Aulas de Giriraj Swami em Português

Govardhana-puja

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 Govardhana-puja

 

 

Giriraj Swami:

 

vande ’ham sri-guroh sri-yuta-pada-kamalam sri-gurun vaisnavams ca

sri-rupam sagrajatam saha-gana-raghunathanvitam tam sa jivam

sadvaitam savadhutam parijana-sahitam krsna-caitanya-devam

sri-radha-krsna-padan saha-gana-lalita-sri-visakhanvitams ca

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

Damos a todos as boas vindas nesta ocasião mais auspiciosa do Govardhana-puja. Quando fui iniciado por Srila Prabhupada pela primeira vez, em 1969, ele estava em Los Angeles e eu estava em Boston. Ele enviou-me uma carta que dizia, “O teu nome é “Giriraja.” Giriraja é um nome da colina de Govardhana na qual Krsna costumava apascentar as Suas vacas. Em Vrndavana a colina de Govardhana é adorada como uma representação de Krsna. Por vezes os devotos apanham uma pedra da Colina de Govardhana e mantêm-na em casa como uma representação de Krsna e adoram-na com essa consciência.” Sendo um devoto novo—tinha entrado para o templo umas semanas antes—não conhecia nada sobre a Colina de Govardhana ou sobre Govardhana-puja. E a ideia de apanhar uma pedra da colina para a adorar como uma deidade era para mim um conceito muito diferente. Só vinte e cinco anos mais tarde é que comecei a perceber a importância da Colina de Govardhana nos passatempos de Krsna—e nas vidas dos devotos.

 

Depois de ter servido na India por muitos anos, tive um problema com o visto e não pude voltar lá durante algum tempo. E quando finalmente pude voltar, sentia-me como se estivesse em casa. Sentia-me mais em casa—até mesmo no aeroporto—do que no Ocidente. Talvez porque goste do caos. [risos] A atmosfera parecia mais espiritual, até mesmo no aeroporto. Depois, quando cheguei a Vrndavana, senti-me ainda mais em casa. Apercebi-me que “ Esta é verdadeiramente a minha casa.” E naturalmente, em Vrndavana é muito mais fácil cantar e lembrarmo-nos de Krsna—especialmente em Vrndavana. Primeiro, porque Vrndavana é considerada como sendo espiritual. A Vrndavana na terra, Bhauma Vrndavana, é considerada como sendo não diferente da Vrndavana no mundo espiritual, Goloka Vrndavana. Apesar de haver uma fina cobertura de maya para proteger a confidencialidade de Vrndavana, Vrndavana é espiritual. Depois, Vrndavana está cheia de saddhus, de bhaktas, e na associação dos saddhus, aceleramos o nosso avanço espiritual.

 

tasmin mahan-mukharita madhubhic-caritra-

piyusa-sesa-saritah paritah sravanti

ta ye pibanty avitrso nrpa gadha-karnais

tan na sprsanty asana-trd-bhaya-soka-mohah

 

“Se nesse lugar onde vivem os devotos puros, seguindo as regras e regulações, e assim puramente conscientes e ocupados com grande intensidade em ouvir e cantar as glórias da Suprema Personalidade de Deus, tivermos a oportunidade de escutar o seu fluxo constante de néctar, que é exactamente como as ondas de um rio, esqueceremos as necessidades da vida—a saber, fome e sede—e ficaremos imunes a todas as classes de temor, lamentação e ilusão.” (SB 4.29.3940)

 

Por isso Srila Prabhupada criou a ISKCON, para que houvesse uma sociedade de devotos—na qual as pessoas pudessem associar-se com os devotos e avançassem na sua companhia.

 

Em Vrndavana, todos pensam em Krsna. Krsna é o centro de suas vidas. Lá senti-me em casa. Passados alguns dias, fui visitar a Colina de Govardhana. Na realidade, não conhecia muito sobre a Colina de Govardhana, mas fui lá, e sem fazer grandes ginásticas filosóficas, por algum motivo, senti-me ainda mais em casa que em Vrndavana. Naturalmente que sabemos, num sentido mais alargado, que a Colina de Govardhana faz parte de Vrndavana, mas nessa parte específica de Vrndavana—Govardhana—pude sentir-me ainda mais em casa. Gradualmente comecei a aprender sobre a importância da Colina de Govardhana.

 

Hoje em particular, estamos aqui para celebrar Govardhana-puja e dentro de pouco tempo Sua Santidade Radhanatha Swami arrebatará as nossas mentes com a sua descrição sobre a govardhana-lila, mas eu gostaria de falar sobre um tópico que aprendi acerca da Colina de Govardhana.

 

Srimad-Bhagavatam é considerada a suprema evidência da literatura védica. No Sri Tattva-sandarbha, Srila Jiva Gosvami, citando referências de várias escrituras, explica de uma forma lógica e sistemática que o Srimad-Bhagavatam é a suprema evidência das literaturas Védicas. O próprio Bhagavatam explica que é o fruto maduro da árvore do conhecimento Védico.

