Aulas de Giriraj Swami em Português

Guru Purnima

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Guru-purnima

 

Uma Aula Dada por Giriraja Swami

29 de Julho, 2007

Dallas

 

 

om ajnana-timirandhasya jnananjana-salakaya

caksur unmilitam yena tasmai sri-gurave namah

 

sri-caitanya-mano ’bhistam sthapitam yena bhutale

svayam rupah kada mahyam dadati sva-padantikam

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

 

Hoje é Guru Purnima. Srila Prabhupada explicou que o sistema de honrar o mestre spiritual é comum em todas as secções dos seguidores védicos. Nas seitas Mayavadis (impersonalistas), os discípulos oferecem respeitos ao mestre espiritual uma vez por ano, em Guru-purnima. Na sampradaya Gaudiya Vaisnava, os discípulos oferecem homenagem anualmente, no dia do aparecimento do mestre espiritual; este dia é chamado Vyasa-puja porque o mestre espiritual representa Vedavyasa, a manifestação de Krsna com poderes excepcionais, que compilou as literaturas védicas e, o mestre espiritual fidedigno, apresenta o mesmo conhecimento através da sucessão discipular. Apesar de Guru-purnima ser geralmente celebrado pelos grupos Mayavadis, vamos aproveitar-nos desta oportunidade para falar sobre o princípio do guru-e glorificar o acaryasampradaya, porque hoje é o dia de Guru-purnima.

 

Guru é um assunto profundo. Nós cantamos, vande´ham sri-guroh sri-yuta-pada-kamalam sri-gurun vaisnavams ca. Oferecemos respeitos ao mestre espiritual, no singular, aos mestres espirituais, no plural, e a todos os Vaisnavas. O mestre espiritual, no singular, é o mestre espiritual pessoal, os mestres espirituais, no plural, são os acaryas predecessores, e os Vaisnavas são os seguidores do mestre espiritual. Oferecemos respeitos a todos eles, porque vêm na mesma linha, na sucessão discipular (parampara) que começa com o próprio Krsna.

 

Srila Prabhupada explica, “Oferecer respeitos ao mestre espiritual significa oferecer respeitos a todos os acaryas anteriores. Gurun encontra-se no plural. Os acaryas não são diferentes entre si, porque todos pertencem à sucessão discipular que começa com o mestre espiritual original e, portanto, não têm pontos de vista diferentes.” Deste modo oferecemos respeitos aos predecessores.

 

Similarmente, oferecemos respeitos aos seguidores. Srila Prabhupada continua a explicar, “Mestre espiritual significa alguém que deve ter muitos seguidores, que, por sua vez, são todos Vaisnavas. São chamados prabhus, e o mestre espiritual é chamado Prabhupada porque, a seus pés de lótus, estão muitos prabhus. Pada significa “pé de lótus.” Todos estes Vaisnavas são prabhus. A eles também se lhes oferece reverências-não somente ao mestre espiritual , mas também aos seus associados. E estes associados, os seus discípulos, são todos Vaisnavas. Portanto também a eles se lhes deve oferecer respeitosas reverências.” (Comentário de SP ao Mangalacarana, 8 de Janeiro, 1969)

 

Para nós, na ISKCON, Srila Prabhupada é o guru mais importante; ele é o acarya-fundador. Mas ele também tem os seus associados—Srila Gour Govinda Swami Maharaja, Srila Tamal Krishna Goswami Maharaja, Srila Sridhar Swami, Srila Bhakti Tirtha Swami, Srila Bhaktisvarupa Damodara Swami—isto para enumerar alguns que já partiram. Naturalmente que Srila Prabhupada está a ser servido, no presente, por tantos outros aos quais podemos servir e com os quais podemos aprender.

