misericórdia do Senhor. Em cada etapa, precisamos dessa misericórdia. Porém, ao mesmo tempo, temos também de nos esforçar.

 

Para concluir, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura levanta a questão, “O que acontecerá se a oração de Prahlada Maharaja for aceite e todos se tornarem conscientes de Krsna? Todos abandonarão o universo material e voltarão ao supremo. Assim sendo, o que acontecerá ao universo?”

 

No Ardha-kumbha-mela em 1971, tive uma rara oportunidade de estar com Srila Prabhupada na sua tenda, enquanto ele dava um darsana, recebendo visitantes pela tarde. Um homem perguntou-lhe, “E se todos se tornarem devotos, o que será do mundo?” Prabhupada pediu-me para eu responder. Eu não me lembro exactamente o que disse, talvez algo sobre como pode a prisão continuar se todos os prisioneiros se redimirem e forem libertos; mas eu fiquei muito atento para escutar aquilo que Prabhupada tinha para dizer depois da minha tentativa de resposta. Srila Prabhupada disse, “E se todos se tornarem ricos? Quem será o chauffeur? Todos querem ser ricos. Não se pode argumentar: e se todos se tornarem ricos? para dizer que as pessoas não tentam tornar-se ricas.” Prabhupada continuou, “o problema não é que demasiadas pessoas se tornarão conscientes de Krsna; o problema é que um número insuficiente de pessoas se tornarão conscientes de Krsna. Pensa que isso é um problema – que pessoas em demasia se tornarão conscientes de Krsna? Esse não é o problema. O problema é que um número insuficiente de pessoas se tornarão conscientes de Krsna.”

 

Um dia, uma das nossas irmãs espirituais, Jahnava devi dasi, imbuída com o sentimento de pensar no bem estar de cada entidade viva, perguntou a Srila Prabhupada, “Quando recitamos o mantra, devemos pensar no bem estar de todas as entidades vivas?” Srila Prabhupada respondeu, “Oh, podes pensar em todas as entidades vivas? Melhor que penses no Senhor Caitanya, e Ele pensará em todas as entidades vivas.” (risos) Podemos desejar o bem estar de todas as entidades vivas, mas não temos capacidade para pensar no bem estar de todas em simultâneo. Mas podemos pensar no Senhor Caitanya, e Ele pensará em todas as entidades vivas. Podemos orar ao Senhor Nrsimhadeva, e Ele pensará em todas as entidades vivas. Podemos orar para nos tornarmos uma pequena partícula de poeira ao serviço deles—um pequeno instrumento na missão d`Eles—pela divina graça d`Eles.

 

Hare Krsna.

 

Nrsimha Bhagavan ki jaya!

Prahlada Maharaja ki jaya!

Srila Prabhupada ki jaya!

Nitai-gaura-premanande hari haribol!

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 12:57 pm

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Dia de Aparecimento de Gadhadhara Pandita

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Dia de Aparecimento de Gadadhara Pandita

Uma palestra dada por Giriraja Swami

17 de Abril de 2007

Dallas

 

 

Hoje comemoramos a auspiciosa ocasião do dia de aparecimento de Sri Gadhadara Pandita. Como muitos de vós sabeis, o Senhor Caitanya é o próprio Krsna que apareceu como Seu próprio devoto. Ele é Krsna, porém tem o brilho corpóreo e o estado emocional de Srimati Radharani. Existem diferentes razões para o Seu aparecimento. A razão interna para o aparecimento do Senhor Caitanya tem a ver com o facto de Krsna querer experimentar a glória do amor que Srimati Radharani sente por Ele; as  Suas qualidades maravilhosas, que só Radharani pode experimentar através do Seu amor por Ele, e a felicidade que Radha sente quando experimenta a doçura do amor de Krsna por Ela—somente Radharani pode experimentar estas emoções.

A razão externa (que em nada é menos significativa) tem a ver com a propagação do yuga-dharma, o método recomendado para a auto-realização em cada era (yuga) específica.

Quatro associados principais descendem com o Senhor para acompanhá-Lo nos Seus divertimentos—Nityananda Prabhu, Advaita Prabhu, Srivasa Thakura, e Gadadhara Pandita. Juntos, com Sri Caitanya Mahaprabhu, formam o Panca-tattva. No Sri Caitanya-caritamrta (Adi 1.14) o autor oferece os seus respeitos a todos os cinco:

 

panca-tattvatmakam krsnam

bhakta-rupa-svarupakam

bhaktavataram bhaktakhyam

namami bhakta-saktikam

 

“Ofereço as minhas reverências ao Supremo Senhor, Krsna, que não é diferente de Seus aspectos como devoto, encarnação devocional, manifestação devocional, devoto puro e energia devocional.”

