Aulas de Giriraj Swami em Português

Porque Eu Gosto de Todos [[novo]]

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Acerca dos Seis Gosvamis, diz-se: dhiradhira-jana-priyau priya-karau nirmatsarau pujitau—são populares entre as pessoas amáveis e os malfeitores, porque não são invejosos de ninguém; tudo o que fazem é do agrado de todos.

Numa caminhada matutina, em Los Angeles, no ano 1973, Srila Prabhupada demonstrou as mesmas qualidades. Ele reciprocou de uma maneira tão perfeita com cientistas, pregadores, administradores, distribuidores de livros e até com os meus pais, que todos ficaram contentes e satisfeitos.

Srila Prabhupada foi atencioso com todos. Certa manhã,  os meus pais, tendo vindo visitar-me desde Chicago, juntaram-se a nós para um passeio no Parque Cheviot Hills. Prabhupada saudou a minha mãe, “Oh, Sra Teton, está tão jovem.” Ela ficou contente—e todos ficaram contentes. No final do passeio, dirigimo-nos ao parque de estacionamento de carros e o meu pai olhou atentamente para o Rolls Royce que os devotos tinham colocado à disposição de Prabhupada. Srila Prabhupada, sempre humilde, quase que acanhado, explicou, “Os meus discípulos alugaram-no para mim.” E o meu pai respondeu imediatamente, “Oh, não, o senhor merece. O senhor merece.” Então, Srila Prabhupada convidou-o, “Pode vir no carro comigo.” Mas o meu pai respondeu, “Não, não, estamos com o nosso.”

Depois de nos termos ido embora (e como me foi relatado posteriormente), o assistente de Srila Prabhupada disse a Sua Divina Graça, “Srila Prabhupada, todos as pessoas gostam muito do senhor.” Srila Prabhupada respondeu, “Sim, porque eu gosto de todos.”

 

 

Written by nityananda108

Fevereiro 25, 2014 at 7:27 am

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Serviço ao Homem e Serviço a Deus (do livro Watering the seed)

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Antes de conhecer Srila Prabhupada,  já tinha o desejo de servir a humanidade. Então ouvi  de Srila Prabhupada  sobre a importância do serviço ao Senhor Krsna. Porém, a interrogação manteve-se-Como é que o serviço a Deus se relaciona com o serviço ao homem ?

Em Maio de 1969, depois de uma semana a escutar Srila Prabhupada, tive a oportunidade de lhe colocar essa questão.

Srila prabhupada tinha acabado de concluir a sua aula:

sa vai pumsam paro dharmo

  yato bhaktir adhoksaje

ahaituky apratihata

  yayatma suprasidati

 “Sem realização espiritual,não é possível ter uma mente pacífica. Se quiseres ter paz na mente, paz no mundo, paz na tua sociedade, paz na tua familia, não será possível simplesmente através da acumulação de dinheiro e do avanço material. Mas se te aperfeiçoares um pouco que seja na vida espiritual, imediatamente te tornarás feliz. . . .

“Se tiverem perguntas, podem colocá-las.”

“Falou de serviço ao Senhor Krishna,” perguntei. “ Mas como é que isso se relaciona com o serviço à humanidade?.”

“Porque é que tu e os outros vêm cá?” Srila Prabhupada respondeu. “Não estamos a prestar serviço? Libertar as pessoas da existência material e trazê-los à consciência de Krishna é o melhor serviço.

“O que significa servir? Significa aliviar o sofrimento. E a consciência de Krsna traz o melhor alívio, como se confirma no Bhagavatam [1.2.6]: ‘ O melhor serviço, a melhor religião, a melhor filosofia é aquela que nos ensina a servir a Deus.’ E à medida que a pessoa se aproxima do serviço a Deus, isenta de qualquer motivo, fica imediatamente satisfeita (yayatma suprasidati).

“Com cinco anos de idade, Dhruva Maharaja foi insultado pela sua madrasta. Ele queria o reino de seu pai. Sua mãe aconselhou-o, ´Só Deus pode ajudar-te.´   Dhruva partiu imediatamente para a floresta para encontrar Deus. Mas quando  teve uma visão de Deus, disse, ´Meu Senhor, não desejo nada. Estou plenamente satisfeito. Vim à procura de alguns pedaços de vidro partido mas agora encontrei a jóia mais valiosa.´ Quando descobre a sua relação eterna com Deus, a pessoa sente, ´Não tenho nenhum pedido a fazer.´ Levá-la a ter este sentimento ´Não tenho mais nenhuma exigência, estou plenamente satisfeito´ é o melhor serviço.

O que é isso a que chamamos serviço material? Imagina que estou com fome e tu dás-me de comer; não ficarei com fome de novo? Claro que o movimento da consciência de Krsna também dá de comer. Mas damos alimento para que a pessoa fique satisfeita para sempre. Nem mais fome nem mais exigências. ´Estou plenamente satisfeita´ (svamin krtartho ’smi). ´Não tenho mais nada a pedir´ (varam na yace). É simplesmente uma ilusão pensar que podemos satisfazer a nossa fome materialmente. América é materialmente avançada mas, estão satisfeitos? Existem tantos jovens frustrados, hippies. Porém, as pessoas desavergonhadas pensam, ´Se nos tornarmos tão ricos como a América, seremos felizes.´ Através de arranjos materiais, nunca seremos felizes.

“Verdadeira felicidade manifesta-se quando aprendemos a amar a Deus, e isso pode ser alcançado sem melhorias materiais. Onde quer que estejamos, em qualquer condição de vida, podemos simplesmente cantar Hare Krsna e desenvolver tal amor. Então,  poderemos dizer, ´Agora estou plenamente satisfeito. Não quero nada mais. Não mais roubar, nem meter mais as mãos nos bolsos dos outros, nem mais enganar. Como não tenho nenhum desejo, porque terei que enganar?´ ”

As palavras de Srila Prabhupada entraram profundamente no meu coração. Apesar de estar orgulhoso da minha honestidade, tinha uma debilidade. Tinha desenvolvido o hábito de tirar coisas das lojas, subtraindo pequeninas coisas de aqui e de acolá. Mas a afirmação de Srila Prabhupada “não roubar mais” fez-me realizar o quão verdadeiramente desqualificado era-e como poderia ser salvo pela consciência de Krsna.

yam labdhva caparam labham

  manyate nadhikam tatah

yasmin sthito na duhkhena

  gurunapi vicalyate

Srila Prabhupada continuou, “Talvez conheças a história.  Uma pessoa santa  estava sentada num lugar solitário, quase nua. Alexandre o Grande perguntou-lhe, ´Posso fazer alguma coisa por ti?´ Ela respondeu, ´Por favor desvia-te. Estás a fazer sombra. Isso é tudo.´ Que poderia fazer Alexandre o Grande a uma pessoa que estava plenamente satisfeita?

yam labdhva caparam labham

  manyate nadhikam tatah

yasmin sthito na duhkhena

  gurunapi vicalyate

Encontrarás no Bhagavad-gita [6.22] que  se uma pessoa está situada na posição transcendental, não tem mais nenhuma exigência e não se perturba mesmo na maior das dificuldades. Isto é vida-estar satisfeita em todas as circunstâncias. E esta paz só pode ser alcançada através da consciência de Krsna.”

Fiquei satisfeito. Não havia necessidade de procurar mais. Srila Prabhupada podia responder a qualquer pergunta.

A única maneira de permanecer em paz e feliz na vida, era seguir Srila Prabhupada e tornar-me consciente de Krsna. E a melhor maneira de servir os outros era dar-lhes consciência de Krsna.

Srila Prabhupada tinha mostrado o caminho perfeitamente. Agora, só tinha que o seguir.

Written by nityananda108

Julho 10, 2013 at 4:27 pm

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A Fé de Srila Prabhupada no Santo Nome

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Uma palestra dada por Giriraj Swami num retiro de japa a 9 de Abril de 2009 no Palácio de Srila Prabhupada, Nova Vrindaban, Virginia Ocidental.

Enquanto cantávamos, olhei para a pintura de Srila Prabhupada na parede, pintada a partir de uma fotografia dele de 1966, e pensei em como ele tinha vindo ao mundo ocidental para nos dar o santo nome. Veio, seguindo a instrucção de seu mestre espiritual, com plena fé no santo nome, pensando que, se as pessoas como nós , simplesmente cantassem o santo nome tudo o resto surgiria.

Srila Prabhupada tinha um irmão espiritual que se chamava Niskincana Krsnadasa Babaji, que Prabhupada dizia ser um paramahamsa, uma alma liberada. Babaji Maharaja aproximou-se a outro irmão espiritual de Prabhupada,  que tinha sido enviado por Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura para pregar na Inglaterra , mas que não tinha tido muito êxito e que finalmente tinha regressado à India, e disse-lhe, “Tu foste para o Ocidente, e Swami Maharaja [Bhaktivedanta Swami—porque os discípulos de Srila Bhaktisiddhanta também se referem a seu guru maharaja como “Srila Prabhupada”] foi para o Ocidente. Tu expuseste os ensinamentos  do Senhor Caitanya e Swami Maharaja expôs os ensinamentos do Senhor Caitanya. Tu deste a conhecer o Hare Krsna maha-mantra e Swami Maharaja deu a conhecer o Hare Krsna maha-mantra. Entretanto Swami Maharaja teve um êxito espectacular e os teus resultados foram insignificantes. Qual é a razão?” Então o próprio Babaji Maharaja deu a resposta: “Porque Swami Maharaja tinha fé plena no santo nome de Krsna e tu não.”

Esta é uma afirmação muito forte e um ponto extremamente significativo. Prabhupada tinha fé plena no santo nome e com essa convicção veio para o Ocidente, deu-nos o santo nome e animou-nos a cantar.

Há uns anos atrás, outro irmão spiritual, Dr Oudh Bihari Lal (O. B. L.) Kapoor, inciado com o nome  Adi Kesava dasa, tinha-se encontrado com Prabhupada em Mathura. No asrama de grhastha Srila Prabhupada tinha sido um quimico ou farmacêutico. O Dr. Kapoor perguntou-lhe, “Tu és um farmacêutico; conheces muitas fórmulas. Sabes qual é a fórmula para desenvolver amor a Deus?” Srila Prabhupada respondeu, “Sim, sei qual é.” [risos] Dr. Kapoor retorquiu, “Podes dizer-me qual é?”  Prabhupada disse, “Sim. Trnad api su-nicena, taror iva sahisnuna/ amanina mana-dena, kirtaniyah sada harih.” A fé de Srila Prabhupada no santo nome existia desde o começo. Serviu de base à sua viagem para o Ocidente, no seu serviço ao seu mestre espiritual e a todos nós.

Em Mathura, na cerimónia de sannyasa de Srila Prabhupada e enquanto o sacerdote conduzia o fogo de sacrificio e recitava vários mantras, Krsnadasa Babaji cantava o santo nome. Ele saboreava verdadeiramente o santo nome. Numa noite, em Ekadasi, Sua Santidade Bhakti Bhrnga Govinda Swami levou-me até ele. Estava sentado num pátio de um asram onde estava muito escuro—talvez houvesse uma luz muito ténue vinda de uma lâmpada num canto—e ali estava ele a recitar japa e a saborear. Podia-se perceber que ele estava a degustar, a saborear. Na verdade, estava a beber o néctar do santo nome. Então, durante um interlúdio na cerimónia, Krsna Dasa Babaji liderava o kirtana , e quando chegou o momento de encerrar a cerimónia com a recitação de mantras, o sacerdote gesticulou em direcção a ele e disse-lhe, “ Podes acabar agora o kirtana.” Mas quando o sacerdote se concentrou de novo na cerimónia, Prabhupada acenou discretamente a Babaji Maharaja e disse, “Continua a cantar. Continua a cantar.” [risos] Babaji Maharaja, enquanto contava esta história, comentou, “Nesse momento, pude perceber que ele seria o líder do movimento Hare Krsna.” Srila Prabhupada tinha essa fé profunda.

Logo depois de me ter unido ao templo de Boston, os devotos enfrentaram-se com uma crise financeira. Nessa altura não se fazia regularmente hari-nama-sankirtana, nem se distribuiam livros na rua. Só haviam programas vespertinos no templo às segundas, quartas e sextas feiras e a festa de confraternização aos Domingos da parte de tarde. Prabhupada tinha dito aos devotos que, se necessário, poderiam arranjar empregos. Satsvarupa dasa, o presidente do templo, era um assistente social e o seu ordenado da assistência social, era o única receita que o templo tinha. Entretanto, à medida que o departamento de arte se desenvolvia e mais devotos se uniam ao templo, essa receita tornou-se insuficiente.

Os devotos, que eram muito rendidos, reuniram-se e um deles, Patita-pavana, disse que tinha trabalhado nos correios antes de se unir ao movimento e que poderia ir trabalhar para lá. Outro disse que conhecia uma mercearia no fundo da rua e que talvez pudesse conseguir um trabalho nessa loja. Os devotos voluntariaram-se para ajudar de todas as maneiras possiveis. De repente, um devoto chamado Nanda Kishora levantou a sua mão. Ele era muito humilde, aliás como a maior parte dos devotos. Ele citou uma carta de Srila Prabhupada. Todas as cartas de Srila Prabhupada eram aceites como documentos importantes, instrutivos para todos. Sempre que chegava uma carta, todos os devotos se reuniam e o destinatário abria-a e lia-a,  e todos os outros escutavam. Portanto Nanda-Kisora citou uma carta de Srila Prabhupada: “Se sairem em sankirtana todos os vossos problemas serão resolvidos—espiritualmente e materialmente.” Todos concordaram; “Sim, isso é o que devemos fazer.”

No dia seguinte fomos para as ruas cantar—nem sequer tínhamos BTGs para distribuir—e pedíamos doacções às pessoas. Voltámos, contámos o laksmi e vimos que tínhamos amealhado sete dólares. Nessa altura sete dólares era algo substancial. O processo pareceu promissor e decidimos fazer o mesmo no seguinte dia. Saímos à rua, fizemos a mesma coisa, talvez com mais entusiasmo e convicção, regressámos e contámos o laksmi: doze dólares. Pensei, “Isto está a ficar interessante. O que Prabhupada disse é verdade.” Saímos no terceiro dia, regressámos e contámos dezanove dólares.  Então, ficámos sem dúvida alguma de que o que Prabhupada tinha dito era verdade. E começámos a sair todos os dias. “Se cantarem Hare Krsna, todos os vossos problemas serão resolvidos—materialmente e espiritualmente.” Srila Prabhupada tinha essa fé.

Eventualmente mudámo-nos da pequena lojinha do número 95 na Avenida Glenville para uma mansão bastante grande na Rua North Beacon no número 40. Era a primeira propriedade que pertencia à ISKCON, a primeira que os devotos compraram. Srila Prabhupada estava muito entusiasmado e disse que a imprensa deveria mudar de Nova York para Boston. Os devotos começaram a imprimir os livros de Prabhupada e um dos primeiros foi o Fácil Viagem a Outros Planetas. Ele dirigiu todos os aspectos das publicações inclusivé a apresentação dos livros. Ele dava os títulos aos livros e neste caso especifico instruiu-nos sobre o que queria  para a capa: Numa parte deveria aparecer o universo material—o espaço exterior com as diferentes estrelas e planetas—e na outra parte deveria aparecer o céu espiritual com alguns planetas Vaikuntha e, em grande plano, Goloka Vrndavana com Radha e Krsna. Também queria que houvesse um devoto que estivesse a voar no espaço desde o universo material até ao céu espiritual, com dhoti, kurta, sikha e japa mala. A capa deveria retratar o tema do livro sendo que através da bhakti-yoga, através da recitação de japa, poderemos viajar mais além do universo material até ao céu espiritual, até Goloka Vrndavana. O cantar é o nosso bilhete que nos leva de volta a Deus.  Prabhupada ficou muito satisfeito quando, mais tarde, os devotos lhe mostraram a capa. Então disse, “Sim, através das contas.” [risos] Cantar o santo nome é muito poderoso. Srila Prabhupada tinha essa fé.