 

“Aquele que ensina pode ser tratado como mestre espiritual. . . . Todos os irmãos espirituais mais velhos podem ser tratados por gurus, porque nos instruem. Não há nenhum problema. Na verdade, assim como só temos um pai, também só temos um guru, que é aquele que nos inicia. Mas todos os Vaisnavas devem ser tratados por prabhu, mestre, superior a mim e, neste sentido, se eu aprendo dele, posso aceitá-lo como guru.” (Carta de SP datada de 20 de Novembro, 1971)

 

O guru original é Krsna. Ele fala o conhecimento do Bhagavad-gita e estabelece os princípios da religião. Dharmam tu saksad bhagavat-pranitam: os princípios de dharma-bhagavata-dharma, prema-dharma-são estabelecidos por Deus, a Pessoa Suprema. Não podemos manufacturar o dharma. Na verdade, dharma quer dizer “as leis de Deus” ou “as ordens de Deus.” Portanto, dharmam tu saksad bhagavat-pranitam: os princípios da religião são estabelecidos pelo próprio Senhor. Assim como não podemos fazer as nossas próprias leis, também não podemos inventar os princípios religiosos. Srila Prabhupada dá o exemplo de uns amigos que se reunem para fazerem as suas próprias leis. “Bom, agora penso que devemos legalizar a marijuana. Estão todos de acordo? Muito bem. Está aprovada.” A lei tem que, obrigatóriamente, ser estabelecida pelo governo, pelo parlamento ou pela legislatura. Do mesmo modo dharma é estabelecido por Deus.

 

dharmam tu saksad bhagavat-pranitam

 na vai vidur rsayo napi devah

na siddha-mukhya asura manusyah

 kuto nu vidyadhara-caranadayah

 

“Os verdadeiros princípios religiosos são decretados pela Suprema Personalidade de Deus. Embora plenamente situados no modo da bondade, nem mesmo os grandes rsis que ocupam os planetas mais elevados podem definir os verdadeiros princípios religiosos, tampouco o podem os semideuses ou os líderes de Siddhaloka, e isto para não mencionar os asuras, os seres humanos comuns, os Vidyadharas e os Caranas.” (SB 6.3.19)

 

A conclusão do Bhagavad-gita é sarva-dharma parityajya mam ekam saranam vraja-abandonarmos todas as variedades de dharmas e simplesmente rendermo-nos a Krsna. Para compreendermos estas verdades confidenciais sobre os princípios religiosos e o conhecimento do Bhagavad-gita, precisamos da ajuda dos mahajanas, as autoridades na consciência de Krsna—gurus.

 

svayambhur naradah sambhuh

 kumarah kapilo manuh

prahlado janako bhismo

 balir vaiyasakir vayam

 

dvadasaite vijanimo

 dharmam bhagavatam bhatah

guhyam visuddham durbodham

 yam jnatvamrtam asnute

 

“O Senhor Brahma, Bhagavan Narada, o Senhor Siva, os quatro Kumaras, o Senhor Kapila[o filho de Devahuti], Svayambhuva Manu, Prahlada Maharaja, Janaka Maharaja, o avô Bhisma, Bali Maharaja, Sukadeva Gosvami e eu próprio [Yamaraja] conhecemos o verdadeiro princípio religioso. Meus queridos serventes, este princípio religioso transcendental, conhecido como bhagavata-dharma, ou rendição ao Senhor Supremo e amor a Ele, não está contaminado pelos modos materiais da natureza. Ele é muito confidencial e difícil de ser entendido pelos seres humanos comuns mas se, por acaso, alguém tem a boa fortuna de compreendê-lo, liberta-se de imediato, e assim retorna ao lar, retorna ao Supremo.” (SB 6.3.20–21)

 

Este conhecimento confidencial é dado por Deus nas escrituras e transmitido através da sucessão discipular (evam parampara-praptam) às grandes almas, que por sua vez, transmitem-no aos seus seguidores entusiastas. De todas as escrituras, o Srimad-Bhagavatam é considerada a mais importante, o fruto maduro da árvore do conhecimento védico.