Krsna apareceu na forma de um devoto (bhakta-rupa), como Sri Caitanya Mahaprabhu; apareceu como a expansão de um devoto (sva-rupakam), como Nityananda Prabhu; apareceu como a encarnação de um devoto (bhakta-avataram), como Advaita Prabhu; apareceu como um devoto (bhakta) como Srivasa Thakura; e apareceu como a energia devocional, que inspira o devoto (bhakta-saktikam), como Gadadhara Pandita. Juntos, vieram propagar o harinam-sankirtan: o yuga-dharma da era actual.

Agora encontramo-nos em  Kali-yuga, a pior era. Apesar de Kali-yuga ser a pior, dá-nos a melhor oportunidade para realizar Deus através do cantar dos santos nomes. No final do Srimad-Bhagavatam, Sri Sukadeva Gosvami diz, kaler dosha- nide rajann: esta Kali-yuga é um oceano de faltas. Um oceano—não se pode medir a largura e o comprimento de um oceano. Asti hy eko mahan guna: mas dentro da Kali-yuga existe uma grande oportunidade. Qual é ela? Kirtanad eva krsnasya mukta-sangah param vrajet: por cantar os santos nomes de Krsna, a pessoa liberta—e da associação material e alcança a suprema meta da vida.

Sanga—associação. Sanga sanjayate kamah. O desejo deriva da associação. Geralmente, neste mundo material, as pessoas estão associadas com os três modos da natureza material: sattva-guna, rajo-guna, e tamo-guna. Devido à sua associação com os três modos elas desenvolvem corpos materiais e mentalidades influenciadas pelos mesmos modos. É muito dificil superar a influência de maya, que é formada por estes três modos:

 

daivi hi esa guna-mayi

mama maya duratyaya

mam eva ye prapadayante

mayam etam taranti te

 

No Bhagavad-gita ( 7.14 ) o Senhor Krsna diz que esta natureza material, que consiste dos três modos, é muito dificil de superar, mas, aquele que se rende a Ele, pode facilmente superá—la e libertar—se  da influência destes modos.

O Senhor Caitanya e  Seus associados do Panca-tattva, vieram saborear e distribuir amor a Deus. Vieram para saborear os santos nomes de Krsna e para distribuir os santos nomes de Krsna. No Sri Caitanya-caritamrta descreve-se que o armazém de amor a Deus tinha permanecido fechado, mas os membros do Panca-tattva quebraram a fechadura, assaltaram o armazém, comeram a mercadoria e ficaram intoxicados com amor a Deus. Entretanto, eles não quiseram desfrutar da mercadoria sozinhos: também a quiseram desfrutar com os outros; essa  era a vida deles—saborear o amor extático a Deus, e distribuí-lo.

O principal método pelo qual eles distribuíram amor a Deus, foi o cantar dos santos nomes de Deus, particularmente o maha-mantra: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Os membros do Panca-tattva ficavam tão intoxicados com o cantar e dançar, que não sabiam se era de dia ou de noite. Certo dia, Nityananda Prabhu liderava um grupo de devotos desde Puri que, no caminho, cantavam e bailavam constantemente. Tentavam voltar à Bengala mas Nityananda Prabhu e os outros estavam tão intoxicados com amor a Deus, que não sabiam que direcção seguir. Seguiam uma direcção e, dias mais tarde, apercebiam-se que não sabiam que caminho tinham seguido. Então pediam a alguém que os orientasse no caminho certo. De novo dias se passavam a cantar e a bailar . . . Eles nem sequer comiam nem dormiam e, passado algum tempo, davam-se conta que, de novo, não sabiam onde estavam. Este era o nível elevado do seu kirtana em amor extático a Deus.

Portanto, isso era o que eles saboreavam e queriam distribuir. De igual modo, isso é o que eles querem que nós aceitemos: o grande presente do santo nome, o grande tesouro de amor a Deus. Golokera prema-dhana, hari-nama-sankirtana: o grande tesouro do amor a Deus, desceu de Goloka Vrndavana, o mundo espiritual, na forma do canto congregacional do santo nome. O santo nome não é uma vibração sonora material. O nome de Krsna é o proprio Krsna. É completamente espiritual.