 

nigama-kalpa-taror galitam phalam

suka-mukhad amrta-drava-samyutam

pibata bhagavatam rasam alayam

muhur aho rasika bhuvi bhavukah

 

“Ó homens hábeis e pensadores, saboreai o Srimad-Bhagavatam, o fruto maduro da árvore dos desejos das literaturas Védicas. Ele emanou dos lábios de Sri Sukadeva Gosvami. Portanto, este fruto tornou-se ainda mais saboroso, apesar do seu sumo nectáreo já ser agradável para todos, inclusivé para as almas liberadas.” (SB 1.1.3)

 

Em princípio, devemos começar a estudar o Srimad-Bhagavatam a partir do Primeiro Canto. O Bhagavatam é comparado à forma do Senhor. Na realidade, o Bhagavatam não é diferente do próprio Senhor. Assim como começamos a nossa meditação a partir dos pés de lótus do Senhor e gradualmente vamos subindo na visualização da forma transcendental do Senhor, do mesmo modo devemos ler o Srimad-Bhagavatam a partir do Primeiro Canto e gradualmente progredirmos até ao Décimo Canto, que é comparado à cara sorridente do Senhor.

 

No Décimo Canto, lemos sobre Krsna e Seus associados eternos em Vrndavana. Entre todos os associados e devotos de Krsna, as donzelas de Vrndavana são consideradas as mais excelsas. E estas jovens vaqueirinhas, as gopis, oraram à Colina de Govardhana. Elas glorificaram a Colina de Govardhana chamando-a hari-dasa-varyah. Hari significa “O Senhor Hari, Krsna” a Suprema Personalidade de Deus, dasa quer dizer “servente” e varyah significa “o melhor.” Elas glorificaram a Colina de Govardhana como sendo o melhor servente do Senhor Hari. Aceita-se que a Colina de Govardhana é o próprio Krsna e na verdade a Colina de Govardhana é o Senhor Krsna. Mas as gopis viram a Colina de Govardhana como o melhor servente de Krsna, porque ele entregou-se completamente ao serviço do Senhor. Ele ofereceu todo o corpo ao serviço do Senhor. Entregou a sua vida para o serviço do Senhor. As suas cavernas foram colocadas à disposição do Senhor para que Ele pudesse refugiar-se nelas. Disponibilizou água para beber, frutas e raízes para comer. Todo o tipo de facilidades foram disponibilizadas para o Senhor e Seus devotos. Está mencionado especificamente, “O Senhor e Seus devotos.”

 

hantayam adrir abala hari-dasa-varyo

yad rama-krsna-carana-sparasa-pramodah

manam tanoti saha-go-ganayos tayor yat

paniya-suyavasa-kandara-kandamulaih

 

“Entre todos os devotos esta Colina de Govardhana é o melhor! Ó minhas amigas, esta colina supre a Krsna e Balarama, juntamente com os Seus bezerros, vacas e vaqueirinhos, todos o tipo de facilidades—água para beber, erva muito suave, cavernas, frutas, flores e vegetais. Deste modo a colina oferece respeitos ao Senhor. Ao ser tocada pelos pés de lótus de Krsna e Balarama, a Colina de Govardhana fica muito jubilante.” (SB 10.21.18)

 

Na verdade o Senhor fica mais satisfeito quando se servem os Seus devotos do que quando se serve somente a Ele, e a Colina de Govardhana tinha compreendido esse segredo. Portanto, hari-dasa-varyah.

 

O exemplo das gopis em glorificar a Colina de Govardhana pode ser entendido desta maneira: devemos aproximar-nos da Colina de Govardhana para que os nossos desejos espirituais possam ser satisfeitos. Sendo devotos, temos desejos espirituais no serviço do Senhor e como é que esses desejos são satisfeitos? Claro que nós temos as nossas práticas espirituais. Cantamos os santos nomes, estudamos as escrituras Védicas, associamo-nos com os devotos, adoramos a deidade, visitamos os templos e os lugares sagrados. Mas depreende-se deste verso, hari-dasa-varyah, que os nossos desejos podem ser satisfeitos pela misericórdia das grandes almas. Entre todas as grandes almas, Govardhana é a melhor. Portanto, se nos aproximar-mos a Govardhana ele satisfará os nossos desejos de servir a Krsna. A Colina de Govardhana é muito importante para os devotos. A Colina de Govardhana pode satisfazer os nossos desejos e aspirações de servir a Krsna. Diz-se que na Colina de Govardhana existe uma deidade chamada Harideva que está perto de Manasi-ganga. Quando se inicia o parikrama à Colina de Govardhana, começa-se com o darsana de Harideva. Mas o que as gopis dizem é que a misericórdia que se adquire de um hari-dasa é maior que a misericórdia que se consegue de Harideva. Por isso, com o pretexto de irem adorar Harideva, elas foram realmente procurar a misericórdia de hari-dasa-varyah, a Colina de Govardhana.

 

Neste contexto, a Colina de Govardhana é como Sri Caitanya Mahaprabhu. De acordo à literatura Védica, ao Srimad-Bhagavatam e outros textos, Sri Caitanya Mahaprabhu é o próprio Krsna mas com o sentimento de um devoto, o sentimento do melhor devoto, Srimati Radharani. O Senhor Caitanya está mais inclinado a dar misericórdia que o próprio Krsna, apesar de ser Krsna. Com o sentimento de um devoto Ele é mais misericordioso do que com o sentimento de Krsna, a Suprema Personalidade de Deus. E o mesmo acontece com a Colina de Govardhana. Alguns dos nossos acaryas comentaram que estes versos falados pelas gopis, e em particular este, hari-dasa-varyah, foi na verdade falado por Srimati Radharani. A criação inteira glorifica Srimati Radharani como sendo o melhor devoto de Krsna e Ela glorifica a Colina de Govardhana como sendo o melhor devoto de Krsna. Existe uma competição mútua e transcendental entre os devotos, para ver quem é que mais consegue glorificar o outro, pois os devotos são humildes por natureza e satisfazem-se muito em glorificar a Krsna e a Seus devotos. Na realidade o Senhor, Krsna, fica mais satisfeito quando os devotos são glorificados do que quando Ele é glorificado diretamente.