 

nigama-kalpa-taror galitam phalam

 suka-mukhad amrta-drava-samyutam

pibata bhagavatam rasam alayam

 muhur aho rasika bhuvi bhavukah

 

“Ó homens sábios e pensativos, saboreai o SrimadBhagavatam, o fruto maduro da árvore dos desejos das literaturas védicas. Ele emanou dos lábios de Sukadeva Gosvami. Portanto este fruto tornou-se ainda mais saboroso, apesar do seu sumo nectáreo já ser agradável para todos, até mesmo para as almas liberadas.” (SB 1.1.3)

 

Este fruto néctareo é-nos transmitido através da sucessão discipular. Ao comentar sobre este verso, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura dá o exemplo de uma árvore de mangas. Para apanhar uma manga madura que esteja no cimo da árvore, vários rapazes sobem para diferentes ramos. O rapaz que está no cimo da árvore apanha a fruta e dá-a ao rapaz que está no ramo mais abaixo, que, por sua vez, a dá a outro que está no outro ramo e assim vai, até que chega finalmente àquele que está no chão-na mesma condição perfeita como quando estava no cimo da árvore. Foi passada intacta, tal como estava antes, sem ser machucada nem aberta.

 

No cimo da árvore está Krsna e Ele transmite o conhecimento a Brahma. Brahma transmite-o a Narada que por sua vez o transmite a Vyasa. (Hoje também se chama Vyasa Purnima porque Vyasadeva, que compilou a literatura védica, apareceu nesta data.) Vyasa transmite-o a Madhvacarya, etc—Caitanya Mahaprabhu, os Seis Gosvamis e mais tarde, Srila Bhaktivinoda Thakura, Srila Gaurakisora dasa Babaji Maharaja, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura e Srila Prabhupada. E agora os seguidores de Srila Prabhupada apresentam o mesmo conhecimento. Os mesmos ensinamentos são apresentados e seguidos por eles—essa é a sua única qualificação.

 

Srila Prabhupada escreveu sobre Vedavyasa: “Vyasadeva foi uma pessoa que existiu e é aceite por todas as autoridades e qualquer pessoa pode realizar o quão maravilhoso foi, por ter compilado as literaturas védicas. Portanto ele conhecido como Mahamuni. Muni significa “pensador” ou “grande pensador” ou “grande poeta” e maha significa ainda maior. Não existe nenhuma comparação entre Vyasadeva e qualquer outro escritor ou pensador ou filósofo. Ninguém pode estimar a importância académica de Srila Vyasadeva. Ele compôs muitos milhões de versos em sânscrito e nós, através de nossos esforços diminutos, tentamos receber um fragmento que seja desse conhecimento que existe neles. Portanto, Srila Vyasadeva sumarizou todo o conhecimento védico no Srimad-Bhagavatam, que é conhecido como o fruto maduro da árvore dos desejos do conhecimento védico. O fruto maduro é recebido de mão em mão através da sucessão discipular e qualquer pessoa que execute este trabalho em sucessão discipular a partir de Srila Vyasadeva, é considerado um representante de Vyasadeva, e como tal, o dia do aparecimento do mestre espiritual fidedigno é adorado como Vyasa-puja.” (Carta de Srila Prabhupada datada de 25 de Agosto de 1970)

 

Hoje, é não só Vyasa Purnima, o dia de aparecimento de Vedavyasa, mas é também o dia de desaparecimento de Srila Sanatana Gosvami, o mais sénior dos Seis Gosvamis de Vrndavana. O seu livro, Brhad-Bhagavatamrta, foi o primeiro trabalho literário importante dos Seis Gosvamis. Sanatana Gosvami também aparece na sucessão discipular a partir do Senhor Krsna e que passa por Brahma, mas ele é uma figura especialmente importante porque é um seguidor directo de Sri Caitanya Mahaprabhu, que é o próprio Krsna. Porque o Senhor Caitanya é Krsna, pode criar a sua própria sucessão discipular mas, porque actuava como um devoto, escolheu aceitar iniciação na sucessão discipular que começa com Krsna e Brahma. Contudo Ele é Deus e o processo que utilizou para impartir conhecimento aos Seus seguidores imediatos-Rupa e Sanatana Gosvamis-é comparado à forma como o Senhor Krsna impartiu conhecimento ao Senhor Brahma. No seu Caitanya-caritamrta Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami escreve sobre Rupa, o irmão mais novo de Sanatana Gosvami.