Depois fomos para a India e, estando lá, Prabhupada surpreendeu-nos. Iniciámos o hari-namasankirtana, como faziamos no Ocidente, mas eventualmente Prabhupada disse-nos para parar. Disse que não deveríamos fazer muito sankirtana na rua, porque na India os mendigos vão para a rua cantar para pedir dinheiro e ele não queria que as pessoas pensassem que éramos mendigos. Ele introduziu o programa de membros vitalícios, dizendo que tinha sido concebido para que se pudesse distribuir os seus livros. Também animou a execução de programas em grandes pandals (tendas muito grandes), a que chamou “Festivais Hare Krsna.” O primeiro foi realizado em Bombaim e o segundo seria em Calcutá. Nessa altura Calcutá estava a ser agitada pelo partido comunista e por um grupo de jovens comunistas chamados Naxalites, cujo programa era aterrorizar pessoas abastadas. Costumavam raptar os filhos das pessoas ricas e exigir grandes somas de dinheiro. Não era incomum dispararem sobre as pessoas ricas na rua e matarem-nas. Era uma situação infernal e algumas pessoas mais ricas dessa altura fugiram de Calcutá para Delhi, e para outros lugares.

Nesta atmosfera Srila Prabhupada queria que organizassemos um grande programa de pandal e enviou Tamal Krishna Goswami e a mim para lá, desde Bombaim. Antes do programa começar, Prabhupada recebeu uma mensagem, “Foge ou morre.” Parecia um grande drama, mas o autor da carta tinha cortado as letras dum jornal, para que ninguém pudesse detectar quem a tinha escrito, colou-as num papel e enviou-a. No dia anterior ao programa tinha havido uma conferência de imprensa e o humor de muitos jornalistas era agressivo. Um deles desafiou Prabhupada, “Qual é o benefício deste programa de pandal? Poderia gastar o dinheiro ajudando as pessoas pobres.” Prabhupada respondeu, “Qual é o benefício? O benefício será  o de ouvir. As pessoas terão a oportunidade de escutar.” E continuou, “Este arranjo monumental  deriva da escuta.  Fui para o Ocidente falar e alguns jovens escutaram-me, e devido a que me escutaram, vieram para cá para instalar este grande programa.” Sempre destemido, Srila Prabhupada persistia na sua missão.

Havia um costume, neste tipo de programas de pandal,  que o chão fosse quase todo coberto com daris (tapetes indianos), e nos lados houvessem cadeiras para os convidados. No nosso pandal as cadeiras estavam reservadas para  os VIPs que tinham sido convidados,  para os membros vitalícios e para todos os que tivessem pago uma rupia. Logo na primeira noite, antes do programa começar, um grupo de Naxalites criou um grande tumulto: “Porque é que  algumas pessoas estão sentadas nas cadeiras e outras têm que se sentar no chão? Todo o mundo deve sentar-se no chão.” Estavam à procura de uma oportunidade para começarem uma briga. Enquanto Prabhupada estava no palco com as deidades e os discípulos, estes Naxalites começaram a gritar e a perturbar de uma forma deliberada. Depois agarraram numas cadeiras e começaram a fazer barulho com elas para acabar com o programa. A atmosfera estava bastante tensa porque estes Naxalites podiam actuar de uma forma inesperada; podiam tornar-se violentos. Não os queríamos agitar ainda mais mas, a menos que parassem, Srila Prabhupada não poderia discursar porque estavam a fazer um grande distúrbio.

Olhávamos todos para Srila Prabhupada—Que é que fazemos? De repente ele inclinou-se para o microfone, e…começou a cantar: “Govindam adi-purusam tam aham bhajami.” Cantou as orações Govindam e de alguma maneira a perturbação chegou ao fim com os jovens a colocarem as cadeiras no chão e a sairem silenciosamente. Pareceu um milagre.

O seguinte programa de pandal foi em Delhi e estando aí, Srila Prabhupada foi convidado para ir a Madras mas já tinha planeado levar os seus discípulos pela primeira vez a Vrndavana. Contudo, ele queria que alguém fosse a Madras, mas ninguém queria ir porque preferiam ir com Prabhupada a Vrndavana. De alguma maneira tive a ideia que o segredo da Consciência de Krsna  estava em seguir a ordem do mestre espiritual e satisfazê-lo, por isso, voluntariei-me.

Em Madras, estive a maior parte do tempo sózinho. Pedia ajuda regularmente, mas era difícil conseguir que os devotos viessem. Nessa altura uma canção tornou-se moda. Nos seus significados, Srila Prabhupada menciona algumas canções de cinema, que são as mais populares na India. O refrão desta canção em particular (e não me lembro de todos as palavras) era “Dam maro dam . . . Hare Krsna Hare Rama. Hare Krsna Hare Rama. Hare Krsna Hare Rama.” Nessa altura, em Madras, não tínhamos nenhum centro por isso ficavamos na casa de diferentes pessoas. Como escutava regularmente esta canção acabei por perguntar ao meu anfitrião qual era a sua tradução. Fiquei sem saber se ele tinha compreendido mal a minha pergunta ou se estava a ser polido mas o que me disse foi, “Por cada respiração, Hare Krsna Hare Rama”—o que parecia muito bonito. [risos] Por algum tempo, ficámos com a impressão que esse era o significado da canção mas,a seu devido tempo, soubemos qual era o verdadeiro significado: “Por cada “passa” que dou, Hare Krsna Hare Rama.”

De Madras fomos para Calcutá, e em Calcutá, o filme que tinha essa canção estava a passar nos cinemas. Na verdade, não sabiamos qual era o conteúdo do filme, mas por essas alturas sempre que o musical ou o filme Hair passava nalgum teatro ou cinema os devotos congregavam-se à frente das salas de espectáculo para fazerem hari-nama-sankirtana e distribuirem livros porque havia uma cena em que se cantava o maha-mantra Hare Krsna completo. Portanto, pensámos, “Oh, o filme Hare Rama Hare Krsna será uma grande oportunidade.” [risos] Então fizemos hari-nama e distribuimos livros no exterior do cinema. Entretanto, quando os espectadores começaram a entrar no cinema pensei, “Vou dar uma vista de olhos só para ficar com uma ideia de que é que o filme trata.” Então, entrei justamente quando o filme estava a começar. Era uma coisa impressionante; um ecrã grande e os amplificadores com o som alto. O filme começou com imagens do oceano, com as ondas do oceano a bater na praia. O narrador com uma voz profunda e ressoante, entoava, “Durante séculos a cultura espiritual da India permaneceu dentro do país, mas um homem. . .”—e mostrava a fotografia de Srila Prabhupada—“levou a cultura espiritual através dos oceanos. Então mostrava o Ratha-yatra de Londres. E, naquele ecrã gigantesco era muito impressionante. Então pensei, “Uau! Isto é incrivel!” Logo a seguir mostrava um grupo de hippies a fumar erva e haxixe e a cantar Hare Krsna Hare Rama. Estavam vestidos tal como os hippies, com rapazes e raparigas misturando-se livremente. Era muito mau—o tema do filme era que Srila Prabhupada estava a degradar a cultura sagrada indiana ao dá-la aos hippies que simplesmente a utilizavam incorrectamente cantando Hare Krsna Hare Rama,  fumando “erva” e fazendo sexo livremente e outras coisas do género.

Foi um golpe baixo. Mais tarde, Srila Prabhupada disse que o governo estava por trás desse filme porque tinham medo que o movimento se tornasse muito popular e queriam que as pessoas não se atraíssem por ele. Os comunistas que estavam no governo também espalharam rumores que pertenciamos à CIA. Foi a mesma situação. Eles sabiam que não eramos da CIA mas espalharam esses rumores porque queriam que as pessoas não adoptassem a consciência de Krsna. Pensavam que a vida espiritual mantinha as pessoas apáticas. Mas na realidade eram eles, que queriam manter as pessoas apáticas. Entretanto, alguns amigos sugeriram que fizessemos uma queixa em tribunal contra Dev Ananda, porque tinha sido ele que tinha escrito, dirigido e actuado no filme. Naquela altura ele era uma grande estrela de cinema e o filme estava completamente identificado com ele. Então um bem-querente perguntou a Srila Prabhupada, “O senhor conhece Dev Anand?” Srila Prabhupada respondeu, “Sim, e eu urino na cara dele.” [risos]

Agora voltamos ao mesmo ponto—a fé de Srila Prabhupada no santo nome.

Prabhupada disse, “A longo prazo este filme vai ajudar-nos porque eventualmente as pessoas esquecerão o dam maro dam e só se lembrarão de Hare Krsna Hare Rama.” E foi o que aconteceu. De Calcutá fui para Bombaim e especialmente os meninos da rua—existem tantos meninos da rua que  ficam nas esquinas a mendigar ou a vender revistas—sempre que nos viam,  cercavam-nos,  punham as mãos junto  à boca como se estivessem a fumar haxixe e cantavam, gozando connosco, “Dam maro dam, dam maro dam . . .” A maior parte das vezes nem chegavam a cantar “Hare Krsna Hare Rama”—só “Dam maro dam.” Era uma praga. Onde quer que fossemos estes pequeninos rodeavam-nos e gozavam connosco: “Dam maro dam.

Esta situação difícil continuou por algum tempo mais. Então, provavelmente depois de uma ano após a música ter surgido—e era extremamente popular—o ênfase mudou. As duas partes—a “Dam maro dam” e a “Hare Krsna Hare Rama”—tornaram-se iguais. Eventualmente, tal como Srila Prabhupada tinha predito, a “Dam maro dam” foi completamente esquecida. Era uma vibração sonora mundana e não tinha nenhum atractivo mas o Hare Krsna Hare Rama era transcendental e sempre fresco. Depois de se terem esquecido do “Dam maro dam” quando  nos viam, as pessoas riam-se e diziam, “Hare Krsna Hare Rama.” E isso aconteceu realmente.

Pouco tempo depois Srila Prabhupada assumiu o projecto de Juhu e essa é toda uma outra história. Depois da primeira estadia e programa de Srila Prabhupada, e enquanto ele e os devotos esperavam na sala reservada aos VIPs no aeoroporto, escutava-se um kirtana tumultuoso com canto e dança extáticos. Prabhupada disse, “Se continuarem a ter kirtanas como este, o nosso projecto será um êxito.”

Mais tarde, alguns devotos imprimiram selos como os dos correios (sem valor postal) com uma fotografia de Radha-Krsna e as palavras Hare Krsna, para serem coladas nos envelopes. Srila Prabhupada escreveu-me, “Estas duas palavras `Hare Krsna,` devem aparecer em todo o lado.”

Noutra altura, Srila Prabhupada estava no terraço de um dos edifícios antigos de habitação que já existiam quando os devotos compraram a propriedade, e um devoto chamado Haridasa  abanicava-o. Às sete horas Prabhupada olhou para o seu relógio e disse, “Haridasa, estás a ouvir o som de kirtana vindo do templo?” Haridasa esforçou-se por ouvir mas não ouviu nada. “Não Srila Prabhupada.” “Não estás a ouvir o som do kirtana vindo do templo?” “Não.” “Essa é a questão,” disse Srila Prabhupada. “Não há kirtana no templo e deveria haver.” Então perguntou a Haridasa, “Onde estão todos os  devotos?”  Haridasa sugeriu que deveriam estar na cidade a coletar e que ainda não teriam regressado. Prabhupada disse, “Essa não era a minha intenção, que os devotos saíssem a colectar todo o dia e noite. Podem sair às nove e voltarem às cinco e depois cantar e dançar diante das deidades. De outro modo tornar-se-ão como os karmis.

De seguida perguntou a Haridasa, “Sabes qual a razão de termos tido êxito e o Sr. Nair não? Nair estava bem estabelecido em Bombaim, enquanto nós eramos completamente novos. Ele era muito rico enquanto nós não tinhamos dinheiro nem receitas regulares. Sendo propietário do Free Press Journal, um dos três jornais diários em Bombaim, e antigo presidente da Câmara, ele conhecia muitas pessoas e era muito influente, enquanto nós não conhecíamos quase ninguém e não tínhamos práticamente nenhuma influência. Mas nós triunfámos e ele não. Porquê?” Então Srila Prabhupada deu a resposta: “Nós actuávamos para agradar a Krsna e ele, para o seu ganho pessoal. E porque tentámos satisfazer a Krsna, Krsna misericordiosamente reciprocou e triunfámos—por Sua graça.

 “Portanto, quando os devotos chegam, devem cantar e dançar diante das Deidades, para o Seu prazer. Ao agradarmos as Deidades, pela misericórdia d´Elas, pela misericórdia de Krsna, triunfaremos—não através da nossa força e esforço independentes.” Realmente, Srila Prabhupada tinha essa fé em Krsna, no santo nome, nas Deidades—que se cantarmos sinceramente para agradar Krsna, Krsna ficará satisfeito e triunfaremos.

O ultimo episódio que contarei, aconteceu no final quando Srila Prabhupada  já estava bastante doente, em 1977. Srila Prabhupada tinha um devoto fiel, Sri P. L. Sethi—assim como Hanuman está para Rama ele estava para Prabhupada. Ele era completamente dedicado e tinha muita fé. Antes de se  encontrar com Prabhupada estava associado a um grupo que se chamava Radha Madhava Prema Sudha Sankirtana Mandala. Eles cantavam o maha-mantra Hare Krsna e o guru deles vivia em Vrndavana. Aqueles que viviam em Bombaim eram todos casados. A cada Domingo faziam um akhanda-hari-nama-sankirtana de doze horas, um kirtana contínuo e sem paragens desde as seis da manhã até às seis da tarde, seguido de duas horas de canções de Vraja.

Então o Sr. Sethi deu a sugestão de em vez de fazer o kirtana na casa de um dos devotos, como   era costume, porque não fazê-lo em Hare Krsna Land. Fizemos então o arranjo diante das Deidades no templo pequeno, ao lado do novo complexo que estava nos  últimos pormenores de finalização, justamente debaixo das acomodações novas de Srila Prabhupada. Apesar da construção ainda não estar acabada e o elevador não funcionar Srila Prabhupada insistiu em ficar lá. Doente como estava,  escutava o kirtana ora reclinado ora deitado. Estes devotos que estavam no templo queriam vê-lo mas eram muitos e Srila Prabhupada não estava com forças para descer e também seria uma grande imposição encontrar-se com todos eles.

A uma certa altura ficaram tão impacientes que sairam do templo e fizeram o kirtana debaixo da varanda de Prabhupada. Finalmente o Sr Sethi ajudou Prabhupada a caminhar até à varanda e Prabhupada lançou o olhar sobre eles.  Estavam em êxtase. Ficou lá por algum tempo e depois voltou para dentro. Um dos pontos altos aconteceu quando uma senhora começou a cantar, “Jaya radhe jaya radhe radhe, jaya radhe jaya sri radhe. Jaya krsna . . .” Mais tarde o Sr. Sethi informou-nos que enquanto Srila Prabhupada escutava aquela canção, lágrimas rolavam pela sua cara.

No dia seguinte subi para ver Srila Prabhupada. “Aquele kirtana foi maravilhoso,” disse ele. “Devemos convidar a todo o grupo para que venham viver connosco em Hare Krsna Land. Diz a todos que cuidaremos deles. Não precisam de trabalhar. A única coisa que têm que fazer é kirtana continuo.” Fiquei sem saber o que fazer. [risos]Então ele disse, “Pelo menos os nossos devotos devem fazer kirtana doze horas ao dia; das seis da manhã até às seis da tarde.” Tínhamos sido instruídos por Srila Prabhupada no sentido de servir e expandir a missão e em Juhu estavamos verdadeiramente atarefados na finalização do templo e nas preparações para a abertura oficial. Não conseguia imaginar os devotos cantando doze horas cada dia no templo. Por isso, disse, “Srila Prabhupada temos tanto serviço para fazer. Como podemos fazer tudo isso?” Então Prabhupada disse, “Está bem, mas pelo menos uma vez por semana, aos Domingos.” Quando Prabhupada falou daquela maneira eu disse, “Sim,” porque me senti aliviado—só um dia, doze horas. Mais tarde, Tamal Krishna Goswami comentou que Srila Prabhupada tinha feito um regateio transcendental. Se ele tivesse começado com, “Doze horas cada Domingo,” poderíamos ter argumentado, “Oh, isso é muito. Talvez quatro horas.” Mas como ele começou com doze horas cada dia e sete dias na semana, quando finalmente disse doze horas, um dia à semana, ficámos aliviados. “Oh sim, isso podemos fazer .” [risos]

A partir daí fazíamos um kirtana contínuo de doze horas. E acontecia justamente o que Prabhupada tinha dito—que todos os problemas seriam resolvidos, materialmente e espiritualmente. Eu era o presidente do templo e tinha que lidar com muitos problemas. Tinhamos que construir o complexo do templo, tratar com as autoridades civis, organizar os programas do templo, cuidar dos devotos e também sobreviver na India, com todas as doenças e dificuldades. Quando os devotos se aproximavam de mim na Segunda, Terça e por vezes na Quarta-feira, eu tratava dos problemas. Mas quando chegava a Quinta-feira, já estávamos nas proximidades do hari-nama de doze horas e sabia—e aconteceu sempre, sem falhar—todos os problemas seriam resolvidos. Ou o problema se resolvia automáticamente ou então o devoto realizava que o suposto problema não era verdadeiramente um problema ou então tinha alguma compreensão ou inspiração de como lidar com ele. Portanto, a partir de Quinta-feira costumava dizer, “Está bem, dá-me uns dias para pensar sobre o tema,” [risos]mas eu sabia, “Vamos esperar até Domingo—faremos o kirtana de doze horas—e o assunto ficará resolvido.” E acontecia constantemente. Era verdadeiramente maravilhoso.  Esse era o sentimento e convicção de Srila Prabhupada. Desta maneira, devemos entregar-nos plenamente ao processo, satisfazer a Krsna através do nosso cantar. Na verdade, qualquer coisa que façamos deve estar impregnado com o sentimento de satisfazer ao guru e a Krsna.