 

nama cintamanih krsnas

caitanya-rasa-vigraha

purnah suddho nitya-mukto

’bhinnatvan nama-naminoh

 

Nama cintamanih krsnas: o santo nome de Krsna é uma pedra filosofal transcendental que dá todas as bençãos espirituais. Caitanya-rasa-vigraha: é a forma de todas as doçuras transcendentais. É completo (purnah), puro (suddha), e eternamente liberado (nitya-muktah) da influencia de maya, ou seja, dos modos da natureza material. ’Bhinnatvan nama-naminoh: o santo nome de Krsna é, em todos os aspectos,  igual ao próprio Krsna.

Quando recitamos Hare Krsna estamos, em princípio, a associar-nos com Krsna. Srila Prabhupada explicou que o nome de uma substância e a própria substância são diferentes. Portanto, se estamos com sede  e recitamos “água, água, água, água,” o simples recitar “água, água,” não saciará a nossa sede, porque  a palavra água e a substância água são diferentes. Mas, no mundo espiritual, no mundo absoluto, o nome de uma substância e a própria substância são o mesmo. Quando cantamos “Hare Krsna, Hare Krsna,” Krsna está presente em pessoa na nossa língua. Grandes devotos que realizaram Krsna através do processo de recitar, não querem fazer nada mais, excepto recitar. Srila Rupa Gosvami orou, “Com uma língua e dois ouvidos, que posso eu recitar ou saborear? Se tivesse milhões de línguas e biliões de ouvidos então sim, poderia começar a recitar.”  Essa é a plataforma de saborear o santo nome, quando se é capaz de recitar puramente .

Desafortunadamente, não temos tal atracção. No segundo verso do Siksastaka de Caitanya Mahaprabhu, encontramos a palavra “durdaivam” que significa  infortúnio.  Somos desafortunados. Naturalmente, também somos afortunados, porque entrámos em contacto com Srila Prabhupada, que serviu o Panca-tattva ao executar a sua missão, viajando por todo o mundo e distribuindo o santo nome de Krsna. Somos afortunados, mas ao mesmo tempo não somos, pois não experimentamos amor extático quando recitamos, devido às ofensas que cometemos. O grande valor do santo nome pode ser experimentado somente quando recitamos sem ofensas.

Mas mesmo no estágio em que nos encontramos, o Panca-tattva ajuda-nos, pois não leva em consideração as ofensas. Eles são tão liberais e magnânimos que não levam em consideração qualquer ofensa. Assim, se a pessoa recita os santos nomes do Panca-tattva com entusiasmo, com absorção completa, sentir-se-à em êxtase; neste estado pode-se recitar os santos nomes do maha-mantra Hare Krsna sem cometer ofensas.

No entanto, temos de trabalhar. Temos de praticar. Tal como Srila Prabhupada afirmou, “ Recitar é fácil, mas a determinação para cantar não é tão fácil.” Temos de estar determinados a recitar com atenção, sem ofensas. Se somos capazes de recitar sem ofensas, obteremos o grande tesouro do amor a Deus. Como o Senhor Caitanya instruíu, o recitar é muito importante.

 

tara madhye sarva-srestha nama-sankirtana

niraparadhe nama laile paya prema-dhana

 

“Dos nove processos de serviço devocional, o mais importante é o recitar constante do santo nome do Senhor. Se se fizer isso, evitando os dez tipos de ofensas, será possível alcançar o mais valioso amor pela Suprema Personalidade de Deus.” (Cc Antya 4.71)

Existem dez ofensas mencionadas no Padma Purana. Srila Jiva Goswami explicou-as em detalhe no seu Bhakti-sandarbha, e Srila Bhaktivinoda Thakura também as explicou, no seu Sri Hari-nama-cintamani. Nos livros de Srila Prabhupada encontramos, em vários lugares, explicações sobre as dez ofensas. A lista de ofensas que se encontra no Néctar da Devoção é lida regularmente nos templos, como parte do programa espiritual, depois do mangala-arati, no momento em que os devotos se preparam para recitar as suas voltas de japa; ler ou recitar esta lista, escutá-la e orar, ajuda-nos a evitar as ofensas. A última ofensa desta lista é “não ter fé completa no cantar dos santos nomes e manter apegos materiais, mesmo depois de escutar tantas instruções sobre o assunto.” Frequentemente, os devotos acrescentam: “Também é uma ofensa o recitar desatento.” De facto, encontramos na oitava ofensa as últimas palavras em sânscrito api pramada. Pramada significa “desatenção.” No Hari-nama-cintamani, Srila Bhaktivinoda Thakura considerou pramada como um item separado, constituindo a nona ofensa—o recitar desatento. Ele afirmou que ao recitar atentamente, todas as ofensas são destruídas, e que o recitar desatento permite que as restantes ofensas cresçam e floresçam.