 

vrndavaniyam rasa-keli-vartam

 kalena luptam nija-saktim utkah

sancarya rupe vyatanot punah sa

 prabhur vidhau prag iva loka-srstim

 

“Antes que esta manifestação cósmica fosse criada, o Senhor iluminou o coração do Senhor Brahma, fornecendo-lhe os pormenores da criação, e manifestou-lhe o conhecimento védico. Da mesmíssima maneira, o Senhor, desejando ardentemente reviver os passatempos do Senhor Krsna em Vrndavana,imbuiu o coração de Rupa Gosvami de potência espiritual. Por meio desta potência, Srila Rupa Gosvami pode reviver as actividades de Krsna em Vrndavana, as quais estavam quase que completamente esquecidas. Dessa maneira, Ele propagou a consciência de Krsna por todo o mundo.” (Cc Madhya 19.1) O Senhor Caitanya outorgou-lhe poder para que escrevesse livros sobre a bhakti-yoga, e o mesmo pode ser dito acerca de Sanatana Gosvami.

 

Nós somos seguidores dos Seis Gosvamis—seguidores dos seus seguidores. Srila Narottama dasa Thakura ora,

 

ei chaya gosai yara-mui tara dasa

tan’-sabara pada-renu mora panca-grasa

 

“Eu sou o servente dessa pessoa que é um servente dos Seis Gosvamis. A poeira dos seus pés de lótus são os meus cinco tipos de alimento.”

 

E:

 

tandera carana sevi-bhakta-sane vasa

janame janame hoy ei abhilasa

 

“O meu desejo é que, nascimento após nascimento, eu possa viver com aqueles devotos que servem os pés de lótus dos Seis Gosvamis.”

 

Fomos muito afortunados em ter recebido em Santa Bárbara, há umas semanas atrás, quatro devotos provenientes de Dallas, díscípulos de Tamal Krishna Goswami—Dharma Prabhu e a sua esposa, a irmã desta, Saibya e a Mataji Padma. Nessa mesma altura também estava connosco Mayapur dasa, que foi o servente pessoal de Sridhar Swami durante muitos anos. Pensámos ser uma boa ocasião para glorificar esses dois serventes corajosos de Srila Prabhupada, esses dois pregadores poderosos, Tamal Krishna Goswami e Sridhar Swami. Foi muito inspirador e purificante. Todos os devotos falaram de uma forma muito bonita—cada um deles—na verdade podia-se perceber a presença de Tamal Krishna Goswami e de Sridhar Swami e verdadeiramente sentir essa união com Srila Prabhupada e os seus associados. Sua Santidade Niranjana Swami liderou o kirtana e também falou de uma forma muito bonita.

 

Na verdade sinto que estes líderes do movimento . . . Apesar de sermos todos irmãos espirituais, na medida em que fomos todos iniciados por Srila Prabhupada, existem alguns seguidores de Srila Prabhupada que foram—e são—verdadeiramente líderes do movimento e estão a mostrar o caminho para os outros seguirem. Certamente que Sua Santidade Tamal Krishna Goswami foi um grande pioneiro bem como Sua Santidade Sridhara Swami e os outros que eu mencionei. Mesmo agora os devotos continuam a seguir Srila Prabhupada e, ao liderar-nos, mostram-nos o caminho. Também nós estamos a tentar dar o nosso pequeno contributo, contudo, existem alguns que estão à nossa frente, mostrando-nos o caminho e tornando-o mais fácil, para que o possamos seguir. E isso é natural. Sempre haverá esta situação.                                       

 