Por isso, se cantamos Hare Krsna sinceramente, Krsna fica satisfeito, e através da Sua satisfação e misericórdia seremos bem sucedidos em todos os aspectos. Desde o inicio eu pensava, “Prabhupada está a escutar o meu canto, por isso, devo cantar bem para que ele fique satisfeito.” Na equipa de Radha-Damodara, Visnujana tinha uma fotografia muito grande com a orelha de Srila Prabhupada e ele cantava com essa ideia que Srila Prabhupada escutava o canto do seu japa; ele cantava para satisfazer a Srila Prabhupada. Por isso, todos estes temas vão de mãos dadas: serviço ao guru, serviço ao santo nome, cantar o santo nome, satisfazer a Krsna, satisfazer a Srila Prabhupada e ser bem sucedido—materialmente e espiritualmente.

Hare Krsna.

Written by nityananda108

Agosto 14, 2009 at 10:20 am

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Maratona de Dezembro

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Mensagem da Maratona de Dezembro

“Podem Acontecer Milagres”
Por Giriraja Swami

prabhupadagita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No decurso de servir ao mestre spiritual, a Srila Prabhupada, somos
colocados em situações que não são muito congeniais com o nosso conforto
material. Invariavelmente, nessas situações, sentimos mais profundamente
essa união com o mestre espiritual e,  dessa maneira, sentimo-nos ainda mais
extáticos em consciência de Krsna do que quando estamos em situações
confortáveis.

Ao fazer algo materialmente dificil ou desagradável, podemos sentir-nos mais
unidos com o mestre espiritual. Sua Santidade Sacinandana Swami deu uma
palestra maravilhosa na qual explicava que, quando uma pessoa recebe uma
ordem do mestre espiritual e tenta executá-la, acontecem coisas
maravilhosas. Krsna, ajuda. No seu livro A Arte da Transformação,
Sacinandana Swami escreve, ” Devemos fazer algo extra para Krsna, enquanto
executamos serviço devocional. Devemos aceitar alguns riscos e afastar-nos
da nossa lokika-sraddha, dessa sraddha mundana baseada na experiência
sensorial e naquilo que as pessoas possam dizer. Se confiarmos nas
escrituras, poderemos ver milagres acontecerem à nossa volta. Quero
partilhar convosco um desses milagres. Os devotos disseram-me, `Sai e
distribui livros!´ Pensei`Não, esse serviço não, por favor, qualquer outro
serviço está bem,  mas não esse serviço. Sou um devoto muito jovem,e  um
pouco sensível. Não posso ir ter com esses tigres e leões da rua.´ Os devotos
disseram, `Não, não, tem um pouco de fé. Por te renderes a Ele, Krsna
dar-te-á tudo o que precisares e manterá tudo o que tiveres.´ E eu
segui-lhes o conselho. Distribui livros e Krsna ajudou.”

Existem muitos devotos, em diferentes partes do mundo, que aceitam riscos
para expandir o movimento da consciência de Krsna. E muitos desses países
não são nada favoraveis a esta missão. Contudo, os devotos aproximam-se a
muitas pessoas que, de outra forma, não teriam possibilidade de conhecer
este processo-bhakti-yoga-e animam-nas a cantar os santos do Senhor Krsna. E
muitas delas tornam-se krsna-bhaktas. Podemos ver que os devotos aceitam
riscos às custas do seu conforto pessoal-e até arriscam  as suas próprias
vidas. Estas coisas acontecem. Se aceitarmos a missão do mestre espiritual dentro
do nosso coração e aceitamos riscos para essa missão, Krsna ajudará de
maneiras maravilhosas e inesperadas.

E Krsna provê. Amoghalila Prabhu, o meu irmão espiritual, foi um brahmacari
durante muitos anos que depois se casou. Ele conseguiu um doutoramento e,
durante dois ou três anos, trabalhou como professor adjunto. Aos
fins-de-semana saía a distribuir livros; esse ânimo esteve sempre com ele.
Ele distribuiu livros desde o seus primeiros dias como brahmacari.
Sempre teve muito entusiasmo para a distribuição de livros e rapidamente
apercebeu-se que podia manter a sua familia através da dedicação plena à
distribuição de livros. E gostava muito mais da distribuição de livros.
Finalmente tomou a decisão, “Vou acabar com este assunto de ser professor e
distribuir livros integralmente.” Nos primeiros momentos a esposa ficou um
pouco céptica, porque achava que essa actividade não era muito dignificante
mas quando se apercebeu que a familia não experimentava desconfortos, acabou
por aceitar. E Amoghalila está sempre inspirado e animado porque está sempre
a distribuir livros e a pregar.

Portanto, meus queridos devotos, durante esta maratona de Dezembro, devemos
fazer o esforço por sair das nossas zonas de conforto e arriscar-nos um
pouquinho para distribuir estes livros. Vamos tão só arriscar-nos um
pouquinho por Srila Prabhupada e Sri Caitanya Mahaprabhu, e veremos que os
resultados serão completamente auspiciosos e gloriosos.

Muitíssimo obrigado.
Hare Krsna

Written by nityananda108

Dezembro 29, 2008 at 6:58 pm

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Gita Jayanti

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ka1_163 

Instruções para a Nossa Vida-do Bhagavad-gita
Uma palestra dada por Giriraj Swami
Gita Jayanti
Dezembro 20, 2007
Juhu, Mumbai

 

Hoje é a data auspiciosa do Gita Jayanti, o dia em que o Senhor Krsna falou
o Bhagavad-gita a Arjuna no campo de batalha de Kuruksetra, no dia de
Moksada Ekadasi. Para começar, leremos dois versos do Gita que nos darão
algumas instruções para as nossas vidas.

Lemos do Bhagavad-gita Tal Como Ele É, Capítulo Nove: “O Conhecimento Mais
Confidencial.”

VERSO 30

api cet su-duracaro
bhajate mam ananya-bhak
sadhur eva sa mantavyah
samyag vyavasito hi sah

SINÓNIMOS

api-mesmo; cet-se; su-duracarah-uma pessoa que cometa as acções mais
abomináveis; bhajate-está ocupada em service devocional; mam-a Mim;
ananya-bhak-sem desvio; sadhuh-um santo; eva-decerto; sah-ele;
mantavyah-deve ser considerado; samyak-completamente; vyavasitah-situado em
determinação; hi-decerto; sah-ele.

TRADUÇÃO

Mesmo que alguém cometa as acções mais abomináveis, se estiver ocupado no
serviço devocional, deve ser considerado santo, porque está devidamente
situado em sua determinação.

SIGNIFICADO por Srila Prabhupada

A palavra su-duracara usada neste versoé muito significativa e devemos
compreendê-la apropriadamente. Quando é condicionada,  a entidade viva tem
duas espécies de actividades: uma é condicional e a outra, constitucional.
Quanto à protecção do corpo ou ao acatamento às leis da sociedade e do
Estado, concerteza há diferentes actividades relativas à vida condicional,
mesmo para os devotos, e essas actividades chamam-se condicionais. Além
destas, a entidade viva que está plenamente consciente de sua natureza
espiritual e se ocupa em consciência de Krsna, ou no serviço devocional ao
Senhor, realiza actividades que se denominam transcendentais. Essas
actividades são executadas em sua posição constitucional, e chamam-se
tecnicamente serviço devocional.

COMENTÁRIO por Giriraj Swami

Aqui Srila Prabhupada explica, seguindo a ideia de Srila Bhaktivinoda
Thakura, que os devotos ao viverem neste mundo material, também devem levar
a cabo actividades relacionadas com a existência material, nomeadamente em
relação com a sociedade, governo, etc. Tais actividades não podem ser
evitadas porque estamos neste mundo material. Temos que viver em sociedade,
viver num determinado país. No grhastha-asrama tem que se ter um trabalho,
pagar impostos. Tem que se fazer muitas coisas, que são executadas no mundo
material. Quando formos para o mundo espiritual não precisamos de ir para um
escritório,  pagar os impostos ou executar funções sociais.

E existem actividades que começam com sravanam kirtanam visnoh smaranam que
são executadas tanto aqui como no mundo espiritual. Ouvimos acerca de Krsna.
Cantamos sobre Krsna e lembramos-nos de Krsna. Quando formos para o mundo
espiritual ocupar-nos-emos nessas mesmas actividades.

Srila Prabhupada continua:

SIGNIFICADO (continuação)

Acontece que, no estado condicionado, às vezes o serviço devocional e o
serviço condicionado ao corpo andam lado a lado. Mas nesse caso também, às
vezes essas actividades opõem-se umas às outras. Na medida do possivel, o
devoto tem muita cautela em não fazer nada que possa abalar a sua condição
saudável.

COMENTÁRIO

Por exemplo, uma pessoa está ocupada num tipo particular de trabalho, nalgum
negócio, e para cumprir com o seu negócio tem que se associar com
não-devotos. No sastra, a associação com os não-devotos é desencorajada e a
associação intima com eles é proibida. Entretanto,  devido a que ela tem que
ganhar a sua vida,  tem que se associar com todo o tipo de pessoas e essa
associação contamina. Isto é para dar um exemplo de quando as actividades
condicionais são opostas às constitucionais. Se a pessoa é afortunada, o seu
trabalho será executado na associação dos devotos. Na verdade, Srila
Prabhupada animava os devotos a abrirem negócios onde pudessem ocupar outros
devotos, para que não tivessem que se associar extensivamente com os
não-devotos. Melhor do que isso é viver numa comunidade auto-suficiente de
devotos. Assim, não temos que ir em absoluto, para um escritório ou para uma
loja. Não precisamos de interagir muito com o mundo material. Produzimos o
nosso alimento, protegemos as vacas, obtemos o leite e deste modo dependemos
da natureza e das vacas. Não precisamos de nos envolver com a civilização
materialista.

Por vezes, as actividades condicionais vão paralelas às actividades
constitucionais e por vezes são opostas, e o devoto é muito cauteloso em não
fazer nada que abale a sua condição saudável. Por outras palavras, ele é
consciente que tem que interagir, no decurso de seu trabalho e de uma forma
ou de outra, com pessoas materialistas mas é muito cuidadoso em não se
relacionar mais além de um certo limite , porque se o ultrapassa, a
associação dessas pessoas afectará a sua consciência de Krsna e abalará a
sua condição saudável.

SIGNIFICADO (continuação)

Ele sabe que a perfeição das suas actividades depende da sua progressiva
realização na consciência de Krsna. Entretanto, às vezes pode-se ver que um
devoto consciente de Krsna comete algum acto que social ou politicamente é
tido como abominável. Mas essa queda passageira não o desqualifica. No
Srimad-Bhagavatam, afirma-se que se alguém cai mas está sinceramente ocupado
no serviço transcendental ao Senhor Supremo, o Senhor, estando situado em
seu coração, purifica-o e perdoa tal abominação. A contaminação material é
tão forte que mesmo um yogi plenamente ocupado no serviço do Senhor às vezes
cai na armadilha. Porém, a consciência de Krsna é tão forte que essa queda
ocasional é corrigida de imediato. Por isso, o processo do serviço
devocional é sempre um sucesso. Ninguém deve zombar de um devoto que
acidentalmente se afastou do caminho ideal, pois, como se explica no próximo
verso, essas quedas ocasionais cessarão no seu devido tempo, logo que ele se
situar em completa consciência de Krsna.

COMENTÁRIO

Estes dois versos dão-nos dois tipos de instruções-a primeira é sobre o que
acontece com o devoto que cai e a outra é sobre como os outros devem ver o
devoto que cai.

Se o devoto que cai está plenamente ocupado em serviço devocional…
Qual o significado de “plenamente ocupado”? Já dissemos que enquanto o
devoto está no mundo material, tem que executar algumas actividades
condicionais, caso contrário estaria plenamente ocupado em serviço
devocional. Ele utiliza o tempo dsponível para cantar e escutar sobre Krsna,
lembrar-se d´Ele e servi-Lo de diferentes maneiras. Tal pessoa deve ser
considerada santa mesmo que tenha uma queda. Geralmente a queda involve o
deslize para a actividade pecaminosa. Entretanto zombar de um devoto aparece
noutra categoria que é pior que o pecado. Aparece na categoria de aparadha,
vaisnava-aparadha. Vaisnava-aparadha é muito pior que a queda na actividade
pecaminosa e por tais ofensas o nosso serviço devocional pode ser
severamente perturbado.

Vemos uma falta num devoto e escarnecemos  dele. Falamos dele ou dela de uma
forma negativa. Tais actos caem na categoria de nama-aparadha, sadhu-ninda,
vaisnava-aparadha. Isso é muito mais sério e prejudicial que um deslize na
gratificação dos sentidos. Podemos pensar que somos superiores-“Oh, esse
devoto caiu na gratificação dos sentidos, fracassou em dar o bom exemplo”-e
criticar o devoto, mas essa critica ao devoto pode ser mais séria que o
fracasso do devoto em actuar apropriadamente. E constantemente incorremos na
mesma critica. Por isso não fazemos muito progresso. Constantemente
encontramos defeitos nos devotos, criticamos os devotos, por isso, apesar de
cantarmos as voltas, de lermos o Bhagavad-gita, de irmos ao templo, de
fazermos serviço, porque depreciamos constantemente os devotos, mesmo que
casualmente-até pode ser que o façamos sem estar conscientes-não
progredimos. Pode até acontecer perdermos a nossa posição em serviço
devocional. Portanto, esta é uma lição muito importante do Srimad
Bhagavad-gita.

SIGNIFICADO (continuação)

Portanto, quem está  em consciência de Krsna e se ocupa com determinação no
processo de cantar Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare, Hare
Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare deve ser considerado como estando na
posição transcendental, mesmo que ele pareça ter caído por acaso ou
acidentalmente. As palavras sadhur eva “ele é santo” são muito enfáticas.
Elas são uma advertência aos não-devotos .  .  .

COMENTÁRIO

É normal que os não-devotos zombem dos devotos. Mas os verdadeiros devotos,
os verdadeiros Vaisnavas, apreciam os outros devotos mesmo que esses
devotos, casualmente, dêem um passo em falso. Infelizmente os devotos
neófitos têm algumas caracteristicas em comum com os não-devotos, por isso,
por vezes também criticam. Mas é normal que os não-devotos façam isso, por
isso Srila Prabhupada explica que este aviso é para eles.

SIGNIFICADO (continuação)

Elas são uma advertência aos não-devotos, para que não zombem de um devoto
por ter tido uma queda acidental; ele ainda deve ser considerado santo,
mesmo que tenha acidentalmente caído.

COMENTÁRIO

Esta expressão, “devoto neófito” é frequentemente expressa em sânscrito como
bhakta-praya, “quase um devoto,” porque os neófitos estão na plataforma
material. Eles cantam e tentam progredir, mas porque estão na plataforma
material não são considerados, no sentido estrito da palavra, verdadeiros
devotos. A partir da minha perspectiva, sendo um devoto introspectivo,
quando leio estas coisas devo pensar, “Oh, sou como um não devoto.” Mas os
outros, desde a sua perspectiva, não devem cair nessa noção de “eles são
bhakta-prayas, quase devotos; não são verdadeiros devotos, por isso posso
criticá-los,” porque os neófitos, apesar de estarem mais ou menos na
plataforma material, se estão ocupados no processo da bhakti-yoga, entram na
categoria de sadhu. Devem ser considerados santos. Ridicularizá-los é uma
ofensa. Por isso, devemos ser cautelosos.

