Aulas de Giriraj Swami em Português

Sri Krsna Janmastami

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Sri Krsna Janmastami

Uma Aula Dada por Giriraj Swami

2 de Setembro de 2007

Ojai, California

 

 

Lemos do Srimad-Bhagavatam, Décimo canto, Capítulo Dois: “Orações dos Semideuses ao Senhor Krsna no Ventre.”

 

VERSO 18

 

tato jagan-mangalam acyutamsam

  samahitam sura-sutena devi

dadhara sarvatmakam atma-bhutam

  kastha yathananda-karam manastah

 

SINÓNIMOS

 

tatah—em seguida; jagat-mangalam—ventura para todas as entidades vivas em todos os universos da criação; acyuta-amsam—a Suprema Personalidade de Deus, que nunca está desprovido das seis opulências, todas as quais estão presentes em todas as Suas expansões plenárias; samahitam—transferido com toda a plenitude; sura-sutena—por Vasudeva, o filho de Surasena; devi—Devaki; dadhara—carregava; sarva-atmakam—a Alma Suprema de todos; atma-bhutam—a causa de todas as causas; kastha—o oriente; yatha—assim como; ananda-karam—a bem-aventurada (lua); manastah—estando situado na mente.

 

TRADUÇÃO

 

Em seguida, acompanhado pelas expansões plenárias, a opulentíssima Suprema Personalidade de Deus, que é muito auspicioso para o universo inteiro, foi transferido da mente de Vasudeva para a mente de Devaki. Devaki, sendo assim iniciada por Vasudeva, tornou-se bela ao carregar no âmago de seu coração o Senhor Krsna, a consciência original de todos, a causa de todas as causas, assim como o oriente se torna belo ao abrigar a lua nascente.

 

SIGNIFICADO de Srila Prabhupada

 

Como indica aqui a palavra manastah, a Suprema Personalidade de Deus foi transferido de dentro da mente ou do coração de Vasudeva para dentro do coração de Devaki. Devemos atentar para o facto de que o Senhor não foi transferido a Devaki através do processo humano comum, mas através de diksa, iniciação. Menciona-se aqui, pois, a importância da iniciação. A menos que alguém seja iniciado pela pessoa certa, que sempre conserva no seu coração a Suprema Personalidade de Deus, ele não adquire poder de carregar a Divindade Suprema no âmago do seu próprio coração.

 

A palavra acyutamsam é usada porque a Suprema Personalidade de Deus é sad-aisvarya-purna, pleno das seguintes opulências: riqueza, força, fama, conhecimento, beleza e renúncia. A Divindade Suprema nunca se separa de Suas opulências pessoais. Como se afirma no Brahma-samhita (5.39), ramadi-murtisu kalah-niyamena tisthan: o Senhor sempre se apresenta com todas as Suas expansões plenárias, tais como Rama, Nrsimha e Varaha. Portanto a palavra acyutamsam, é especificamente usada aqui, significando que o Senhor sempre está presente com as Suas expansões plenárias e com as Suas opulências. Ao contrário do que fazem os yogis, não há necessidade de pensar artificialmente no Senhor. Dhyanavasthita-tad-gatena manasa pasyanti yam yoginah (SB 12.13.1). Nas suas mentes, os yogis meditam na Pessoa Suprema. Para o devoto, entretanto, o Senhor está presente, e Sua presença precisa apenas ser despertada através da iniciação concedida pelo mestre espiritual genuíno. O Senhor não precisava viver dentro do ventre de Devaki, pois estando presente no âmago do coração dela, bastava isso para ela levá-Lo consigo. Jamais se deve pensar que Vasudeva gerou Krsna no ventre de Devaki e que ela levava a criança em seu ventre.

 

Ao conservar a forma da Suprema Personalidade de Deus em seu coração, Vasudeva parecia o sol refulgente, cujos raios brilhantes sempre são insuportáveis e estorricantes para o homem comum. A forma do Senhor situada no coração puro e imaculado de Vasudeva não é diferente da forma original de Krsna. O aparecimento da forma de Krsna em qualquer parte, e especificamente no coração, chama-se dhama. Dhama refere-se não apenas à forma de Krsna, mas ao Seu nome, à Sua forma, à Sua qualidade e à Sua parafernália. Tudo se manifesta simultaneamente.

 

Portanto, a forma eterna da Suprema Personalidade de Deus, a qual tinha potências plenas, foi transferida da mente de Vasudeva para a mente de Devaki, assim como os raios do sol poente são transferidos para a lua cheia que surge no oriente.

 

Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, veio do corpo de Vasudeva e entrou no corpo de Devaki. As suas condições são bem diferentes daquelas em que está situada a entidade viva comum. Quando Krsna está presente, é bom que se saiba que todas as Suas expansões plenárias, tais como Narayana, e encarnações como Nrsimha e Varaha, estão com Ele, e elas não estão sujeitas às condições da existência material. Dessa maneira, Devaki tornou-se a residência da Suprema Personalidade de Deus, que, único e inigualável, é a causa de toda a criação. Devaki tornou-se a residência da Verdade Absoluta, porém, como estava na casa de Kamsa, ela parecia um fogo abafado, ou o conhecimento mal-usado. Quando o fogo é coberto pelas paredes de um pote ou é mantido numa jarra, os raios iluminantes do fogo não são muito valorizados. Igualmente, o conhecimento mal-usado, que não beneficia as pessoas em geral, não é muito apreciado. Assim, Devaki foi mantida entre as paredes da prisão do palácio de Kamsa, e ninguém podia ver a sua beleza transcendental, resultante do facto de ela ter concebido a Suprema Personalidade de Deus.

 

Comentando este verso, Srila Viraraghava Acarya escreve: vasudeva-devaki jatharayor hrdayayor bhagavatah sambandhah. O episódio em que o Senhor Supremo vem do coração de Vasudeva e entra no ventre de Devaki foi um relacionamento de coração para coração.

 

COMENTÁRIO por Giriraj Swami

 

Reunimo-nos aqui, aos pés de lótus do Senhor Krsna, para lembrarmos e celebrarmos o Seu aparecimento dentro deste mundo.

 

De acordo com a literatura védica, Krsna é a Suprema Personalidade de Deus (krsnas tu bhagavan svayam). Ele é a Verdade Absoluta, a origem de tudo o que existe. E Ele é realizado em três aspectos, não duais (advaya) com está explicado no Srimad-Bhagavatam (1.2.11):

 

vadanti tat tattva-vidas

  tattvam yaj jnanam advayam

brahmeti paramatmeti

  bhagavan iti sabdyate

 

“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta, chamam a essa substância não dual Brahman, Paramatma, ou Bhagavan.”