Ao mesmo tempo, é algo muito pessoal e individual—quem é que Krsna utiliza para falar com esta ou aquela pessoa. Nem todos têm que seguir uma pessoa em particular. Krsna pode manifestar-Se—Srila Prabhupada pode manifestar-se—através de diferentes serventes, diferentes Vaisnavas, e devemos estar receptivos a esse fluir de misericórdia, não nos importando como chega até nós, ou quem a transporta. Não é algo esteriotipado, ou fixo, ou rígido. Essa misericórdia pode chegar de diferentes maneiras e devemos estar receptivos a ela. Na verdade, este é o princípio de guru: as instruções de Krsna chegam até nós através de algum servente de Krsna, algum representante de Krsna—e não está limitado a uma única pessoa. Krsna pode falar connosco através de muitas bocas, de muitas personalidades, e devemos estar com o coração aberto a essa guia. Devemos colocar as Suas instrucções sobre a nossa cabeça e segui-las. É desta maneira que Krsna guia as almas condicionadas de volta a casa, de volta ao Supremo. Ele pode ocupar diferentes serventes para nos ajudarem;e Deus sabe que precisamos de toda a ajuda possível. Portanto, não devemos ser sectários. Não nos devemos fechar ao fluxo de misericórdia que possa chegar até nós pelo arranjo do Supremo, pelo arranjo de Srila Prabhupada, ou pelo arranjo de qualquer um de nossos mestres espirituais.

 

Eu medito sempre no exemplo de Raghunatha dasa Gosvami, porque teve muitos gurus. Naturalmente que era um associado directo do próprio Senhor Caitanya mas, mesmo assim, ele foi ajudado por muitos bem-querentes e guias. Primeiro, foi iniciado por Yadunandana Acarya, o mestre espiritual da família de Raghunatha. O próprio Yadunandana Acarya era um Vaisnava muito importante, um discípulo iniciado de Advaita Acarya e um estudante íntimo de Vasudeva Datta. Balarama Acarya, um associado muito querido de Haridasa Thakura, era o sacerdote da família de Raghunatha. Raghunatha também aprendeu dele. Balarama Acarya e Yadunandana Acarya eram ambos amigos e costumavam hospedar Haridasa Thakura em suas casas. Durante algum tempo, Balarama Acarya disponibilizou a Haridasa uma cabana de palha e prasada,e simultaneamente,enquanto estudante, Raghunatha visitava Haridasa Thakura diáriamente; está dito que devido à misericórdia que recebeu de Haridasa, Raghunatha alcançou a misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu. Certa vez, Balarama Acarya convidou Haridasa Thakura para palestrar na assembleia da família de Raghunatha, os Majumdars, e assim Raghunatha pode escutá-lo novamente acerca das glórias do santo nome.

 

A seu devido tempo, Raghunatha dasa encontrou-se com Nityananda Prabhu em Panihati, onde recebeu a Sua benção de que se libertaria de todos os obstáculos e alcançaria refúgio aos pés de lótus de Sri Caitanya Mahaparabhu. Em breve Raghunatha fugiu de casa, viajou a pé para Puri, e alcançou o refúgio misericordioso de Sri Caitanya Mahaprabhu—pela misericórdia de Nityananda Prabhu. Então, Caitanya Mahaprabhu confiou Raghunatha dasa a Svarupa Damodara Gosvami: “Eu confio-te Raghunatha. Por favor aceita-o como teu filho ou servente.” Raghunatha ainda era muito jovem; tinha mais ou menos vinte e dois anos. Então, o Senhor agarrou na mão de Raghunatha e, pessoalmente, colocou-o aos cuidados de Svarupa Damodara Gosvami. Deste modo, Raghunatha tornou-se o assistente de Svarupa Damodara. Svarupa Damodara era o secretário de Sri Caitanya Mahaprabhu e Raghunatha dasa tornou-se, na prática, o secretário assistente.

 

Depois de Caitanya Mahaprabhu ter abandonado este mundo, seguido por Svarupa Damodara e por quase todos os outros associados íntimos, Raghunatha dasa sentiu-se vazio: “Estou completamente sózinho. Não existe nenhuma razão para eu continuar a viver. Como posso eu viver sem os meus prabhus, sem todos os meus mestres?”

 

Raghunatha dasa sentiu tanta saudade, que decidiu ir a Vrndavana ver os pés de lótus de Rupa e Sanatana e depois abandonar a sua vida saltando da Colina de Govardhana. Entretanto os dois irmãos não lhe permitiram morrer. Eles convenceram-no a permanecer com eles e falar sobre os últimos passatempos de Mahaprabhu. “Não deves desistir de viver.” disseram-lhe eles. “Estiveste com Sri Caitanya Mahaprabhu em Puri onde foste testemunha de muitos de Seus passatempos íntimos. Deves permanecer connosco para contar-nos acerca das tuas vivências com Ele.” E eles aceitaram-no como o seu terceiro irmão. 

