Aulas de Giriraj Swami em Português

Dia de Balarama

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O Dia do Aparecimento do Senhor Balarama

Aula Dada por Giriraj Swami

14 de Agosto, 2000

Chicago

 

 

Para glorificar Deus, a Pessoa Suprema, para auto purificação e para aumentar a satisfação dos devotos, vamos ler agora do Sri Caitanya-caritamrta, Adi-lila, quinto capítulo, “As glórias do Senhor Nityananda-Balarama”:

 

Este capítulo está principalmente direccionado para a descrição da natureza essencial e das glórias de Sri Nityananda Prabhu. O Senhor Sri Krsna é a Personalidade de Deus absoluta e a Sua primeira expansão para passatempos, é a forma de Sri Balarama.

 

VERSO 1

 

vande ’nantadbhutaisvaryam

  sri-nityanandam isvaram

yasyecchaya tat-svarupam

  ajnenapi nirupyate

 

TRADUÇÃO

 

Deixai-me oferecer as minhas reverências ao Senhor Sri Nityananda, a Suprema Personalidade de Deus, cuja opulência é maravilhosa e ilimitada. Por sua vontade, mesmo um tolo pode compreender a Sua identidade.

 

VERSO 2

 

jaya jaya sri-caitanya jaya nityananda

jayadvaita-candra jaya gaura-bhakta-vrnda

 

TRADUÇÃO

 

Todas as glórias a Sri Caitanya Mahaprabhu! Todas as glórias ao Senhor Nityananda! Todas as glórias a Advaita Acarya! E todas as glórias a todos os devotos do Senhor Caitanya Mahaprabhu!

 

VERSO 4

 

sarva-avatari krsna svayam bhagavan

tanhara dvitiya deha sri-balarama

 

TRADUÇÃO

 

A Suprema Personalidade de Deus, Krsna, é o manancial de todas as encarnações. O Senhor Balarama é o Seu segundo corpo.

 

SIGNIFICADO dado por Srila Prabhupada

 

O Senhor Sri Krsna, a absoluta Personalidade de Deus, é o Senhor primordial, a forma original de Deus, e a Sua primeira expansão é Sri Balarama. A Personalidade de Deus pode expandir-se em formas inumeráveis. As formas que têm energia ilimitada chamam-se svamsa, e as formas que têm energias limitadas (as entidades vivas) chamam-se vibhinnamsa.

 

VERSO 5

 

eka-i svarupa donhe, bhinna-matra kaya

adya kaya-vyuha, krsna-lilara sahaya

 

TRADUÇÃO

 

Ambos, têm a mesma identidade. Diferem apenas em forma. O Senhor Balarama é a primeira expansão corpórea de Krsna, e ajuda nos passatempos transcendentais de Krsna.

 

SIGNIFICADO

 

Balarama é uma expansão svamsa do Senhor e, por isso, não há diferença em potência entre Krsna e Balarama. A única diferença está na estrutura corpórea d`Eles. Sendo a primeira expansão da Divindade, Balarama é a Deidade principal entre as primeiras expansões quádruplas, e Ele é o principal assistente de Sri Krsna em Suas actividades transcendentais.

 

COMENTÁRIO de Giriraj Swami

 

No começo do Srimad-Bhagavatam, Srila Prabhupada explica a diferença entre o conceito de Verdade Absoluta e o conceito de Deus. Deus (isvara, em sânscrito) significa “controlador.” Mas a Verdade Absoluta, como se define no Vedanta-sutra e se explica no Srimad-Bhagavatam, é “Aquele de onde tudo emana.” Alguém pode ser Deus, criador e controlador de um cosmos inteiro, mas não necessáriamente tem que ser a origem de todas as coisas. Portanto, o conceito de Verdade Absoluta vai mais além do conceito de Deus como controlador. Janmady asya yatah. Om namo bhagavate vasudevaya, janmady asya yatah: O Senhor Krsna é a Verdade Absoluta. Ele é a origem de tudo, tanto material quanto espiritual.

 

O Senhor Balarama é a primeira expansão do Senhor Krsna. O Brahma-samhita dá um exemplo: a partir de uma vela pode-se acender uma segunda vela, da segunda pode-se acender uma terceira, da terceira uma quarta, etc. Todas têm a mesma energia enquanto velas, mas só há uma vela original. Da mesma maneira, o Senhor Krsna expande-se em inumeráveis porções plenárias e porções das porções plenárias, mas Krsna é a Verdade Absoluta original, a Personalidade de Deus original. E Balarama é a primeira expansão, a primeira vela a ser acendida pela vela original. 

 

Aqui, Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami e Srila Prabhupada explicam que, a nível de potência, não existe diferença entre Krsna e Balarama; a única diferença é a constituição física. Uma vez, durante a Kumbha-mela, em Allahabad, surgiu um argumento entre dois devotos, precisamente sobre este mesmo  ponto. Um devoto, Madhudvisa Prabhu disse, “Não existe diferença entre Krsna e Balarama. A única diferença é que Krsna é negro e Balarama é branco.” Porém a Mataji Yamuna não concordou. “Não,” assegurou ela. “Existe uma outra diferença, Krsna é o único desfrutador de Radharani.” Assim,  os dois continuaram argumentando até que Sua Santidade Tamal Krishna Maharaja, que era nessa altura o secretário de Srila Prabhupada para a India, levou o assunto a Srila Prabhupada. Ele disse, “Srila Prabhupada, Madhudvisa Prabhu diz que a única diferença entre Krsna e Balarama é a cor-Krsna é negro e Balarama é branco.” Srila Prabhupada respondeu, “Ele tem razão.” Entretanto Tamal Krishna Goswami continuou, “Mas a Mataji Yamuna diz que existe uma outra diferença, porque Krsna é o único desfrutador de Srimati Radharani.” E Srila Prabhupada respondeu, “Ela tem razão.” Então Tamal Krishna Goswami sugeriu, “Srila Prabhupada eles estão a dizer coisas diferentes. Não podem ter os dois razão. Ao que Srila Prabhupada respondeu, “ Tens razão.” Então Tamal Krishna Goswami perguntou, “Então quem é que tem razão?” Srila Prabhupada respondeu, “Decide tu.”

 

VERSO 6

 

sei krsna—navadvipe sri-caitanya-candra

sei balarama—sange sri-nityananda

 

TRADUÇÃO

 

Esse Senhor Krsna original apareceu em Navadvipa como o Senhor Caitanya, e Balarama apareceu com Ele como o Senhor Nityananda.

 

COMENTÁRIO

 

Houve outro incidente acerca de um tema semelhante. Srila Prabhupada perguntou, “Quem é mais forte, Krsna ou Balarama?” Embora ambos, como svamsa, têm potências iguais, pode ser que haja alguma diferença. Portanto, Srila Prabhupada perguntou, “Quem é o mais forte?” E eu também farei a todos a mesma pergunta.