 

Numa certa altura, quando fomos pela primeira vez a Bombaim, Srila Prabhupada estava a viajar com as suas deidades de Radha-Krsna de bronze e encontrava-se no seu quarto com Gurudasa Prabhu, um devoto antigo. Gurudasa Prabhu começou a glorificar um outro devoto que estava no nosso pequeno grupo da India quando de repente parou e disse, “Oh Srila Prabhupada, esqueci-me de que não se deve glorificar ninguém diante da deidade, diante de Krsna.” Ao que Srila Prabhupada respondeu, “Krsna já é glorificado. Ele satisfaz-se mais quando os Seus devotos são glorificados.” Portanto, esta é uma parte integrante do Govardhana-puja, glorificar os devotos, glorificar a Colina de Govardhana que é Krsna, mas que também é um devoto de Krsna.

 

Aqui estamos nós no meio de tantos devotos. É um privilégio e uma grande sorte estarmos convosco nesta ocasião tão auspiciosa. Agora pediremos a este grande hari-dasa que está sentado ao meu lado que satisfaça os nossos anseios por escutar hari-katha sobre Harideva e hari-dasa. Hare Krsna. [aplausos]

 

 

Radhanath Swami:

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

 

Estou muito, muito satisfeito de estar aqui em Nova Govardhana em Govardhana-puja, sentado ao lado de Giriraj Maharaja! [risos e aplausos] E estou muito grato por estar na associação de todos vós. Sripad Giriraj Maharaja explicou, em concordância com o sastra, o princípio divino da Colina de Sri Govardhana como sendo, em simultâneo, Krsna e o supremo servente de Krsna.

 

Srila Prabhupada, o nosso amado Guru Maharaja, quando estava nos seus últimos dias, incapaz de se sentar ou pôr de pé, pediu aos devotos que o levassem em Govardhana parikrama no mês de Kartika. E quando os devotos perguntaram, “De que forma? O senhor não pode andar,” ele disse, “Consigam um carro de bois.” O médico que estava a cuidar de Srila Prabhupada disse, “Se tentar fazer isso, morrerá.” E Srila Prabhupada sorriu. Ele disse, “Existe alguma outra maneira de sair deste mundo melhor que esta, enquanto se faz parikrama a Govardhana? Penso que esta situação durou alguns dias até que os devotos convenceram Prabhupada, “Por favor não faça isso.” Mas esse era o amor que Srila Prabhupada tinha pela Colina de Govardhana.

 

Quando Sri Caitanya Mahaprabhu chegou a Vrndavana e viu pela primeira vez uma pedra da Colina de Govardhana, derramou lágrimas de extâse e abraçou a pedra exclamando, “Esta pedra não é diferente do corpo de Krsna.” Nesse mesmo lugar, Madhavendra Puri, o Seu parama-guru, descobriu Sri Nathji. Rupa Gosvami, Sanatana Gosvami, Jiva Gosvami, Gopala Batta Gosvami, todos eles tiveram os seus bhajana-kutiras (locais de adoração) em Radha-kunda, na Colina de Govardhana.

 

Em Puri, um sannyasi deu ao Senhor Caitanya Mahaprabhu uma pequenina pedra, uma govardhana-sila. Para o Senhor Caitanya essa pequena pedra tinha mais valor que qualquer outra coisa na criação. Ele levava-a sempre à volta de Seu pescoço. Por vezes colocava-a em cima de Sua cabeça. E por vezes colocava-a no Seu coração. Esta govardhana-sila estava sempre molhada com as lágrimas de amor do Senhor Caitanya. Vendo o supremo sacrificio de amor de Raghunatha dasa Gosvami , o Senhor Caitanya presenteou esta pequena govardhana-sila a Raghunatha dasa e até fez arranjos para a bhoga e as oferendas, para ajudar Raghunatha dasa Gosvami na sua adoração. E dasa Gosvami passou a maior parte de seu tempo no sopé da Colina de Govardhana.

 

Bhaktivinoda Thakura, Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, Visvanatha Cakravarti Thakura, todos eles tiveram os seus lugares de adoração na Colina de Govardhana. Foi em Radha-kunda, em Govardhana, que Srila Prabhupada recebeu a instrução de Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura de imprimir e distribuir livros.

 

Porque é que Sri Giriraja é tão importante? A história descrita no Décimo Canto do Srimad-Bhagavatam sobre a Govardhana-puja, é muito profunda e extensa. Podemos tão só tentar descrever uma particula de uma gota desse oceano de significado. Assim que, no mês de Kartika e seguindo a tradição, Nanda Maharaja estava a coordenar uma grandiosa adoração a Indra. Krsna observou isso e convenceu Nanda Maharaja através da argumentação, “Isto não é preciso. Adoras a Indra porque é ele quem dá a chuva? Mas a chuva também cai no oceano. Quem é que o adora no oceano? Se fizeres o bem, e sabe-se que já o fazes, terás bom karma, e a chuva cairá—com Indra ou sem Indra. Na verdade, dependemos das vacas, dos brahmanas e da Colina de Govardhana. Vamos juntar a parafernália para a adoração a Indra, e utilizá-la na adoração às vacas, aos brahmanas e à Colina de Govardhana.”

