Aulas de Giriraj Swami em Português

Nrsimha Caturdasi – 2.ª parte

leave a comment »

 

 

 

 

(continuação de Nrsimha caturdasi – parte I)

 

O nosso processo principal, que nos foi dado especialmente por Sri Caitanya Mahaparabhu em Kaliyuga, é sankirtana, a recitação dos santos nomes do Senhor. Entretanto, devemos fazê-lo de tal maneira que a nossa mente fique absorta. Esta é a oração de Prahlada: que as nossas mentes se absorvam em Krsna. Quando recitamos, queremos escutar-queremos que as nossas mentes se absorvam no som do santo nome do Senhor Krsna. Mas quando tentamos praticar o que é que observamos? A nossa mente está tranquila? Está absorta no santo nome de Krsna ou está a vaguear daqui para ali pensando em diferentes situações para controlar e desfrutar, sugerindo a mentalidade descrita no Bhagavadgita e atribuída aos demónios: isvaro`ham aham bhogi—“Eu sou o controlador; eu sou o desfrutador”? Quando analisamos os pensamentos que temos enquanto recitamos-enquanto supostamente recitamos e ouvimos-constataremos que o substrato é “Eu sou o desfrutador; Eu sou o controlador.” Recitamos mas estamos distraídos pensando, “Oh, tenho que fazer isto. Tenho que fazer aquilo.” O que está implícito é que pensamos que somos o controlador. “Tenho que controlar todas estas coisas. Não posso ouvir o nome de Krsna. Tenho que controlar estas coisas todas.” Porque é que queremos controlar? Embora possamos querer controlar para o serviço de Krsna, a tendência é controlar para a gratificação dos sentidos. Queremos controlar as pessoas e as situações de forma a tornar as nossas vidas mais prazeirosas. Fazemos planos para tornar as nossas vidas mais agradáveis.

 

 Também existe em nós esta inclinação demoníaca, da qual falámos em relação a Hiranyakasipu. Ravindra Svarupa Prabhu, nosso irmão espiritual, cita regularmente, “vimos o inimigo e o inimigo somos nós” (risos). Nós somos o inimigo. Não está fora de nós. Nós somos o inimigo-as nossas más inclinações, as nossas mentes e sentidos descontrolados. O problema não está fora, mas sim dentro de nós.

 

Portanto, temos que nos esforçar muito. Temos que nos esforçar para recitar e escutar com atenção, com sentimento. Para onde quer que a mente divague, temos que trazê-la de volta para o som do santo nome de Krsna. Isto é algo dificil de fazer. Na verdade é um esforço em vão, se o tentarmos fazer por nossa conta. Precisamos de ajuda, de misericórdia; precisamos da misericórdia de Krsna, e Prahlada está a ajudar-nos. Devemos orar, mas é Prahlada quem nos guia na oração. No verso 8 ele orou ao Senhor Nrsimhadeva, situado no coração, “Bondosamente aniquile os meus desejos demoníacos. Assim como destruiu Hiranyakasipu, bondosamente destrua os meus desejos que se assemelham a demónios, mate as minhas más propensões, e sente-se no trono do meu coração.

 

Devemos actuar de duas maneiras: esforçando-nos, e orando por misericórdia. Quando o Senhor vê que nos estamos a esforçar honestamente, fica inclinado a dar a Sua misericórdia. Não devemos ficar parados, sem fazer nada, e orar por misericórdia. Temos que nos esforçar, mas também compreender que, só com o nosso esforço, não conseguiremos ser exitosos; necessitamos da ajuda do Senhor. Ele será misericordioso, quando vir o nosso esforço genuíno, sincero e incansável. Mencionámos Mãe Yasoda. Ela não pode atar Krsna juntando todas as cordas de Vraja mas, quando Krsna se apercebeu do seu esforço incansável para O atar, sentiu compaixão e permitiu que ela O atasse. Os nossos acaryas explicam que os dois dedos de corda que sempre faltavam podem ser supridos (1) pelo nosso esforço intenso (parisrama), e (2) pela misericórdia de Krsna (krsna-krpa). Estes dois elementos podem cobrir a distância, e tornar os nossos esforços exitosos—pela graça de Krsna.