 

Devoto (1): Krsna é mais forte, porque Balarama recebe a Sua força de Krsna.

 

Giriraj Swami: Bem, é verdade. Tens razão.

 

Murari Caitanya: Krsna é  mais forte, porque Krsna é completo em todas as opulências, e uma delas é a força.

 

Giriraj Swami: Sim.

 

Devoto (2): Balarama é mais forte, porque é o irmão mais velho de Krsna.

 

Giriraj Swami: Srila Prabhupada respondeu, “Krsna é mais forte,”mas a evidência que deu é diferente daquelas sugeridas por todos vós. A evidência que Srila Prabhupada ofereceu não vem dos livros. Srila Prabhupada explicou, “Krsna é mais forte porque a Deidade de Balarama repousa o seu braço no ombro de Krsna.”

 

Agora vamos entrar nos passatempos.

 

VERSO 149

 

nityananda-svarupa purve ha-iya laksmana

laghu-bhrata haiya kare ramera sevana

 

TRADUÇÃO

 

Anteriormente, o Senhor Nityananda Svarupa apareceu como Laksmana e serviu o Senhor Ramacandra como o Seu irmão mais novo.

 

SIGNIFICADO

 

Entre os sannyasis da Sankara-sampradaya, há diferentes nomes para brahmacaris. Cada sannyasi tem alguns auxiliares, conhecidos como brahmacaris, que recebem diferentes nomes segundo os nomes do sannyasi. Entre tais brahmacaris há quatro nomes: Svarupa, Ananda, Prakasa e Caitanya. Nityananda Prabhu manteve-se como brahmacari: Ele jamais tomou sannyasa. Como brahmacari, Seu nome era Nityananda Svarupa e por isso, o sannyasi com quem Ele vivia deve ter sido dos tirthas ou asramas, porque o brahmacari auxiliar de tal sannyasi chama-se Nityananda Svarupa

 

VERSO 150

 

ramera caritra saba,—duhkhera karana

svatantra lilaya duhkha sahena laksmana

 

TRADUÇÃO

 

As actividades do Senhor Rama estavam repletas de sofrimento, porém, Laksmana tolerava esse sofrimento voluntariamente.

 

VERSO 151

 

nisedha karite nare, yate chota bhai

mauna dhari’ rahe laksmana mane duhkha pai’

 

TRADUÇÃO

 

Ele não podia contrariar a resolução do Senhor Rama, por ser Seu irmão mais novo, e assim permanecia calado, embora mentalmente infeliz.

 

COMENTÁRIO

 

Assim como Krsna apareceu como o Senhor Ramacandra, Balarama apareceu como Laksmana. Se analizarmos em termos do ciclo de eras, o Senhor Ramacandra apareceu anteriormente, em Treta-yuga, e o Senhor Krsna apareceu posteriormente, em Dvapara-yuga. Os passatempos do Senhor Ramacandra estavam cheios de sofrimento. Rama e Laksmana eram os filhos mais qualificados do rei Dasaratha, e todos esperavam que o Senhor Rama fosse coroado como o rei de Ayodhya. No último momento, no entanto, a Rainha Kaikeyi lembrou a Dasaratha que ele lhe tinha concedido dois desejos, em reconhecida retribuição pelo seu serviço, quando ele se encontrava em grande perigo. No momento em que Dasaratha lhe concedeu estes dois pedidos, Kaikeyi disse que não os aceitaria no momento, mas mais tarde reclama-los-ia. Por várias razões, Kaikeyi queria que o seu filho Bharata se tornasse rei em lugar do Senhor Rama, por isso ela fez esse pedido ao rei. Devido a que o rei Dasaratha lhe tinha dado a sua palavra,  sentia-se na obrigação de mantê-la. Ela também pediu que o Senhor Rama fosse enviado para o exílio por um período de catorze anos, para que Bharata pudesse desfrutar do trono sem perturbações.

 

O Ramayana está repleto de exemplos perfeitos. O Senhor Rama é o rei ideal, o filho ideal, o enteado ideal, o marido ideal; Sita é a esposa ideal, Laksmana é o irmão ideal. O Senhor Ramacandra, o filho ideal, vendo o quão perturbado estava o seu pai, quando foi obrigado a pedir-lhe para abandonar o trono e partir para a floresta, voluntáriamente disse, “Sim, eu ficarei feliz por partir. Não se preocupe.” Quando o Senhor Rama decidiu partir, Laksmana declarou, “Não podes ir para a floresta sózinho. Eu também irei contigo.” O Senhor Rama aceitou. Então, Sitadevi salientou, “Eu sou a tua esposa e devo acompanhar-te em todas as circunstâncias.” Na verdade, quase todos os habitantes de Ayodhya queriam acompanhar Rama. No entanto, o Senhor Ramacandra disse-lhes: “Se todos vocês me acompanharem, não ficará ninguém em Ayodhya. Por isso, fiquem aqui.

 

Na floresta, o Senhor Ramacandra passou por muitas dificuldades. No Srimad-Bhagavatam existe um belo verso que descreve como os suaves pés de lótus de Ramacandra tiveram que atravessar o solo da selva, que estava cheio de pedras, calhaus e espinhos. As gopis também costumavam chorar, ao pensarem que os pés de lótus de Krsna seriam picados e espetados pelas pedras e espinhos. Assim como os devotos de Krsna consideram os Seus passatempos em Vrndavana os mais agradáveis, por causa da sua doçura e intimidade, os devotos do Senhor Rama consideram os Seus passatempos na floresta como os mais doces e os mais saborosos. No entanto, externamente, o Senhor sofreu na floresta, e Laksmana não pode fazer nada para impedir que isso acontecesse.

 

Krsnadasa Kaviraja Gosvami explica maravilhosamente no Caitanya-caritamrta que todos-desde o Senhor Balarama, a primeira expansão, até às outras expansões de Krsna-possuem o sentimento de servidão para com o Senhor Krsna, e mesmo as outras expansões de Krsna sentem prazer em servir Krsna. Por outras palavras, sentem-se felizes quando Krsna está feliz. Laksmana não conseguia tolerar todo o sofrimento pelo qual o Senhor Rama passou, mas porque Ele era o irmão mais novo, não podia impedir o Senhor Rama de agir. Houveram outros momentos em que Ele se sentiu na mesma posição desconfortável.