 

Brahman, é a refulgência impessoal que emana da forma transcendental do Senhor, Paramatma é o aspecto localizado do Senhor dentro do coração, e Bhagavan é a Suprema Personalidade de Deus, o próprio Krsna, pleno em seis opulências.

 

A forma de Krsna não é material. Os nossos corpos são materiais, distintos da alma, que é espiritual. O Bhagavad-gita (2.13) explica,

 

dehino ’smin yatha dehe

  kaumaram yauvanam jara

tatha dehantara-praptir

  dhiras tatra na muhyati

 

“Assim como a alma corporificada passa continuamente neste corpo, da infância à juventude e à velhice, de igual modo a alma passa a outro corpo no momento da morte. A pessoa sóbria não se confunde com tal mudança.”

 

A alma é uma partícula de energia espiritual, que não é física nem química, e é a alma que dá vida ao corpo. Enquanto a alma estiver no corpo, dizemos que o corpo está vivo. Na verdade o corpo nunca está vivo; ele é tão só uma máquina. Mas aparenta estar vivo enquanto a alma estiver presente para o animar. E quando a alma abandona o corpo, o corpo deixa de ter capacidade para actuar, para funcionar, e então dizemos que o corpo está morto. Nos seres condicionados, como nós, existe uma diferença entre o corpo, que está feito de energia material, e a alma, que é composta de energia espiritual. Mas, no que respeita a Krsna, não existe diferença entre o Seu corpo e a alma. Sendo absoluto, o Seu corpo e Ele, são a mesma coisa. No nosso caso existe uma diferença entre nós e o corpo, porque a nossa verdadeira identidade é a alma. Se o pai de alguém falece, ele ou ela começará a chorar. “Oh, o meu pai abandonou-me. O meu pai foi-se embora.” Apesar do corpo do pai estar aí, porque é que dizemos “O meu pai foi-se embora”?

Intuitivamente sabemos, especialmente num momento como o da morte, que o corpo que jaz ali no quarto não é a pessoa. O corpo é somente um saco de químicos. A verdadeira pessoa é a alma que abandonou o corpo, e assim as crianças e outros familiares e amigos exclamam, “Oh ele partiu,” porque ele é a alma, não é o corpo.

 

Mas, no caso de Krsna, Ele e o Seu corpo não são diferentes porque Ele é absoluto. Não existe diferença entre o Seu interior e o Seu exterior. Ele é completamente espiritual. O Brahma-samhita diz, isvara parama krsnah sac-cid-ananda-vigraha: “Krsna é o Supremo Deus. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado.” Anadir adir govindah sarva-karana-karanam: “Ele é a origem de tudo, mas Ele não tem origem. Ele é a causa primordial de todas as causas.” Esse é Krsna.

 

No mundo material, tudo o que vemos tem uma causa. A um nível muito simples podemos dizer, “Tive como origem os meus pais” ou (o meu corpo teve origem nos meus pais). Eles, por sua vez, tiveram origem nos pais deles, e estes tiveram origem nos pais deles. E se continuarmos a investigar mais e mais e mais, chegaremos, eventualmente, à causa original que é Krsna (sarva-karana-karanam). Ele é a causa de tudo—a causa de todas as causas. Mas Ele não tem causa.

 

No estado condicionado é muito dificil termos essa compreensão, porque tudo o que é material tem uma causa. Todas as coisas têm um começo e um fim, mas Krsna não tem começo nem fim. Ele é eterno (sanatana). “Eterno” quer dizer “sem começo nem fim.” Mesmo nós, almas espirituais, também somos eternos. Não temos começo nem fim. A vida num corpo particular tem um começo a que chamamos “nascimento” (ou “concepção”), e tem um fim dentro desse corpo particular, a que chamamos “morte”. Mas nós, como almas espirituais, não temos começo nem fim, porque somos partes integrantes de Krsna. Temos a mesma qualidade de Krsna mas em diferente quantidade. O Senhor diz,

 

mamaivamso jiva-loke

  jiva-bhutah sanatanah

manah-sasthanindriyani

  prakrti-sthani karsati

 

“As entidades vivas neste mundo condicionado são minhas partes fragmentárias. Devido à vida condicionada, elas estão a lutar árduamente com os seis sentidos, os quais incluem a mente.” (Bg 15.7)

 

A entidade viva é uma parte eterna e fragmentária de Krsna. Esta é a filosofia sublime de Sri Caitanya Mahaprabhu chamada acintya-bhedabheda-tattva: a “inconcebível união e diferença, em simultâneo” da entidade viva e o Senhor Supremo. Com o Senhor, somos unos em qualidade mas diferentes em quantidade—Ele é infinito e nós somos infinitesimais. Porque temos as mesmas qualidades, podemos ter um relacionamento com Ele. A menos que haja algo em comum, não se consegue estabelecer uma relação. E devido à diferença em quantidade—Ele é o todo e nós a parte—a nossa relação é de serviço. Para a parte, é uma função natural servir o todo. Por exemplo, a mão é uma parte do corpo, por isso, a função da mão é servir o corpo. Se a mão não servir ao corpo algo de errado está a acontecer; está doente ou morta. De igual modo, a nossa actividade natural é de servir a Krsna (jivera ‘svarupa’ haya—krsnera ‘nitya-dasa’). Nós somos eternos,{}assim como Krsna é eterno, e a nossa relação, o nosso serviço, também é eterno. Nunca acaba.

 

Anteriormente mencionamos os três aspectos da Verdade Absoluta: Brahman, Paramatma e Bhagavan. Existem diferentes transcendentalistas que têm diferentes aspirações espirituais. A maior parte das pessoas são materialistas. Elas nem sequer se interessam pela vida espiritual. Só querem desfrutar do mundo. Entretanto, quando nos tornamos um pouco mais elevados, um pouco mais purificados na consciência, pensamos em incrementar a nossa vida espiritual. E quando nos tornamos suficientemente sérios, adoptamos uma disciplina numa escola de pensamento e prática. Os jñanis são uma categoria de transcendentalistas. A meta deles é submergirem-se e tornarem-se unos com o Brahman, a refulgência que emana do corpo transcendental de Krsna. Superiores aos jñanis, são os yogis. Eles pretendem realizar o aspecto localizado, o Senhor dentro do coração (dhyanavasthita-tad-gatena manasa pasyanti yam yogino). E os mais elevados são os bhaktas. Eles querem estabelecer uma relação amorosa com Bhagavan, Sri Krsna, a Suprema Personalidade de Deus.