 

Na verdade esta é uma postura muita forte da parte de Krsna. Ele estava a desprezar as tradições dos ancestrais de Nanda Maharaja. Nanda Maharaja já tinha explicado que, “esta cerimónia de adoração tem sido levada a cabo pelos nossos antepassados desde tempos imemoriais.” Para Nanda Maharaja e para os Vraja-vasis, Indra não era só uma ideia vaga sobre alguém que pode ou não existir. Indra era o senhor dos semideuses. Nesses tempos Indra costumava descer à terra e manifestar-se. Eles conheciam-no. Compreendiam-no. E também conheciam os seus poderes.

 

Krsna estava a exigir um estado de rendição muito profundo. Tal como Krsna disse a Arjuna no Bhagavad-gita. Ele instruiu-o a lutar numa guerra onde até os seus entes queridos e familiares estavam presentes. Todo o Bhagavad-gita foi falado com o intuito de convencer Arjuna a ter fé em Krsna, sarva-dharmam parityajya mam ekam saranam vraja: “Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim.” Krsna está a pedir a Nanda Maharaja a mesma coisa. Fiquem conscientes que os Vraja-vasis conheciam o poder de Indra. Tal como pudemos observar na India as ondas do Tsunami, Indra podia criar uma milhão delas num momento. Ele pode criar um milhão de furacões Katrina num segundo. Indra é poderoso. Nesse momento, Nanda Maharaja pode compreender que não só a sua vida estava em jogo, mas também a da sua familia e a vida de todos. Essa era a fúria de Indra. Ao contrário de Arjuna, eles não tinham armas para lutar. Mas eles aceitaram devido ao seu amor inocente e fé em Krsna. A essência da religião manifestou-se naquele momento. Samsiddhir hari-tosanam. O propósito de tudo o que fazemos na nossa vida espiritual é satisfazer a Deus. Se Krsna estiver satisfeito, a nossa vida torna-se perfeita. Se levarmos a cabo todos os rituais, se protegermos todas as tradições, se executarmos severas austeridades, sacrifícios e mesmo que conquistemos o mundo; se Krsna não está satisfeito, srama eva hi kevalam, perdemos o nosso tempo. Nanda Maharaja e os Vraja-vasis estavam na disposição de aceitar qualquer risco para agradar a Krsna e nem sequer sabiam que Ele era Deus. Tão só o amavam. E não tinham nenhum medo. “Quem é que se importa com Indra? Nós queremos satisfazer Krsna o nosso amigo pastorzinho de sete anos de idade.”

 

E eles utilizaram toda a parafernália de adoração a Indra no serviço da Colina de Govardhana, sob a direcção de Krsna. Fizeram montanhas enormes de bhoga, Annakuta. Utilizaram quase tudo o que tinham. para fazer centenas, centenas e centenas de preparações em grandes quantidades e sob a instrução de Krsna. E os brahmanas executaram yajnas, cantaram mantras, os músicos cantavam e tocavam instrumentos e os Vraja-vasis estavam completamente felizes celebrando a ocasião. Porquê? Porque a felicidade deles ia trazer felicidade a Krsna. A única razão pela qual um Vraja-vasis quer ser feliz é porque Krsna fica feliz ao ver os Seus devotos felizes. Quando nos aproximamos a Radha-Giridhari, devemos dançar, cantar e escutar jubilantemente hari-katha, porque se ficamos felizes ao escutar sobre Krsna, Krsna fica feliz. Essa é a essência de todas as nossas aspirações, tão só servir a Deus.

 

Quando a oferenda foi feita, o pequeno Krsna, que permanecia no meio de todos os gopas e gopis, subitamente manifestou-Se como a Colina de Govardhana. Manifestou uma forma sem precedentes. Era imensa, com braços gigantescos. Ele manifestou a forma da Colina de Govardhana, para mostrar ao mundo que não era diferente da Colina de Govardhana.E o pequenino Krsna estava ali a olhar para Si próprio nessa forma. Ele disse, “Oh, vejam só. Devido a que Giriraja ficou muito satisfeito com a vossa devoção, assumiu esta forma, como uma pessoa, para aceitar as nossas oferendas e para satisfazer todos os nossos desejos.” Então, esta imensa forma com os seus dois braços, comeu todas as montanhas de prasada, e ainda pediu mais. “Aniyora! Tragam mais!” Krsna prostrou-se perante Govardhana e todos os Vraja-vasis fizeram o mesmo.

 

E então, seguindo a instrução de Krsna, todas as vacas, os bezerros, os brahmanas, os gopas e as gopis fizeram parikrama, a primeira circumambulação histórica à Colina de Govardhana. Foi um festival muito jubilante. Todos desfrutaram ilimitadamente à excepção de uma pessoa, Indra. Krsna é muito misericordioso. Indra é um devoto. Ele não é um demónio como Putana ou Aghasura ou Kesi. Indra é um devoto a quem lhe foi confiado pelo Senhor um serviço muito, muito importante. Na verdade, podemos ler no Sri Brhad-bhagavatamrta, no Srimad-Bhagavatam, que quando Indra executa um yajna, o Senhor Narayana vem pessoalmente e manifesta-Se para receber as oferendas desse sacrificio. Nós não temos essa percepção. Nós executamos muitas cerimónias ritualicas e sabemos que o Senhor Narayana vem, mas quando Indra os executa Ele vem pessoalmente montado em Garuda e aceita-as. Indra é uma pessoa muito elevada. Mas existe uma coisa que Krsna não tolera num devoto: falso orgulho. E a Sua misericórdia para com o Seu devoto é fazer com que, por todos os meios necessários, esse orgulho seja esmagado, esse tumor do orgulho cancerígeno seja removido do coração de Seu devoto, porque esse tumor espalha-se de uma forma muito prejudicial e mata as nossas propensões devocionais.