 

Por exemplo, quando Ravana foi morto e Sitadevi foi libertada, Laksmana foi obrigado a fazer algo muito doloroso. O Senhor Ramacandra declarou que Ele não levaria Sita consigo. Sita respondeu, “Se não me vais levar contigo, qual foi a finalidade desta guerra-de tanto derramar de sangue e de tantas mortes?” Rama respondeu, “ Não lutámos nesta guerra para te recuperar. Lutámos para mostrar a força da nossa dinastia, para que o mundo não julgue que somos fracos. Passaste a noite com outro homem, e por isso não posso levar-te comigo.”Então o Senhor Rama disse a Laksmana, “Agora deves agarrar em Sita e colocá-la no fogo.” A Mãe Sita era a deidade adorável de Laksmana. Como poderia Ele colocá-la no fogo? No entanto, sendo o irmão mais novo, não tinha outra escolha.

 

Assim, Laksmana teve de executar muitas actividades que lhe causavam dor, porque, em última instância, causavam dor a Sita-Rama, e ele não podia fazer nada por causa da Sua posição subalterna. Por isso, Ele fez o voto de que, no futuro, nunca mais apareceria como o irmão mais novo do Senhor Supremo. Dessa forma, podemos constatar que em krsna-lila Ele aparece como o irmão mais velho, Balarama, e em gaura-lila Ele também aparece como o irmão mais velho, Nityananda.

 

VERSO 152

 

krsna-avatare jyestha haila sevara karana

krsnake karaila nana sukha asvadana

 

TRADUÇÃO

 

Quando o Senhor Krsna apareceu, Ele [Balarama] tornou-se Seu irmão mais velho para servi-Lo como desejava e fazê-Lo desfrutar de todas as espécies de felicidade.

 

VERSO 153

 

rama-laksmana—krsna-ramera amsa-visesa

avatara-kale donhe donhate pravesa

 

TRADUÇÃO

 

Sri Rama e Sri Laksmana, que são porções plenárias do Senhor Krsna e do Senhor Balarama, entraram n`Eles na época do aparecimento de Krsna e Balarama.

 

SIGNIFICADO

 

Citando o Visnu-dharmottara, o Laghu-bagavatamrta explica que Rama é uma encarnação de Vasudeva, Laksmana é uma encarnação de Sankarsana, Bharata é uma encarnação de Pradyumna e Satrughna é uma encarnação de Anirudha. O Padma Purana descreve que Ramacandra é Narayana e Laksmana, Bharata e Satrughna, são respectivamente, Sesa, Cakra e Sankha (o búzio na mão de Narayana). No Rama-gita do Skanda Purana, Laksmana, Bharata e Satrughna são descritos como os três auxiliares do Senhor Rama.

 

VERSO 154

 

sei amsa lana jyestha-kanisthabhimana

amsamsi-rupe sastre karaye vyakhyana

 

TRADUÇÃO

 

Krsna e Balarama apresentaram-se como irmão mais velho ou mais novo, porém, nas escrituras, descrevem-se-Os como a Suprema Personalidade de Deus original e Sua expansão.

 

VERSO 155

 

ramadi-murtisu kala-niyamena tisthan

  nanavataram akarod bhuvanesu kintu

krsnah svayam samabhavat paramah puman yo

  govindam adi-purusam tam aham bhajami

 

TRADUÇÃO

 

“Adoro Govinda, o Senhor primordial, que, mediante Suas diversas porções plenárias, apareceu no mundo sob diferentes formas e encarnações, tais como o Senhor Rama, mas que pessoalmente aparece sob Sua suprema forma original como o Senhor Krsna.”

 

SIGNIFICADO

 

Esta é uma citação do Brahma-samhita (5.39).

 

VERSO 156

 

sri-caitanya—sei krsna, nityananda—rama

nityananda purna kare caitanyera kama

 

TRADUÇÃO

 

O Senhor Caitanya é o mesmo Senhor Krsna, e o Senhor Nityananda é o Senhor Balarama. O Senhor Nityananda satisfaz todos os desejos do Senhor Caitanya.

 

VERSO 157

 

nityananda-mahima-sindhu ananta, apara

eka kana sparsi matra,—se krpa tanhara

 

TRADUÇÃO

 

O oceano das glórias do Senhor Nityananda é infinito e insondável. Apenas por Sua misericórdia posso tocar uma só gota deste oceano.

 

VERSO 134

 

ei-rupe nityananda ‘ananta’-prakasa

sei-bhave—kahe muni caitanyera dasa

 

TRADUÇÃO

 

Dessa maneira o Senhor Nityananda tem ilimitadas encarnações. Com emoção transcendental, Ele diz-se servo do Senhor Caitanya.

 

VERSO 135

 

kabhu guru, kabhu sakha, kabhu bhrtya-lila

purve yena tina-bhave vraje kaila khela

 

TRADUÇÃO

 

Às vezes, Ele serve o Senhor Caitanya como guru, às vezes, como Seu amigo e, às vezes, como Seu servo, assim como o Senhor Balarama brincava com o Senhor Krsna nestes três diferentes sentimentos em Vraja.

 

COMENTÁRIO

 

“Por vezes Ele serve o Senhor Caitanya como Seu guru” significa que ele presta serviço no papel de irmão mais velho, como professor. O Senhor Balarama, sendo o irmão mais velho do Senhor Krsna, encontrava-se na posição de professor e autoridade para o Senhor Krsna, e por isso Ele serviu o Senhor com alguma vatsalya-rasa. Vatsa em Sânscrito significa “bezerro” ou “filho querido”, pois a vaca é também uma das nossas mães. Assim, a afeição maternal ou paternal é vatsalya-rasa. Assim como o irmão mais velho é solicitado para cuidar do irmão mais novo, o Senhor Balarama em Vrndavana, serviu algumas vezes o Senhor Krsna em vatsalya-rasa. Ele prestava serviço a Krsna como guru, e, por vezes, também servia a Krsna como amigo, ou em igualdade, em sakhya-rasa, e por vezes também como Seu servente, em dasya-rasa. O Senhor Nityananda serve o Senhor Caitanya com os mesmos três sentimentos.

 

 

VERSO 136

 

vrsa hana krsna-sane matha-mathi rana

kabhu krsna kare tanra pada-samvahana

 

TRADUÇÃO

 

Actuando como um touro, o Senhor Balarama luta com Krsna, cabeça a cabeça. E às vezes o Senhor Krsna massaja os pés do Senhor Balarama.