 

Sanatana Gosvami, em particular, deu-lhe refúgio e cuidou dele. Nos primeiros dias, em Radha Kunda, quando Raghunatha dasa Gosvami fazia o seu bhajana, nao tinha nenhum lugar onde residir. E enquanto fazia o seu bhajana estava completamente alheio ao que acontecia à sua volta. Ele recitava mas tornava-se muito difícil porque entrava em transe. Contudo, ele recitava no minimo cem mil nomes. Por vezes, acontecia que ele recitava um nome e entrava em transe profundo enquanto os passatempos de Krsna se manifestavam em sua mente. Um dia, enquanto o sol escaldante brilhava sobre a sua cabeça, ele estava a recitar o nome de Krsna e a lembrar-se dos passatempos de Krsna. Sem o seu conhecimento, porque estava meditando profundamente, Srimati Radharani aproximou-se com um tecido e colocou-o sobre a sua cabeça. Ao aperceber-se disto, Sanatana Gosvami construiu, pessoalmente, um bhajana-kutir para Raghunatha dasa Gosvami. Ele cuidou de Raghunatha dasa em todos os aspectos.

No seu livro Vilapa-kusumanjali, Raghunatha dasa Gosvami começa por oferecer os seus respeitos aos seus gurus. Na literatura devocional escrita em sânscrito, os seus autores começam por oferecer respeitos aos seus gurus e às suas Deidades adoráveis. Por isso, no principio, ele oferece os seus respeitos a Sanatana Gosvami.

 

vairagya-yug-bhakti-rasam prayatnair

  apayayan mam anabhipsum andham

krpambudhir yah para-duhkha-duhkhi

 sanatanas tam prabhum asrayami

 

“Eu estava pouco disposto a beber o néctar do serviço devocional impregnado de renúncia, mas Sanatana Gosvami, devido à sua misericórdia sem causa, obrigou-me a bebê-lo apesar de, por minha conta, não ser capaz de o beber. Portanto, ele é um oceano de misericórdia. Ele é muito compassivo para com as almas caídas do meu calibre e por isso é meu dever prestar as minhas respeitosas reverências a seus pés de lótus.” (Vilapa-kusumanjali 6)

 

Neste verso, Raghunatha dasa Gosvami descreve Sanatana Gosvami com uma frase que Srila Prabhupada citou frequentemente (para todos os Vaisnavas compassivos): para-dukha-dukhi—“ele sentia tristeza na tristeza dos outros.” Raghunatha dasa diz, vairagya-yug-bhakti-rasam prayatnair—ele deu-me o néctar do serviço devocional enriquecido com renúncia; anabhipsum andham—mas eu não estava disposto (anabhipsum) a bebê-lo, porque eu estava cego (andham) ao meu bem-estar espiritual; portanto apayayan mam—ele obrigou-me a bebê-lo. Sanatana Gosvami é um oceano de misericórdia (krpambudhi), e, portanto, eu presto-lhe as minhas respeitosas reverências. Refugio-me nele, meu mestre (prabhum asrayami).

 

Srila Prabhupada parafraseou este verso quando compôs um outro em honra de seu sannyasa-guru, Srila Bhaktiprajnana Kesava Gosvami Maharaja. Ele usou quase as mesmas palavras. A ideia que transmite o verso, é de que é muito difícil abandonar as algemas da vida familiar. Naturalmente que se pode ser um devoto puro no grhastaasrama-isso é outra coisa-mas para a pregação, aconselha-se a sannyasa.