 

Srila Visvanatha Cakravarti Thakura, citado por Prabhupada no significado, explica que sempre que um devoto oferece uma oração ao Senhor, pede-Lhe alguma benção. Na oração om namo bhagavate narasimhaya, um pedido de benção está implícito. Entretanto, um devoto nunca pedirá bençãos materiais, como o fez Hiranyakasipu. “Quero tornar-me imortal, para que possa conquistar o universo e fazer de todos, meus servos.” O devoto pedirá uma benção que esteja relacionada com o serviço devocional e isso não está errado. Não pedirá nada que seja para a sua gratificação dos sentidos. Pedirá algo para a consciência de Krsna-a sua consciência de Krsna e a consciência de Krsna dos outros.

 

Encontramos este exemplo no Siksastaka (5):

 

ayi nanda-tanuja kinkaram

 patitam mam visame bhavambudhau

krpaya tava pada-pankaja-

 sthita-dhuli-sadrsam vicintaya

 

“Ó filho de Maharaja Nanda (Krsna), seu Teu servo eterno porém, caí neste oceano horrível de nascimento e morte. Por favor tire-me deste oceano de morte e coloque-me como um dos átomos a Seus pés de lótus. ”

 

Este é um verso muito importante. Ayi nanda tanuja kinkaram: “Sou Seu servo eterno.” Somos serventes de Krsna-específicamente de Krsna, o filho de Nanda. Nanda tanuja é um termo íntimo. Tanu quer dizer “corpo” e ja signica “nascido”. Apesar do Senhor ser aja, não nascido; para executar os Seus divertimentos em Vrndavana, ele aparece como nanda tanuja, Aquele que “nasceu do corpo de Nanda.” É um termo muito íntimo. “Apesar de ser Seu servo (kinkaram), de alguma forma caí neste terrível oceano de nascimento e morte (patitam mam visame bhavambudhau).

 

Bhava significa “existir” ou “passar a existir e depois cessar a existência.” Prabhupada traduz visame como “horrível”. Literalmente visa quer dizer “veneno.” Esta existência material é como um oceano de veneno. Dentro deste oceano existem aquáticos ferozes tais como tubarões, que estão prontos para nos devorar. Estas criaturas mortíferas são comparadas à luxúria, ira e cobiça-sempre preparadas para nos devorar e acabar connosco. No oceano existem ondas, ondas terríveis, que são comparadas às falsas esperanças e às ansiedades. Elas atiram-nos daqui para acolá. Também existem ventos fortes–ventos fortes e tempestades-que são comparados à má associação. O oceano por si, já é bastante mau mas, torna-se pior quando nos sujeitamos à má associação. Tal associação, actua como os ventos fortes que nos arrastam para o caminho errado e nos podem fazer caír. Enquanto estamos aflitos no oceano, a afogar-nos no mar, podemos encontrar pequenos pedaços de madeira e pensar, “Oh, aqui está um pequeno pedaço de madeira. Vou agarrar-me a ele.” Estes pedaços insignificantes de madeira são comparados a karma, jnana, yoga, etc… Eles não podem salvar-nos.

 

A única coisa que nos pode salvar, é a misericórdia (tava krpa). Sri Caitanya Mahaprabhu, que pronunciou os versos chamados Siksastaka, ora “Por Sua misericórdia, por favor, liberte-me deste oceano horrível de nascimento e morte, e coloque-me como um dos átomos a Seus pés de lótus.” É a misericórdia divina que nos pode salvar. Ele ora para ser um átomo aos pés de lótus de Krsna. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura explica que, originalmente, somos todos partes integrantes de Krsna. Dhuli significa literalmente “poeira.” Pada-dhuli: “a poeira dos pés de lótus.” Sri Caitanya Mahaprabhu ora, “Tenha misericórdia imotivada para comigo. Considere-me Seu servo eterno, uma partícula de pó a Seus pés de lótus.”

 

Alguém poderá perguntar, “É apropriado, para um devoto que se refugiou no santo nome de Krsna, falar das misérias da existência material?” Bom, Sri Caitanya Mahaprabhu fez isso. Portanto, não é errado falar das misérias da existência material, como também não é errado orar por misericórdia para ser reínstalado na nossa relação constitucional com Krsna. Estas são coisas que os devotos fazem. Esta deve ser a nossa mentalidade quando recitamos: o santo nome é Krsna e nós queremos restabelecer a relação perdida com Ele. Deste modo, queremos restabelecer a nossa relação com o santo nome—Krsna como o santo nome. A nossa recitação é uma reciprocação pessoal com o santo nome. Quando a nossa mente vagueia, e todos estes anarthas surgem, porque essa é a tendência, oramos por misericórdia, “por favor salve-me. Eu penso que sou Deus, o controlador e desfrutador. Por favor salve-me destes anarthas.” Este é um aspecto da oração. O outro aspecto é “por favor ocupe-me em Seu serviço. Por favor aceite-me como Seu servo eterno. Por favor considere-me um átomo a Seus pés de lótus, uma partícula de poeira a Seus pés de lótus.”