 

COMENTÁRIO

 

Certa vez, depois da Ardha-kumbha-mela em 1971, íamos de comboio com Srila Prabhupada, e alguns de nós estávamos com Srila Prabhupada no seu compartimento. Srila Prabhupada pediu a um devoto para ler do livro de Krsna. O devoto perguntou, “Devo ler de alguma parte em particular?” Srila Prabhupada respondeu, “Não, tudo é néctar.” Assim, o devoto abriu o livro na história de Dhenukasura, o demónio asno que foi morto por Balarama. No principio da história os vaqueirinhos aproximaram-se ao Senhor Krsna dizendo, “Da floresta de Talavana vem um aroma a frutas muito doces, mas não as podemos desfrutar devido aos demónios que vivem lá.” Depois do devoto ter lido essa passagem, Srila Prabhupada abriu muito os olhos e exclamou, “Vejam só como os vaqueirinhos tentaram ocupar o Senhor Krsna na gratificação dos seus sentidos!” Depois de ler por algum tempo mais, o devoto mostrou a todos a pintura do passatempo. Ao vê-la, Srila Prabhupada ficou muito agradado e disse, “Os artistas fizeram um grande serviço; o seu serviço não foi em vão.”

 

No quarto de Srila Prabhupada, em Juhu, havia uma pintura muito bonita do Senhor Balarama deitado debaixo de uma árvore, enquanto o Senhor Krsna  lhe massajava os pés de lótus. Isto é mencionado aqui: Ás vezes Krsna massajava os pés de lótus de Balarama, assim como um discípulo serve o guru, ou como um filho serve o seu pai.

 

VERSO 137

 

apanake bhrtya kari’ krsne prabhu jane

krsnera kalara kala apanake mane

 

TRADUÇÃO

 

Ele considera-se um servo e sabe que Krsna é Seu amo. Assim, Ele considera-se um fragmento de Sua porção plenária.

 

COMENTÁRIO

 

Até mesmo o Senhor Balarama deseja servir Krsna, considerando-Se muito insignificante em comparação. Embora, na verdade, ele seja a primeira expansão do Senhor com as mesmas potências de Krsna, Ele considera-se apenas um fragremento de um fragmento de Krsna (kalara kala). Por outras palavras, Ele é humilde. O sentimento de serviço e o sentimento de humildade caminham juntos. Quando eu me considero muito pequeno, naturalmente quero servir quem é grande. O Senhor Balarama é o mestre espiritual original, por isso devemos aprender com ele a como nos sentir humildes e insignificantes, e assim desenvolver o sentimento de querer servir quem é grande, o Supremo.

 

VERSO 138

 

vrsayamanau nardantau

  yuyudhate parasparam

anukrtya rutair jantums

  ceratuh prakrtau yatha

 

TRADUÇÃO

 

“Agindo como meninos comuns,  Eles faziam o papel de touros mugindo, enquanto lutavam um com o outro, e imitavam os gritos de diversos animais.”

 

SIGNIFICADO

 

Esta e as citações seguintes são do Bhagavatam (10.11.40) e (10.15.14).

 

COMENTÁRIO

 

Krsna, Balarama, e os vaqueirinhos brincam tal e qual como os amigos comuns.

 

VERSO 139

 

kvacit krida-parisrantam

  gopotsangopabarhanam

svayam visramayaty aryam

  pada-samvahanadibhih

 

TRADUÇÃO

 

“Às vezes, quando o Senhor Balarama, o irmão mais velho do Senhor Krsna, Se sentia cansado após brincar e deitava a Sua mão no colo de um vaqueirinho, o próprio Senhor Krsna servia-O, massajando-lhe os pés.”

 

VERSO 140

 

keyam va kuta ayata

  daivi va nary utasuri

prayo mayastu me bhartur

  nanya me ’pi vimohini

 

TRADUÇÃO

 

“Quem é esta mística poderosa, e de onde vem ela? Será uma semideusa ou uma demónia? Deve ser a energia ilusória de Meu amo, o Senhor Krsna, pois quem mais Me pode confundir?”

 

SIGNIFICADO

 

Os passatempos brincalhões do Senhor causaram suspeitas na mente do Senhor Brahma, que por isso roubou todas as vacas e vaqueirinhos do Senhor com o seu próprio poder místico, com o intuito de testar a omnipotência de Krsna. No entanto, Sri Krsna respondeu substituindo todas as vacas e meninos no campo. Os pensamentos de espanto do Senhor Balarama ao presenciar tão maravilhosa vingança são registados neste verso (SB. 10.13.37).

 

COMENTÁRIO

 

O Senhor Brahma ficou maravilhado ao ver como os habitantes de Vrndavana sentiam tanta afeição por Krsna. Assim, para poder ver mais passatempos gloriosos de Krsna, ele roubou os vaqueirinhos e os bezerros através do seu poder místico. Então, o Senhor Krsna, através de Seu poder místico superior, expandiu-Se em vários duplicados que se assemelhavam exactamente aos vaqueirinhos e aos bezerros. Durante um ano os vaqueirinhos e os bezerros eram, na verdade, expansões directas do Senhor Krsna. Muitos acontecimentos fora de série se passaram durante esse ano, e o Senhor Balarama suspeitava que algo estava diferente-embora Ele não soubesse dizer o quê. Então pensou, “Como foi possível Eu ter ficado iludido? Como foi possível Eu ter ficado confuso?” Concluiu, “Somente pelas potências do Senhor Krsna, foi possível Eu ter ficado confundido.”Dessa forma, Ele glorifica a potência do Senhor Krsna.

 

VERSO 141

 

yasyanghri-pankaja-rajo ’khila-loka-palair

  mauly-uttamair dhrtam upasita-tirtha-tirtham

brahma bhavo ’ham api yasya kalah kalayah

  sris codvahema ciram asya nrpasanam kva

 

“Qual é o valor de um trono para o Senhor Krsna? Os senhores dos diversos sistemas planetários aceitam a poeira de Seus pés de lótus em suas cabeças coroadas. Essa poeira faz os locais santos, sagrados, e mesmo o Senhor Brahma, o Senhor Siva, Laksmi, e Eu próprio, que somos todos porções de Sua porção plenária, transportamos eternamente essa poeira sobre nossas cabeças.”

 

SIGNIFICADO

 

Quando os Kauravas, para lisonjear Baladeva de modo a que Ele se tornasse aliado deles, falaram mal de Sri Krsna, o Senhor Baladeva irritou-se e falou este verso (SB 10.68.37).

 

COMENTÁRIO

 

Como Srila Prabhupada afirmou aqui, os Kauravas queriam convencer o Senhor Balarama a tornar-se seu aliado, contra Krsna e o Seu grupo, por isso acusaram o Senhor Krsna de ser arrogante e impudente. O Senhor Balarama, no entanto, defendeu o Senhor Krsna e declarou, “Qual é o valor de um trono para o Senhor Krsna? Os senhores de vários sistemas planetários aceitam a poeira dos Seus pés de lótus nas suas cabeças coroadas. Eles são os reis do universo, mas em vez das suas coroas de valor inestimável, preferem aceitar em suas cabeças a poeira dos pés de lótus do Senhor Krsna. Assim sendo, qual é o valor de um trono qualquer para o Senhor Krsna?” O Senhor Balarama declara-se como kalah kalayah, a porção da porção, ou o fragmento do fragmento do Senhor Krsna, assim como Krsnadasa Kaviraja também menciona  (kalara kala).