 

Como descreve Srila Prabhupada, ele tinha uns sonhos-na linguagem moderna de psicologia pode-se falar de pesadelos sucessivos-em que seu guru maharaja lhe pedia para que o seguisse e pregasse. Ele costumava despertar-se horrorizado. Assim descreveu Prabhupada a experiência: “Como posso aceitar sannyasa e tornar-me um mendigo? Como vou eu abandonar a minha esposa e filhos? O que é que vai acontecer no futuro?” É uma longa história mas eventualmente Prabhupada aceitou vanaprastha. Ele foi para Jhansi e aí estabeleceu a Liga dos Devotos. Mas houveram algumas intrigas. A esposa do governador queria a propriedade que Srila Prabhupada estava a usar para a Liga dos Devotos. Ela fez todo o possível para conseguir esta propriedade para uns programas com senhoras e, devido a que era muito influente, Prabhupada decidiu não lutar contra ela. Ele então decidiu ir para Mathura, e permanecer na matha de seu irmão espiritual Bhaktiprajnana Kesava Gosvami Maharaja. E Kesava Maharaja insistia, “Deves aceitar sannyasa.” Para aceitar plenamente a ordem do mestre espiritual e pregar, o devoto deve aceitar a ordem renunciada de vida. Foi o que fez Prabhupada. Aceitou sannyasa.

 

Então, em 1968—os primeiros dias do movimento no Ocidente—em Seatle, Srila Prabhupada recebeu a notícia que Sua Santidade Kesava Maharaja tinha falecido. Nessa altura, convocou uma reunião com os seus discipulos para falar sobre a história de como seu guru maharaja e o seu irmão espiritual o “forçaram” a aceitar sannyasa: “O meu irmão espiritual insistiu. Na verdade ele não insistiu-foi o meu mestre espiritual que insistiu através dele: `Tens que aceitar.´ Ele queria que eu me tornasse um pregador, assim que ele forçou-me através do meu irmão espiritual: `Tens de aceitar.´ Foi assim que, contra a minha vontade, eu aceitei.”

 

Srila Prabhupada apercebeu-se que o seu mestre espiritual actuou através do seu irmão espiritual, falando através dele—também um vaisnava—e assim ele compôs este verso, muito semelhante áquele composto por Raghunatha dasa a Sanatana Goswami—mas para Kesava Maharaja. Apayayan mam anabhipsum andham. “Eu não queria tomar o medicamento de Bhakti com desapego, porque me encontrava cego. Não podia antever o meu futuro, que a vida espiritual é o futuro mais brilhante. Então, os vaisnavas, o mestre espiritual, forçaram-me: “Deves tomar este medicamento.” Sri-kesava-bhakti-prajnana-nama krpambudhir yas tam aham prapadye: “Sri Bhaktiprajnana Kesava é um oceano de misericórdia, e eu ofereço-lhe as minhas respeitosas reverências.”

 

Em Vrndavana, Sanatana Gosvami era um grande refúgio para os Vaisnavas. Ele era não só inteligente—todos os Gosvamis eram muito inteligentes—mas também era muito perspicaz, ou esperto. Ele compreendia a diplomacia e a política. Está dito que Rupa Gosvami era muito simples, mas Sanata Gosvami era muito astuto; ele era capaz de compreender as motivações e intenções das pessoas. Assim, ele era capaz de proteger os devotos na mais práctica das formas, porque ele tinha esse tipo de inteligência. E ele protegeu Raghunatha das Gosvami a todos os níveis.

 

Então, no dia de Guru-purnima, devido a que Sanatana Gosvami era o mais velho de todos os Gosvamis e o siksa-guru de praticamente todos os habitantes de Vrndavana, os Vaisnavas foram até Govardhana para lhe prestar respeitos. Ao chegarem ao seu bhajana-kutira em Manasi-ganga, observaram que ele estava em transe. Práticamente não se movia. Então eles esperaram. Não queriam perturbá-lo.

 

A seu devido tempo, eles compreenderam que Sanatana tinha abandonado o corpo, e ficaram dominados por sentimentos de separação. Eles levaram-no em parikrama à Colina de Govardhana. Sanatana Gosvami executava fielmente parikrama da Colina de Govardhana todos os dias. No entanto, eles não tinham a certeza acerca do local onde deveriam depositar o seu corpo. Então, Jiva Gosvami, que era o líder depois de Sanatana, decidiu que deveriam trazê-lo de volta a Vrndavana, para perto do templo da deidade de Madana-mohana, que ele tanto adorava. Tudo isto aconteceu no dia de Guru-purnima.