 

Indra ficou muito furioso. Existem muitas histórias onde Krsna utiliza Indra como alvo para nos ensinar este principio. Ele é o rei de Svargaloka, os planetas celestiais. Ele é adorado pelos devatas, as Apsaras, os Gandharvas. A ele dão-se-lhe honras. Ele é glorificado. Ele senta-se em assentos bonitos. Ele tem imensa riqueza, imenso poder, imensa fama. Se tivessemos, ainda que fosse um pequeno vestígio dessas situação, teríamos a tendência a pensar que seríamos melhor que os outros, e quando pensamos que somos melhores que os outros, cometemos aparadha, ofensas. Se ninguém se preocupar demasiado connosco, e se houver alguém que diga alguma coisa sobre nós, não ficamos muito tristes. Mas quanto mais tivermos, mais dói. Essa é a natureza do ego. E isso aconteceu com Indra, “Cada ano, desde séculos, eles executam este puja para mim e este ano, seguindo a lógica de um miudinho falador, de sete anos de idade, substituiram a adoração destinada a mim e deram-na a uma montanha! Uma montanha! Que grande ofensa!” Ele estava furiosíssimo.

 

Ele decidiu destruir toda Vrndavana e aqueles que viviam lá e, para isso, chamou as nuvens Samvartaka. Não existe nenhum exército na terra que se possa comparar com as nuvens Samvartaka. Não são aquelas nuvens que aparecem na época das monções e inundam Bombaim, paralisando tudo num só dia. Também não são aquelas nuvens que são acompanhadas de furacões e tornados e causam devastação numa vila, numa cidade ou num estado. Esta é uma tarefa para as nuvens pequeninas. As nuvens Samvartaka são chamadas especificamente para a destruição do universo no momento da dissolução. Foi a elas que Indra chamou. Ele estava enraivecido. Dirigiu-se a essas nuvens Samvartaka berrando, “Ide a Vrndavana! Destruam tudo e todos! Eles ofenderam-me.”

 

E elas foram. Nuvens pretas e muito espessas começaram a crescer, a crescer, a crescer e instalaram-se em todas as direcções. Trovões, raios, torrentes de chuva. E os Vraja-vasis estavam conscientes do que estava a acontecer. Ofenderam a Indra. Como é que se pode lutar contra uma coisa assim? Todos se aproximaram a Krsna. Os vaqueiros puseram as vacas à sua frente e exclamaram, “Observa, as Tuas vacas estão a sofrer. Tu és Govinda. Tu protegerás as vacas e também a nós. Por favor dá-nos proteção.” Krsna saiu de Sua casa com um sorriso e sem esforço algum, levantou toda a colina de Govardhana tal como uma criança levanta um cogumelo. Nós não comemos cogumelos, mas por vezes levantamos cogumelos. [risos] E com o dedo mindinho de Sua mão esquerda, Ele segurou-a. Sri Sri Radha-Giridhari ki jaya! E Ele dirigiu-se a todos de uma forma muito humoristica, “Venham todos e vejam. A Colina de Govardhana está tão satisfeita convosco que agora tornou-se um guarda-chuva para vos proteger de Indra. Venham agora e tragam tudo o que vos é querido, juntamente com todos os vossos animais, para este vale debaixo da Colina de Govardhana.” Desta maneira todos se aproximaram da Colina de Govardhana.

 

Krsna levantou a Colina de Govardhana de tal maneira, que se escutou um imenso som de trovões que podia ser ouvido em todas as direcções. À medida que Ele a levantava, Giriraja deixou cair de suas extremidades grandes pedaços de terra e pedras para que fosse criada uma barreira no solo. Deste modo, não só se estava protegido desde cima mas a água também não entrava. Krsna levantou a Colina de Govardhana e as nuvens Samvartaka ficaram furiosas. Aquilo não era chuva. Era outra coisa. O Srimad-Bhagavatam descreve que as gotas caíam com tanta impetuosidade que pareciam rios saindo de uma comporta em direcção à Colina de Govardhana. Srila Prabhupada explica que pareciam colunas sólidas de água que caíam com muita força. E todo o céu era atravessado por raios e havia uma trovoada intensa e ventania, ventos muito fortes. Pareciam-se com os nossos tornados mas multiplicados por milhares de vezes. E ali estava Krsna, sorrindo, com a Colina de Govardhana apoiada no Seu dedo mindinho.

 

Este passatempo é muito bonito porque o Senhor Krsna quis estabelecer que Ele é a Suprema Personalidade de Deus, não só como o todo poderoso mas também como o supremo objecto do amor de todos. Srila Prabhupada disse que as pessoas reconhecem que Deus é grande, mas o Srimad-Bhagavatam explica-nos como é que Deus é grande, não só no Seu poder de criar e destruir e executar actividades inconcebíveis, mas no Seu poder de reciprocar com o amor dos Seus devotos. Quando Krsna estava de pé, debaixo da Colina de Govardhana, e os habitantes de Vrndavana estavam todos ali reunidos, Krsna olhava de tal maneira para eles, que cada uma das gopis, cada um dos gopas, cada vaca, bezerro, pavão, macaco, papagaio e todo o ser vivo pensava, “Krsna está a olhar só para mim. Krsna ama-me tanto.” Este é o poder de Krsna. Krsna pode satisfazer plenamente o coração de todos os Seus devotos simultaneamente e reciprocar com o seu amor. Ele estava ali de pé e todos os residentes de Vrndavana glorificavam essa forma de Girivara-dhari, Aquele que ergue Govardhana. O lado esquerdo de Seu corpo estava recto, com o Seu braço levantado, mas o Seu lado direito estava curvado. Ele permanecia de pé com o corpo curvado em três partes, a personificação da essência de toda a beleza, que cativava os corações de todos.