 

Nesta passagem podemos ver o quão humilde o Senhor Balarama é, o quanto Ele aprecia o Senhor Krsna, e também o quão leal Ele é. A caracteristica da politica é criar divisões, fazer com que um grupo enfraqueça, dividindo-o. (Portanto Srila Prabhupada disse, que a única coisa que pode destruir ISKCON é lutarmos entre nós. Desde o exterior nada pode destruir ISKCON.) Aqui vemos o quão fiel o Senhor Balarama era ao Senhor Krsna.

 

Por vezes, podemos escutar falar mal de um devoto e podemos pensar que uma boa maneira de fazer amizade com a pessoa que está a criticar, é concordar com ele, ou ela. Mas, se alinharmos nessa critica, especialmente na ausência do devoto que está a ser criticado, e sem a intenção de o ajudar, fragilizamos a nossa posição espiritual, e também enfraquecemos a missão de Srila Prabhupada.

 

Srila Prabhupada citava regularmente, “Existe força na união.” Ele comentou a história de um pai que queria que os seus filhos colaborassem entre si. Primeiro, o pai deu a cada um dos filhos um pau fininho e pediu-lhes para que o partissem, e cada um partiu o seu pau muito fácilmente. Então, apanhou um molho de paus da mesma espessura e, atando-os todos, pediu para que os filhos os partissem. Porque os paus estavam todos atados, nenhum dos filhos pode parti-los. Assim, o pai disse-lhes, “Do mesmo modo, se permanecerem unidos, niguém será capaz de vos derrotar. Mas se permanecerem sózinhos, cada um de vós pode ser derrotado. Sózinho, cada um de vocês pode ser partido.” Srila Prabhupada queria que permanecessemos unidos. Da união, surge a força-com Srila Prabhupada, Sri Caitanya Mahaprabhu e o Senhor Krsna no centro.

 

Srila Prabhupada deu um outro exemplo de um pai e os seus filhos. O pai estava doente e precisava que os seus filhos o massajassem mas, entre eles, começaram a lutar para decidir quem iria massajar as diferentes partes do corpo do pai. Um irmão massajava a cabeça, mas o irmão que estava a massajar os pés disse, “Eu quero massajar a cabeça-tu massajas os pés.” Outro irmão, que massajava o braço esquerdo, começou a argumentar com o irmão que massajava o braço direito: “Eu massajo o braço direito-tu, o braço esquerdo.” Ficaram tão envolvidos em argumentar entre si sobre quem iria massajar que parte do corpo, que o pai acabou por morrer. “Portanto,” Srila Prabhupada concluiu, “Deveis cooperar no serviço do vosso pai, não fiquem tão absortos sobre quem vai fazer que tipo de serviço a ele, que se esquecem completamente do pai.” 

 

Aqui está um muito bom exemplo do Senhor Balarama para nós seguirmos: como nos tornármos um servente humilde, como sermos fiéis e destemidos. Balarama não tinha medo de expressar a Sua devoção pelo Senhor Krsna, de proclamar as glórias do Senhor Krsna-até aos inimigos de Krsna. Devemos aprender isto do Senhor Balarama. Devemos rogar pela Sua misericórdia, para que Ele nos ensine essa atitude de serviço humilde, e também o sentimento de devoção fiel, de defesa de Krsna sem temor, de pregar as glórias de Krsna destemidamente.

 

Os versos anteriores descrevem um contraste muito interessante. Um verso explica como o Senhor Krsna massajava os pés de lótus do Senhor Balarama e o seguinte explica como o Senhor Balarama considera o Senhor Krsna Seu mestre. Também podemos ter sentimentos similares quando nos associamos, porque também nós somos irmãos e irmãs-irmãos e irmãs espirituais-e cada um de nós deve ter esse sentimento de serviço para com os outros. Por isso Srila Prabhupada disse que, entre nós, devemos dirigir-nos como prabhu, porque prabhu significa “mestre.” Nós somos os serventes, e os nossos prabhus são os nossos mestres-apesar de, também eles, serem serventes. Por vezes Balarama massajava os pés de lótus de Krsna e, algumas vezes Krsna massajava os pés de lótus de Balarama. Cada um estava imbuido do sentimento de dar prazer ao outro, por isso o Seu relacionamento era tão doce e sublime. Também nós, devemos ter essa predisposição de serviço.

 

Uma vez, em Mayapur, logo depois de ter tomado prasada, Srila Prabhupada ouviu gritos vindos do quarto ao lado. Ele enviou o seu servente, Hari-sauri prabhu, averiguar sobre a razão de tanta gritaria. Hari-sauri voltou e explicou, “Srila Prabhupada, os seus secretários envolveram-se numa discussão.” Então, Srila Prabhupada chamou-os e perguntou-lhes, “Qual é a dificuldade?”

 

Um secretário respondeu, “Srila Prabhupada, eu estou doente e o único alimento que eu realmente posso comer são os seus remanescentes, por isso quis ficar com eles.”

 

O outro secretário contra-argumentou, “Srila Prabhupada, sinto que todos os seus discipulos devem obter um pouco dos seus remanescentes, não somente um.

 

Então Srila Prabhupada respondeu: “Ele está doente, e se tudo o que pode comer e digerir são os meus remanescentes, deverias ter-lhos dado.” Srila Prabhupada explicou, “Não é suficiente ser o servente do mestre espiritual; também deves ser o servente dos outros serventes do mestre espiritual.” Srila Prabhupada disse que, por desenvolver essa atitude humilde de ser servente do servente, o devoto pode avançar maravilhosamente. Ele deu o exemplo de que na Bengala, sempre que uma pessoa santa visitava uma aldeia os aldeãos aproximavam-se a ele querendo obter um pouco de pó de seus pés, e convidavam-no a suas casas para o alimentar e servir. Todos eles pensavam, “Oh, ele é uma pessoa tão santa. Quero obter o pó de seus pés e servi-lo.” E a pessoa santa pensava, “Porque será que querem o pó de meus pés? Porque é que me querem servir? Sou apenas uma pessoa comum.” Srila Prabhupada disse, “Porque todos eram humildes, avançavam maravilhosamente.”

 

Entre nós, tal como Krsna e Balarama, devemos pensar que o outro é meu prabhu: “Quero servir o meu prabhu.” Deste modo todos avançaremos maravilhosamente e os nossos relacionamentos serão doces e puros e sublimes. As pessoas ficarão atraídas. Não somente se atrairão mas, de uma forma natural, quererão trazer outras pessoas também.