Assim sendo, devemos fazer um esforço concentrado para nos livrar-mos desta ofensa (pramada), recitando e escutando com atenção; tal como Krsna diz no Bhagavad-gita (6.26):

 

yato yato niscalati

manas cancalam asthiram

tatas tato niyamyaitad

atmany eva vasam nayet

 

“Sempre que a mente divague, devido à sua natureza instável e inconstante, deve-se com certeza coíbi-la e trazê-la sobre o controle do eu.” Este é, portanto, o nosso dever.

Enquanto recitamos o santo nome, se observarmos as actividades da mente e pensarmos verdadeiramente no que está a acontecer—“porque é que a minha mente está sempre a vaguear? Em que pensa?” (existe uma lista tão vasta  de coisas em que pensamos que nem sequer dá para enumerar)—se pensarmos profundamente, “o que é que está a acontecer? Porque é que tenho todos estes pensamentos quando deveria estar a escutar o santo nome?” verificaremos (pelo menos essa é a minha experiência) que tudo se resume ao facto de pensarmos que somos os executores, os controladores, os proprietários, e os desfrutadores. Na verdade, o santo nome é Krsna, e Ele é o controlador, Ele é o proprietário e Ele é o desfrutador. Portanto rendamo-nos a Ele. Vamos render-nos ao santo nome, render-nos a Krsna na forma de som transcendental e vamos deixar que Ele controle.

     Essas duas horas, ou o tempo que for necessário enquanto recitamos as dezasseis voltas, é o nosso tempo com Krsna. Pelo menos nessas duas horas, não devemos ter nenhum outro pensamento excepto o de estar com Krsna, de nos associarmos com Krsna. Srila Prabhupada explicou que o recitar é uma oração a Radha e Krsna. O nome “Krsna” refere-se, naturalmente, a Krsna e “Hare” é uma forma de nos dirigirmos a Radha. Portanto Hare Krsna significa, “Oh Radha, Oh Krsna.” Quando chamamos pelos nomes das pessoas queremos atraír-lhes a atenção, e quando o conseguimos, elas podem perguntar, “Sim, que queres? Que posso fazer por ti?” Portanto, quando conseguimos a atenção de Radha e Krsna, através de recitar os Seus santos nomes, Hare Krsna, que é que vamos pedir? Um devoto puro pedirá somente uma coisa: serviço. “Quero servir-Vos. Por favor ocupem-me no Vosso serviço.” Essa é a nossa oração quando recitamos o santo nome.

Srila Bhaktivinoda Thakura escreveu muito sobre o Siksastaka e o santo nome. Ele explicou, no Sri Bhajana-rahasya, que as oito orações do Siksastaka correspondem aos oito pares de nomes no maha-mantra. Quando recitamos o maha-mantra Hare Krsna—Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare—os versos do Siksastaka estão incluídos. Se realmente nos concentramos, podemos focalizar em cada par de nomes e compreender, que o verso correspondente do Siksastaka está incluído. Não devemos apressar-nos com as voltas simplesmente para chegar ao fim—“Oh meu Deus . . . bom . . . Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna . . . bom, uma menos, ainda faltam quinze.”  Não devemos ter pressa. Este é o nosso tempo com Krsna. Num sentido, é o momento mais importante do dia—o nosso tempo com Krsna e devemos entregar-nos a Krsna. Naturalmente que O servimos durante o dia—em principio vinte e quatro horas—mas esse é o nosso momento especial de nos associarmos directamente com Ele, directamente com o hari-nam.