 

Temos outro exemplo do Siksastaka (4):

 

na dhanam na janam na sundarim

  kavitam va jagad-isa kamaye

mama janmani janmanisvare

  bhavatad bhaktir ahaituki tvayi

 

“Ó Senhor do universo, não desejo riqueza material, seguidores materialistas, uma esposa bonita, ou actividades fruitivas descritas em linguagem florida. Tudo o quero, vida após vida, é o Seu serviço devocional sem causa.”

 

 Ahaituki. De novo a palavra ahaituki: “sem causa, sem nenhum motivo de ganho material de qualquer tipo.” Serviço devocional puro é anyabhilasita-sunyam jnana-karmady-anavrtam. Anyabhilasita sunyam: sem nenhum motivo adjacente. Jnana-karmady-anavrtam: não é coberto por karma, jnana, ou outros processos. No Seu Siksastaka, Sri Caitanya Mahaprabhu ora na mentalidade da devoção pura: na dhanam na janam na sundarim kavitam. Dhanam significa “riqueza.” Janam quer dizer “seguidores.” Sundarim significa “mulheres bonitas, esposa bonita.” Kavitam significa “poesia” ou “as palavras floridas dos Vedas.” Por vezes sundarim é colocado ao lado de kavitam significando assim “poesia bonita.” Algumas pessoas pensam que podem realizar a Deus através da poesia, música, ou a arte e estão apegadas a tais prazeres subtís, quase celestiais. Eles dizem que podem realizar Deus escutando música sinfónica ou qualquer outra coisa. Portanto sundarim kavitam: poesia bonita. Quando sundarim é colocado com kavitam, então belas mulheres, bela esposa, crianças, parentes e amigos, estão incluídos em janam. Todos estes ganhos são alcançados através de actividades materiais piedosas-em outras palavras, karma. Portanto quando Ele diz na dhanam na janam na sundarim kavitam, quer dizer que não quer nada que possa ser alcançado por karma. Quando Ele diz mama janmana janmanisvare, quer estar ocupado nascimento após nascimento em serviço devocional puro. Ele diz-nos que não quer nem mesmo a liberação, que é a meta de jnana. Por outras palavras, Ele não ora pelos resultados de karma e jnana, mas pede somente serviço devocional puro. Este é o calibre de um devoto puro. Isso é o que devemos almejar.

 

Entretanto Prahlada não pede para si mesmo. Ele ora por todas as entidades vivas. Aqui também o mesmo principio é aplicado: nós oramos, mas também devemos esforçar-nos. Não é suficiente estarmos parados e orar, “Por favor liberte todas as entidades vivas do universo” enquanto nos ocupamos em comer e dormir, ou mesmo enquanto recitamos o santo nome para o nosso beneficio. Também temos que trabalhar para a libertação das almas caídas. Esta combinação de esforço e oração será efectiva. Mais tarde, no Sétimo Canto (SB 7.9.44), nas orações de Prahlada a Nrsimhadeva, encontramos:

 

prayena deva munayah sva-vimukti-kama

  maunam caranti vijane na parartha-nisthah

naitan vihaya krpanan vimumuksa eko

  nanyam tvad asya saranam bhramato ’nupasye

 

“Meu querido Senhor Nrsimhadeva, vejo que, na verdade, existem muitas pessoas santas, mas elas estão interessadas unicamente em sua própia liberação. Não se preocupando com as grandes cidades e províncias, elas, sob voto de silêncio [mauna vrata], vão aos Himalaias ou às florestas para meditar. Elas não estão interessadas em libertar os outros. Entretanto, quanto a mim, não quero libertar-me sozinho e deixar de lado todos esses pobres tolos e patifes. Sei que, sem consciência de Krsna, sem refugiar-se nos Vossos pés de lótus, ninguém pode ser feliz. Portanto, desejo trazer todos de volta ao refúgio de Vossos pés de lótus.”