 

Numa tarde anterior, celebrámos Jhulana-yatra em Santa Barbara. Houve uma palestra e, naturalmente, também o balançar de Radha e Krsna mas sobretudo fazíamos kirtana. Havia uma atmosfera muito agradável. Tive o desejo de ir para a rua e dizer às pessoas, “Isto é algo tão agradável. Venham e experimentem.” Mas, depois de ter sentido esse desejo espontâneo de sair e chamar as pessoas para que elas também pudessem experimentar a doçura da consciência de Krsna, pensei, “Por vezes, não sinto esse desejo de convidar as pessoas para o templo, porque não sei o que experimentarão quando forem lá.” Estou seguro que aqui em Chicago é diferente e, provavelmente, é devido à minha natureza caída que sinto tais reservas, mas sei que nem sempre tenho a mesma confiança que senti na outra tarde em Santa Barbara. À medida que eu e os outros devotos presentes desfrutávamos do kirtana e do festival do baloiço, realizei que o processo da consciência de Krsna na sua essência-o processo de cantar os santos nomes em conjunto com outros devotos-é naturalmente doce, bem-aventurado e agradável. E quando sentimos esse prazer, queremos, de uma forma natural, convidar outros: “Venham, é algo tão maravilhoso. Venham e experimentem.”

 

Também pude realizar a razão de nós não sentirmos constantemente esse prazer, e porque é que enfrentamos tantas perturbações que minam o nosso desejo espontâneo e entusiasta de sair à rua para trazer outros que também possam experimentar essa satisfação. Qual é a razão? Realizei que é a maneira como muitas vezes lidamos uns com os outros, especialmente a maneira como lutamos entre nós e nos criticamos. Isso é o que polui toda a atmosfera. Isso é o que cobre a beleza pura, natural e o esplendor e prazer de cantar os santos nomes na associação de devotos, que é, verdadeiramente, o nosso único interesse e meta. Se pudessemos relacionar-nos da maneira como Krsna e Balarama lidavam entre si, não teríamos tal problema. Não faz nenhuma diferença o facto de Eles serem grandes e nós pequenos. O ponto é que, no relacionamento entre Eles, cada um é humilde e quer servir e agradar o outro. Por vezes Krsna faz o papel de mestre  e Balarama serve-O; por vezes acontece o oposto e Krsna serve Balarama. E é assim que deve ser entre nós-nenhuma politica, só serviço humilde e fiel. Naturalmente que não quero simplificar demasiado os problemas, mas estes são alguns dos meus pensamentos.

Agora chegámos ao famoso verso:

 

VERSO 142

 

ekale isvara krsna, ara saba bhrtya

yare yaiche nacaya, se taiche kare nrtya

 

TRADUÇÃO

 

O Senhor Krsna é o único controlador supremo, e todos os outros são Seus servos. Eles dançam como Ele os faz dançar.

 

VERSOS 143145

 

ei mata caitanya-gosani ekale isvara

ara saba parisada, keha va kinkara

 

guru-varga,—nityananda, advaita acarya

srivasadi, ara yata-laghu, sama, arya

 

sabe parisada, sabe lilara sahaya

saba lana nija-karya sadhe gaura-raya

 

TRADUÇÃO

 

Assim o Senhor Caitanya é também o único controlador. Todos os outros são Seus associados ou servos. Associados mais velhos que Ele, tais como o Senhor Nityananda, Advaita Acarya e Srivasa Thakura, bem como Seus outros devotos-sejam eles mais novos que Ele, iguais ou superiores-todos eles O ajudam em Seus passatempos. O Senhor Gauranga cumpre os Seus objectivos com a ajuda deles.

 

COMENTÁRIO

 

Alguém pode actuar como mais velho, outro pode actuar como igual, e outro como mais novo, mas a atitude de todos é a de servir o Supremo Senhor e de quererem satisfazer os desejos do Supremo Senhor. Também nos nossos relacionamentos, porque existem diferenças de avanço e idade, alguém pode actuar como mais velho, outro como igual, e outro como mais novo. Contudo, independentemente do papel que tenhamos, a nossa atitude interna deve ser sempre a de servir os outros devotos, ajudá-los em consciência de Krsna e no serviço devocional, e fazê-los felizes. Quando adoptarmos essa atitude, Srila Prabhupada ficará feliz, Sri Sri Gaura-Nitai ficarão felizes, Sri Sri Krsna-Balarama ficarão felizes e, automaticamente, nós também ficaremos felizes.

 

Bala significa “força,” e rama quer dizer “prazer.” O Senhor Balarama é a fonte da força espiritual dos devotos. Ele é o mestre espiritual original e d´Ele podemos conseguir força espiritual. Uma vez, Srila Prabhupada comentou, “Força significa inteligência.” Portanto, podemos orar ao Senhor Balarama por força espiritual e inteligência para que possamos ser serventes fieis do nosso mestre espiritual, de Srila Prabhupada, dos outros serventes seus, e de todas as entidades vivas-porque na verdade, a missão de Srila Prabhupada é a de libertar todas as entidades vivas para a consciência de Krsna. Naturalmente que fazemos amizade com os devotos, mas também somos misericordiosos com os inocentes, tentando animá-los em consciência de Krsna. Tentamos encorajar os nossos superiores no seu serviço em consciência de Krsna, tentamos animar os nossos amigos na consciência de Krsna, e tentamos animar os mais novos em consciência de Krsna. Por tal serviço-dando, encorajando, e ajudando os outros-o Senhor Balarama pode ficar satisfeito.

Hare Krsna.

 

Têm algumas perguntas ou comentários?

 

Devoto: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Estivemos a ler sobre o passatempo em que Brahma rouba os vaqueirinhos e os bezerros ao Senhor Krsna. Este foi o último capitulo do Srimad-Bhagavatam  que Srila Prabhupada traduziu enquanto jazia na sua cama, em Vrndavana. Ele estava muito débil. Os seus discipulos tinham que segurar o ditafone e colocá-lo perto de sua boca; tinhamos muitas dificuldades em ouvir o que ele dizia. E um dos últimos significados que ele ditou foi, “Devemos analisar o SrimadBhagavatam diáriamente, tanto quanto possível, e então tudo se tornará claro. Quanto mais lemos o Srimad-Bhagavatam, mais o seu conhecimento se tornará claro. Todos e cada um dos versos são transcendentais.” (SB 10.13.54 significado)

 

Portanto, um método de chegar a uma conclusão sobre um tema controverso é analisá-lo. Srila Prabhupada disse que devemos reunir-nos e analisar o assunto exaustivamente. Se não houver motivações pessoais, e se discutirmos com o propósito de chegarmos à conclusão apropriada, então-por escutar as ideias dos outros e clarificar as nossas, através da discussão-obtemos respostas, pela misericórdia do Senhor dentro dos corações dos devotos que sinceramente expõem o Seu serviço.