 

Podemos observar como os devotos se ajudavam uns aos outros. Todos se entreajudavam. No Sri Caitanya-caritamrta, encontramos que os Vaisnavas estavam sempre a ajudar-se entre si. Devemos aprender com o seu exemplo. Devemos desenvolver esse sentimento. Obviamente, a ajuda pode manifestar-se de formas diversas. Por vezes manifesta-se em termos de instrução, outras vezes manifesta-se de maneiras mais prácticas, como aconteceu com Sanatana Gosvami ao construir um bhajana-kutira para Raghunatha dasa Gosvami. Estes devotos excelsos estavam sempre a servir uns aos outros—a servir Sri Caitanya Mahaprabhu e a servirem-se mutuamente. Esse deve ser o nosso sentimento: servirmos uns aos outros, ajudarmos verdadeiramente uns aos outros—e aprendermos uns com os outros.

 

No décimo-primeiro canto do Srimad-Bhagavatam, escutamos como um avadhuta brahmana aceitou lições dos outros, dos vinte e quatro siksa-gurus: dos elementos da matéria, dos fenómenos naturais, plantas, animais—até de uma prostituta. Através da sua inteligência, ele aprendeu de todos eles, e aceitou-os a todos como gurus. Por exemplo, da montanha ele aprendeu que uma pessoa santa deve dedicar todos os seus esforços ao serviço dos outros, fazendo do seu bem-estar a única razão de sua existência (assim como aprendemos com a colina de Govardhana). Da cobra python ele aprendeu que se deve abandonar o esforço material e aceitar aquilo que vem por si mesmo—deve-se permanecer pacífico e fixo, indiferente ao ganho material, mas sempre alerta para a auto-realização. Até com Pingala, a prostituta, ele aprendeu. Porque ela não tinha outra fonte de rendimento, estava muito ansiosa pela chegada dos clientes. Uma noite ela esperou, esperou, esperou, e aínda assim, não apareceu nenhum cliente. Finalmente, na calada da noite, ela sentiu-se angustiada com a sua situação e desapegou-se dela. Com Pingala ele aprendeu o desapego—e o apego à Suprema Personalidade de Deus, que ela aceitou como o seu refúgio último e objecto de amor.

 

Assim sendo, podemos aprender com tudo e com todos. Se estivermos sinceramente a tentar servir Krsna e a tentar compreender qual a melhor forma de servi-Lo, o Senhor no coração dar-nos-á a inteligência com a qual podemos aprender com os outros—até mesmo com as árvores e a erva. Caitanya Mahaprabhu glorificou as árvores e a erva, porque com elas aprendemos a ser tolerantes e humildes. Assim, podemos aprender com tudo e com todos.

 

Podemos aprender até com os demónios—e estamos cercados por eles. Grandes homens de negócios, são muito espertos com a sua propaganda e outras estratégias. Devemos ser assim, muito perspicazes e espertos para Krsna. Os líderes materialistas planeiam como  atraír as pessoas às suas redes, encurralando-as e prendendo-as. Podemos aprender com tais materialistas poderosos como atrair as pessoas e mantê-las, para Krsna-podemos aprender a ser organizados e inteligentes, para Krsna. Se os nossos sentimentos forem os correctos, tudo nos recordará o serviço devocional, e tudo poderá ser usado para Krsna. Todos podem ser um siksa-guru, se estivermos absortos no serviço a Krsna, se estivermos fixos em consciência de Krsna.

 

Mas em particular, e especialmente em ocasiões como a de hoje, devemos oferecer as nossas humildes reverências aos nossos diksa- e siksa-gurus, na sucessão discipular que se ínicia com Krsna, a Brahma, a Narada, a Vyasa, a Caitanya Mahaprabhu, a Sanantana Gosvami, e de Srila Prabhupada para os seus seguidores, que inclui todos vós.

 

Muito obrigado.

 

Hare Krsna.

 

 

 

 

 

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Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 às 1:14 pm

Publicado em Uncategorized

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