 

Prahlada não tem por que se preocupar com a sua liberação porque, sendo um devoto puro, já está liberado. Onde quer que se encontre pode sempre submergir-se no oceano nectáreo das glórias e dos santos nomes do Senhor, e experimentar bem aventurança transcendental. Ele explica, “No que me diz respeito, não tenho qualquer ansiedade, mas tenho uma preocupação. Lamento-me (soce) porque as pessoas sofrem pela ausência da consciência de Krsna, e por isso encontro-me sempre a fazer planos para ocupá-las em serviço devocional.”

 

naivodvije para duratyaya-vaitaranyas

  tvad-virya-gayana-mahamrta-magna-cittah

soce tato vimukha-cetasa indriyartha-

  maya-sukhaya bharam udvahato vimudhan

 

“Ó melhor das grandes personalidades, não temo nem um pouquinho a existência material, pois, em qualquer lugar onde eu permaneça, estarei plenamente absorto em pensar em Vossas gloriosas actividades. Fico preocupado apenas com os tolos e patifes que andam às voltas com planos elaborados, através dos quais procuram obter felicidade material e manter suas famílias, sociedade e países. Estou preocupado com eles porque lhes quero bem.”

 

Prahlada Maharaja é um dos nossos acaryas-um dos doze mahajanas-e ele está a ensinar-nos com o seu exemplo. Ele medita em como liberar as almas caídas, como induzí-las a aceitar a consciência de Krsna. Ele está também a orar à sua deidade adorável, o Senhor Nrsimhadeva, para que seja misericordioso com as almas caídas e as libere, porque ele sabe que por si mesmo não pode liberá-las—e que por si mesmas, elas também não se podem liberar. Como tal, precisamos da misericórdia do Senhor para pregar. Para practicar a consciência de Krsna, também necessitamos da misericórdia do Senhor. Em cada etapa, precisamos dessa misericórdia. Porém, ao mesmo tempo, temos também de nos esforçar.

 

Para concluir, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura levanta a questão, “O que acontecerá se a oração de Prahlada Maharaja for aceite e todos se tornarem conscientes de Krsna? Todos abandonarão o universo material e voltarão ao supremo. Assim sendo, o que acontecerá ao universo?”

 

No Ardha-kumbha-mela em 1971, tive uma rara oportunidade de estar com Srila Prabhupada na sua tenda, enquanto ele dava um darsana, recebendo visitantes pela tarde. Um homem perguntou-lhe, “E se todos se tornarem devotos, o que será do mundo?” Prabhupada pediu-me para eu responder. Eu não me lembro exactamente o que disse, talvez algo sobre como pode a prisão continuar se todos os prisioneiros se redimirem e forem libertos; mas eu fiquei muito atento para escutar aquilo que Prabhupada tinha para dizer depois da minha tentativa de resposta. Srila Prabhupada disse, “E se todos se tornarem ricos? Quem será o chauffeur? Todos querem ser ricos. Não se pode argumentar: e se todos se tornarem ricos? para dizer que as pessoas não tentam tornar-se ricas.” Prabhupada continuou, “o problema não é que demasiadas pessoas se tornarão conscientes de Krsna; o problema é que um número insuficiente de pessoas se tornarão conscientes de Krsna. Pensa que isso é um problema – que pessoas em demasia se tornarão conscientes de Krsna? Esse não é o problema. O problema é que um número insuficiente de pessoas se tornarão conscientes de Krsna.”

 

Um dia, uma das nossas irmãs espirituais, Jahnava devi dasi, imbuída com o sentimento de pensar no bem estar de cada entidade viva, perguntou a Srila Prabhupada, “Quando recitamos o mantra, devemos pensar no bem estar de todas as entidades vivas?” Srila Prabhupada respondeu, “Oh, podes pensar em todas as entidades vivas? Melhor que penses no Senhor Caitanya, e Ele pensará em todas as entidades vivas.” (risos) Podemos desejar o bem estar de todas as entidades vivas, mas não temos capacidade para pensar no bem estar de todas em simultâneo. Mas podemos pensar no Senhor Caitanya, e Ele pensará em todas as entidades vivas. Podemos orar ao Senhor Nrsimhadeva, e Ele pensará em todas as entidades vivas. Podemos orar para nos tornarmos uma pequena partícula de poeira ao serviço deles—um pequeno instrumento na missão d`Eles—pela divina graça d`Eles.

 

Hare Krsna.

 

Nrsimha Bhagavan ki jaya!

Prahlada Maharaja ki jaya!

Srila Prabhupada ki jaya!

Nitai-gaura-premanande hari haribol!

 

Anúncios

Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 às 12:57 pm

Publicado em Uncategorized

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: