Aulas de Giriraj Swami em Português

Nrsimha Caturdasi – 1.ª parte

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Nrsimha-caturdasi

 Uma aula dada por Giriraj Swami

30 de Abril, 2007

Dallas

 

Vamos ler do SrimadBhagavatam, Quinto Canto, Capítulo Dezoito: ”Os residentes de Jambudvipa oferecem orações.” O verso 8 é o primeiro numa série de orações recitadas por Prahlada Maharaja ao Senhor Nrsimhadeva; portanto, iremos começar com o verso  8 e depois continuaremos com verso 9, cujo significado também se refere ao verso 8.

 

O verso 8 é uma oração, ou mantra, muito importante, e nele muitas palavras são repetidas duas vezes. Quando algo é repetido duas vezes, torna-se mais enfático. Por exemplo, podemos dizer, “É uma coisa terrível, muito terrível.” A repetição de terrível serve para dar um tom enfático.

 

 

VERSO 8

 

om namo bhagavate narasimhaya namas tejas-tejase avir-avirbhava vajra-nakha vajra-damstra karmasayan randhaya randhaya tamo grasa grasa om svaha; abhayam abhayam atmani bhuyistha om ksraum.

 

TRADUÇÃO

 

Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Nrsimhadeva, a fonte de todo o poder. Ó meu Senhor, possuidor de garras e dentes que parecem raios, por favor, eliminai nossos desejos demoníacos que , neste mundo material, nos impelem às actividades fruitivas. Fazei o obséquio de manifestar-Vos em nossos corações e dissipai a nossa ignorância para que, por Vossa misericordia, possamos tornar-nos destemidos na luta pela existência neste mundo material.

 

Verso 9

 

svasty astu visvasya khalah prasidatam

  dhyayantu bhutani sivam mitho dhiya

manas ca bhadram bhajatad adhoksaje

  avesyatam no matir apy ahaituki

 

SINÓNIMOS

 

svasti—ventura; astu—que haja; visvasya—de todo o universo; khalah—as invejosas(quase todas); prasidatam—que elas se apaziguém; dhyayantu—que elas considerem; bhutani—todas as entidades vivas; sivam—ventura; mithah—mútua; dhiya—por intermédio de sua inteligência; manah—a mente; ca—e; bhadram—tranquilidade; bhajatat—que se experimente; adhoksaje—na SupremaPersonalidade deDeus,que está além da percepção através da mente, inteligência e sentidos; avesyatam—que se absorva; nah—nossa; matih—inteligência, api—na verdade; ahaituki—sem motivo algum.

 

TRADUÇÃO

 

Que haja boa fortuna em todo o universo,e que todas as pessoas invejosas possam apaziguar-se. Que todas as entidades vivas se tornem tranquilas praticando bhaktiyoga pois, aceitando o serviço devocional, pensarão no bem-estar recíproco. Portanto, ocupemo-nos a serviço do Senhor Sri Krsna, a transcendência suprema, e permaneçamos sempre absortos em pensar n´Ele.

 

SIGNIFICADO dado por Srila Prabhupada

 

O seguinte verso descreve um Vaisnava:

 

vancha-kalpa-tarubhyas ca

  krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo

  vaisnavebhyo namo namah

 

Assim como a árvore dos desejos, o vaisnava pode satisfazer todos os desejos de qualquer pessoa que se refugie a seus pés de lótus. Prahlada Maharaja era um vaisnava típico. Ele não ora em prol de si mesmo, senão que ora em prol de todas as entidades vivas—sejam elas corteses, invejosas ou perversas. Ele pensava sempre no bem-estar das pessoas mesquinhas como, por exemplo, o seu pai Hiranyakasipu. Prahlada Maharaja, não pedia nada para si próprio;ao contrário, ele orou ao Senhor para que perdoasse seu pai demoníaco. Esta é a atitude do vaisnava, que vive a pensar no bem-estar de todo o universo.