Gopala Bhatta Prabhu, nosso irmão espiriual, é dono de uma grande empresa. Tem muitas responsabilidades e projectos mas ele disse-me que quando recita as suas voltas, tira os seus óculos e o relógio de pulso. Esse é o seu momento com Krsna e ele não pensa  noutra coisa. Naturalmente que ele é muito organizado. Faz grandes listas do que tem para fazer e, quando recita o santo nome, não tem que se preocupar com o facto de se lembrar ou esquecer de coisas planeadas. Esse é um defeito comum. É uma forma de desatenção—enquanto recitamos, elaboramos uma lista de coisas que temos para fazer dentro de nossas mentes.

Temos que escutar e, se o que temos que fazer é muito importante, vamos lembrar-nos mais tarde. Temos que abandonar todos os outros pensamentos enquanto recitamos o santo nome e devemos simplesmente escutar. Por vezes, durante esse processo purificatório da recitação, Krsna tenta dizer-nos algo, tenta lembrar-nos de alguma coisa e isso não sai de nossas mentes. Mesmo que tentemos não nos conseguimos esquecer do assunto. Nesse caso, será melhor anotarmos o que for necessário para que a nossa mente se pacifique. Por princípio, e salvo excepções, devemos deixar passar os pensamentos e escutar—tac chrnu—escutar o santo nome de Krsna.

Esta é a grande missão do Panca-tattva, propagar o canto puro do santo nome e, através dele, amor por Deus em extâse.

     Gadadhara Pandita, apareceu um ano depois de Sri Caitanya Mahaprabhu e, na Sua infância, eram inseparaveis. Estavam muito apegados um ao outro. Eles íam à mesma tola, ou escola, de Gangadasa Pandita e, como colegas de escola, desfrutavam de muitas actividades. O Senhor Caitanya, na Sua infancia, era chamado Nimai, porque tinha nascido debaixo de uma árvore de Nima. Nimai e Gadadhara íam juntos à escola em Ganganagara. Regressavam juntos a casa. Estudavam juntos. Banhavam-se juntos no Ganges. Eram inseparáveis. Não conseguíam estar  separados, mesmo que fosse por um só momento. Mais tarde, quando Sri Caitanya Mahaprabhu aceitou sannyasa e foi residir em Jaganatha Puri, Gadadhara Pandita foi com Ele. A maior parte dos associados de Mahaprabhu em Navadvipa permaneceram na Bengala; íam para Puri somente uma vez por ano, passar os quatro meses da estação das chuvas, participar no Ratha-yatra e ver Mahaprabhu. No entanto, Gadadhara Pandita não podia tolerar estar separado do Senhor e o Senhor não tolerava estar separado dele. Ele foi autorizado a permanecer com Mahaprabhu em Puri e aí ocuparam-se em divertimentos. Gadadhara Pandita aceitou ksetra-sannyasa, ou seja, fez um voto de nunca passar uma noite fora do dhama de Jaganatha Puri. Ele ocupou-se no serviço da deidade cujo nome é Tota Gopinatha.

     A primeira vez que Caitanya Mahaprabhu saíu de Puri para viajar a Vrndavana, Gadadhara Pandita seguiu—O, negligenciando o seu ksetra-sannyasa e o seu serviço a Gopinatha. Gadadhara desmaiou quando, finalmente, Caitanya Mahaprabhu o obrigou a regressar a Puri. Não conseguiu tolerar a separação. Também para Mahaprabhu a separação foi dificil, mas tolerou—a porque Ele queria que o voto e o serviço de Gadadhara se mantivessem intactos.

     Juntos em Puri, Gadadhara Pandita e Caitanya Mahaprabhu, partilharam muitas actividades íntimas e amorosas que estão descritas no Sri Caitanya-caritamrta. Regularmente, Sri Caitanya Mahaprabhu visitava Gadadhara Pandita para saborear a leitura que este fazia do Srimad-Bhagavatam. Diz-se que no final, Sri Caitanya Mahaprabhu entrou no templo de Tota Gopinatha e de lá nunca mais saiu. Entrou na divindade de Gopinatha para voltar às Suas diversões eternas.

Depois de Mahaprabhu ter ido embora, Gadadhara Pandita sentiu uma separação tão intensa, que o seu corpo começou a envelhecer muito rapidamente—apesar de ele nem sequer ter  quarenta e oito anos. A seu devido tempo ele nem mesmo conseguia esticar os seus braços para oferecer uma guirlanda à Divindade. Assim que, como escutámos, para facilitar o serviço de Gadadhara, a divindade sentou-se (ainda hoje podemos visitar Tota Gopinatha e ver a Divindade sentada). Passado pouco tempo, o próprio Gadadhara, entrou na Divindade para se juntar a Caitanya Mahaprabhu nas Suas diversões eternas.

O Sri Caitanya-caritamrta afirma que Gadadhara Pandita era uma encarnação da energia de prazer de Sri Krsna. O Sri Gaura-ganoddesa-dipika confirma que Srimati Radharani apareceu no gaura-lila como Gadadhara Pandita.

Quando o Senhor descende, não vem sózinho. Vem com os Seus associados eternos. Assim, quando o Senhor Krsna veio como Sri Krsna Caitanya  no papel de um devoto, os Seus associados eternos acompanharam—no, como devotos, para ajudá—Lo nas Suas actividades.

O Gaura-ganoddesa-dipika escrito por Kavi-karnapura, também ele um associado de Caitanya Mahaprabhu, explica que funções, os associados de Krsna em Krsna-lila, tiveram em gaura-lila.

O Sri Gaura-gannodesa-dipika (147—149) afirma: “Srimati Radharani, a personificação do amor puro por Krsna e a Rainha de Vrindavan, apareceu como Sri Gadadhara Pandita, que era muito querido pelo Senhor Caitanya. Srila Svarupa Damodara Gosvami também confirma que a deusa da fortuna, que apareceu em Vrndavana e era muito querida pelo Senhor Krsna, apareceu como Sri Gadadhara Pandita, que estava cheio de amor pelo Senhor Caitanya Mahaprabhu.”

     Gadadhara Pandita é uma encarnação de Srimati Radharani, a potência interna do Senhor  Krsna, mas, porque o Senhor Caitanya é Krsna actuando com o sentimento de Srimati Radharani, Gadadhara Pandita, apesar de ser Radharani, não actuou com o sentimento de Radharani—porque só pode existir uma Radharani. Gadadhara Pandita compreendeu, “este é o momento de Krsna. É a oportunidade de Krsna saborear o êxtase amoroso de Srimati Radharani, por isso vou manter o meu sentimento de Radha nos bastidores, para ajudá—Lo na Sua experiência de radha-bhava.”

Também está explicado que, se Gadadhara Pandita tivesse manifestado a natureza ou a aparência de Srimati Radharani, Krsna, que estava a tentar absorver-se no sentimento de Radharani, ter-se-ía sentido atraído pela Radha no Seu exterior, e não conseguiria manter o Seu sentimento interno como Radha. Portanto Gadadhara Pandita, para facilitar o Senhor Caitanya nas Suas actividades, executou o papel perfeito para complementar e ajudar o Senhor—o papel de um brahmana perfeito, muito gentil, muito submisso, muito erudito e muito sóbrio.

O Sri Caitanya-caritamrta (Antya 167, 163-164) conclui,

 

panditera saujanya, brahmanyata-guna

drdha prema-mudra loke karila khyapana

 

“Pelo seu comportamento gentil, as suas qualidades brahminicas, e o seu amor fixo por Sri Caitanya Mahaprabhu, Gadadhara Pandita é famoso em todo o mundo.”

 

panditera bhava-mudra kahana na yaya

“gadadhara-prana-natha” nama haila yaya

 

“Ninguém pode descrever as caracteristicas e o amor extático de Gadadhara Pandita. Portanto outro nome de Sri Caitanya Mahaprabhu é, Gadadhara- prananatha, ‘a vida e alma de Gadadhara Pandita.’

 

pandite prabhura prasada kahana na yaya

“gadaira  gauranga” bali’ yanre loke gaya

 

“Ninguém pode estimar quão misericordioso o Senhor é com Gadadhara Pandita mas, as pessoas conhecem o Senhor como Gadaira Gauranga ‘o Senhor Gauranga de Gadadhara Pandita.’ ”

Nesta ocasião auspiciosa, podemos orar a Gadadhara Pandita, um associado muito íntimo de Sri Caitanya Mahaprabhu, e membro do Panca-tattva, para que seja misericordioso connosco, para que nos ajude a saborear e a distribuir o néctar do santo nome, o néctar da consciência de Krsna, como serventes humildes dos seus serventes devotados.

 

Muito obrigado. Hare Krsna.

Sri Gadadhara Pandita ki jaya!

Sri Sri Panca-tattva ki jaya!

Srila Prabhupada ki jaya!

  

 

 

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 at 12:37 pm

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