 

Num sentido, porque a Verdade Absoluta é não-dual (advaya), todos os transcendentalistas estão na mesma plataforma, contudo, de um ponto de vista analítico ou objectivo, existem graus de realização. Como foi dito anteriormente, Krsna é sac-cid-ananda-vigraha. Sat significa “eterno”, cit quer dizer “consciente,” e ananda significa “bem-aventurado.” Os jñanis  que alcançam o Brahman impessoal realizam somente o aspecto sat, existência eterna. Os yogis que realizam Paramatma têm percepção de sat (eternidade) e cit (conhecimento), porque se apercebem da individualidade do Senhor no coração. E os bhaktas têm uma realização completa de sat, cit e ananda (eternidade, conhecimento e bem-aventurança), porque a verdadeira felicidade emana das relações amorosas. Apesar de se poder dizer que existe alguma bem-aventurança no Brahman impessoal, quando comparada com a felicidade extática do serviço amoroso a Krsna, é insignificante. Existem muitas afirmações no sastra, as escrituras védicas, corroborando que a felicidade experimentada em relação com Krsna é tal e qual um oceano e que, comparativamente, a felicidade de submergir (ou tentar submergir) no Brahman impessoal é como uma poça de água.

 

tvat-saksat-karanahlada-

  visuddhabdhi-sthitasya me

sukhani gospadayante

  brahmany api jagad-guro

 

“Meu querido Senhor, Ó mestre do universo, desde que Vos vi directamente, a minha bem-aventurança transcendental tomou a forma de um grande oceano. Estando situado nesse oceano, agora realizo que todas as outras assim chamadas felicidades, como o prazer derivado do Brahman impessoal, são tal como a água contida na pegada de um bezerro.” (Hari-bhakti-sudhodaya 14.36). Na prática, não existe comparação.

 

Além disso, realizar o Brahman impessoal é muito dificil, especialmente nesta presente era. E mesmo que a pessoa seja êxitosa—ou pense que o seja—existe toda a possibilidade de cair dessa posição.

 

ye ’nye ’ravindaksa vimukta-maninas

  tvayy asta-bhavad avisuddha-buddhayah

aruhya krcchrena param padam tatah

  patanty adho ’nadrta-yusmad-anghrayah

 

“Ó Senhor de olhos de lótus, embora os não-devotos que aceitaram rigorosas austeridades e penitências para atingir a posição mais elevada possam julgar-se liberados, a inteligência deles é impura. Eles caem das suas posições aparentemente superiores, pois não dão importância alguma a Vossos pés de lótus.” (SB 10.2.32)

 

O mais provável, é que eles imaginem que realizaram o Brahman mas, quer eles o tenham realizado de facto ou simplesmente imaginem que o tenham realizado, devido a que negligenciaram o serviço aos pés de lótus de Krsna, caem da sua posição (patanty adhah).

 

Nós, as almas condicionadas, giramos no ciclo da repetição do nascimento e da morte (samsara), e a nossa meta é a de alcançar o alívio desta samsara-cakra. Tal liberação é chamada mukti, ou moksa. O tipo de liberação impessoal, na qual a alma individual submerge na luz espiritual, é muito dificil de alcançar—se porventura alguém a alcançar. Mas mesmo que alguém consiga, não perdura. Portanto, o Bhagavatam diz patanty adhah: eles caem. Porquê? Porque eles não se ocupam no serviço transcendental amoroso ao Senhor.

 

A liberação impessoal é tal como ir dormir. As pessoas inteligentes apercebem-se de que existem dificuldades na existência material, e querem alívio. Este é um factor que pode levar alguém a pensar em vida espiritual. Portanto, a pessoa que tenta alcançar a liberação impessoal, assemelha-se a alguém que sofre e tenta escapar do sofrimento, dormindo—“O mundo é muito dificil.” Bem, temporariamente podes escapar do sofrimento através do sono mas, quanto tempo vais ficar a dormir? A seu devido tempo acordarás e os problemas permanecerão.

 

Ficar suspenso na refulgência do Brahman impessoal pode tornar-se aborrecido. É um alívio—definitivamente é um alívio sair deste mundo material—mas eventualmente pode tornar-se um aborrecimento. Alguém pode viajar num cruzeiro: “Céus, preciso sair deste ambiente. Vou fazer uma viagem de cruzeiro. Quero desfrutar do mar.” Por algum tempo pode ser muito bom mas, eventualmente, fica-se aborrecido—só água, ondas e vento. A seu devido tempo querer-se-á regressar a terra—apesar de ser aquela situação que anteriormente quisemos abandonar. Apesar de haver frustação e dificuldades na terra, pelo menos havia alguns estímulos e alguma variedade.

 

Portanto, os jñanis impersonalistas que desejam submergir e tornarem-se unos com o Brahman, a seu devido tempo caem da sua posição(patanty adhah), porque ficam inquietos. Eles querem actuar, mas como não conhecem as actividades espirituais da consciência de Krsna, o serviço devocional a Krsna, patanty adhah—eles envolvem-se em actividades materiais e de novo sofrem, porque a actividade material resulta em sofrimento material.

 

Assim sendo, porque é que o Senhor descende? Ele é sac-cid-ananda-vigraha. eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança.Ele vive na Sua morada espiritual, onde tudo é eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. E Ele é servido por grandes almas que estão completamente livres da contaminação material, livres dos corpos materiais que causam tanta dor. Então, porque é que o Senhor aparece aqui? O que é que ganha com isso?

 

Para si, Ele não tem nada a ganhar. Mas manifesta-se por Sua misericórdia sem causa, para nos libertar. Compara-se o mundo material a uma prisão e nós, as almas condicionadas, somos os prisioneiros. Estamos restringidos, tal como os prisioneiros. Não nos podemos movimentar livremente, nem sempre que nos apetece.

 

As almas liberadas podem viajar a qualquer parte do universo. Não necessitam de espaçonaves ou qualquer outro meio de locomoção. Podem movimentar-se livremente, mas nós, as almas condicionadas, estamos atadas. Não nos é permitido sair deste planeta muito fácilmente mas, se o conseguirmos fazer, ficamos sem lugar onde permanecer. Portanto, estamos restringidos e ao mesmo tempo temos que sofrer.