O Srimad-Bhagavatam e o bhagavata-dharma destinam-se a pessoas que são inteiramente desprovidas de inveja( parama-nirmatsaranam). Portanto, na sua oração neste verso, Prahlada Maharaja deseja que khalah prasidatam: “Possam todas as pessoas invejosas apaziguarem-se.” O mundo material fervilha de pessoas invejosas, mas quem se livra da inveja mostra prodigalidade em seus relacionamentos sociais e passa a pensar no bem-estar alheio. Todo aquele que adopta a consciência de Krsna e ocupa-se plenamente a serviço do Senhor, tira da sua mente toda a inveja (manas ca bhadram bhajatad adhoksaje). Por isso, devemos orar ao Senhor Nrsimhadeva que Se sente em nossos corações. Devemos pedir que bahir nrsimho hrdaye nrsimhah: “Que o Senhor Nrsimhadeva Se sente no âmago do meu coração, e extermine todas as minhas más propensões. Que minha mente se torne limpa para que eu possa pacificamente adorar o Senhor e levar a paz ao mundo inteiro.”

 

Com relação a isto, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura deu-nos um significado muito esmerado. Sempre que oferece uma oração à Suprema Personalidade de Deus, a pessoa pede-Lhe uma benção. Como o Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu ensina em Seu Siksastaka, mesmo os devotos puros (niskama) suplicam por alguma benção:

 

ayi nanda tanuja kinkaram

  patitam mam visame bhavambudhau

krpaya tava pada pankaja-

  sthiti-dhuli-sadrsam vicintaya

 

“Ó filho de Maharaja Nanda (Krsna) sou Vosso servo eterno, mas de alguma forma acabei caindo no oceano de nascimentos e mortes. Por favor, tirai-me do oceano de mortes e colocai-me como um dos átomos a Vossos pés de lótus.” Noutra oração, o Senhor Caitanya diz que mama janmani janmanisvare bhavatad bhaktir ahaituki tvayi: “Vida após vida, por favor, permiti que eu dedique amor imaculado e devoção aos pés de lótus de Vossa Omnipotência.” Ao cantar om namo bhagavate narasimhaya, Prahlada Maharaja pede uma benção ao Senhor mas, porque ele também é um vaisnava grandioso, nada deseja para o gozo de seus próprios sentidos. O primeiro desejo expresso em sua oração é svasty astu visvasya: “Que haja boa fortuna em todo o universo.” Portanto, Prahlada Maharaja pediu que o Senhor fosse misericordioso com todos, incluindo seu pai, que era uma pessoa muito invejosa. De acordo com Canakya Pandita, existem duas classes de entidades vivas invejosas: uma são as serpentes, e a outra são os homens da laia de Hiranyakasipu que , por natureza, invejam todos inclusive seu pai ou filho. Hiranyakasipu tinha inveja de seu filhinho Prahlada, mas Prahlada Maharaja pediu uma benção em favor de seu pai. Hiranyakasipu invejava muito os devotos, mas Prahlada desejava que, pela graça do Senhor, o seu pai e outros demónios com ele parecidos abandonassem sua natureza invejosa e parassem de atormentar os devotos (khalah prasidatam). O problema é que khalah ( a entidade viva invejosa) raramente se apazigua. Uma espécie de khalah, a serpente, pode ser apaziguada simplesmente com mantras ou com a acção de uma erva específica (mantrausadhi-vasah sarpah khalakena nivaryate). Contudo, não há como apaziguar uma pessoa invejosa. Portanto, Prahlada Maharaja ora para que todas as pessoas invejosas, passem por uma mudança de coração e pensem no bem-estar alheio.

 

Se o movimento da consciência de Krsna se espalhar por todo o mundo e se, pela graça de Krsna, todos vierem a aceitá-lo, o pensamento das pessoas invejosas mudará. Todos pensarão no bem-estar alheio. Portanto, Prahlada Maharaja ora: sivam mitho dhiya. Nas actividades materiais, todos invejam os demais, porém, em consciência de Krsna, ninguém inveja outrem; todos pensam no bem-estar alheio. Portanto, Prahlada Maharaja implora que as mentes de todos possam tornar-se benévolas e se fixem aos pés de lótus de Krsna (bhajatad adhoksaje). Como se indica noutra passagem do Srimad-Bhagavatam (sa vai manah krsna-padaravindayoh) e como o Senhor Krsna aconselha no Bhagavad-gita (18.65), manmana bhava mad-bhaktah, devemos pensar constantemente nos pés de lótus do Senhor Krsna. Então, as nossas mentes concerteza tornar-se-ão limpas (ceto darpanam-marjanam). Os materialistas vivem a pensar no gozo dos sentidos, mas Prahlada Maharaja ora para que a misericórdia do Senhor lhes mude as mentes e eles deixem de pensar no gozo dos sentidos. Se eles pensarem sempre em Krsna, tudo dará certo. Algumas pessoas argumentam que, se todos pensarem em Krsna dessa maneira, o mundo inteiro ficará vazio porque todos voltarão ao lar, voltarão ao Supremo. Contudo, Srila Visvanatha Cakravarti Thakura diz que isto é impossivel, pois existem muitas entidades vivas. Se o movimento da consciência de Krsna libertar de facto um determinado conjunto de entidades vivas, outro grupo encherá o universo inteiro.

 

COMENTÁRIO feito por Giriraj Swami

 

vancha-kalpatarubhyas ca

  krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo

  vaisnavebhyo namo namah

 

No significado, Srila Prabhupada citou este verso porque ele descreve um Vaisnava, e porque Prahlada Maharaja,que recitou estas orações que estamos a ler e a comentar, é um exemplo excelente de um Vaisnava.

 

Hiranyakasipu, o pai de Prahlada, era um grande demónio e executou austeridades tão severas, que perturbou todo o universo. Finalmente o Senhor Brahma aproximou-se pessoalmente a Hiranyakasipu para lhe perguntar que benção é que ele queria. Deste modo ele acabaria com as suas austeridades e pararia com a perturbação dentro do universo.

 

Hiranyakasipu pediu a benção de se tornar imortal, mas o Senhor Brahma respondeu, “Eu próprio, não sou imortal.” Hiranyakasipu então pediu varias bençãos que, pensou ele, o fariam imortal. Ele pediu para que não fosse morto dentro ou fora de um edificio. Ele pediu para não ser morto nem de dia nem de noite. Ele orou para não ser morto na terra ou no ar. Ele orou para não ser morto por nenhum ser humano ou animal, semideus, demónio ou qualquer outra criatura. Orou para não ser morto por nenhuma arma. Ele pensou que, ao pedir tais bençãos, eventualmente tornar-se-ía imortal e ficaría com supremacia absoluta sobre o universo. O Senhor Brahma concordou com todos os pedidos dizendo, “Que assim seja.”

 

No transcurso do tempo, Hiranyakasipu teve um filho chamado Prahlada, que era um devoto. Anteriormente o Senhor, na forma de Varahadeva, tinha morto o irmão de Hiranyakasipu, Hiranyaksa,e Hiranyakasipu estava determinado em vingar a morte de seu irmão—na verdade ele pensava que podia matar Visnu. Ele sabia que Visnu tinha aparecido como Varaha e tinha morto Hiranyaksa. Mais tarde, Diti, a mãe de Hiranyaksa e Hiranyakasipu, desejou ter um filho que pudesse matar Indra porque ela pensava que Indra, com a ajuda de Visnu, era o responsável pela morte de seus filhos.

 

Com as escrituras aprendemos—sadhu-sastra-guru-vakya—que Visnu é Deus. Poderíamos perguntar, “Como poderia alguém imaginar matar Deus?” mas se Deus viesse a esta sala, e não O reconhecêssemos pelos aspectos que estão mencionados nas escrituras, não saberíamos que era Deus porque Deus é parecido com o ser humano. Na Biblia está dito, “Deus criou o homem à Sua própria imagem.” Deus, tal como nós, tem braços, pernas, mãos, pés, olhos, nariz, boca e todos os outros aspectos corporais. O Seu corpo é como o nosso. O que O distingue de nós são as Suas potências imensuráveis. Por exemplo,, o presidente dos Estados Unidos tem poderes imensos (mais do que alguns gostam). Se ele quiser, pode dar ordens ao exército para invadir um país, ou pode enviar a polícia prender um cidadão. Ele parece-se connosco mas não temos o mesmo poder. Podemos querer fazer certas coisas, mas não temos o poder. Ele sim, tem o poder mas, mesmo assim, é parecido connosco.