Internamente, devemos sentir que não somos devotos. É irónico, mas são os
neófitos que pensam que são devotos, bons devotos; e são os devotos
avançados que sentem que não são devotos. Tomemos o exemplo de Caitanya
Mahaprabhu. Ele disse que não tinha nem sequer uma gota de amor por Krsna.
Ele chorava de dia e de noite por Krsna, com o sentimento de Radharani em
separação de Krsna, mas dizia, ” Não tenho nenhuma gota de amor por Krsna.”
“Porquê? Estás sempre a chorar por Krsna.” “Isso é só uma exibição, para
impressionar os outros. Se realmente eu tivesse amor por Krsna não
continuaria a viver. O facto de Eu viver sem Ele, prova que não tenho amor
por Ele.” Portanto, quando alguém está no estágio mais elevado,
maha-bhagavata-claro está que Caitanya Mahaprabhu era mais que isso-ele
sente que não é um devoto e vê que todos os outros são devotos. E o neófito
pensa, “Oh, eu sou um devoto. Os outros, não são verdadeiramente devotos.”
Eles pensam que são devotos e que os outros não  são. Pensam que estão a
seguir o processo adequadamente, enquanto que os outros não. Temos que
ultrapassar este estágio. Para tal temos as instruções do Bhagavad-gita que
servem para elevar-nos.

SIGNIFICADO (continuação)

Elas são uma advertência aos não-devotos, para que não zombem de um devoto
por ter tido uma queda acidental; ele ainda deve ser considerado santo,
mesmo que tenha acidentalmente caído. E a palvra mantavyah dá ainda maior
ênfase. Se a pessoa não seguir esta regra e zombar da queda acidental do
devoto, então, estará desobedecendo à ordem do Senhor Supremo. A única
qualificação do devoto é estar firme e exclusivamente ocupado em serviço
devocional.

COMENTÁRIO

O Sri Caitanya-caritamrta, que tem como base o Srimad-Bhagavatam e o
Bhagavad-gita, enumera as vinte e seis qualidades de um devoto, e uma delas
é krsna-eka-sarana, “rendição exclusiva a Krsna.” Isto é o que o
Bhagavad-gita quer dizer aqui com bhajate mam ananya-bhak, “ocupado em
serviço devocional sem nenhum desvio.” Srila Prabhupada explica no
significado, “A única qualificação de um devoto é estar firme e
exclusivamente ocupado em serviço devocional.” Isso é krsna-eka-sarana. Essa
é a única qualificação. E em relação com as outras vinte e cinco? Mesmo que
ele não tenha as outras vinte e cinco qualidades, se tiver esta qualificação
especifica krsna-eka-sarana, é considerado um devoto. E se alguém tiver as
vinte e cinco mas não tiver esta qualidade de estar única e exclusivamente
ocupado em serviço devocional,  não é considerado um devoto mesmo que tenha
todas as outras qualidades. Por exemplo, uma das qualidades de um devoto é a
humildade mas,  se vemos que um devoto não a tenha não devemos concluir,
“Oh, este devoto não é humilde; esta pessoa não é humilde portanto não é um
devoto.” Se ela está plena e exclusivamente ocupada no serviço do Senhor é
um devoto. Pode ser que ainda não tenha essa qualidade-aparecerá à medida
que pratica o processo-mas se pensarmos, “Oh, ele não é humilde, não me
prestou respeitos. Não é um devoto”,  estamos a cometer uma ofensa.

SIGNIFICADO (continuação)

No Nrsimha Purana, há a seguinte afirmação:

bhagavati ca harav ananya-ceta
bhrsa-malino ‘pi virajate manusyah
na hi sasa-kalusa-cchabih kadacit
timira-parabhavatam upaiti candrah

O significado é que mesmo que alguém ocupado por completo no serviço
devocional do Senhor, às vezes cometa actos abomináveis, tal atitude deve
ser considerada como as manchas da Lua, que se assemelham à forma de um
coelho. Essas manchas não impedem a difusão do luar. Da mesma forma, o facto
de um devoto acidentalmente sair do caminho do carácter santo, não o torna
abominável.

COMENTÁRIO

Podemos ver que a Lua tem umas marcas que parecem ser as de um coelho, mas
ninguém a critica por ter essas marcas. E o luar refrescante e suavizante
não é obstruído pelas marcas. De igual modo, um devoto que esteja plenamente
ocupado no serviço do Senhor em bem-aventurança transcendental, não é
obstruído por uma queda acidental. Teve uma queda, mas continua plenamente
ocupado no serviço do Senhor. E se lhe apontamos faltas, criamos obstáculos
no nosso próprio caminho.

SIGNIFICADO (continuação)

Por outro lado, não se deve interpretar que um devoto em serviço devocional
transcendental pode agir de todas as maneiras abomináveis; este verso
refere-se apenas a um acidente devido ao forte poder das ligações materiais.

COMENTÁRIO

Por outras palavras, se alguém pensa, “Eu sou um devoto-estou a cantar Hare
Krsna-posso fazer qualquer tolice que não vou sofrer a reacção,” essa é
outra ofensa, nama-aparadha, pecar apoiado no cantar (namno balad yasya hi
pap- buddhir). Um devoto pode ter uma queda acidental mas arrepende-se por
isso. Ele arrepende-se fortemente e determina-se a ter mais cuidado no
futuro. E ele faz tudo o que for necessário para se proteger de uma outra
queda. E tal como Srila Prabhupada explica,mesmo assim ele pode cair de
novo.

SIGNIFICADO (conclusão)

O serviço devocional é mais ou menos uma  declaração de guerra contra a
energia ilusória. Enquanto não se for bastante forte para combater a energia
ilusória, poderá haver quedas acidentais. Mas quando o devoto é
suficientemente forte, ele deixa de se sujeitar a essas quedas, como já se
explicou. Ninguém deve aproveitar-se deste verso para cometer tolices e
achar que continua sendo um devoto. Se, com o serviço devocional, ele não
melhorar o seu carácter, então, deve-se entender que ele não é  um devoto
elevado.

COMENTÁRIO

De novo, existem dois pontos de vista. O devoto que tem uma queda deve
arrepender-se e esforçar-se tudo o que puder para se retificar e evitar mais
quedas. E a pessoa que o observa deve ponderar, “Ele é um santo. Está
ocupado em serviço devocional. O próprio Krsna diz que ele deve ser visto
como um sadhu. Se o menosprezo vou contra a instrução de Krsna e arruino a
minha vida espiritual ao ocupar-me em sadhu-ninda. Menosprezá-lo é
sadhu-ninda, nama-aparadha. Isso é pior que cair na gratificação dos
sentidos.”

No significado, Srila Prabhupada refere-se ao seguinte verso, que vamos ler
agora.

VERSO 31

ksipram bhavati dharmatma
sasvac-chantim nigacchati
kaunteya pratijanihi
na me bhaktah pranasyati

TRADUÇÃO

“Ele rapidamente se torna virtuoso e alcança a paz duradoura. Ó filho de
Kunti, declara ousadamente que o Meu devoto jamais perece.”

SIGNIFICADO de Srila Prabhupada

Ninguém deve distorcer o significado disto. No Sétimo Capítulo, o Senhor diz
que quem se ocupa em actividades perversas não pode tornar-se devoto do
Senhor. Quem não é devoto do Senhor não tem boa qualificação de espécie
alguma. Fica, então, a pergunta. Como pode alguém acidental ou
deliberadamente ocupado em actividades abomináveis ser um devoto puro? É
justo que se levante essa questão.

COMENTÁRIO

Agora chegámos à resposta.

SIGNIFICADO (continuação)

Os malfeitores, como foi declarado no Sétimo Capítulo, que nunca ingressam
no serviço devocional ao Senhor, não têm boas qualificações, como se afirma
no Srimad-Bhagavatam.

COMENTÁRIO

Como está explicado no Srimad-Bhagavatam (5.18.12) harav abhaktasya kuto
mahad-guna: alguém que não seja um devoto não tem boas qualidades. Porquê?
Manorathenasati dhavato bahih: está na plataforma mental-não na plataforma
espiritual-e está obrigado a  atraír-se pela energia externa do Senhor. Por
isso pode cair a qualquer momento. Srila Prabhupada comparou os
especuladores mentais-especialmente os Mayavadis-aos abutres. Os abutres
voam muito alto no céu mas ao verem um pedaço de carne podre no chão, descem
rapidamente para a comerem. De igual modo, os Mayavadis podem voar muito
alto nas suas especulações mentais mas logo que têm uma oportunidade para
gratificar os sentidos, descem rapidamente como os abutres. Portanto, a
posição dos não-devotos, dos infiéis, é diferente da dos devotos-mesmo
daqueles que caem.

SIGNIFICADO (continuação)

Em geral, um devoto que esteja ocupado nos nove tipos de actividades
devocionais, dedica-se ao processo que consiste em tirar do coração, toda a
contaminação material. Ele coloca a Suprema Personalidade de Deus dentro do
seu coração, e todas as contaminações são naturalmente eliminadas.

COMENTÁRIO

Como é que ele coloca a Suprema Personalidade de Deus no coração? Através de
sravanam kirtanam visnoh smaranam, cantar e escutar os santos nomes e
glórias do Senhor Krsna. Quando alguém faz isso, Krsna, na forma de som
transcendental entra no coração e limpa-o da contaminação material.

srnvatam sva-kathah krsnah
punya-sravana-kirtanah
hrdy antah stho hy abhadrani
vidhunoti suhrt satam

“Sri Krsna,a Personalidade de Deus, que é o Paramatma [Superalma] nos
corações de todos e o benfeitor do devoto veraz, limpa o desejo,  pelo
desfrute material, do coração do devoto que desenvolveu um desejo ardente
por escutar as Suas mensagens, que por si só são virtuosas quando
apropriadamente escutadas e cantadas.” (SB 1.2.17)

Escutar krsna-katha (srnvatam sva-kathah krsnah) é por si só uma actividade
piedosa (punya-sravana-kirtanah), e por tal escuta e canto, as coisas sujas
(abhadra) dentro do coração são limpas (vidhunoti). O próprio Krsna actua
limpando o coração do devoto ávido que escuta e canta as Suas mensagens.
Ceto-darpana-marjanam. Através do sri-krsna-sankirtana, o canto das glórias
do Senhor Krsna, o pó é limpo do espelho da mente. Este é o processo.

SIGNIFICADO (continuação)

Ele coloca a Suprema Personalidade de Deus dentro de seu coração, e todas as
contaminações são naturalmente eliminadas. O pensamento contínuo no Senhor
Supremo torna-o puro por natureza.

COMENTÁRIO

O nosso processo é este-sravanam kirtanam visnoh smaranam. Essa é também a
consciência de Krsna, pensar sempre em Krsna. Só por pensar em Krsna o
coração fica limpo e a mente é purificada, porque Krsna é plenamente puro.
Ele é tal com o sol; a Sua presença erradica toda a escuridão.

krsna-surya-sama; maya haya andhakara
yahan krsna, tahan nahi mayara adhikara

“Krsna é comparado com o brilho do sol e maya com a escuridão. Onde haja
brilho solar, não pode haver escuridão. Logo que adoptemos a consciência de
Krsna, a escuridão da ilusão (a influência da energia externa) dissipar-se-á
imediatamente.” (Cc Madhya 22.31)

Krsna é a luz, e maya é a escuridão. Onde quer que haja Krsna-o brilho da
consciência de Krsna-não existe maya-nenhuma escuridão. Portanto, não
precisamos de fazer nenhuma tentativa para afastar maya  separadamente. Só
temos que chamar por Krsna e maya ir-se-á embora automáticamente. Quando o
sol se manifesta, a escuridão desaparece automáticamente. Similarmente,
quando o sol do santo nome de Krsna se manifesta, a escuridão das
actividades pecaminosas, os anarthas, e as ofensas desaparecem.

amhah samharad akhilam sakrd
udayad eva sakala-lokasya
taranir iva timira-jaladhim
jayati jagan-mangalam harer nama

“Assim como o aparecer do sol dissipa imediatamente a escuridão do mundo,
que é tão profunda como um oceano, também o santo nome do Senhor, se cantado
uma só vez sem ofensas, dissipa todas as reacções da vida pecaminosa de um
ser vivo. Todas as glórias ao santo nome do Senhor que é auspicioso para o
mundo inteiro.”  (Padyavali 16, citado no Cc Antya 3.181)

SIGNIFICADO (continuação)

Segundo  os Vedas, há uma certa regulação de que, se alguém cai de uma
posição elevada, deve submeter-se a determinados processos ritualisticos
para se purificar.

COMENTÁRIO

Isto é chamado prayascitta-para um determinado pecado existe uma expiação
especifica. Se cometemos um pecado, devemos executar uma expiação que nos
liberta da reacção.

SIGNIFICADO (continuação)

Mas aqui não se impõe esta condição, pois o processo  purificador já está no
coração do devoto, devido à sua constante lembrança da Suprema Personalidade
de Deus.

COMENTÁRIO

Prayascitta, que está na categoria de karma-kanda, é inferior à bhakti-yoga.
Considera-se uma espécie de queda, se um devoto se ocupa nessa actividade
ritualista. O verdadeiro processo de purificação é sravanam kirtanam visnoh
smaranam. Se o devoto cai acidentalmente, só tem que continuar o processo,
que limpa o coração e liberta o devoto de toda a contaminação.

SIGNIFICADO (conclusão)

Portanto, o canto de Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare
Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, deve continuar sem interrupção. Isso
protegerá o devoto de todas as quedas acidentais. Assim, ele permanecerá
perpetuamente livre de todas as contaminações materiais.

COMENTÁRIO

Este é o nosso processo e se o devoto persevera, deve ser considerado santo
(sadhur eva sa mantavyah). Não devemos menosprezá-lo.

Um tópico que está relacionado com este é kutinati, procurar defeitos, que
por vezes é associado a jiva-himsa, inveja de outros seres vivos. A inveja e
o procurar defeitos vão juntos. Somos invejosos de alguém  e então
encontramos defeitos. Procuramos alguma oportunidade para criticar. E a
natureza de toda a alma condicionada é ser invejosa. Na verdade é a inveja
que nos trouxe  a este mundo material e que nos mantém aqui. Por isso a
inveja deve ser abandonada.

Outras coisas, como a luxúria a ira e a cobiça, podem ser utilizadas no
serviço do Senhor mas não a inveja. A inveja tem que ser descartada. Claro
está,  que o processo de escutar e cantar está feito para limpar o coração
da inveja, mas ao mesmo tempo devemos entender que procurar defeitos está
proibido. Apesar de termos um sentimento invejoso, devemos compreeender que
esse é o nosso defeito; o sentir inveja é um defeito nosso. Devemos
ponderar, “A inveja é como um demónio horrivel que entrou no meu coração.
Tenho que o subjugar por todos os meios.” Devemos evitar procurar defeitos
porque é um anartha e pode levar-nos a cometer ofensas.

Por vezes,  não sabemos o que vai realmente no coração de uma outra pessoa,
se a pessoa em causa está errada ou não. Certa vez, quando havia muita
crítica num templo específico, os devotos informaram Srila Prabhupada que
respondeu contando uma história das escrituras sobre um brahmana e uma
prostituta. De um lado da rua vivia um brahmana e do outro uma prostituta. O
brahmana sentava-se sempre de frente para a sua janela com o Bhagavad-gita
e, do outro lado da rua, a prostituta fazia o seu papel de prostituta.
Devido a uma calamidade, o brahmana e a prostituta morreram simultâneamente,
e tanto os Yamadutas quanto os Visnudutas apareceram no local. Os Visnudutas
vieram buscar a alma da prostituta e os Yamadutas vieram buscar a alma do
brahmana. O brahmana protestou, “Alto lá, vocês estão a cometer um erro.
Vocês vieram para levar a prostituta e os Visnudutas vieram para me levar.
Mas os Yamadutas responderam, “Não, não estamos errados. Todo o tempo que
estiveste sentado com o Bhagavad-gita à tua frente, olhavas pela janela para
a casa da prostituta e pensavas, “Oh, agora chegou um cliente. Agora estão a
fazer isto, e agora aquilo.” Dentro da tua mente, pensavas naquilo que ela
estava a fazer e devido à tua consciência estás apto para ser levado diante
de Yamaraja para seres castigado. A prostituta, apesar de estar ocupada na
sua profissão, olhava pela janela e pensava, “Oh, esse brahmana piedoso está
a ler o Bhagavad-gita. Quem me dera poder passar o meu tempo a ler o
Bhagavad-gita. Deste modo ela pensava em Krsna e Arjuna, na batalha de
Kuruksetra e em todas as maravilhosas instruções que Krsna deu a Arjuna e na
relação amororosa que havia entre eles. Devido a  essa consciência ela está
apta para regressar a Deus.”

Srila Prabhupada contou esta história para ilustrar o facto que nem sempre
podemos aperceber-nos daquilo que vai no coração de outra pessoa, só pelas
aparências externas. Portanto, não devemos encontrar defeitos porque não
sabemos qual é a consciência. Há um ditado que explica que se o Senhor
Nityananda entrar numa taberna, devemos entender que vai lá por serviço.
Podemos pensar, “Oh, entrou numa taberna. Os sadhus não entram nas
tabernas.” Mas se Nityananda Prabhu ou o mestre espiritual entram numa
taberna, devemos entender que é com algum propósito, por algum serviço.

Devido a que estamos em Kali-yuga e as pessoas são caídas e com propensão
para encontrar defeitos, devemos agir de tal maneira que os outros não
tenham oportunidade de encontrar defeitos. Em Bombaim, uma pessoa narrou-me
um incidente relevante. Viram um devoto comer num restaurante cujo alimento
é preparado com cebola. O facto de ele estar a comer no restaurante já era
bastante mau, mas tornou-se ainda pior porque o alimento que comia tinha
cebola. Uma outra pessoa que também lá estava a comer, que se associava
minimamente com a ISKCON, desafiou o devoto, “Porque é que estás a comer
alimento com cebolas?” O devoto respondeu, “Mas tu também estás a fazer o
mesmo.” Ao que o homem respondeu. “É verdade. Eu conheço o padrão e não
consigo lá chegar mas tu apresentas-te como uma autoridade. Tu pregas aos
outros, “Nem cebola nem alhos.” Se tu os comes é diferente.” O ponto que
quero enfatizar aqui é o de, porque somos pregadores,  devemos actuar de uma
forma exemplar e não dar às pessoas oportunidade para criticarem-para o seu
próprio bem.

Contudo, o princípio de que quando o Senhor Nityananda entra numa taberna,
fá-lo com um propósito, deve ser compreendido. Por vezes, Nityananda Prabhu
ou o mestre espiritual têm uma misão a cumprir, e não permitem que sejam
obstruídos ou parados, por temor aos neófitos que podem criticar ou
interpretar erroneamente. Por exemplo, existe uma norma que proíbe os
brahmanas de atravessarem o oceano porque se o fizerem ficarão contaminados.
Nenhum acarya proeminente na nossa tradição, antes de Srila Prabhupada,
cruzou o oceano,  mas ele atravessou-o. E os brahmanas ortodoxos criticaram.
Eles chegaram a criticar Srila Prabhupada. Mesmo nos dias de hoje, os pandas
do templo de Jagannatha, em Puri, por vezes proíbem os devotos da ISKCON,
mesmo os que são de origem indiana, entrarem no templo. Dizem eles que, por
se terem associado com mlecchas e yavanas de fora da India-apesar de serem
Hindus de origem indiana-não podem entrar, porque ficaram contaminados
devido à associação.

O acarya não pode parar a sua missão para agradar às pessoas invejosas ou
rigidas-ou mesmo aos devotos neófitos que não podem compreender ou apreciar
o que ele está a fazer. Portanto, embora actuemos de uma forma exemplar-para
darmos um bom exemplo para que os outros sigam,e para que não tenham
possibilidade de criticar-quando se trata da nossa missão ou serviço,  temos
que continuar,  ainda que por vezes de  maneiras não muito ortodoxas. Como
Srila Prabhupada costumava dizer, “Os cães ladram mas a caravana passa.”
Temos que continuar. Deixem os cães ladrar. Não importa. Vamos continuar
para a frente.  Adoptamos essa attitude não com o intuito de gratificar os
sentidos mas por uma causa superior.

Numa certa altura, respondendo uma questão colocada por mim, Srila
Prabhupada deu o exemplo de Govinda, o servente pessoal de Caitanya
Mahaprabhu em Puri. Por norma, depois de almoçar, Caitanya Mahaprabhu tinha
o costume de se deitar e Govinda aproximava-se para dar massagens às Suas
pernas; depois,  Govinda voltava para aceitar os remanescentes de alimento
deixados por Ele. Uma vez, enquanto o Senhor descansava,  bloqueou a entrada
para o quarto e Govinda ficou sem possibilidade de dar massagens ao Senhor a
não ser que passasse por cima do Senhor. Passado algum tempo, quando
Mahaprabhu acordou, viu Govinda ainda ali sentado e perguntou-lhe, “Porque é
que ficaste aqui tanto tempo? Porque não aceitaste a prasada?” Govinda
respondeu, “Estaveis deitado, bloqueando a porta,  e não consegui sair.” Sri
Caitanya Mahaprabhu perguntou, “Mas, como é que entraste no quarto?” Govinda
pensou, “Para servir ao Senhor pude passar por cima, mas por minha causa
não.” Srila Prabhupada concluiu, “Para servir podemos, algumas vezes,
transgredir uma norma mas não o fazemos para a nossa gratificação dos
sentidos.”

Numa ocasião especifica, podemos sacrificar um principio inferior por um
propósito superior, mas não devemos sacrificar nenhum principio, pequeno ou
grande,  para a nossa gratificação dos sentidos. Pela missão, pela causa,
pelo serviço, podemos. E se pensamos que alguém violou um  principio,
podemos ponderar que talvez tivesse sido por uma causa superior-e assim
abstemo-nos de encontrar defeitos e de criticar.

Hare Krsna.

Querem fazer alguma pergunta ou comentário?

Somaditya Chakraborty: O senhor explicou que temos dois tipos de deveres: Um
é o condicional, e o outro o constitucional. Por vezes, devido às nossas
actividades condicionais tais como trabalhar num emprego ou fazer outra
coisa qualquer, não conseguimos aceitar o que é favorável para o serviço
devocional nem rejeitar o que é desfavorável. Será que o nosso dever
condicional obstrui a nossa rendição a Krsna? Sabemos que aceitar coisas
favoráveis para o serviço devocional e rejeitar o que é desfavorável é parte
integrante da rendição a Krsna.

Giriraj Swami: Não te importas de te apresentares?

Somaditya Chakraborty: Sou o capitão de corveta Somaditya Chakraborty. Estou
na marinha indiana.

Giriraj Swami: Somaditya vem de Calcutá, essa cidade sagrada onde Srila
Prabhupada apareceu, onde Srila  Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura e Srila
Bhaktivinoda Thakura desapareceram, e onde os três caminharam, pregaram e
serviram.

Viver num barco signica, forçosamente, associação com não-devotos e comer
alimento confecionado numa cozinha que não tem padrão Vaisnava. Podemos
falar sobre aceitar o que é favorável e rejeitar o que é desfavorável e como
consequência rejeitar essa associação, rejeitar esse alimento e rejeitar
essa situação. Por outro lado, tens que ganhar a vida e de uma ou outra
maneira encontras-te nessa situação. Por vezes enveredamos por uma carreira
antes de conhecermos sobre a consciência de Krsna e só mais tarde realizamos
que essa carreira tem elementos que são desfavoráveis ao nosso
desenvolvimento espiritual. Para abandonar, ou não, um tipo particular de
trabalho, existem considerações práticas de tempo, lugar e circunstâncias.
Na minha primeira visita a Houston, um devoto muito bom, que ainda não era
iniciado, conduziu-me até ao aeroporto. Ele era dono de um motel e estava
preocupado porque os clientes que ficavam lá, quebravam os principios
regulativos. Ele não tinha restaurante nem vendia carne nem álcool. Mas os
clientes utilizavam o espaço para consumir álcool, carne e para fazer sexo
ilícito. No seu caso deixou aquela situação. Vendeu o motel e entrou no
negóco da joalharia. Claro está, que todo o esforço está coberto por algum
defeito, mas a joalharia é uma ocupação legal que não está directamente
ligada com actividades pecaminosas.

Por vezes, uma pessoa que se encontra numa posição inconveniente pode
pensar, “Estou neste trabalho. Para mim, seria muito dificil começar tudo de
novo noutro tipo de trabalho. Talvez seja melhor continuar a ganhar dinheiro
e depois retirar-me para Mayapur.” [risos] Assim que, é uma questão de saber
o que é mais favorável e o que é o menos desfavorável. Nessa situação em
particular pode ser que seja mais favorável continuar no trabalho, ganhar
bastante dinheiro, obter a reforma mais cedo e depois retirar-se para
Mayapur-e viajar por todo o mundo para pregar. Pode ser pior deixar o
trabalho, começar tudo de novo, esforçar-se árduamente, ficar na dúvida em
como conseguir dinheiro para cumprir com os compromissos e, como resultado,
ter que lutar árduamente o resto da vida para pagar as despesas.

Em principio, o que disseste é verdade-aceitar o que é favorável e rejeitar
o que é desfavorável-mas na prática talvez tenhamos que aceitar os
princípios mais importantes, que são favoráveis e negligenciar aqueles que,
apesar de serem favoráveis,  são menos importantes. Neste mundo, não existe
nenhuma situação que seja completamente favorável. Por exemplo, pregar é
favorável; a pregação é o melhor serviço. Mas para pregar temos que sair às
ruas  e nessa situação vemos cartazes publicitários com homens e mulheres e
outras coisas que são desfavoráveis. Mas se decidirmos, “Bem, eu não sairei
para as ruas porque nessa situação  terei que ver os cartazes publicitários
e isso pode ser desfavorável. Vou ficar aqui mesmo.”Com  essa atitude damos
mais importância a um principio inferior em contraposição a um superior. De
preferência, damos prioridade ao principio mais importante-pregar-mesmo que
seja às custas de principios menos importantes.
Paralelamente temos que avaliar realisticamente quanto risco podemos aceitar
para executar o principio mais elevado que é a pregação. Como Srila
Prabhupada disse, ” Devemos saber como capturar o peixe grande sem nos
molharmos.”

Contudo, os devotos aceitam riscos porque  a pregação é uma actividade muito
importante. Srila Prabhupada disse, “Quando pregamos, aceitamos riscos.”
Atravessar o oceano para vir para o Ocidente foi aceitar riscos. Cada vez
que empreendemos o esforço de sair às ruas para nos aproximarmos das pessoas
para pregar, aceitamos riscos mas isso é compulsório; caso contrário não
podemos pregar. Antes de comprarmos a propriedade de Juhu, quando tinhamos
um apartamento alugado em Warden Road, um dos discipulos de Srila
Prabhupada,  que tinha estado a servir aí,  foi pregar à África do Sul. A
seu devido tempo,  Srila Prabhupada recebeu noticias que o discipulo estava
a ficar enfraquecido devido à falta de associação. De acordo ao relatório,
haviam praias muito bonitas e bom clima na Africa do Sul, e o devoto passava
a maior parte do tempo nas praias. Quando Srila Prabhupada recebeu as
noticias ficou muito preocupado. Disse que sempre que enviava um pregador,
sentia ansiedade porque existia sempre  a possibilidade de o pregador cair.
Porém,  disse que a pregação é tão importante que o próprio Krsna vem ao
mundo material para pregar.

paritranaya sadhunam
vinasaya ca duskrtam
dharma-samsthapanarthaya
sambhavami yuge yuge

[O Senhor Krsna diz:] “Para libertar os piedosos e aniquilar os descrentes,
bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo advenho,
milénio após milénio.” (Bg 4.8)

Se não enviarmos os nossos pregadores, a nossa missão-a missão de Krsna-não
será divulgada. As pessoas não terão a oportunidade de se tornarem
conscientes de Krsna. Prabhupada explicou que porque existem tanto riscos na
pregação, Krsna considera o pregador o Seu servente mais querido. Não existe
ninguém mais querido para Ele, nem sequer no futuro existirá um tão querido.
E Krsna garante, que no final , o pregador irá de volta a casa, de volta a
Deus. Essa é a instrução final de Krsna no Bhagavad-gita.

ya idam paramam guhyam
 mad-bhaktesv abhidhasyati
bhaktim mayi param krtva
 mam evaisyaty asamsayah

“Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço
devocional puro está garantido, e no final, ele voltará a Mim.” (Bg 18.68)

na ca tasman manusyesu
kascin me priya-krttamah
bhavita na ca me tasmad
anyah priyataro bhuvi

“Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, nem nunca
haverá alguém mais querido.” (Bg 18.69)

E qual é “esse supremo segredo”? É o conhecimento mais confidencial de todo
o Bhagavad-gita:

man-mana bhava mad-bhakto
mad-yaji mam namaskuru
mam evaisyasi satyam te
pratijane priyo ‘si me

“Pensa sempre em Mim e torna-te Meu devoto. Adora-Me e oferece-Me
homenagens. Agindo assim, impreterivelmente virás a Mim. Eu prometo-te isto
porque és Meu amigo muito querido.”  (Bg 18.65)

sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva-papebhyo
moksayisyami ma sucah

“Abandona toda as variedades  de religião e simplesmente rende-te a Mim.
Libertar-te-ei de todas as reações pecaminosas. Não temas.”  (Bg 18.66)

Tais instruções são as mais confidenciais. E Srila Prabhupada disse,
“Confidencial significa que as pessoas não gostam delas.”

Por isso aceitamos riscos quando pregamos. Quando pregamos não somos capazes
de seguir estritamente todas as regras e regulações. Por vezes,  nem sequer
conseguimos seguir a nossa dieta. Em casa conseguimos seguir a dieta, mas
por vezes,  quando pregamos, não a conseguimos seguir. Por vezes, pela
pregação, desviamo-nos da nossa dieta estrita mas fazêmo-lo-e dependemos de
Krsna. O que é mais favorável para o serviço devocional, o que satisfaz mais
a Krsna, é a consideração mais importante.

Mahaprabhu dasa: Compreendo a situação deste devoto e também compreendo que
um devoto, mesmo que cometa um erro, não deva ser criticado se está fixo no
serviço devocional. Essa é uma questão diferente. O assunto que quero
abordar relaciona-se com a pergunta do Prabhuji. Prahlada Maharaja afirma
que o que quer que tenhamos que obter, já está destinado. Para quê então
comprometer a nossa vida espiritual, que é a oportunidade que temos somente
nesta forma humana de vida-e que não está disponível noutra forma? A partir
do momento que entendemos o Gita, que nos involvemos com a consciência de
Krsna e que nos esforçamos para ser iniciados, porquê deveríamos comprometer
a nossa vida espiritual? Krsna providenciará. O que tenhamos que conseguir
já está predestinado. E Krsna promete, “Rende-te a Mim que Eu cuido de ti.”
Na me bhaktah pranasyati. Isso é rendição. Quando nos tornamos devotos,
Krsna toma conta de nós. Porque nos deveriamos  preocupar?

Giriraj Swami: Concordo. Primeiro, falaste do destino;  alcançamos o que já
está destinado. Mas talvez o seu destino seja o de tornar-se um capitão da
marinha indiana e ganhar o que lhe estão a dar lá. Até na cultura védica
existem ksatriyas. Outra consideração é que cada esforço está coberto com
alguma falha. Por vezes os ksatriyas saem para matar animais para praticarem
a sua técnica de arqueiros. Alguém tem que defender os cidadãos, a nação.
Ele está a fazê-lo.

saha-jam karma kaunteya
sa-dosam api na tyajet
sarvarambha hi dosena
dhumenagnir ivavrtah

“Todo o empenho está mesclado com algum defeito, assim como o fogo é coberto
pela fumaça. Por isso, ninguém deve abandonar o trabalho nascido de sua
natureza, ó filho de Kunti, mesmo que esse trabalho seja cheio de defeitos.”
(Bg 18.48)

No que se relaciona a Krsna cuidar dos Seus devotos, Ele cuida. Mas isso não
quer dizer que não tenhamos que ganhar a nossa vida. Tomemos por exemplo
alguém que tenha dinheiro suficiente para se reformar e mantenha o dinheiro
no banco, ou noutro investimento qualquer, e viva dos juros. Não precisa de
trabalhar. Está livre para servir a Krsna. Porém, alguém poderá questionar,
“Porque é que tens o dinheiro no banco e em poupanças? Deves entregá-lo à
consciência de Krsna que Krsna cuidará de ti.” Mas pedir a Krsna que cuide
de nós pode ser visto como aceitar serviço  de Krsna-não depender de Krsna
mas aceitar serviço d´Ele. O Bhagavad-gita explica que devemos trabalhar de
acordo às nossas capacidades e depender de Krsna para o resultado-não
devemos ficar inactivos e depender d´Ele. De todos os modos, o factor
principal é a consciência, a intenção, o sentimento de serviço.
Se compararmos com os tempos de outrora, viver agora debaixo de uma árvore e
depender da natureza ou da caridade, não é algo assim tão fácil. Contudo,
também é verdade que se o devoto é muito avançado e está sempre absorto em
consciência de Krsna sem desvios, Krsna cuida dele pessoalmente.

ananyas cintayanto mam
ye janah paryupasate
tesam nityabhiyuktanam
yoga-ksemam vahamy aham

“Mas aqueles que sempre Me adoram com devoção exclusiva, meditando na Minha
forma transcendental-para eles eu trago o que lhes falta e preservo o que
eles têm.” (Bg 9.22)

Mahaprabhu dasa: E se o nosso trabalho nos impede de seguir os quatro
principios reguladores?

Giriraj Swami: Isso é diferente. Se tivermos que vender carne ou bebidas
alcoólicas ou algo semelhante, devemos abandoná-las-como no caso do
proprietário do motel. Isso é verdade.

Nityananda dasa: Guru Maharaja, como  é que podemos minimizar ou diminuir o
sentimento de inveja?

Giriraj Swami: Certa vez, em Surat-a cidade santa de Surat onde Srila
Prabhupada e os seus devotos tiveram a melhor recepção-perguntei a Srila
Prabhupada sobre a inveja. Eu estava a sofrer devido à inveja e isso
perturbava-me, perturbava o meu canto e perturbava o meu relacionamento com
os devotos. Tinha por norma nunca fazer perguntas a Srila Prabhupada se eu
próprio as conseguia responder. A menos que tivesse meditado profundamente
sobre o tema e tivesse tentado obter a resposta por ouros meios-através da
introspeção, da leitura e da consulta com outros devotos-eu não perguntava.
Neste caso da inveja, não obtive nenhuma solução para me livrar dela. Podia
compreender que a inveja era prejudicial para mim, e queria
desenvencilhar-me dela mas não sabia como fazê-lo.

Por isso, fiz a pergunta a Srila Prabhupada: Primeiro ele disse, “Podes
pensar nalgumas razões para não se ser invejoso?” Eu pensei em muitas
razões. Perturbava o meu canto e os meus relacionamentos. Depois também
pensei que se Krsna é ilimitado e o Seu serviço é ilimitado-porquê deveria
ficar invejoso de alguém por ter um serviço particular? Não me vai tirar o
serviço porque o serviço a Krsna é ilimitado. Ele pode ter o seu serviço e
eu o meu. Porquê deveria estar invejoso? Portanto, quando Prabhupada
perguntou, “Podes pensar nalgumas razões para não se ser invejoso?” Eu
disse, “Sim.” Ele continuou, “Muito bem. Estar invejoso quer dizer não
gostar de alguém. Esse não-gostar deve ser dirigido contra os demónios que
criam tanta confusão no mundo. Deve ser dirigido para os não-devotos.”

O nosso problema é que dirigimos o não-gostar contra os devotos. Algumas
vezes escutamos as pessoas dizerem, “Se é assim que actua uma pessoa
consciente de Krsna, então, não quero ser consciente de Krsna.” [risos] Se
isso é o que significa ser um devoto, não quero ser um devoto.” É o oposto.
Porque interagimos mais com  os devotos, pode acontecer sermos magoados com
mais frequência pelos devotos e isso perturba-nos. Mas na prática, a
tendência de não gostar de alguém, de encontrar defeitos ou falar contra
alguém, deve ser direccionada contra os demónios, não contra os devotos. E
se sairmos mais às ruas para pregar, e verificarmos como é que são,
realmente, os não-devotos, apreciaremos mais os devotos. O procurar defeitos
entre devotos, a inveja entre os devotos, apesar de estar em qualquer parte,
é mais comum entre os neófitos que não fazem muita pregação. Mas quando
saímos para pregar e observamos como as pessoas são, apreciaremos mais os
devotos. Mas se estamos só entre devotos, podemos procurar esses defeitos
pequeninos.”Eles fizeram isto. Fizeram aquilo. Não fizeram isto. Não fizeram
aquilo.” Mas quando saímos e vemos como está o mundo e como são as pessoas,
quando voltarmos, apreciaremos os devotos.

Radha-carana dasa: Compreende-se que todas as qualidades têm a sua origem em
Krsna (janma-adi yasya yatah). Temos todas as qualidades de Krsna, e temos a
inveja. Quererá isso dizer que Krsna tem inveja?

Giriraj Swami: Krsna tem todas as qualidades que nós temos mas em quantidade
ilimitada e na perfeição. Portanto, Krsna também tem inveja. Dá-se o exemplo
no Néctar da Devoção que por vezes, quando os vaqueirinhos brincavam na
floresta, Krsna brincava num grupo e Balarama noutro. Quando a equipa de
Balarama derrotava a equipa de Krsna os rapazes queixavam-se, “Se até a
equipa de Balarama nos consegue derrotar, quem neste mundo é mais fraco que
nós?” Este é um exemplo de inveja no mundo espiritual.

Krsna manifesta diferentes tipos de personalidades e uma delas é
dhiroddhata. O Néctar da Devoção (Capítulo 23) afirma que uma pessoa que é
invejosa, orgulhosa, facilmente irritável, inquieta e enfatuada é chamada
dhiroddhata. A mesma passagem continua: “Tais qualidades eram visíveis no
carácter do Senhor Krsna porque, quando estava escrevendo uma carta a
Kalayavana, Krsna chamou-o rã pecaminosa. Em Sua carta Krsna aconselhou a
Kalavayana que tratasse imediatamente de encontrar um poço escuro para nele
viver, porque havia uma serpente negra chamada Krsna que estava muito
ansiosa por devorar todas as rãs pecaminosas dessa espécie. Krsna lembrou
Kalayavana que Ele (Krsna) podia reduzir todos os universos a cinzas pelo
simples facto de olhar para eles.”

“A declaração acima feita por Krsna parece ser, aparentemente, de natureza
invejosa; porém, conforme diferentes passatempos, lugares e ocasiões,
aceita-se esta qualidade como uma grande característica. Aceita-se que as
qualidades dhiroddhata de Krsna são notáveis porque Krsna usa-as apenas para
proteger os Seus devotos. Em outras palavras, até os traços indesejáveis
podem ser usados no intercâmbio do serviço devocional.”

Janardana dasa: Antes, quando o senhor estava aqui, havia mais poder
espiritual. Agora há menos poder espiritual. Porquê?

Giriraj Swami: Porque é que eu perdi o meu poder espiritual? [risos]

Janardana dasa: Exige-se a sua presença aqui-seis meses aqui e seis meses
lá. [aplausos] Enquanto esteve ausente as coisas deterioraram-se. Porquê?

Giriraj Swami: Darei uma resposta filosófica. No Bhagavad-gita (4.7) Krsna
diz,

yada yada hi dharmasya
glanir bhavati bharata
abhyutthanam adharmasya
tadatmanam srjamy aham

“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente
de Bharata, e uma ascensão predominante da irreligião-nessa altura Eu
próprio descendo.”

Srila Prabhupada explicou que tudo neste mundo tem uma tendência a
deteriorar-se. Deu o exemplo da construção de uma casa; quando está nova é
muito bonita. Mas a seu devido tempo deteriora-se e eventualmente tem que
ser reconstruída. O mesmo fenómeno acontece com dharma. Apesar de Krsna vir
pessoalmente para estabelecer os principios religiosos
(dharma-samsthapanarthaya), é tal a natureza do mundo que tudo aqui se
deteriora. Existirá um declínio na prática religiosa, e Krsna virá novamente
para restabelecer dharma (dharma-samsthapanarthaya).

Janardana dasa: Quando voltará Maharaja? Passaram-se oito anos desde que
esteve aqui. Este é o seu templo. O templo de Radha-Rasabihari é seu,
Maharaja. Seis meses aqui e seis meses lá. Este é o meu humilde pedido,
Maharaja.

Giriraj Swami: Tentarei.

Kesava dasa: Existem nove formas de bhakti, serviço devocional. Se alguém
diz, “Alcançarei serviço devocional por executar uma delas” e não cantar,
isso é possivel?

Giriraj Swami: Boa pergunta. Existem nove tipos de serviço devocional, e
pode-se alcançar a perfeição por se ocupar num deles perfeitamente. O
Bhakti-rasamrta-sindhu (1.1.11) dá a definição básica de serviço devocional:

anyabhilasita-sunyam
jnana-karmady-anavrtam
anukulyena krsnanu-
silanam bhaktir uttama

Anusilanam significa que tem que ser continuo. Para a maior parte dos
devotos não é possivel a ocupação continua num só dos nove processos.
Maharaja Pariksit alcançou a perfeição por escutar. Ele sentou-se às margens
do Ganges e escutou o Srimad-Bhagavatam por sete dias consecutivos sem comer
nem dormir. Ele alcançou a perfeição. E nós, podemos fazer isso? Sukadeva
Gosvami alcançou a perfeição por recitar o Srimad-Bhagavatam. Ele recitou o
Srimad-Bhagavatam continuamente durante sete dias sem comer nem dormir. É
certo que se a pessoa for capaz de se ocupar continuamente e absorver-se num
só dos processos, pode alcançar a perfeição. Mas ele tem que se ocupar
continuamente, porque essa é a qualificação básica. E se não formos
capazes-alguns poderão ser-teremos que variar as nossas actividades, para
que possamos manter o interesse, para que possamos manter o nosso
entusiasmo. Por isso, Srila Prabhupada deu-nos um programa que inclui todos
os nove processos. Assistimos ao arati, recitamos orações-orações a Nrsimha,
orações a tulasi-regamos a planta tulasi. Todos estes, são diferentes
processos de serviço devocional. Cantamos Hare Krsna. Escutamos o
Srimad-Bhagavatam. Tomamos krsna-prasada. Devemos, por todos os meios,
permanecer ocupados em serviço devocional. Esse é o principio. Podemos
ocupar-nos em um, dois, três ou todos os nove processos. Geralmente
precisamos de variedade e Srila Prabhupada deu-nos um programa que inclui
todos os diferentes processos.

Ajay Jajodia: Um familiar perguntou-me, “Porque é que a tua familia está tão
apegada a ISKCON? O que é que existe de tão especial aí? Apesar de não me
sentir em posição de responder, expliquei-lhe que seguimos um principio que
foi ensinado por Srila Prabhupada. Então ela perguntou-me, “O que é que
existe de tão especial em Srila Prabhupada? Porque é que escolheram seguir
só a ele? Só consegui citar um verso do Srimad-Bhagavatam–tava kathamrtam
tapta-jivanam. É por isso que Srila Prabhupada é tão especial, porque
espalhou o hari-nama por todo o mundo. Isso foi tudo o que pude dizer. O que
é que existe realmente de tão especial em Prabhupada e na ISKCON?

Giriraj Swami: Penso que as tuas respostas foram perfeitas. A primeira
pergunta foi, “Porque é que a tua familia está tão apegada a ISKCON? O que é
que a ISKCON tem de especial? A resposta é Prabhupada. A segunda pergunta
foi, “O que é que existe de tão especial em Srila Prabhupada? E a resposta é
que ele espalhou a consciência de Krsna por todo o mundo. Krsna-sakti vina
nahe tara pravartana-a menos que se tenha poder especial dado por Krsna, não
se pode expandir o movimento de sankirtana por todo o mundo. Kali-kalera
dharma–krsna-nama-sankirtana-este movimento de sankirtana é o yuga-dharma
para a era actual. Deste a resposta correcta. Agora deves sair a pregar.
Passaste o exame. Estás qualificado.

Para sermos capazes de pregar de uma forma sustentada e influenciar
verdadeiramente os corações das pessoas, devemos cantar o santo nome e
seguir os principios reguladores. Caso contrário, não teremos o poder para
pregar. Pregar, não é uma actividade externa ou mundana. Requer força
espiritual. Consegue-se essa força, do cantar das dezasseis voltas, de
seguir os principios reguladores e da ocupação no serviço devocional.

Ajay Jajodia: Tento cantar, mas não consigo fazê-lo apropriadamente. A minha
mente está sempre distraída pelos meus problemas e por aquilo que me rodeia,
e fico sem ânimo.

Giriraj Swami: Mas se pregares, serás forçado a cantar atentamente. Srila
Prabhupada disse que o nosso serviço deve ser um desafio novo que nós,
entusiasticamente, aceitamos de bom grado; e para chegar a esse nivel, nós
cantamos e escutamos com muito entusiasmo e seguimos os princípios
reguladores. Neste momento, a nossa vida é muito confortável. Não importa se
cantamos com atenção ou sem ela. Vamos ter o nosso dal e capatis. Podemos
cantar ou não cantar as nossas voltas, porém, teremos o nosso dal e capatis.
Mas quando estamos na linha da frente a pregar, temos que estar em boa
condição espiritual. Pregar, é declarar guerra contra maya. Temos que estar
em boa forma. Caso contrário, seremos dominados pelas forças do opositor.
Pregar, é um estimulo para tornar-nos espiritualmente fortes.

Ajay Jajodia: Sou capaz de cantar melhor e de fazer todas as coisas melhor,
quando estou perto de si. Quando você está cá, venho regularmente ao templo.
Não haverá possibilidade de você passar mais tempo em Bombaim?

Giriraj Swami: Sim, há essa possibilidade.

Ramai Pandita dasa: Maharaja, saindo um pouco do tema, quando o nosso guru
maharaja está presente neste mundo fisico conseguimos saber se ele está
satisfeito ou não com o nosso serviço. Há sempre a possibilidade de nos
aproximarmos a ele para que nos aconselhe. E quando ele não está fisicamente
presente, como é que sabemos se ele está satisfeito ou não com o serviço, ou
com qualquer outra actividade que possamos estar a fazer?

Giriraj Swami: Existem duas maneiras. Se fores suficientemente puro, podes
saber,  no teu coração,  se ele está satisfeito ou não. Caso contrário,
podes aproximar-te aos devotos que tenham uma percepção daquilo que pode ou
não pode satisfazê-lo. Podes perguntar-lhes e eles dar-te-ão uma ideia se as
actividades dão ou não satisfação. Sadhu, sastra, e guru. Básicamente, tal
como Prabhupada, o teu guru maharaja quer que sejas consciente de Krsna e
divulgues a consciência de Krsna.

Ramai Pandita dasa: Mencionou que a inveja provoca a procura de defeitos,
procurar defeitos nos devotos. Será que devemos cultivar a arte de perdoar
os outros? Se começarmos a perdoar os outros, não precisamos de cair na
inveja nem na busca de defeitos.

Giriraj Swami: Sim. O perdão é de suma importância. É uma das qualidades de
um devoto-perdão (ksama). Não estavas presente quando tivemos a reunião com
os outros discipulos de Sua Santidade Sridhar Swami. Este mesmo tópico do
perdão surgiu. Não vou repetir a conversa na íntegra, mas a conclusão é que
devemos perdoar. Se não perdoamos, significa que temos algo no nosso coração
e se mantemos isso, perturbará a nossa consciência de Krsna. Também pode
perturbar a outra pessoa a quem nós não perdoamos. Causa angústia à outra
pessoa e a nós também. Na verdade, perturbar a outra pessoa incrementa o
nosso pesar. Temos que perdoar. Esta é a qualificação principal de um
brahmana.

ksamaya rocate laksmir
brahmi sauri yatha prabha
ksaminam asu bhagavams
tusyate harir isvarah

“O dever de um brahmana é o de cultivar a qualidade do perdão, que é tão
brilhante como o sol. A Supema Personalidade de Deus, Hari, fica satisfeito
com aqueles que sabem perdoar.” (SB 9.15.40)

O defeito principal de um brahmana é o orgulho, e a principal virtude é  o
perdão. Através de todo o Bhagavad-gita a qualidade do perdão é inaltecida.

Janardana dasa: Maharaja, o senhor deve estar cansado.

Giriraj Swami: Bem, isso faz lembrar-me de uma história. No episódio do
conflito para adquirir a terra de Juhu, alguns dos devotos responsáveis,
nesse tempo, cancelaram o contrato de compra e venda com o Mr. Nair. E
quando as noticias chegaram a Srila Prabhupada, ele disse, “Então, está tudo
perdido.” Passado algum tempo, enquanto Prabhupada estava em Hyderabad, Mr.
Nair concordou em ter uma reunião com ele. Pensando que Srila Prabhupada
poderia utilizar algum poder místico para convencê-lo a fazer algo contra o
seu próprio desejo, levou um sadhu com ele para anular os poderes de
Prabhupada. Estavam todos sentados no quarto de Prabhupada em conversa
amena, quando o sadhu se dirigiu a Prabhupada, “Swamiji, parece que está
cansado. Deve descansar. Podemos falar mais tarde.” Prabhupada respondeu, “É
verdade, estou muito cansado.” E todos sairam do quarto. Mas Prabhupada
sabia que o homem é que estava cansado e que por isso tinha feito a
pergunta. [risos] Uns minutos mais tarde, Prabhupada chamou Tamal Krishna
Goswami, “Quando alguém te perguntar se estás cansado,” disse Prabhupada,
“quer dizer que ele está cansado.” Então Prabhupada disse a Tamal Krishna
Goswami, “Chama o Mr. Nair. Deixa ficar o sadhu a dormir e traz o Nair.”
[risos] Ele veio com o Mr. Nair, e Prabhupada utilizou os seus poderes
misticos [risos], e Mr. Nair assinou o novo contrato. E aqui estamos nós.
Todas as glórias a Srila Prabhupada!
Gita Jayanti ki jaya!
Hare Krsna.

Written by nityananda108

Dezembro 7, 2008 at 11:35 pm

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Govardhana-puja

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 Govardhana-puja

 

 

Giriraj Swami:

 

vande ’ham sri-guroh sri-yuta-pada-kamalam sri-gurun vaisnavams ca

sri-rupam sagrajatam saha-gana-raghunathanvitam tam sa jivam

sadvaitam savadhutam parijana-sahitam krsna-caitanya-devam

sri-radha-krsna-padan saha-gana-lalita-sri-visakhanvitams ca

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

Damos a todos as boas vindas nesta ocasião mais auspiciosa do Govardhana-puja. Quando fui iniciado por Srila Prabhupada pela primeira vez, em 1969, ele estava em Los Angeles e eu estava em Boston. Ele enviou-me uma carta que dizia, “O teu nome é “Giriraja.” Giriraja é um nome da colina de Govardhana na qual Krsna costumava apascentar as Suas vacas. Em Vrndavana a colina de Govardhana é adorada como uma representação de Krsna. Por vezes os devotos apanham uma pedra da Colina de Govardhana e mantêm-na em casa como uma representação de Krsna e adoram-na com essa consciência.” Sendo um devoto novo—tinha entrado para o templo umas semanas antes—não conhecia nada sobre a Colina de Govardhana ou sobre Govardhana-puja. E a ideia de apanhar uma pedra da colina para a adorar como uma deidade era para mim um conceito muito diferente. Só vinte e cinco anos mais tarde é que comecei a perceber a importância da Colina de Govardhana nos passatempos de Krsna—e nas vidas dos devotos.

 

Depois de ter servido na India por muitos anos, tive um problema com o visto e não pude voltar lá durante algum tempo. E quando finalmente pude voltar, sentia-me como se estivesse em casa. Sentia-me mais em casa—até mesmo no aeroporto—do que no Ocidente. Talvez porque goste do caos. [risos] A atmosfera parecia mais espiritual, até mesmo no aeroporto. Depois, quando cheguei a Vrndavana, senti-me ainda mais em casa. Apercebi-me que “ Esta é verdadeiramente a minha casa.” E naturalmente, em Vrndavana é muito mais fácil cantar e lembrarmo-nos de Krsna—especialmente em Vrndavana. Primeiro, porque Vrndavana é considerada como sendo espiritual. A Vrndavana na terra, Bhauma Vrndavana, é considerada como sendo não diferente da Vrndavana no mundo espiritual, Goloka Vrndavana. Apesar de haver uma fina cobertura de maya para proteger a confidencialidade de Vrndavana, Vrndavana é espiritual. Depois, Vrndavana está cheia de saddhus, de bhaktas, e na associação dos saddhus, aceleramos o nosso avanço espiritual.

 

tasmin mahan-mukharita madhubhic-caritra-

piyusa-sesa-saritah paritah sravanti

ta ye pibanty avitrso nrpa gadha-karnais

tan na sprsanty asana-trd-bhaya-soka-mohah

 

“Se nesse lugar onde vivem os devotos puros, seguindo as regras e regulações, e assim puramente conscientes e ocupados com grande intensidade em ouvir e cantar as glórias da Suprema Personalidade de Deus, tivermos a oportunidade de escutar o seu fluxo constante de néctar, que é exactamente como as ondas de um rio, esqueceremos as necessidades da vida—a saber, fome e sede—e ficaremos imunes a todas as classes de temor, lamentação e ilusão.” (SB 4.29.3940)

 

Por isso Srila Prabhupada criou a ISKCON, para que houvesse uma sociedade de devotos—na qual as pessoas pudessem associar-se com os devotos e avançassem na sua companhia.

 

Em Vrndavana, todos pensam em Krsna. Krsna é o centro de suas vidas. Lá senti-me em casa. Passados alguns dias, fui visitar a Colina de Govardhana. Na realidade, não conhecia muito sobre a Colina de Govardhana, mas fui lá, e sem fazer grandes ginásticas filosóficas, por algum motivo, senti-me ainda mais em casa que em Vrndavana. Naturalmente que sabemos, num sentido mais alargado, que a Colina de Govardhana faz parte de Vrndavana, mas nessa parte específica de Vrndavana—Govardhana—pude sentir-me ainda mais em casa. Gradualmente comecei a aprender sobre a importância da Colina de Govardhana.

 

Hoje em particular, estamos aqui para celebrar Govardhana-puja e dentro de pouco tempo Sua Santidade Radhanatha Swami arrebatará as nossas mentes com a sua descrição sobre a govardhana-lila, mas eu gostaria de falar sobre um tópico que aprendi acerca da Colina de Govardhana.

 

Srimad-Bhagavatam é considerada a suprema evidência da literatura védica. No Sri Tattva-sandarbha, Srila Jiva Gosvami, citando referências de várias escrituras, explica de uma forma lógica e sistemática que o Srimad-Bhagavatam é a suprema evidência das literaturas Védicas. O próprio Bhagavatam explica que é o fruto maduro da árvore do conhecimento Védico.

 

nigama-kalpa-taror galitam phalam

suka-mukhad amrta-drava-samyutam

pibata bhagavatam rasam alayam

muhur aho rasika bhuvi bhavukah

 

“Ó homens hábeis e pensadores, saboreai o Srimad-Bhagavatam, o fruto maduro da árvore dos desejos das literaturas Védicas. Ele emanou dos lábios de Sri Sukadeva Gosvami. Portanto, este fruto tornou-se ainda mais saboroso, apesar do seu sumo nectáreo já ser agradável para todos, inclusivé para as almas liberadas.” (SB 1.1.3)

 

Em princípio, devemos começar a estudar o Srimad-Bhagavatam a partir do Primeiro Canto. O Bhagavatam é comparado à forma do Senhor. Na realidade, o Bhagavatam não é diferente do próprio Senhor. Assim como começamos a nossa meditação a partir dos pés de lótus do Senhor e gradualmente vamos subindo na visualização da forma transcendental do Senhor, do mesmo modo devemos ler o Srimad-Bhagavatam a partir do Primeiro Canto e gradualmente progredirmos até ao Décimo Canto, que é comparado à cara sorridente do Senhor.

 

No Décimo Canto, lemos sobre Krsna e Seus associados eternos em Vrndavana. Entre todos os associados e devotos de Krsna, as donzelas de Vrndavana são consideradas as mais excelsas. E estas jovens vaqueirinhas, as gopis, oraram à Colina de Govardhana. Elas glorificaram a Colina de Govardhana chamando-a hari-dasa-varyah. Hari significa “O Senhor Hari, Krsna” a Suprema Personalidade de Deus, dasa quer dizer “servente” e varyah significa “o melhor.” Elas glorificaram a Colina de Govardhana como sendo o melhor servente do Senhor Hari. Aceita-se que a Colina de Govardhana é o próprio Krsna e na verdade a Colina de Govardhana é o Senhor Krsna. Mas as gopis viram a Colina de Govardhana como o melhor servente de Krsna, porque ele entregou-se completamente ao serviço do Senhor. Ele ofereceu todo o corpo ao serviço do Senhor. Entregou a sua vida para o serviço do Senhor. As suas cavernas foram colocadas à disposição do Senhor para que Ele pudesse refugiar-se nelas. Disponibilizou água para beber, frutas e raízes para comer. Todo o tipo de facilidades foram disponibilizadas para o Senhor e Seus devotos. Está mencionado especificamente, “O Senhor e Seus devotos.”

 

hantayam adrir abala hari-dasa-varyo

yad rama-krsna-carana-sparasa-pramodah

manam tanoti saha-go-ganayos tayor yat

paniya-suyavasa-kandara-kandamulaih

 

“Entre todos os devotos esta Colina de Govardhana é o melhor! Ó minhas amigas, esta colina supre a Krsna e Balarama, juntamente com os Seus bezerros, vacas e vaqueirinhos, todos o tipo de facilidades—água para beber, erva muito suave, cavernas, frutas, flores e vegetais. Deste modo a colina oferece respeitos ao Senhor. Ao ser tocada pelos pés de lótus de Krsna e Balarama, a Colina de Govardhana fica muito jubilante.” (SB 10.21.18)

 

Na verdade o Senhor fica mais satisfeito quando se servem os Seus devotos do que quando se serve somente a Ele, e a Colina de Govardhana tinha compreendido esse segredo. Portanto, hari-dasa-varyah.

 

O exemplo das gopis em glorificar a Colina de Govardhana pode ser entendido desta maneira: devemos aproximar-nos da Colina de Govardhana para que os nossos desejos espirituais possam ser satisfeitos. Sendo devotos, temos desejos espirituais no serviço do Senhor e como é que esses desejos são satisfeitos? Claro que nós temos as nossas práticas espirituais. Cantamos os santos nomes, estudamos as escrituras Védicas, associamo-nos com os devotos, adoramos a deidade, visitamos os templos e os lugares sagrados. Mas depreende-se deste verso, hari-dasa-varyah, que os nossos desejos podem ser satisfeitos pela misericórdia das grandes almas. Entre todas as grandes almas, Govardhana é a melhor. Portanto, se nos aproximar-mos a Govardhana ele satisfará os nossos desejos de servir a Krsna. A Colina de Govardhana é muito importante para os devotos. A Colina de Govardhana pode satisfazer os nossos desejos e aspirações de servir a Krsna. Diz-se que na Colina de Govardhana existe uma deidade chamada Harideva que está perto de Manasi-ganga. Quando se inicia o parikrama à Colina de Govardhana, começa-se com o darsana de Harideva. Mas o que as gopis dizem é que a misericórdia que se adquire de um hari-dasa é maior que a misericórdia que se consegue de Harideva. Por isso, com o pretexto de irem adorar Harideva, elas foram realmente procurar a misericórdia de hari-dasa-varyah, a Colina de Govardhana.

 

Neste contexto, a Colina de Govardhana é como Sri Caitanya Mahaprabhu. De acordo à literatura Védica, ao Srimad-Bhagavatam e outros textos, Sri Caitanya Mahaprabhu é o próprio Krsna mas com o sentimento de um devoto, o sentimento do melhor devoto, Srimati Radharani. O Senhor Caitanya está mais inclinado a dar misericórdia que o próprio Krsna, apesar de ser Krsna. Com o sentimento de um devoto Ele é mais misericordioso do que com o sentimento de Krsna, a Suprema Personalidade de Deus. E o mesmo acontece com a Colina de Govardhana. Alguns dos nossos acaryas comentaram que estes versos falados pelas gopis, e em particular este, hari-dasa-varyah, foi na verdade falado por Srimati Radharani. A criação inteira glorifica Srimati Radharani como sendo o melhor devoto de Krsna e Ela glorifica a Colina de Govardhana como sendo o melhor devoto de Krsna. Existe uma competição mútua e transcendental entre os devotos, para ver quem é que mais consegue glorificar o outro, pois os devotos são humildes por natureza e satisfazem-se muito em glorificar a Krsna e a Seus devotos. Na realidade o Senhor, Krsna, fica mais satisfeito quando os devotos são glorificados do que quando Ele é glorificado diretamente.

 

Numa certa altura, quando fomos pela primeira vez a Bombaim, Srila Prabhupada estava a viajar com as suas deidades de Radha-Krsna de bronze e encontrava-se no seu quarto com Gurudasa Prabhu, um devoto antigo. Gurudasa Prabhu começou a glorificar um outro devoto que estava no nosso pequeno grupo da India quando de repente parou e disse, “Oh Srila Prabhupada, esqueci-me de que não se deve glorificar ninguém diante da deidade, diante de Krsna.” Ao que Srila Prabhupada respondeu, “Krsna já é glorificado. Ele satisfaz-se mais quando os Seus devotos são glorificados.” Portanto, esta é uma parte integrante do Govardhana-puja, glorificar os devotos, glorificar a Colina de Govardhana que é Krsna, mas que também é um devoto de Krsna.

 

Aqui estamos nós no meio de tantos devotos. É um privilégio e uma grande sorte estarmos convosco nesta ocasião tão auspiciosa. Agora pediremos a este grande hari-dasa que está sentado ao meu lado que satisfaça os nossos anseios por escutar hari-katha sobre Harideva e hari-dasa. Hare Krsna. [aplausos]

 

 

Radhanath Swami:

 

nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale

srimate bhaktivedanta-svamin iti namine

 

namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine

nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine

 

vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca

patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah

 

sri krsna caitanya prabhu nityananda sri advaita

gadadhara srivasadi-gaura-bhakta-vrnda

 

hare krsna hare krsna krsna krsna hare hare

hare rama hare rama rama rama hare hare

 

 

Estou muito, muito satisfeito de estar aqui em Nova Govardhana em Govardhana-puja, sentado ao lado de Giriraj Maharaja! [risos e aplausos] E estou muito grato por estar na associação de todos vós. Sripad Giriraj Maharaja explicou, em concordância com o sastra, o princípio divino da Colina de Sri Govardhana como sendo, em simultâneo, Krsna e o supremo servente de Krsna.

 

Srila Prabhupada, o nosso amado Guru Maharaja, quando estava nos seus últimos dias, incapaz de se sentar ou pôr de pé, pediu aos devotos que o levassem em Govardhana parikrama no mês de Kartika. E quando os devotos perguntaram, “De que forma? O senhor não pode andar,” ele disse, “Consigam um carro de bois.” O médico que estava a cuidar de Srila Prabhupada disse, “Se tentar fazer isso, morrerá.” E Srila Prabhupada sorriu. Ele disse, “Existe alguma outra maneira de sair deste mundo melhor que esta, enquanto se faz parikrama a Govardhana? Penso que esta situação durou alguns dias até que os devotos convenceram Prabhupada, “Por favor não faça isso.” Mas esse era o amor que Srila Prabhupada tinha pela Colina de Govardhana.

 

Quando Sri Caitanya Mahaprabhu chegou a Vrndavana e viu pela primeira vez uma pedra da Colina de Govardhana, derramou lágrimas de extâse e abraçou a pedra exclamando, “Esta pedra não é diferente do corpo de Krsna.” Nesse mesmo lugar, Madhavendra Puri, o Seu parama-guru, descobriu Sri Nathji. Rupa Gosvami, Sanatana Gosvami, Jiva Gosvami, Gopala Batta Gosvami, todos eles tiveram os seus bhajana-kutiras (locais de adoração) em Radha-kunda, na Colina de Govardhana.