 

Anteriormente, mencionei que no corpo existe muito sofrimento. Alguém pode pensar, “Este swami é muito negativo acerca do corpo.” Mas o Bhagavad-gita diz, janma-mrtyu-jara-vyadhi-duhkha-dosanudarsanam: deve-se estar sempre consciente do sofrimento do nascimento, morte, velhice e doença. Pode-se dizer, “Porque é que o swami tem que ser tão negativo? Quero desfrutar do corpo. Quero gozar da vida. Quero gozar aqui e agora”—num certo contexto está correcto—mas se eu perguntar a qualquer um de vocês, “Sinceramente, queres adoecer?” “Não.” “Queres envelhecer?” “Não.” “Queres morrer?” “Não.” Bom, mas isso é o que vem com o corpo. Quando se obtém um corpo material, isso é o que vem na encomenda; é o que se compra juntamente com o corpo. Pode-se pensar, “Mas existe tanta felicidade  no corpo. Posso ir surfar, caminhar, comer gelados, posso beber, comer e desfrutar do corpo. “Bom, está bem, mas na verdade não é o corpo que te permite desfrutar; é a alma dentro do corpo. Todas as partes do corpo podem estar presentes quando a alma se vai embora, mas onde está o desfrute? Para o corpo não existe desfrute depois da alma partir. Podemos pensar que desfrutamos com os sentidos, mas na verdade é devido à presença da alma que somos capazes de desfrutar, trabalhar e viver.

 

O corpo é o meio pelo qual a alma condicionada pode experienciar. Por exemplo, eu tenho estes óculos. Vejo através deles—os óculos em si não veêm. Similarmente, temos estes sentidos—olhos, ouvidos, nariz,língua, pele—e nós percepcionamos através deles. Na verdade os sentidos por si não têm percepção. É a alma que tem a percepção—através dos sentidos do corpo. Na verade, não precisamos do corpo para experimentar felicidade. Com o corpo existe alguma percepção de felicidade—mas com  muito sofrimento.

 

Existem diferentes escolas de filosofia—sad-darsana—e um dos filósofos analisou e concluiu que o corpo está feito para sofrer. Ele dá o exemplo do dedo mindinho. De quantas maneiras o dedo mindinho pode desfrutar? Não muitas. E de quantas pode ele sofrer? Tantas. Até um pequeno corte ou bolha podem ser muito dolorosos. E o dedo pode ser cortado, queimado, esmagado. O corpo é muito vulnerável. Mas não a alma. Como diz o Gita, ela não pode ser cortada, nem queimada, nem molhada, nem pode ser seca—está mais além do alcance dos elementos materiais.

 

nainam chindanti sastrani

  nainam dahati pavakah

na cainam kledayanty apo

  na sosayati marutah

 

“A alma nunca pode ser cortada por arma alguma, nem pode ser queimada pelo fogo, ou humedecida pela água ou definhada pelo vento.” (Bg 2.23) Sem o corpo, a alma pode desfrutar livremente, de todas as maneiras, porém sem dor.

 

E, porque a alma é parte integrante de Krsna, deriva a sua verdadeira felicidade em relação com Krsna. Neste momento, somos como peixes fora da água, por que originalmente viemos de Krsna, da atmosfera espiritual, e entrámos no mundo material para sofrer, numa atmosfera que nos é alheia. Sempre estamos inquietos, ansiosos e temerosos.

 

Portanto, porque é que Krsna vem a este mundo? Ele vem para nos resgatar, os Seus filhos perdidos, para nos levar de volta a casa, de volta para Ele. Esta é a razão da Sua vinda. Não há outra. Para Ele, não existe nada aqui. Ele vem apenas por nossa causa.

 

Apesar de vir a este mundo material, não vem com um corpo físico. Ele vem com a Sua forma espiritual original (sac-cid-ananda-vigraha). Krsna, em particular, vem numa forma que se assemelha à de um ser humano. “O homem é feito à imagem de Deus.” O facto de Krsna vir numa forma semelhante à humana, é muito bom, porque torna-se mais fácil para nós, com corpos humanos, relacionarmo-nos com Ele.

 

anugrahaya bhaktanam

  manusam deham asthitah

bhajate tadrsih krida

  yah srutva tat-paro bhavet

 

“Quando o Senhor assume uma forma semelhante à humana para mostrar misericórdia aos Seus devotos, Ele ocupa-se em passatempos, que atraem aqueles que escutam sobre eles, a dedicarem-se a Ele.” (SB 10.33.36) Ele vem para nos resgatar e libertar, pois somos os Seus filhos e devotos perdidos.

 

E como é que Ele descende? Ele não nasce como os seres humanos comuns, através da descarga seminal. Pelo contrário, Ele manifesta-se, ou aparece.

 

ajo ’pi sann avyayatma

  bhutanam isvaro ’pi san

prakrtim svam adhisthaya

  sambhavamy atma-mayaya

 

“Embora Eu seja não nascido e o Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todas as entidades vivas, mesmo assim, em cada milénio Eu apareço na Minha forma transcendental original.” (Bg 4.6)

 

E isso foi o que lemos esta tarde. A maneira como o Senhor aparece, é um assunto bastante esotérico. Ele escolhe um devoto completamente purificado, e entra na mente desse devoto completamente purificado. O nome do devoto em cuja mente Krsna entra, é dado aqui—Vasudeva. E o estado que o capacita para receber Krsna dentro da sua mente pura é chamado vasudeva, que significa completamente além dos três modos da natureza material, completamente transcendental—o estado da bondade pura, suddha-sattva. Como se afirma no Srimad-Bhagavatam, sattvam visuddham vasudeva-sabditam: a consciência pura plena é conhecida como vasudeva.

 

sattvam visuddham vasudeva-sabditam

  yad iyate tatra puman apavrtah

sattve ca tasmin bhagavan vasudevo

  hy adhoksajo me manasa vidhiyate

 

“A condição da bondade pura, suddha-sattva, na qual a Suprema Personalidade de Deus é revelada sem nenhuma cobertura, é chamada vasudeva. Nesse estado puro, o Deus Supremo, que está mais além dos sentidos materiais e é conhecido como Vasudeva, é percebido pela minha mente.” (SB 4.3.23, citado no Cc Adi 4.66)

 

Depois de Vasudeva ter recebido Krsna dentro de sua mente, ou coração purificado, ele, através de seu poder espiritual, transferiu-O para o coração purificado de Devaki. Nesta actividade, não houve nenhuma descarga seminal. E o processo pelo qual a Suprema Personalidade de Deus foi transferido do coração de Vasudeva para o coração de Devaki, chama-se diksa. Diksa significa “iniciação espiritual.” Diksa acontece entre o professor, ou guru, e o discípulo. Quando o guru está suficientemente qualificado, pode transportar Krsna dentro de seu coração. E, quando o discípulo está suficientemente qualificado, pode receber Krsna do guru—através de um intercâmbio que se chama diksa.

 

O processo de diksa, é essencial para a realização de Deus (Krsna). Existe uma ciência completa de bhakti-yoga que está descrita no Bhakti-rasamrta-sindhu, de Srila Rupa Gosvami e que começa com este processo, Guru-padasrayas tasmat: “Deve-se aceitar refúgio aos pés de lótus de um mestre espiritual.” Krsna-diksadi-siksanam: “Deve-se aceitar iniciação dele e também receber instrução.” E visrambhena guroh seva: “Deve-se servi-lo com afecto.”

 

Não podemos alcançar Krsna através dos nossos próprios esforços. Devemos receber Krsna de alguém que já O tem. Por isso Srila Bhaktivinoda Thakura, um grande preceptor espiritual, ora ao devoto puro:

 

krsna se tomara, krsna dite paro,

        tomara sakati ache

ami to’ kangala, ‘krsna’ ‘krsna’ boli’,

        dhai tava pache pache

 

“Krsna é teu; tens o poder de O dares a mim. Estou simplesmente correndo atrás de ti, gritando, ‘Krsna! Krsna!’” (Saranagati, “Ohe! Vaisnava Thakura”)

 

Na verdade, este acto de diksa, como está descrito no verso de hoje, é o culminar de um processo gradual. Não é assim tão fácil, a ponto de decidirmos, “Bom, agora vou encontrar um guru que tenha Krsna, e ele vai dá-Lo a mim, e assim não tenho mais nada a fazer.” Temos que estar qualificados para receber Krsna, e o processo para nos tornarmos qualificados desenvolve-se gradualmente. Temos que nos esforçar para chegarmos a esse estágio de pureza em que possamos receber Krsna nos nossos corações—e não só recebê-Lo nos nossos corações, mas realmente vê-Lo cara a cara. Depois  de permanecer por algum tempo no coração de Devaki, Krsna manifestou-se perante ela, e eles puderam ver-se cara a cara. Ela viu-O cara a cara, e Ele também. Esta é a perfeição da consciência de Krsna.

 

Portanto, temos que nos qualificar. Temos que limpar o espelho do coração (ceto-darpana-marjanam).

 

O processo de purificação varia consoante a era. Embora o processo básico seja o mesmo—consciência de Krsna—na era actual, o processo específico recomendado é cantar dos santos nomes do Senhor:

 

harer nama harer nama

  harer namaiva kevalam

kalau nasty eva nasty eva

  nasty eva gatir anyatha

 

“Deve-se cantar o santo nome, cantar o santo nome, cantar o santo nome  do Senhor Hari [Krsna]. Não há outra maneira, não há outra maneira, não há outra maneira para alcançar sucesso nesta era.” (Brhan-naradiya Purana 38.126)

 

Cantar é repetido três vezes para enfatizar. “Deves fazê-lo, deves fazê-lo, deves fazê-lo.” Uma vez, apareceu um cartoon num jornal, que mostrava um senhor idoso sentado em frente a sua esposa. Ela dizia-lhe “Canta [Chant], canta [chant], canta [chant], ao que ele respondia, não posso [can’t], não posso [can’t], não posso [can’t].” Esse é o nosso infortúnio. O sastra, as escrituras dizem-nos, “Canta [Chant], canta [chant], canta [chant] (harer nama harer nama harer nama), e por nenhuma razão aparente—simplesmente devido a uma aversão sem causa—nós dizemos (não necessáriamente verbalizando mas através do nosso comportamento), “Não posso [Can’t], não posso [can’t], não posso [can’t]. “Não posso porque estou muito ocupado.”  “Não posso porque prefiro fazer outras coisas.”  “Não posso porque. . .”—porque, porque, porque. Portanto harer nama harer nama harer nama é enfático: canta, canta, canta. E kalau nasty eva kalau nasty eva kalau nasty eva: não há outra maneira, não há outra maneira, não há outra maneira. Esta frase pode trazer-nos à memória a imagem de um cristão fanático repetindo, “Jesus é o único caminho.”  Mas este nasty eva, “a única maneira” é um pouco diferente. (E também não queremos dar a entender que a frase “Jesus é o único caminho”, esteja errada.) Mas neste contexto , nasty eva “não há outra maneira,” tem um significado especial.

 

Para diferentes eras, diferentes métodos de auto-realização são recomendados—para Satya-yuga é a meditação, para Treta-yuga é a execução de rituais védicos e para Dvapara-yuga é a adoração opulenta no templo. Contudo, nesta presente era, harer nama, o cantar dos santos nomes de Deus, é o método recomendado. Portanto, nasty eva nasty eva nasty eva quer dizer, “não é através da meditação silenciosa, nem através dos rituais védicos elaborados, nem sequer através da adoração ritualistica no templo,” mas sim, através dos santos nomes.

 

Mas os santos nomes não são sectários. Na verdade existem seitas cristãs cujos praticantes repetem constantemente o nome de Jesus. Nós não dizemos que se deve cantar somente o santo nome de Krsna. Pode-se cantar qualquer nome de Deus. Porque Deus é absoluto, qualquer nome de Deus é tão bom como qualquer outro. Mas deve-se cantar algum nome. Também a tradição muçulmana recomenda cantar o nome de Deus, de Allah. No Paquistão vi um livro que se chamava, Os Noventa e Nove Nomes de Allah. Na tradição védica existe o Visnu-sahasra-nama, “Os mil nomes de Visnu.” Portanto, o principio de cantar os nomes de Deus é uma prática corrente mas, invarialvelmente, é neglicenciado. Entretanto, também se pode dizer que, em qualquer tradição a maioria é convencional. Só uma minoria é verdadeiramente mística, ou espiritual. No interior das tradições místicas ou espirituais,aconselha-se o cantar dos santos nomes.

 

O processo de cantar (sankirtana) limpa o coração (ceto-darpana-marjanam) e faz dele um lugar adequado para o Senhor residir. Isso é o que temos que fazer para nos prepararmos para recebê-Lo. Temos que cantar. O cantar é agradável e espero que todos tenham essa experiência. Dá alegria. Esse é outro aspecto: embora os resultados da consciência de Krsna sejam os mais elevados, o processo também é o mais fácil e o mais sublime. Parece demasiado bom para ser verdade, mas é verdade. O cantar é fácil,  traz alegria e ao mesmo tempo limpa o coração (ceto-darpana-marjanam) e faz dele um lugar adequado para o Senhor residir. E esse processo acontece através de diksa, o processo continuado de diksa, que culmina na realização perfeita de Krsna. E então, quando se está completamente purificado e realizado, Krsna não se pode conter dentro do coração. Ele fica tão satisfeito com o serviço da pessoa e tão ansioso de a ver e abraçar, que vem para fora do coração. (Claro que, ao mesmo tempo, Ele permanece lá.) À Sua maneira, Ele sai do coração da pessoa para vê-la, tocá-la, abraçá-la e levá-la pela mão convidando-a para ir com Ele para a Sua morada eterna. 

 

Essa é a perfeição da consciência de Krsna, e é possivel para todos, e cada um de nós. Tão só, temos que fazer o esforço para cantar sem ofensas, e permanecer animado e fixo nesse empreendimento. Para tal, precisamos de associação. Em cada esforço precisamos de associação. Em cada esfera da vida existem associações de pessoas que estão ocupadas na mesma actividade porque, dessa maneira,  encorajam-se mutuamente. Existe a câmara do comércio, a sociedade dos diabéticos, a associação dos observadores de pássaros—existem sociedades para todas as esferas da vida, porque na associação de outras pessoas que têm o mesmo objectivo, animamo-nos a permanecer no mesmo caminho e também aprendemos com os outros, da experiência deles, em como aumentar os nossos esforços e maximizar o  progresso. É algo natural. E a associação é essencial. Quando nos tornamos um pouquinho sérios, quando desenvolvemos um pouco de fé e atracção, o seguinte passo é a associação com devotos (adau sraddha tatah sadhu-sanga). Esta associação vai ajudar-nos.

 

O cantar é simples, mas a verdadeira arte é escutar enquanto cantamos. Qualquer pessoa pode cantar sem ter a mente focada, “Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna. . .” e olhar para as árvores, para a lua, para o jornal, para a televisão, mas esse não é o verdadeiro cantar. O verdadeiro canto ocorre quando escutamos com a mente fixa no som. Isso é meditação. Meditação no mantra, mas isso requer prática. Seremos capazes de manter a mente fixa no som do santo nome, se cantarmos por cinco minutos? É um desafio. Mesmo só por um minuto é um desafio, porque a natureza da mente é inconstante. É inquieta. Adora divagar—como o vento. No Bhagavad-gita Arjuna diz que é tão dificil controlar a mente como controlar o vento.

 

cancalam hi manah krsna

  pramathi balavad drdham

tasyaham nigraham manye

  vayor iva su-duskaram

 

“Ó Krsna, a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, e controlá-la, parece-me mais difícil do que controlar o vento.” (Bg 6.34)

 

Com é que podemos controlar o vento? Vai sempre para aqui e para acolá. Ninguém pode pará-lo. Do mesmo modo, como é que se pode controlar a mente? Não é possivel. Contudo, o Bhagavad-gita afirma que é possivel—pela prática (abhyasa) e desapego.

 

asamsayam maha-baho

  mano durnigraham calam

abhyasena tu kaunteya

  vairagyena ca grhyate

 

“Indubitavelmente, é muito dificil refrear a mente inquieta, mas é possivel através da prática adequada e do desapego.” (Bg 6.35)

 

Esta é a prática adequada: escutar sobre a consciência de Krsna e depois cantar—e escutar—o nome do Senhor Krsna. Cantamos e escutamos. Praticamos o fixar a nossa mente no som do santo nome do Senhor. Este é o nosso sadhana; esta é a nossa prática. E é um assunto muito sério e que requer muito esforço. Como disse Srila Prabhupada o nosso mestre espiritual, “Cantar é fácil”—todos podem articular os sons do maha-mantra Hare Krsna, Hare Krsna, Hare Krsna—“mas a determinação de cantar[e escutar com atenção] não é assim tão fácil.” Mas isso é o que precisamos. Dessa determinação (drdha-vratah). E essa determinação desenvolve-se na associação de devotos que são sérios no cantar e escutar. Portanto, a associação de devotos é muito valiosa, e é de suma importância manter relações favoráveis com os devotos.

 

Existem diferentes ofensas que devem ser evitadas quando cantamos. A principal ofensa, é estar desatento enquanto cantamos, mas outra, é ofendermos os devotos. Os devotos são os nossos melhores bem-querentes. Dão-nos o santo nome. Dão-nos ânimo nos nossos esforços por cantar. E se os ofendemos, ficamos privados dos nossos melhores bem-querentes, os nossos melhores amigos, o nosso melhor suporte para cantarmos. Ficamos privados da misericórdia que, desesperadamente, precisamos para progredir. Mas se prestamos atenção a estes dois pontos—cantar atentamente e manter relações favoráveis com os devotos—então, gradualmente, podemos chegar à plataforma da perfeição. Leva o seu tempo, mas podemos chegar a esse estágio quando Krsna entrar nos nossos corações. Ele já está lá, mas manifestar-se-á plenamente e, a seu devido tempo, vê-Lo-emos cara a cara. Portanto, devemos sempre, em todo o momento livre, kirtaniyah-sada-harih, cantar Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. O que quer que façamos que não esteja acompanhado pelo canto, deve ser com a ideia de nos posicionarmos de tal modo que possamos cantar. Podemos dizer, “Não posso estar sempre a cantar. Tenho que trabalhar. Tenho que ganhar dinheiro. Tenho que pagar as contas.” Isso está bem, mas qual é o objectivo de todo esse esforço? Qual é a finalidade de ter uma casa? Para que serve o alimento que vamos comer? O objectivo último deve ser o de manter o corpo e a alma juntos para que possamos cantar os santos nomes e realizar Deus. Isso é “Kirtaniyah-sada-harih, “cantar sempre o nome de Deus.” Temos um corpo. Devemos cuidar dele. Devemos tomar banho, vestir, comer e dormir. Devemos executar as necessidades da vida de uma forma completa. Mas, qual é o objectivo de tudo isso? A meta deve ser a de cantar os santos nomes de Krsna e realizar Krsna.

 

Portanto, Krsna vem para nos dar esta mensagem,e se a partir deste dia, Sri Krsna Janmastami, pudermos aceitá—la no nosso coração—será o começo da nossa perfeição. Devemos aceitá-la no nosso coração, praticá-la e repeti-la a outros-repeti—la tanto para o beneficio dos outros, como para o nosso. E os resultados serão gloriosos. O propósito do aparecimento de Krsna será satisfeito, e o nosso, como seres humanos, também será satisfeito. E todos, em conjunto, seremos felizes em consciência de Krsna. Hare Krsna

 

Têm algumas perguntas ou comentários a fazer?

 

Convidado (1): Esta é uma pergunta que sempre me coloco a mim mesmo. Os cristãos acreditam na ressurreição, e os Buddhistas e os Hindus acreditam na reencarnação mas, “Qual é o propósito de começar e acabar algo? Qual o significado de várias ou até muitas vidas, quando poderíamos ficar satisfeitos só com uma? Porque é que temos que nos aperfeiçoar através de muitas vidas?

 

Giriraj Swami: Essa é uma pergunta muito boa. O Miguel diz que os cristãos acreditam na ressurreição, e os Buddhistas e os Hindus acreditam na reencarnação, mas qual é a necessidade de passar por muitas vidas quando podemos realizar a Deus só numa?

 

Concordamos contigo plenamente. Essa é a ideia. Especialmente agora que alcançámos esta forma humana de vida, que se obtém depois de passarmos por muitas vidas; e em particular porque entrámos em contacto com os devotos, que nos falam de Krsna e o processo de bhakti-yoga; podemos e devemos satisfazer o nosso propósito neste mundo, nesta mesma vida.

 

labdhva su-durlabham idam bahu-sambhavante

  manusyam artha-dam anityam apiha dhirah

turnam yateta na pated anu-mrtyu yavan

  nihsreyasaya visayah khalu sarvatah syat

 

“Depois de muitíssimos nascimentos chegamos a esta forma humana que é muito dificil de obter, e, embora seja temporária, permite-nos alcançar a perfeição mais elevada. Portanto, um ser humano sóbrio, deve esforçar-se diligentemente para conseguir essa perfeição última antes que este corpo, que está sempre sujeito à morte, se deteriore. Em última instância, a gratificação dos sentidos está disponível mesmo nas espécies de vida mais abomináveis, enquanto que a consciência de Krsna, só é possível para o ser humano.” (SB 11.9.29)

 

E se cantamos seriamente—cantamos, escutamos e seguimos os principios reguladores que mantêm o cantar e o escutar—podemos alcançar a perfeição completa nesta mesma  vida. E essa deve ser a nossa determinação.

 

Contudo, o Bhagavad-gita explica que, se por acaso, não alcançarmos a perfeição completa, na próxima vida  prosseguiremos a partir do ponto onde deixámos na vida anterior. Não precisamos de começar tudo da estaca zero. Materialmente falando, temos que começar tudo de novo na próxima vida. Nesta vida podemos saber falar sete linguas mas na próxima, depois de nascermos, a única coisa que sabemos dizer é “Ga, Ga, Ga,” e nem sequer conhecemos o ABC. Tudo o que se relaciona com assuntos materiais, é perdido no momento da morte. contudo, na próxima vida, continuaremos do ponto em que chegámos por termos praticado a bhakti-yoga. Suponhamos que nesta vida só completamos 50 por cento; na seguinte vida continuamos a partir dos 51 por cento. Não temos que começar tudo de novo.Agora que temos esta forma humana de vida e a associação com os devotos, porquê correr riscos? Tal como disseste, devemos ter essa determinação para nos tornarmos completamente exitosos nesta vida.

 

Convidado (1): Porque é que viemos parar a este lugar? Porque é que temos que passar por tantas vidas?

 

Giriraj Swami: Na verdade, com se mencionou anteriormente, todos emanámos de Krsna, mas quando Lhe voltamos as costas—quando O esquecemos e queremos desfrutar separados d`Ele—somos controlados por maya e sofremos neste mundo material.

 

krsna-bahirmukha hana bhoga-vancha kare

nikata-stha maya tare japatiya dhare

 

“Quando a entidade viva deseja desfrutar separadamente de Krsna, virando-lhe as costas, a energia ilusória do Senhor, maya, prende imediatamente a alma nas suas garras.” (Prema-vivarta)

 

Mas neste processo, não começamos de baixo; começamos de cima. Começamos sendo um ser elevado num planeta elevado. Portanto, podemos alterar o processo e, a partir dessa posição , voltarmos a Deus. Não começamos sendo um germe ou um organismo unicelular. Mas se nos descuidamos, podemos resvalar até à forma de um organismo unicelular, num corpo de organismo celular. Na realidade, não começamos de baixo, começamos de cima, e se somos atentos e vigilantes, podemos alterar todo o processo numa só vida. Não temos que passar mais do que uma vida, e não precisamos de experimentar mais nenhuma forma inferior de vida.

 

Convidado (1): Pode-se dizer que tudo à nossa volta-no mundo material—é energia? Animais, vegetais, minerais—tudo na vida, mesmo que não tenha própriamente consciência?

 

Giriraj Swami: Bom, isso é verdade—tudo é energia—mas como se afirma no Bhagavad-gita, existem dois tipos de energias. Uma é a energia material, e a outra é a energia espiritual. A energia espiritual é consciente, é viva. E a energia material é inerte, é morta.

 

bhumir apo ’nalo vayuh

  kham mano buddhir eva ca

ahankara itiyam me

  bhinna prakrtir astadha

 

“Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego—em conjunto, constituem as minhas energias materiais separadas.” (Bg 7.4)

 

apareyam itas tv anyam

  prakrtim viddhi me param

jiva-bhutam maha-baho

  yayedam dharyate jagat

 

“Além dessas, ó Arjuna de braços poderoso, existe uma outra energia, a Minha energia superior, que consiste das entidades vivas que exploram os recursos desta natureza material inferior.” (Bg 7.5)

 

O que vemos com vida neste mundo material é, na verdade, uma combinação das energias espiritual e material—a centelha espiritual dentro do corpo físico. Enquanto a alma está presente, existe consciência. Mas um objecto inanimado—como por exemplo este pedaço de metal—não tem consciência. Em ultima análise, naturalmente, podemos dizer que existe consciência em toda a parte, porque Krsna está em toda a parte. Ele expande-se dentro dos átomos, e no espaço entre eles, através do universo inteiro (andantara-stha-paramanu-cayantara-stham).

 

Convidado (1): Será que existem outras formas de inteligência noutros planetas no universo, ou só existem neste planeta?

 

Giriraj Swami: Na verdade, existe inteligência ainda mais avançada noutros planetas além da terra. Tudo é a criação de Deus. Não acreditamos que exista algo que tenha surgido por acidente ou casualidade. Deus criou todos estes planetas para fornecer vários ambientes a diferentes tipos de pessoas. Assim como existem diferentes relatividades na terra—Ojai ou Santa Barbara podem ser relativamente mais congeniais do que Alaska ou Antártida—portanto, existe relatividade dentro do unniverso. Alguns planetas são mais celestiais, e outros mais infernais. Considera-se que o planeta Terra está no meio, embora um pouco para o lado inferior. Mas existe vida inteligente em toda a parte—e sofrimento também—e todos estão, em última instância, designados para se tornarem conscientes de Deus e poderem voltar a casa, voltar a Deus.

 

a-brahma-bhuvanal lokah

  punar avartino ‘rjuna

mam upetya tu kaunteya

  punar janma na vidyate

 

[Krsna, o Supremo Senhor, disse:] “Do planeta mais elevado no mundo material, até ao mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kunti, jamais volta a nascer.” (Bg 8.16)

 

Convidado (2): Você disse que a única prática que precisamos fazer é o cantar do santo nome. Parece-me ser pedir a Deus a graça do santo nome. Mas o que é que podemos fazer para nos prepararmos, no nosso dia-a-dia, a melhor compreender e receber essa graça?

 

Giriraj Swami: Sim, existem práticas. Embora o canto seja suficiente, existem disciplinas que podemos executar que nos ajudam a adquirir o beneficio pleno do cantar, a graça completa do Senhor. Existem algumas restrições pessoais. Apesar de no início ser difícil aceitar essas restrições, a beleza do cantar, o próprio processo de cantar,o processo de purificação, torna mais fácil aceitá-las-até ao ponto em que não queremos ocupar—nos mais em tais actividades adversas.

 

A primeira restrição é não comer carne. A segunda é não tomar intoxicantes. A terceira é não praticar sexo ilícito—nenhum sexo fora do matrimónio, nenhum sexo frívolo. A quarta é não praticar jogos de azar. Se formos capazes de seguir estes principios reguladores, o nosso cantar será mais efectivo, e seremos melhores recipientes para a graça de Deus.

 

E também existem outras coisas, tais como levantar cedo pela manhã. “Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.” As horas matutinas, especialmente as anteriores ao nascer do sol, são consideradas as melhores para as práticas espirituais, portanto, normalmente levantamo-nos cedo. Alguns devotos, quando podem, levantam-se às duas da manhã. Costumam deitar-se às oito e levantar-se às duas. Como regra geral, tentamos levantar-nos às quatro da manhã. Os discipulos iniciados têm uma cota especifica de canto, que leva mais ou menos duas horas a completar. Portanto, eles levantam-se às quatro e entre as cinco e as sete completam a sua cota de voltas, o que lhes deixa o resto do dia por sua conta.

E quanto mais sérios nos tornarmos, mais coisas podemos aprender para melhorar a nossa prática. Mas, se conseguirmos seguir esssas quatro restrições—e levantar cedo—já estamos a começar bem. E se quisermos conhecer mais, temos volumes de livros . . .

 

Convidado (2): Más noticias. Muito obrigado.

 

Giriraj Swami: A uma certa altura, pensei em perguntar-te, antes de te dar a resposta, se estarias preparado para a receber, mas decidi dar-ta porque fizeste a pergunta e pareces uma pessoa sincera.

 

Voltando ao assunto, as boas noticias são que, se cantarmos, tudo o resto se torna mais fácil. Essa é a razão de nós não enfatizarmos as restrições na primeira abordagem, porque sabemos que se as pessoas cantarem, perderão interesse naqueles actos indulgentes, e tornar-se-ão mais e mais desejosos de avançar em consciência de Krsna.

 

Convidado (2): Inshallah.

 

Giriraj Swami: Quando disseste “inshallah”, lembrei-me de um grupo de Muçulmanos Ahmadiyya que costumavam visitar-me no nosso templo em Juhu Beach. Eles disseram—me o mesmo, que as orações oferecidas antes do nascer do sol-à semelhança do que nós dizemos, começando uma hora e meia antes do nascer do sol—são as mais escutadas por Deus, do que aquelas que são oferecidas mais tarde.

 

Inshallah, ou insha’Allah, quer dizer “se Allah desejar.” Allah é um nome de Deus, portanto insha’Allah significa “desejo de Deus.” Naturalmente que também aceitamos o nome de Allah. Allah e Krsna não são diferentes. Mas os nossos devotos no Paquistão, em vez de dizerem “insha’Allah” costumavam dizer, “insha Krsna”, querendo dizer a mesma coisa—“O desejo de Deus.”

 

Krsna Bamani dasi: Maharaja, ia precisamente agora dar um exemplo. No principio algumas pessoas pensam, “Oh, tenho que me tornar vegetariano” quando escutam falar sobre todas as restrições negativas. Mas o processo da vida espiritual é tão agradável, que eles experimentam um gosto superior. Na verdade eles preferem o nosso alimento, prasada, às outras coisas que costumam comer. E o mesmo acontece com as outras aparentes restrições. À medida que cantamos e nos associamos com os devotos, provamos um gosto superior.

 

Giriraj Swami: É um bom ponto.

 

Krsna Bamani dasi: Queria dizer algo mais. Você já o explicou. No mundo moderno, os fanáticos Muçulmanos, ou os fanáticos de qualquer outra religião— podem estar a cantar os nomes de Deus, enquanto se produz tanta violência. Por exemplo, eles podem cantar, “Allah, Allah,” e ainda assim ocuparem-se em tanta actividade violenta. Eles são “os guerreiros de Deus”, por assim dizer. Portanto, você já explicou que existem métodos para se cantar os nomes de Deus apropriadamente.

 

Giriraj Swami: Certo. Devemos evitar essa ofensa de ofender os devotos, e existem devotos em todas as tradições. Podemos adoptar o nome de Deus da nossa tradição, mas se criamos inimizade com os outros devotos das outras tradições, isso é uma ofensa, não só contra os devotos em si, mas também contra o santo nome. E se cometemos ofensas contra o santo nome, não derivamos o beneficio. Na verdade, está explicado que quando ofendemos os devotos, o santo nome fica ofendido e retrai a sua misericórdia. Portanto, apesar desses fanáticos pronunciarem o nome de Deus, para eles Deus está quase ausente. Para eles, Ele retraiu a Sua misericórdia, porque são ofensivos.

 

Naturalmente que ofender os devotos é o pior, mas ofender a qualquer ser—causar dor a qualquer entidade viva—está proibido. Esse é o mandamento completo. E essa é uma das razões pelas quais nós não matamos animais ou comemos carne.

 

Portanto, não chega pronunciarmos somente os nomes de Deus. Devemos ter a consciência apropriada, a mentalidade adequada de serviço a Deus e aos devotos de Deus—em qualquer tradição, cultura ou comunidade a que pertençamos. Devemos respeitar e apreciar todos os devotos genuínos, serventes de Deus, encorajar os devotos e cantar os nomes de Deus. Essa atitude levar-nos-á ao sucesso completo, e um dia o santo nome revelar-se-á a nós e veremos Krsna cara a cara. 

 

prabhu kahe,—“vaisnava-seva, nama-sankirtana

dui kara, sighra pabe sri-krsna-carana”

 

O Senhor [Sri Krsna Caitanya Mahaprabhu] disse, “Devemos ocupar-nos no serviço dos serventes de Krsna, e cantarmos o santo nome de Krsna. Se fizermos essas duas coisas, muito em breve alcançaremos refúgio aos pés de lótus de Krsna.” (Cc Madhya 16.70)

 

Hare Krsna!

 

 

 

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Written by nityananda108

Agosto 24, 2008 às 3:01 am

Publicado em Uncategorized

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