 

Quando alguém executa grandes austeridades pode conseguir grandes poderes. Mesmo os demónios, se executam as austeridades prescritas, podem tornar-se muito poderosos e alcançar várias perfeições místicas. Os demónios também podem conseguir poderes apesar do Senhor Visnu ter todo o poder e potência mística. Hiranyakasipu pensou que, através das austeridades e poderes derivados delas, juntamente com as bençãos que tinha conseguido do Senhor Brahma, poderia tornar-se imortal e conquistar o universo. Ele criou uma grande perturbação no universo ao executar grandes austeridades; essa perturbação consistia em ter declarado guerra aos semideuses e conquistado os territórios deles.

 

Naturalmente que Hiranyakasipu queria que seu filho fosse como ele, um grande materialista, e para tal educou-o adequadamente. Ele ocupou professores a instruir o rapaz a tornar-se perito na política e na diplomacia. Apesar de ser um demónio, Hiranyakasipu tinha afeição natural pelo seu filho. Por vezes os pais perguntam aos seus filhos, “Que é que aprendeste hoje na escola? Qual é o tema que gostas mais?” desse modo Hiranyakasipu perguntou a Prahlada, “Qual foi o assunto que gostastes mais de aprender?” Ele pensou que Prahlada diria alguma coisa engraçada, alguma coisa doce, mas Prahlada deu a pior resposta alguma vez imaginada por Hiranyakasipu. Ele disse, “A melhor coisa que aprendi foi sravanam kirtanam visnoh smaranam pada-sevanam/ arcanam vandanam dasyam sakhyam atma-nivedanam.” Escutar e glorificar sobre Visnu. Sim, Visnu, a quem Hiranyakasipu considerava o seu pior inimigo. Visnu. Portanto Hiranyakasipu ficou furioso e decidiu matar Prahlada. Ele argumentou que se uma parte do corpo fica infectada, a doença pode expandir-se por todo o corpo e matar a pessoa. Apesar de ser parte do nosso corpo, devemos amputá-la para salvar o resto do corpo. Ele pensou “apesar de Prahlada ser meu filho, ele ficou infectado pela doença do Vaisnavismo e, portanto, temos de matá-lo antes que a doença se espalhe e acabe connosco.”    

 

Como se descreve no Sétimo Canto do Srimad-Bhagavatam, ele tentou matar Prahlada de diferentes maneiras mas, apesar de ser tão poderoso . . . Hiranyakasipu tinha conquistado os semideuses. Ele ocupava o trono do rei Indra e governava os habitantes de todos os outros planetas muito severamente. À excepção de Brahma e Siva, todos os outros semideuses ocupavam-se a seu serviço, oferecendo-lhe reverências e glorificação. Era tão poderoso—mas não foi capaz de matar Prahlada. Ele fez com que demónios de aspecto horrível, tentassem trespassar o corpo de Prahlada com tridentes. Ele atirou Prahlada para baixo dos pés de elefantes muito grandes, e para o meio de enormes serpentes mas, apesar de tudo, não foi capaz de o matar. Atirou-o do cimo de uma montanha, deu-lhe veneno para tomar, fê-lo passar fome e atirou-lhe pedras gigantescas para esmagá-lo. Nada funcionava—Prahlada não ficava minimamente afectado—e Hiranyakasipu estava surpreendido. Tinha conquistado os exércitos dos semideuses mas não conseguia subjugar o seu filho de cinco anos de idade.

 

Finalmente, quando todos os seus esforços fracassaram, Hiranyakasipu perguntou a Prahlada, “De onde consegues o teu poder? Tu estás consciente que, quando fico zangado, todos os planetas dos três mundos, bem como os seus governantes tremem? Tu não tens medo e ultrapassaste a minha capacidade de te controlar. De onde consegues a tua força?” Prahlada respondeu, “Eu consigo-a da mesma fonte que tu, da fonte de toda a energia-de Deus.” Nesse momento, Hiranyakasipu ficou verdadeiramente enfurecido, porque ele pensava que era a fonte de seu próprio poder. Essa é a mentalidade demoníaca. Pensamos que somos os executores—kartaham iti manyate. Pensamos, isvaro´ham aham bhogi siddho ´ham balavan sukhi: “eu sou o controlador, o desfrutador. Eu sou perfeito, poderoso e feliz.” Essa é a tendência demoníaca. Hiranyakasipu não queria escutar que o seu poder vinha de outra pessoa-e que dizer da pessoa que Prahlada tinha mencionado: o Supremo Senhor ilimitado.

 

Nessa altura Hiranyakasipu ficou ainda mais enfurecido e mais desafiador. Ele disse a Prahlada, “Se esse teu Deus está em todo o lado, porque é que ele não está presente diante de mim, nesta coluna? Agora vou matar-te e vamos ver se esse teu Deus te protege!” Cheio de raiva, Hiranyakasipu levantou-se de seu trono, agarrou na sua espada e com grande ira esmorrou a coluna. Então, de dentro da coluna emergiu a forma maravilhosa de Nrsimhadeva. Nrsimha Bhagavan ki jaya!

 

Nrsimhadeva era único. Não era um homem, nem um animal mas tinha uma forma de metade leão e metade homem. O Seu aparecimento preencheu todas as condições dadas pelo Senhor Brahma. Não era um semideus, nem ser humano nem animal- Ele não era nenhuma das criaturas. A seu devido tempo, agarrou Hiranyakasipu, colocou-o no Seu regaço, e com as Suas unhas abriu-lhe o peito. Hiranyakasipu era extraordinariamente poderoso e o seu peito podia tolerar o raio de Indra. Ninguém podia ferir o seu corpo. Era muito poderoso.

 

Podia-se atirar flechas, bem como todo o tipo de armas contra ele, que estas eram projectadas como se fossem insignificantes. Não era fácil abrir o seu peito. Contudo Nrsimhadeva abriu-o com as suas unhas grandes, extraíu-lhe o coração e assim matou este grande demónio.

 

Diariamente glorificamos o Senhor Nrsimha com a oração, (uma linha dessa oração foi citada no significado de Srila Prabhupada):

 

ito nrsimhah parato nrsimho

  yato yato yami tato nrsimhah

bahir nrsimho hrdaye nrsimho

  nrsimham adim saranam prapadye

 

Ito nrsimhah significa “Nrsimha está aqui”; parato nrsimho quer dizer “Nrsimha tambem está lá, do outro lado: “yato yato yami tato nrsimho: “onde quer que vá, aí está Nrsimha.” Bahir nrsimho: “Nrsimha está no exterior”. Hrdaye nrsimho: “Nrsimha está no meu coração.” Nrsimham adim saranam prapadye: “Eu refugio-me no Senhor Nrsimha, o Senhor original.” Ele está em todo o lado.

 

Nós também cantamos:

 

namas te nara-simhaya

  prahladahlada-dayine

hiranyakasipor vaksah-

  sila-tanka-nakhalaye

 

Sila-tanka-nakhalaye. Sila quer dizer “pedra” como em saligrama-sila; nakha significa “unhas”; e tanka significa “cinzel”. Se queremos quebrar uma pedra dura, temos de utilizar um cinzel. As unhas do Senhor Nrsimha eram como cinzeis que cortaram o peito de Hiranyakasipu—o seu peito e coração, que eram duros como pedra.

 

Hirianyakasipu pensava que, através do seu próprio poder e inteligência, poderia tornar-se imortal. Porém a sua inteligência não era tão grande quanto a de Nrsimha, que manteve todas as bençãos de Brahma intactas e, ainda assim, conseguiu matar o demónio. Nrsimhadeva assumiu esta forma maravilhosa-adbhuta significa “maravilhosa”—que era metade homem e metade leão. Ele sentou-se no umbral do palácio, que não era dentro nem fora do mesmo. Apareceu no crepúsculo, que não era de dia nem de noite. Matou Hiranyakasipu no Seu regaço-não foi no ar nem na terra. Não o matou com armas, mas com as Suas unhas. Portanto, manteve intactas todas as bençãos e, ainda assim, matou-o.

 

Srila Prabhupada explica que, não importa o quão inteligente possamos ser, Krsna é sempre um pouco mais inteligente. Mãe Yasoda tentou atar Krsna com cordas, mas apesar de ter unido muitas cordas, Ele permanecia sempre dois dedos maior que elas. Faltava sempre um pouquinho para atá-Lo. Do mesmo modo, se tentarmos competir com Deus-tentarmos superar Deus, tentarmos enganar Deus-nunca o conseguiremos. Srila Prabhupada explica, “Hiranyakasipu pensava somente na bomba atómica, em como proteger-se da bomba mas, esqueceu-se das unhas.” Fez tantos arranjos para se proteger, mas nem sequer se deu ao trabalho de pensar nas unhas. Portanto, a conclusão deverá ser “se não pudemos lutar com Ele, devemos unir-nos a Ele.” Nrsimham adim saranyam prapadye. Devemos render-nos a Nrsimhadeva. Não devemos competir com Ele, nem lutar com Ele. Essa é a essência das orações de Prahlada.

 

Depois de Nrsimhadeva ter morto Hiranyakasipu, pediu a Prahlada para aceitar alguma benção, mas Prahlada não quis nenhum favorecimento material porque era um devoto puro. No verso de hoje encontramos a palavra ahaituki: sem nenhum motivo. Prahlada não tinha motivações materiais, por isso, quando o Senhor Nrsimhadeva lhe pediu que aceitasse uma benção, ele recusou. Disse, “Porque me está a tentar com expectativas materiais? Se eu desejasse beneficios materiais em troca do serviço devocional, não seria um servente. Seria como um homem de negócios que quer lucros em troca do serviço. Senhor, sou Vosso servente eterno e Vós sois o meu mestre eterno. Não temos outro relacionamento.” Prahlada pediu somente para que não houvesse nenhuns desejos materiais dentro de seu coração.

 

Porém, Nrsimhadeva insistia para que Prahlada aceitasse alguma benção e, finalmente, Prahlada concordou: “Se realmente quer que aceite algo de Vós, então peço-Vos para que purifique o meu pai.” Esta situação mostra o carácter exemplar de Prahlada que, como diz Srila Prabhupada, é um Vaisnava no verdadeiro sentido da palavra. O Vaisnava, é o amigo de todos, de todas as entidades vivas (suhrdah sarva-dehinam). Nunca se torna o inimigo de seu inimigo. Permanece sempre o amigo de todos-até de seus inimigos. Portanto, apesar de Hiranyakasipu ter sido tão invejoso-mesmo de seu próprio filho-tentando matá-lo de tantas maneiras, Prahlada permaneceu fiel ao seu carácter como um Vaisnava. Pensou no bem-estar de seu pai. Desejou-lhe o bem.

 

Prahlada, nesta oração ao Senhor Nrsimhadeva, ora por seu pai e por todas as pessoas invejosas, para que se tornem pacíficas. Khalah prasidatam: “Que todas as pessoas invejosas se apaziguem.” Srila Prabhupada esclarece que quase todos são invejosos. Na realidade, entramos neste mundo material, porque somos invejosos de Krsna. Essa é a razão pela qual estamos aqui. Portanto Srila Prabhupada diz “quase todos.” As únicas excepções são os devotos puros. Todos os outros, têm alguma inveja. É como dizer, “quase todos na prisão são criminosos.” Sim, em princípio, todos os prisioneiros são criminosos. Existem alguns colaboradores da prisão que não o são, que estão lá para orientar os internos, mas os prisioneiros, esses são criminosos. Portanto, à excepção dos devotos que trabalham para o bem-estar das almas caídas, todos são invejosos. Ninguém é poupado pela inveja. Hiranyakasipu, era invejoso de um devoto puro, o seu filho de cinco anos. Diti ficou invejosa de Indra que era seu sobrinho. Quis matá-lo ou contratar alguém para o matar. Ninguém é poupado.

 

Se quisermos sair do enredo da existência material, teremos que libertar-nos da inveja. Como é que nos libertamos da inveja? Através do processo da consciência de Krsna. Essa é a oração de Prahlada: bhajatad adhoksaje. Bhaja significa adorar e servir. A palavra bhakti, vem da raíz verbal bhaj: servir com devoção. Servir a quem? Adhoksaja: Krsna, que está além da percepção material dos sentidos. Hiranyakasipu não podia ver Visnu; o Senhor estava além da sua percepção sensorial. Só quando Visnu decidiu aparecer diante dele, ao saír da coluna como Nrsimhadeva, é que Hiranyakasipu pode vê-Lo. Só os devotos puros podem ver a Krsna, ninguém mais. Ele está além da percepção materialmente contaminada dos sentidos, da mente e inteligência das almas condicionadas.

 

Portanto, o processo é a consciência de Krsna (bhajatad adhoksaje). Como Prahlada explicou, ocupamo-nos em serviço devocional em consciência de Krsna, através de sravanam kirtanam visnoh smaranam: escutar e recitar sobre Visnu e lembrar-se d´Ele. Srila Prabhupada citou do Siksastaka, ceto-darpanammarjanam: sankirtana, a recitação dos santos nomes do Senhor, limpa o coração. Esse é o processo. Quando o coração se limpa tornamo-nos pacificos e calmos (bhadram).

 

Este processo, está descrito em dois versos muito importantes do Segundo Capítulo do SrimadBhagavatam:

 

srnvatam sva-kathah krsnah

  punya-sravana-kirtanah

hrdy antah-stho hy abhadrani

  vidhunoti suhrt satam

 

“Sri Krsna a Personalidade de Deus, que é o Paramatma [Superalma] no coração de todos e o benfeitor do devoto veraz, purifica do desejo de gozo material o coração do devoto que desenvolveu o desejo ardente por ouvir Suas mensagens, que por si só são virtuosas, quando adequadamente ouvidas e recitadas.” (SB 1.2.17)

 

Srnvatam sva-katha krsnah. Quando escutamos krsnakatha, todo o abhadrani, todos os desejos materiais, todas as perturbações dentro do coração, são limpas pelo próprio Senhor, que está sentado dentro do coração como um amigo bem-querente do devoto veraz (vidhunoti suhrt satam). O som transcendental é Krsna. Krsna entra no ouvido na forma de som trancendental e, quando escutamos apropiadamente, o som entra no coração e limpa-o. Krsna, na forma de som transcendental, limpará as coisas sujas que estão no coração (ceto-darpana-marjanam).

 

O verso seguinte explica ainda que:

 

nasta-prayesv abhadresu

  nityam bhagavata-sevaya

bhagavaty uttama-sloke

  bhaktir bhavati naisthiki

 

“Assistindo regularmente às aulas sobre Bhagavatam e prestando serviço ao devoto puro, tudo o que é molesto ao coração é quase que completamente destruído, e o serviço amoroso à Personalidade de Deus, o qual se louva com canções transcendentais, é estabelecido como um facto irrevogável.” (SB 1.2.18)

 

Bhagavatasevaya: por servir a pessoa bhagavata ou o livro bhagavata, tudo o que é perturbador no coração-a mesma palavra, abhadrani (abhadra, nasta-prayesv abhadresu), tudo o que é problemático, tudo o que perturba o coração nesta plataforma, é praticamente destruído. Quando Prahlada ora para que as pessoas invejosas se pacifiquem (bhadram), ele ora para que todas as abhadra, as perturbações, os desejos materiais dentro do coração, sejam removidos. O processo da remoção é a consciência de Krsna, através de absorver a mente em Krsna. Este método é recomendado no Bhagavad-gita (manmana bhava madbhakto)e no Srimad-Bhagavatam (sa vai manah krsnapadaravindayoh)-absorver a mente em Krsna. Isto é consciência de Krsna, e pode purificar o nosso coração e tornar-nos calmos e pacíficos. Então, em vez de invejarmos os outros e querermos explorá-los e dominá-los, pensaremos no seu bem estar. Vamos querer ajudá-los e encorajá-los em consciência de Krsna.

 

 

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Written by nityananda108

Agosto 5, 2008 às 1:02 pm

Publicado em Uncategorized

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