 

Os Vraja-vasis ofereciam a sua profunda gratidão a Indra por lhes ter dado este darsana, o darsana de todos os darsanas. E era 24/7. As cortinas nunca fechavam. [risos] Todos os seus desejos ficaram satisfeitos. Normalmente ao gopis estavam com Krsna durante a noite, mas durante o dia estavam separadas. E durante o dia as vacas estavam com Ele mas à noite estavam separadas. E Nanda, Yasoda e os membros mais velhos, estavam com Ele pela manhã e à noite, mas estavam separados durante o resto do tempo. Mas debaixo da Colina de Govardhana, todos permaneciam ali, com Krsna, a reciprocar constantemente o amor mais doce e extático. Os brahmanas, serviam a Krsna cantando mantras para a Sua protecção, e Ele reciprocava. Os gopas diziam piadas e tinham discussões graciosas com Krsna, para O animar. E Krsna reciprocava com eles. As gopis, a perfeição da vida de todos eles, lançavam olhares e sorrisos para Krsna e ofereciam-Lhe continuamente o amor de seus corações e o Senhor reciprocava com todas e cada uma delas. E os vaqueiros, quando viam Krsna tremer colocavam os paus debaixo da colina. E Krsna sorria para todos eles. Sim, a govardhana-lila é o momento em que Krsna satisfaz todos os devotos da forma mais desejável. É por isso que Deus é grande. Foi um festival de extâse transcendental.

 

Enquanto isto, Indra e as nuvens Samvartaka derramavam chuvadas, ventos e raios. Indra deu a seguinte ordem às nuvens Samvartaka, “Com todo o vosso poder, tirem essa colina do dedo mindinho de Krsna.” Hare Krsna. Mas a Colina de Govardhana não se mexeu. Os dias passaram. A um dado momento, segurando a Colina de Govardhana com a Sua mão esquerda, Krsna agarrou a flauta com a Sua mão direita, colocou-a nos Seus lábios e tocou uma canção muito bonita. O vaqueirinho Madhumangala ficou com muito medo e dirigiu-se a Krsna, “Não toques a Tua flauta, porque já sabemos o que acontece quando tocas a flauta. Se Govardhana Te escutar ao tocares a flauta, pode experimentar uma felicidade tão transcendental, que pode cair do Teu dedo e morreremos aqui todos esmagados. Todos nós conhecemos o poder da Tua flauta. Pode converter pedras em água e água em pedras. Se Govardhana derreter em extâse, ficaremos todos afogados. Por isso, não toques a Tua flauta.” Outro vaqueirinho disse, “Não, não, tu não conheces Govardhana, ele é uma pessoa muito equlibrada e sóbria. Ele sabe controlar-se.”

 

Yasodamayi, no seu amor habitual por Krsna, estava preocupada, “Já se passaram tantas horas e ainda não comeste nada. O Teu corpo suave é como manteiga, como pode o Teu dedo mindinho segurar essa colina gigantesca e não sentir nenhuma dor?” Yasodamayi chorava e orava à Colina de Govardhana, “O que quer que tenha feito em vidas anteriores, todas as minhas austeridades, toda a minha adoração, peço-te Govardhana somente uma benção. Por favor, não causes nenhuma dor ao meu filho Gopala.” Madhumangala disse, “Yasodamayi, porque te preocupas? Através da minha brahma-tejas estou a dar-Lhe poder para que possa segurar a colina. Não te preocupes. Na realidade, este é um festival maravilhoso. Amamos Indra pelo que fez por nós. Por causa de Indra, podemos experimentar este néctar doce do darsana de Krsna nesta forma maravilhosa.” Yasodamayi disse, “Que é que estás para aí a dizer? Não tens coração? Estás a dizer que é doce ver este menino inocente e gentil com esta montanha gigantesca em cima d`Ele? Como te atreves a dizer que é doce? Nanda Maharaja disse, “Yasoda, não fales assim a Madhumangala porque ele está a encorajar Krsna. Krsna está a sorrir com o que ele diz.”

 

Assim, estas relações maravilhosas eram partilhadas debaixo da Colina de Govardhana. Os vaqueiros pensavam que era devido à benção de Madhumangala que Krsna tinha esse poder. E as gopis pensavam que Krsna tinha poder porque Radharani outorgava-Lhe esse poder ao olhar para Ele. Krsna disse a Yasodamayi, “Eu não estou a fazer nada. Govardhana ficou tão feliz com as oferendas que vocês prepararam, que ele está a flutuar. Sou tão só o instrumento que segura.” Yasodamayi disse, “Se o que dizes é verdade, então deixa-o voar no ar sem o Teu dedo. Só então acreditarei em Ti.” Santa-rasa, servidão, afecto parental, a rasa conjugal, todas as rasas estavam a ser intercambiadas continuamente entre Krsna e os Seus devotos, durante os sete dias e sete noites.

 

Enquanto as nuvens, os trovões, os raios, as tempestades e os arco-iris fustigavam Govardhana, debaixo da colina havia uma outra tormenta. Krsna era tal como uma nuvem bonita, as gopis eram como os raios, a pena de pavão de Krsna era como o arco-iris e o Seu amor pelos Seus devotos era uma chuva incessante.