 

Mas por vezes-devido a que a consciência de Krsna é inconcebível-dois pontos de vista opostos podem estar certos. Uma coisa pode ser boa para uma pessoa mas não para outra, e é um sinal de maturidade apreciar tais diferenças e não estabelecer um braço de ferro por causa delas. Uma vez, logo depois de me ter unido aos devotos, viajava no carro do templo. Lembro-me que um devoto dizia que tínhamos que seguir um certo caminho para chegar ao nosso destino e outro dizia que deveríamos ir por outro. Ness altura, um devoto sábio e consciente de Krsna disse, “Ambos estão correctos porque os dois querem servir a Krsna da melhor maneira.”

 

Por vezes, não podemos dizer claramente qual é o melhor caminho. Pode haver um caminho mais curto que vai pela parte mais degradada da cidade, e outro mais extenso que é mais agradável à vista. Ou pode haver um caminho mais curto que gaste menos gasolina,e um caminho mais longo que seja mais rápido porque a estrada é melhor. Portanto, em termos absolutos, não podemos dizer qual o melhor: dependendo das circunstâncias, uma pessoa pode valorizar mais o seu tempo, e outra pode valorizar mais o seu dinheiro.

 

Assim que, é um sinal de imaturidade argumentar fortemente sobre um tema como se fosse absoluto quando na realidade não o é. Absoluto, é o desejo de servir a Krsna. Contudo, podem haver diferentes maneiras de O servir. Não necessáriamente um caminho tem que ser melhor que outro-pelo contrário, pode ser melhor para uma pessoa ou numa circunstância específica.

 

A minha própria conclusão é de que Srila Prabhupada tinha tanto amor pelas entidades vivas, e tanta energia, que conseguia fazer coisas que nunca ninguém conseguiu fazer. Mesmo a maior parte de seus irmãos espirituais não conseguiam sondar a sua grandeza. Por isso, eles aplicaram-lhe normas comuns, mas um critério assim, não era, na verdade, apropriado-porque ele era inconcevívelmente poderoso. (Ao mesmo tempo, Srila Prabhupada disse que não queria que a ISKCON se tornasse num culto de personalidade. Ele estava a ensinar uma ciência e queria que nós a conhecêssemos e a seguissemos.) Portanto, temos  que apreciar a grandeza de Srila Prabhupada. Pessoalmente sinto que, qualquer coisa que eu queira em consciência de Krsna, posso consegui-la de Srila Prabhupada. Não sinto que tenha que ir a outro sitio qualquer para a conseguir. Não sinto que falte alguma coisa naquilo que Srila Prabhupada nos deu.

 

Por vezes Krsna massajava os pés de lótus de Balarama, e algumas vezes Balarama massajava os pés de lótus de Krsna. Deste modo, algumas vezes Krsna era superior, outras um igual ou amigo, e ainda outras um júnior. Em qualquer posição fomos feitos para servir, e todo o serviço é absoluto. Numa carta, Srila Prabhupada escreveu a um discípulo: “A prática de servir os nossos irmãos espirituais é muito boa. O mestre espiritual nunca está sem os seus seguidores, portanto servir o mestre espiritual também significa servir os seus discípulos. Quando se serve o rei também se deve servir os seus ministros, os seus secretários, e todos os que o servem. E o rei pode ficar mais satisfeito se servimos os seus serventes do que se o servimos pessoalmente. Portanto o mestre espiritual não se encontra sózinho. Sempre está com o seu séquito. Não somos impersonalistas. Queremos servir a cada parte do todo, assim como cuidamos do chapéu e dos sapatos. Ambos são importantes para a manutenção do corpo.”

 

Uma vez, um irmão spiritual comentou que nós queremos Srila Prabhupada no centro, e os ritviks querem Srila Prabhupada no centro, mas a diferença é que eles querem Srila Prabhupada sem os associados enquanto que nós queremos Srila Prabhupada com os associados. Esse era o sentimento de Prabhupada e essa é a diferença entre um devoto neófito e um mais avançado. O devoto neófito só conhece a Krsna e o seu guru. Um devoto mais avançado pode reconhecer outros devotos e apreciar o relacionamento deles com Krsna e com o guru e ele, ou ela, também quer servi-los.

 

Na verdade, é inconcebível: inconcebivelmente uno e diferente. O sol e os raios do sol são a mesma coisa contudo, simultaneamente, não são  a mesma coisa. Ainda assim eles formam um todo completo. Portanto, Krsna com os Seus devotos são um todo completo, e servir Krsna sem servir os Seus devotos não é completo. De igual modo, Srila Prabhupada com os seus devotos é um todo completo e, só servir Srila Prabhupada sem servir os seus devotos não satisfará Srila Prabhupada tão completamente como se o servirmos com os seus outros serventes. Portanto, lutar por supremacia-supremacia filosófica, supremacia politica-não é a atitude que queremos ou necessitamos.

 

Mas existem outros que também queriam falar. Eles poderão dizer algo mais.

 

Murari Caitanya: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Quando Murari Prabhu iniciou a sua pergunta, eu pensei na primeira vez que Tamal Krishna Goswami e Brahmananda Prabhu visitaram Boston. Naquela altura eles eram ídolos. Brahmananda disse algo que me tocou. Foi algo muito simples. Ele disse, “Todos queremos amor. Portanto, se tão só dermos a cada um o amor que queremos para nós próprios, ficaremos todos satisfeitos.”

 

Também sinto que precisamos de escutar e cantar mais sobre Krsna porque, só por nos sentarmos e cantarmos o maha-mantra Hare Krsna, o coração abre. Muitos problemas desaparecem simplesmente por cantar. Em 1977, Srila Prabhupada estabeleceu um programa aos Domingos, em Juhu, que consistia em cantar todo o dia no templo, desde as nove da manhã, até às nove da noite. Eu era o presidente do templo e estavamos com problemas (sempre existem problemas no mundo material), mas lembro-me, que a partir de quinta-feira, não lidava com eles porque sabia que no Domingo conseguia todas as soluções. E era sempre assim. Só por cantar, obtinha muitas respostas. A mesma situação ocorreu durante o pada-yatra. Quando estava com dificuldades com o visto e não podia entrar na India, fizemos pada-yatra nas Mauricias desde Radhastami de 1984, até Gaura Purnima em 1986 e aconteceu a mesma coisa: com a minha mente e inteligência, não conseguia descobrir as soluções para tantos problemas mas, simplesmente por cantar durante horas-caminhando e cantando-obtive muitas respostas. Num sentido, ISKCON é um veículo que transporta a consciência de Krsna mas, o verdadeiro meio, é o escutar, cantar e lembrar de Krsna.

 

Devoto: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Ista-gosthi: ista quer dizer “desejável,” e gosthi significa “associação.” Portanto, é esse o significado. Devemos juntar-nos e falar sobre Krsna e o serviço a Krsna. Não quis sugerir que, como cantamos juntos, não precisamos de dialogar uns com os outros. Pelo contrário, quis dizer que, cantando juntos podemos criar um bom sentimento dentro de nós e entre nós para que, quando tenhamos que falar, seja mais espiritual e agradável. Até os assuntos mais práticos Srila Prabhupada tinha por costume discuti-los durante muitas horas. Por exemplo, uma vez Gargamuni fez uma importação de umas carrinhas Mercedes para o sankirtan viajante, mas nessa altura o governo indiano era muito estrito: ou pagava-se um imposto muito grande para o veículo entrar no país, ou então tinha que se tirar o veículo para fora do país no prazo de seis meses e mantê-lo fora por, pelo menos, mais seis meses. Assim, Gargamuni tinha feito esta importação e o tempo estava a aproximar-se para o desalfandegamento; de outro modo ele teria que pagar o imposto que era de 220% sobre o custo original. Foi um tema muito importante. Gargamuni perguntou a Srila Prabhupada, “O que devo fazer com as carrinhas? Devo levá-las para o Nepal e fico por lá a pregar durante seis meses e depois trago-as de volta ou devo enviá-las de volta para a Europa?” Literalmente, Srila Prabhupada passou horas com ele. Haviam tantas alternativas e tantos prós e contras.

 

Também no projecto de Juhu, Srila Prabhupada ficava connosco até altas horas da noite tentando descobrir o que fazer. É impessoal pensar, “Oh, eu só quero cantar o santo nome. Não me interessa nada deste mundo. Não quero falar nem fazer nada; só quero fundir-me no Brahman.” Não posso dizer quantas horas Srila Prabhupada dispendia tentando ajudar os devotos a encontrar soluções para os seus problemas. Sentia-se que ele estava connosco.

 

Mas, por vezes, ele também nos dizia que não o importunássemos tanto. Lembro-me que uma vez nós exagerámos. Íamos a ele com todo o tipo de perguntas práticas e administrativas que tivessemos e, finalmente, depois de se ter disponibilizado tão generosamente, bem como ao seu tempo, disse, “O guru não é uma máquina de perguntas-respostas.” Então disse, “Fulano de tal deve ser o vice-presidente e acabaram-se os argumentos. Agora tenho que traduzir os meus livros.”

 

Mas, sim, precisamos de dialogar. Em qualquer relacionamento, devemos ser capazes de dialogar.

 

Damodar Pandit: [inaudível]

 

Giriraja Swami: Muito obrigado por essa descrição emocionante. Recentemente, também passei por uma agitação. Depois, enquanto folheava o Bhagavad-gita deparei com o verso, api cet su-duracaro bhajante mam ananya-bhak sadhur eva sa mantavya: “Mesmo que alguém cometa acções das mais abomináveis, se estiver ocupado no serviço devocional, deve ser considerado santo, porque está devidamente ocupado em sua determinação.” “Devidamente ocupado” quer dizer ocupado em serviço devocional-mesmo se a pessoa comete a acção mais abominável.

 

Estava a ler o Bhagavad-gita juntamente com o livro que se intitula Surrender Unto Me, escrito por Bhurijana Prabhu. Bhurijana Prabhu inclui alguns comentários de acaryas anteriores e, num lugar, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura desenvolve o diálogo entre Krsna e Arjuna, onde Krsna diz, “Declara abertamente que o Meu devoto jamais perece,” Srila Visvanatha Cakravarti Thakura parafraseia, “Ó Kaunteya, declara com tambores e címbalos, que meu devoto jamais perece.” Então Sri Visvanatha introduz um hipotético questionador. Quando Krsna diz que, mesmo se o devoto comete a acção mais abominável “ainda é considerado santo,” este questionador faz uma objecção, “Sim, ele pode ser considerado santo até ao ponto em que ele está ocupado em serviço devocional puro,” à qual o Senhor Krsna responde, “Não. Ainda que ele não esteja ocupado a cem por cento, deve ser considerado santo.” Então o questionador hipotético pergunta, “Mas, e se o devoto fracassa em abandonar o seu mau comportamento durante toda a vida?” Krsna responde, “Eu, Krsna, sou o Supremo Senhor e, mesmo que um devoto fracasse, jamais perecerá. Pelo contrário, na certeza que terá sucesso.”

 

Bom, quando eu li isso (e eu, nessa altura, sentia-me muito caído), tive uma realização semelhante aquela que acabas de descrever. (Penso que o que experimentei foi o extremo daquilo que tu experimentaste, porque eu tinha acabado de passar por uma cirurgia de coração aberto, e pensava, “Que falhado que sou! Nem sequer consigo executar a função mais básica de manter o corpo e a alma juntos. Sou um fracasso completo!”)  Entretanto quando li essa afirmação enfática e misericordiosa, realizei que, aos olhos de Krsna, pela graça dos acaryas, ainda sou considerado um devoto.

 

A outra realização que vivenciei nessa altura foi que, apesar de ser um devoto, também sou um indivíduo. Não existe um esteriótipo de como deve ser um devoto. Assim como não existem dois indivíduos iguais, também não existem dois devotos iguais. E o facto de eu não ser exactamente o mesmo que outra pessoa, que é um melhor devoto, não significa que eu não sou um devoto. Sendo um devoto, o meu ponto de vista é intrínsecamente válido porque, de uma ou outra forma sou um devoto-apesar de não ser tão influente ou exitoso ou erudito como outro devoto possa ser. Assim, penso que o que tu dizes está correcto: temos que aceitar a nossa própria individualidade para depois aceitar a individualidade dos outros. De outro modo, se tentarmos fazer uma estimativa de nós próprios em relação a uma fasquia artificial ou impossível de chegar e não aceitarmos a nossa própria individualidade, então, também faremos uma estimativa dos outros com a mesma fasquia artificial e observaremos que nós fracassamos, eles fracassam, todos fracassam e, como consequência, todo o processo torna-se deprimente.

 

Muitíssimo obrigado. Todas as glórias a Srila Prabhupada! Sri Balarama Prabhu ki jaya!

 

 

 

 

 

 

 

 

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Written by nityananda108

Agosto 15, 2008 às 12:00 am

Publicado em Uncategorized

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