 

Enquanto isso, no cimo da colina, Indra estava descontroladamente frustrado. Dia após dia, após dia, as nuvens Samvartaka com todo o seu poder fustigavam a Colina de Govardhana. Finalmente voltaram a Indra e cairam a seus pés, “Não aguentamos mais.” Indra disse, “Voltem!” Elas ficaram sem água. As nuvens Samvartaka dirigiam-se para os oceanos para conseguir mais água e praticamente secavam-nos. Depois atiravam-na contra a Colina de Govardhana. Durante esses sete dias, Indra e as nuvens e todos os raios, não conseguiram mover nem sequer um só pedacinho de pó, nem mesmo remover uma só folha das centenas e milhares de árvores que estavam na Colina de Govardhana. Debaixo da tempestade violenta, a Colina de Govardhana brilhava. O mesmo aconteceu hoje com Giriraja a receber o seu abhiseka. Ele teve a mesma sensação. Porquê? Porque apesar de todos os raios, trovões e tempestades enormes, Govardhana sentia a parte de cima do dedo mindinho de Krsna por baixo e isso energizava-o com muita felicidade.

 

Finalmente as nuvens Samvartaka chegaram ao ponto de quase morrer, estavam muito exaustas. E Indra também estava assim. Eles foram-se embora. O céu ficou limpo, o sol apareceu e Krsna continuava sorrindo. Ele disse, “Vejam, a chuva parou. Agora está um dia de sol e lá fora está muito agradável e seco. Voltem todos para as vossas casas.” Mas ninguém queria regressar. Este é um princípio muito bonito. Se tivermos fé em Krsna, se nos dedicarmos sinceramente, mesmo ao ponto de aceitar riscos para sermos fieis a Krsna, Krsna ficará feliz. Krsna pode transformar a maior das crises em algo maravilhoso. Isso é rendição. Apesar de não conseguirem tirar os olhos de Krsna, os gopas e as gopis seguindo a ordem de Krsna, sairam debaixo da colina. Os gopas tentavam controlar as vacas mas quando elas viram Krsna voltaram para trás. Não podiam abandonar a Sua associação. O Senhor Govinda, Giridhari, com os Seus olhos dirigiu as vacas de volta para as pastagens. Depois, sem esforço, colocou a Colina de Govardhana no chão, exatamente no mesmo sitio onde estava inicialmente. Quando Krsna saiu debaixo de Govardhana, Balarama abraçou-O, Yasodamayi massajava-Lhe o dedo para aliviá-Lo da dor, as gopis olhavam e sorriam para Ele, os Seus amigos brincavam e dançavam com Ele, os brahmanas recitavam mantras em Sua honra, as suas esposas ofereciam-Lhe presentes, os serventes abanicavam e traziam-Lhe água para beber e Rohini ofereceu-Lhe arati. Foi um festival maravilhoso. Todos estavam felizes à excepção de uma pessoa. Sabem quem era essa pessoa?

 

Devoto: Indra.

 

Ele foi completamente derrotado. Estava intoxicado com o seu poder e fama mas agora estava sóbrio e realizou que tinha cometido uma grande ofensa. O Bhagava-gita informa-nos que ao contemplarmos os objectos dos sentidos, desenvolvemos apego por eles. Do apego, luxúria, quando a luxúria não é satisfeita surge a ira. A ira provoca-nos confusão, perda da memória e da inteligência e depois actuamos de maneiras abomináveis. Indra passou por estas etapas devido aos seus apegos. Mas então realizou, “Nunca ninguém cometeu uma ofensa tão grande como esta. Tentei matar Deus! Tentei assassinar todos os devotos mais intimos e amorosos de Deus. O mesmo quis fazer com as Suas vacas, com todos. Que é que eu fiz?” Estava completamente baralhado e nesse estado aproximou-se a Brhaspati, seu guru, “Que é que devo fazer?” Brhaspati disse-lhe, “Uau! Não há nada que possas fazer mas, se te aproximares a alguém que é amado por Krsna, e essa pessoa pedir perdão em teu nome então Krsna perdoar-te-á, caso contrário, se fores sózinho . . . É que cometeste um pecado muito severo.”

 

Assim sendo, e seguindo a instrução de Brhaspati, Indra foi com Surabhi, a mãe das vacas. É uma cena muito bonita. Tentem imaginar. Eis o rei dos céus com toda a sua indumentária real. Diamantes magnificos, rubis, jóias, safiras, coroas, sedas lindíssimas e a ser conduzido por um elefante magnifico. O próprio Indra é um homem muito bonito, forte e digno de ser visto. E ele está a prostrar-se, desamparadamente, diante dos cascos da mãe vaca, rogando, “Salva-me! Por favor salva-me!” A Mãe Surabhi compadeceu-se muito com Indra e disse-lhe, “Vem comigo.” Aproximaram-se de Krsna e Indra prestou as suas reverências, mas Krsna ignorou-o completamente. Então Mãe Surabhi, que é uma fêmea muito gentil, aproximou-se de Krsna com muito afecto e disse, “Indra arrependeu-se profundamente. Por favor desculpa-o.” E devido ao seu apelo, Krsna perdoou Indra.

 

Existe um lugar no caminho de parikrama de Sri Giriraja que se chama Surabhi-kunda. Este lugar personifica a qualidade do perdão. E este é um principio universal. Os cristãos acreditam que não se pode aproximar a Deus directamente. Se pecamos temos que nos aproximar através de um filho. Os Judeus têm o mesmo conceito. Os Muçulmanos têm o mesmo conceito. E na sua expressão mais completa e substancial, o conceito de não podermos aproximar-nos a Deus directamente encontra-se aqui nesta história. Devemos aproximar-nos ao Senhor através daqueles a quem o Senhor ama. Vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca/ patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah. Sem a misericórdia dos devotos do Senhor não temos esperança. Não é uma questão do quanto nós sabemos. Podemos memorizar todas as escrituras, podemos dar discursos eloquentes, podemos cantar docemente, podemos fazer centenas e milhões de seguidores mas se não nos tornamos humildes perante um devoto que ama o Senhor, não podemos, verdadeiramente, aproximar-nos a Deus. Não poderemos receber as bençãos do Senhor na Sua plenitude. Pelas bençãos de Surabhi, Krsna abençoou Indra. Indra prostrou-se, a chorar, e quando Indra chora não é algo insignificante, porque ele tem muitos olhos. Todos os seus olhos choravam de arrependimento. Duas coisas são requeridas: (1) devemos prostrar-nos, tornando-nos humildes perante aqueles que amam o Senhor e (2) devemos ser sinceros, devemos ser genuinos.

 

Indra não estava a representar. O arrependimento vinha-lhe do coração e para ele era mais doloroso que a morte. Ele rogava por misericórdia, e devido à sua sinceridade, tornou-se humilde e Krsna perdoou-o. Indra invocou todos os devatas que executaram uma cerimónia maravilhosa. Indra disse, “Eu sou um Indra pequenino mas tu és o supremo Indra.” Levaram a cabo um abhiseka trazendo o Akasa-ganga com a ajuda de Airavata e então banharam Krsna. Os sábios, os rsis e os devatas estavam presentes ali. E a água desse abhiseka encheu o kunda. Então Indra e os semideuses deram a Krsna o nome “Govinda” porque Ele dá prazer e protecção às vacas, à terra e aos cidadãos. Hoje esse lugar chama-se Govinda-kunda.

 

Depois de se terem ido embora, os vaqueirinhos chegaram ali e viram toda a parafernália, a parafernália magnificente dos semideuses. Eles construiram um trono pequenino mas muito bonito para Krsna, a partir das rochas da Colina de Govardhana, puseram Balarama nesse trono e começaram a fazer os mesmos pujas e a cantar as suas canções bonitas. Os semideuses fizeram todas as cerimónias exactamente como as escrituras prescrevem—o abhiseka, o arati, a puja. Mas os gopas estavam simplesmente a brincar. Imitavam, brincavam e gracejavam. Quando os semideuses viram a maneira como os vaqueirinhos adoravam Krsna, chegaram a uma realização. “Em comparação com eles, não temos nenhum amor por Krsna, nenhum.”

 

Então, Nanda Maharaja, os pastores e Yasodamayi ouviram as crianças cantarem e dançarem e imediatamente dirigiram-se para o lugar, e aí puderam ver toda aquela parafernália maravilhosa. Perguntaram, “Que é isto? Que é que aconteceu aqui?” Quando os vaqueirinhos explicaram, “Querem saber o que aconteceu aqui? Será que devemos contar-vos? Primeiro vimos uma vaca a falar [risos]. Depois vimos um homem com milhares de olhos por todo o corpo, apeando-se de um elefante que tinha muitas trombas, prostrar-se perante Gopala. Depois vimos uma pessoa que tinha cinco cabeças e o cabelo agarrado. Era esse que fazia a puja. E uma outra pessoa antes deste, oferecia o arati.” E nessa altura, Nanda Maharaja, Yasodamayi e todos os habitantes de Vrndavana executaram uma cerimónia de arati muito bonita para celebrar as glórias de Sri Radha-Giridhari.

 

Srila Prabhupada introduziu-nos ao serviço divino amoroso de Sri Sri Radha-Giridhari. Neste dia de Sri Govardhana-puja, se verdadeiramente quisermos agradar Radha-Giridhari, que melhor maneira de o fazer que render-nos aos pés de lótus de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Indra aproximou-se a Surabhi para conseguir a sua misericórdia. Mas foi Srila Prabhupada que se aproximou a nós. Ele aceitou o risco e o desconforto do Jaladuta. Ele viajou pelo mundo uma e outra vez, visitando as cidades e vilas mais importantes chamando-nos de volta ao serviço amoroso de Sri Sri Radha-Giridhari. Portanto, neste dia vamos adorar a Colina de Govardhana. Estamos a proximar-nos dessa pessoa que tanto ama Sri Giridhari.

 

Srila Prabhupada disse-nos, “Podeis demonstrar o amor que tendes por mim colaborando uns com os outros.” Um pai adora ver afecto entre os seus filhos. Pessoalmente nunca tive filhos mas tenho visto e escutado que é muito doloroso para um pai quando vê conflitos entre os seus filhos. E a mãe sofre ainda mais. Portanto, Govardhana-puja não é só um ritual. É uma celebração, e essa celebração ganha substância na maneira como, de uma forma sincera, regamos a raiz da árvore ao satisfazer Sri Sri Radha-Giridhari, através da satisfação de Srila Prabhupada e do serviço aos Vaisnavas e imbuídos desse espirito, cantar os santos nomes: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

 

Quero agradecer a todos os devotos de San Diego, especialmente aqueles que estão a manter e a servir neste templo muito, muito bonito. Penso que dentro em breve haverá outro templo. Será maravilhoso. Radha-Giridhari quer chamar milhares e milhares de almas afortunadas ao Seu serviço amoroso. Esse era o sonho de Srila Prabhupada, e essa é a nossa vida.

 

Quero agradecer-vos uma e outra vez. [aplauso]

 

 

Outubro 22, 2006

San Diego

 

 

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Written by nityananda108

Outubro 28, 2008 às 5:19 pm

Publicado em Uncategorized

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