 

Em Puri, um sannyasi deu ao Senhor Caitanya Mahaprabhu uma pequenina pedra, uma govardhana-sila. Para o Senhor Caitanya essa pequena pedra tinha mais valor que qualquer outra coisa na criação. Ele levava-a sempre à volta de Seu pescoço. Por vezes colocava-a em cima de Sua cabeça. E por vezes colocava-a no Seu coração. Esta govardhana-sila estava sempre molhada com as lágrimas de amor do Senhor Caitanya. Vendo o supremo sacrificio de amor de Raghunatha dasa Gosvami , o Senhor Caitanya presenteou esta pequena govardhana-sila a Raghunatha dasa e até fez arranjos para a bhoga e as oferendas, para ajudar Raghunatha dasa Gosvami na sua adoração. E dasa Gosvami passou a maior parte de seu tempo no sopé da Colina de Govardhana.

 

Bhaktivinoda Thakura, Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, Visvanatha Cakravarti Thakura, todos eles tiveram os seus lugares de adoração na Colina de Govardhana. Foi em Radha-kunda, em Govardhana, que Srila Prabhupada recebeu a instrução de Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura de imprimir e distribuir livros.

 

Porque é que Sri Giriraja é tão importante? A história descrita no Décimo Canto do Srimad-Bhagavatam sobre a Govardhana-puja, é muito profunda e extensa. Podemos tão só tentar descrever uma particula de uma gota desse oceano de significado. Assim que, no mês de Kartika e seguindo a tradição, Nanda Maharaja estava a coordenar uma grandiosa adoração a Indra. Krsna observou isso e convenceu Nanda Maharaja através da argumentação, “Isto não é preciso. Adoras a Indra porque é ele quem dá a chuva? Mas a chuva também cai no oceano. Quem é que o adora no oceano? Se fizeres o bem, e sabe-se que já o fazes, terás bom karma, e a chuva cairá—com Indra ou sem Indra. Na verdade, dependemos das vacas, dos brahmanas e da Colina de Govardhana. Vamos juntar a parafernália para a adoração a Indra, e utilizá-la na adoração às vacas, aos brahmanas e à Colina de Govardhana.”

 

Na verdade esta é uma postura muita forte da parte de Krsna. Ele estava a desprezar as tradições dos ancestrais de Nanda Maharaja. Nanda Maharaja já tinha explicado que, “esta cerimónia de adoração tem sido levada a cabo pelos nossos antepassados desde tempos imemoriais.” Para Nanda Maharaja e para os Vraja-vasis, Indra não era só uma ideia vaga sobre alguém que pode ou não existir. Indra era o senhor dos semideuses. Nesses tempos Indra costumava descer à terra e manifestar-se. Eles conheciam-no. Compreendiam-no. E também conheciam os seus poderes.

 

Krsna estava a exigir um estado de rendição muito profundo. Tal como Krsna disse a Arjuna no Bhagavad-gita. Ele instruiu-o a lutar numa guerra onde até os seus entes queridos e familiares estavam presentes. Todo o Bhagavad-gita foi falado com o intuito de convencer Arjuna a ter fé em Krsna, sarva-dharmam parityajya mam ekam saranam vraja: “Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim.” Krsna está a pedir a Nanda Maharaja a mesma coisa. Fiquem conscientes que os Vraja-vasis conheciam o poder de Indra. Tal como pudemos observar na India as ondas do Tsunami, Indra podia criar uma milhão delas num momento. Ele pode criar um milhão de furacões Katrina num segundo. Indra é poderoso. Nesse momento, Nanda Maharaja pode compreender que não só a sua vida estava em jogo, mas também a da sua familia e a vida de todos. Essa era a fúria de Indra. Ao contrário de Arjuna, eles não tinham armas para lutar. Mas eles aceitaram devido ao seu amor inocente e fé em Krsna. A essência da religião manifestou-se naquele momento. Samsiddhir hari-tosanam. O propósito de tudo o que fazemos na nossa vida espiritual é satisfazer a Deus. Se Krsna estiver satisfeito, a nossa vida torna-se perfeita. Se levarmos a cabo todos os rituais, se protegermos todas as tradições, se executarmos severas austeridades, sacrifícios e mesmo que conquistemos o mundo; se Krsna não está satisfeito, srama eva hi kevalam, perdemos o nosso tempo. Nanda Maharaja e os Vraja-vasis estavam na disposição de aceitar qualquer risco para agradar a Krsna e nem sequer sabiam que Ele era Deus. Tão só o amavam. E não tinham nenhum medo. “Quem é que se importa com Indra? Nós queremos satisfazer Krsna o nosso amigo pastorzinho de sete anos de idade.”

 

E eles utilizaram toda a parafernália de adoração a Indra no serviço da Colina de Govardhana, sob a direcção de Krsna. Fizeram montanhas enormes de bhoga, Annakuta. Utilizaram quase tudo o que tinham. para fazer centenas, centenas e centenas de preparações em grandes quantidades e sob a instrução de Krsna. E os brahmanas executaram yajnas, cantaram mantras, os músicos cantavam e tocavam instrumentos e os Vraja-vasis estavam completamente felizes celebrando a ocasião. Porquê? Porque a felicidade deles ia trazer felicidade a Krsna. A única razão pela qual um Vraja-vasis quer ser feliz é porque Krsna fica feliz ao ver os Seus devotos felizes. Quando nos aproximamos a Radha-Giridhari, devemos dançar, cantar e escutar jubilantemente hari-katha, porque se ficamos felizes ao escutar sobre Krsna, Krsna fica feliz. Essa é a essência de todas as nossas aspirações, tão só servir a Deus.

 

Quando a oferenda foi feita, o pequeno Krsna, que permanecia no meio de todos os gopas e gopis, subitamente manifestou-Se como a Colina de Govardhana. Manifestou uma forma sem precedentes. Era imensa, com braços gigantescos. Ele manifestou a forma da Colina de Govardhana, para mostrar ao mundo que não era diferente da Colina de Govardhana.E o pequenino Krsna estava ali a olhar para Si próprio nessa forma. Ele disse, “Oh, vejam só. Devido a que Giriraja ficou muito satisfeito com a vossa devoção, assumiu esta forma, como uma pessoa, para aceitar as nossas oferendas e para satisfazer todos os nossos desejos.” Então, esta imensa forma com os seus dois braços, comeu todas as montanhas de prasada, e ainda pediu mais. “Aniyora! Tragam mais!” Krsna prostrou-se perante Govardhana e todos os Vraja-vasis fizeram o mesmo.

 

E então, seguindo a instrução de Krsna, todas as vacas, os bezerros, os brahmanas, os gopas e as gopis fizeram parikrama, a primeira circumambulação histórica à Colina de Govardhana. Foi um festival muito jubilante. Todos desfrutaram ilimitadamente à excepção de uma pessoa, Indra. Krsna é muito misericordioso. Indra é um devoto. Ele não é um demónio como Putana ou Aghasura ou Kesi. Indra é um devoto a quem lhe foi confiado pelo Senhor um serviço muito, muito importante. Na verdade, podemos ler no Sri Brhad-bhagavatamrta, no Srimad-Bhagavatam, que quando Indra executa um yajna, o Senhor Narayana vem pessoalmente e manifesta-Se para receber as oferendas desse sacrificio. Nós não temos essa percepção. Nós executamos muitas cerimónias ritualicas e sabemos que o Senhor Narayana vem, mas quando Indra os executa Ele vem pessoalmente montado em Garuda e aceita-as. Indra é uma pessoa muito elevada. Mas existe uma coisa que Krsna não tolera num devoto: falso orgulho. E a Sua misericórdia para com o Seu devoto é fazer com que, por todos os meios necessários, esse orgulho seja esmagado, esse tumor do orgulho cancerígeno seja removido do coração de Seu devoto, porque esse tumor espalha-se de uma forma muito prejudicial e mata as nossas propensões devocionais.

 

Indra ficou muito furioso. Existem muitas histórias onde Krsna utiliza Indra como alvo para nos ensinar este principio. Ele é o rei de Svargaloka, os planetas celestiais. Ele é adorado pelos devatas, as Apsaras, os Gandharvas. A ele dão-se-lhe honras. Ele é glorificado. Ele senta-se em assentos bonitos. Ele tem imensa riqueza, imenso poder, imensa fama. Se tivessemos, ainda que fosse um pequeno vestígio dessas situação, teríamos a tendência a pensar que seríamos melhor que os outros, e quando pensamos que somos melhores que os outros, cometemos aparadha, ofensas. Se ninguém se preocupar demasiado connosco, e se houver alguém que diga alguma coisa sobre nós, não ficamos muito tristes. Mas quanto mais tivermos, mais dói. Essa é a natureza do ego. E isso aconteceu com Indra, “Cada ano, desde séculos, eles executam este puja para mim e este ano, seguindo a lógica de um miudinho falador, de sete anos de idade, substituiram a adoração destinada a mim e deram-na a uma montanha! Uma montanha! Que grande ofensa!” Ele estava furiosíssimo.

 

Ele decidiu destruir toda Vrndavana e aqueles que viviam lá e, para isso, chamou as nuvens Samvartaka. Não existe nenhum exército na terra que se possa comparar com as nuvens Samvartaka. Não são aquelas nuvens que aparecem na época das monções e inundam Bombaim, paralisando tudo num só dia. Também não são aquelas nuvens que são acompanhadas de furacões e tornados e causam devastação numa vila, numa cidade ou num estado. Esta é uma tarefa para as nuvens pequeninas. As nuvens Samvartaka são chamadas especificamente para a destruição do universo no momento da dissolução. Foi a elas que Indra chamou. Ele estava enraivecido. Dirigiu-se a essas nuvens Samvartaka berrando, “Ide a Vrndavana! Destruam tudo e todos! Eles ofenderam-me.”

 

E elas foram. Nuvens pretas e muito espessas começaram a crescer, a crescer, a crescer e instalaram-se em todas as direcções. Trovões, raios, torrentes de chuva. E os Vraja-vasis estavam conscientes do que estava a acontecer. Ofenderam a Indra. Como é que se pode lutar contra uma coisa assim? Todos se aproximaram a Krsna. Os vaqueiros puseram as vacas à sua frente e exclamaram, “Observa, as Tuas vacas estão a sofrer. Tu és Govinda. Tu protegerás as vacas e também a nós. Por favor dá-nos proteção.” Krsna saiu de Sua casa com um sorriso e sem esforço algum, levantou toda a colina de Govardhana tal como uma criança levanta um cogumelo. Nós não comemos cogumelos, mas por vezes levantamos cogumelos. [risos] E com o dedo mindinho de Sua mão esquerda, Ele segurou-a. Sri Sri Radha-Giridhari ki jaya! E Ele dirigiu-se a todos de uma forma muito humoristica, “Venham todos e vejam. A Colina de Govardhana está tão satisfeita convosco que agora tornou-se um guarda-chuva para vos proteger de Indra. Venham agora e tragam tudo o que vos é querido, juntamente com todos os vossos animais, para este vale debaixo da Colina de Govardhana.” Desta maneira todos se aproximaram da Colina de Govardhana.

 

Krsna levantou a Colina de Govardhana de tal maneira, que se escutou um imenso som de trovões que podia ser ouvido em todas as direcções. À medida que Ele a levantava, Giriraja deixou cair de suas extremidades grandes pedaços de terra e pedras para que fosse criada uma barreira no solo. Deste modo, não só se estava protegido desde cima mas a água também não entrava. Krsna levantou a Colina de Govardhana e as nuvens Samvartaka ficaram furiosas. Aquilo não era chuva. Era outra coisa. O Srimad-Bhagavatam descreve que as gotas caíam com tanta impetuosidade que pareciam rios saindo de uma comporta em direcção à Colina de Govardhana. Srila Prabhupada explica que pareciam colunas sólidas de água que caíam com muita força. E todo o céu era atravessado por raios e havia uma trovoada intensa e ventania, ventos muito fortes. Pareciam-se com os nossos tornados mas multiplicados por milhares de vezes. E ali estava Krsna, sorrindo, com a Colina de Govardhana apoiada no Seu dedo mindinho.

 

Este passatempo é muito bonito porque o Senhor Krsna quis estabelecer que Ele é a Suprema Personalidade de Deus, não só como o todo poderoso mas também como o supremo objecto do amor de todos. Srila Prabhupada disse que as pessoas reconhecem que Deus é grande, mas o Srimad-Bhagavatam explica-nos como é que Deus é grande, não só no Seu poder de criar e destruir e executar actividades inconcebíveis, mas no Seu poder de reciprocar com o amor dos Seus devotos. Quando Krsna estava de pé, debaixo da Colina de Govardhana, e os habitantes de Vrndavana estavam todos ali reunidos, Krsna olhava de tal maneira para eles, que cada uma das gopis, cada um dos gopas, cada vaca, bezerro, pavão, macaco, papagaio e todo o ser vivo pensava, “Krsna está a olhar só para mim. Krsna ama-me tanto.” Este é o poder de Krsna. Krsna pode satisfazer plenamente o coração de todos os Seus devotos simultaneamente e reciprocar com o seu amor. Ele estava ali de pé e todos os residentes de Vrndavana glorificavam essa forma de Girivara-dhari, Aquele que ergue Govardhana. O lado esquerdo de Seu corpo estava recto, com o Seu braço levantado, mas o Seu lado direito estava curvado. Ele permanecia de pé com o corpo curvado em três partes, a personificação da essência de toda a beleza, que cativava os corações de todos.

 

Os Vraja-vasis ofereciam a sua profunda gratidão a Indra por lhes ter dado este darsana, o darsana de todos os darsanas. E era 24/7. As cortinas nunca fechavam. [risos] Todos os seus desejos ficaram satisfeitos. Normalmente ao gopis estavam com Krsna durante a noite, mas durante o dia estavam separadas. E durante o dia as vacas estavam com Ele mas à noite estavam separadas. E Nanda, Yasoda e os membros mais velhos, estavam com Ele pela manhã e à noite, mas estavam separados durante o resto do tempo. Mas debaixo da Colina de Govardhana, todos permaneciam ali, com Krsna, a reciprocar constantemente o amor mais doce e extático. Os brahmanas, serviam a Krsna cantando mantras para a Sua protecção, e Ele reciprocava. Os gopas diziam piadas e tinham discussões graciosas com Krsna, para O animar. E Krsna reciprocava com eles. As gopis, a perfeição da vida de todos eles, lançavam olhares e sorrisos para Krsna e ofereciam-Lhe continuamente o amor de seus corações e o Senhor reciprocava com todas e cada uma delas. E os vaqueiros, quando viam Krsna tremer colocavam os paus debaixo da colina. E Krsna sorria para todos eles. Sim, a govardhana-lila é o momento em que Krsna satisfaz todos os devotos da forma mais desejável. É por isso que Deus é grande. Foi um festival de extâse transcendental.

 

Enquanto isto, Indra e as nuvens Samvartaka derramavam chuvadas, ventos e raios. Indra deu a seguinte ordem às nuvens Samvartaka, “Com todo o vosso poder, tirem essa colina do dedo mindinho de Krsna.” Hare Krsna. Mas a Colina de Govardhana não se mexeu. Os dias passaram. A um dado momento, segurando a Colina de Govardhana com a Sua mão esquerda, Krsna agarrou a flauta com a Sua mão direita, colocou-a nos Seus lábios e tocou uma canção muito bonita. O vaqueirinho Madhumangala ficou com muito medo e dirigiu-se a Krsna, “Não toques a Tua flauta, porque já sabemos o que acontece quando tocas a flauta. Se Govardhana Te escutar ao tocares a flauta, pode experimentar uma felicidade tão transcendental, que pode cair do Teu dedo e morreremos aqui todos esmagados. Todos nós conhecemos o poder da Tua flauta. Pode converter pedras em água e água em pedras. Se Govardhana derreter em extâse, ficaremos todos afogados. Por isso, não toques a Tua flauta.” Outro vaqueirinho disse, “Não, não, tu não conheces Govardhana, ele é uma pessoa muito equlibrada e sóbria. Ele sabe controlar-se.”

 

Yasodamayi, no seu amor habitual por Krsna, estava preocupada, “Já se passaram tantas horas e ainda não comeste nada. O Teu corpo suave é como manteiga, como pode o Teu dedo mindinho segurar essa colina gigantesca e não sentir nenhuma dor?” Yasodamayi chorava e orava à Colina de Govardhana, “O que quer que tenha feito em vidas anteriores, todas as minhas austeridades, toda a minha adoração, peço-te Govardhana somente uma benção. Por favor, não causes nenhuma dor ao meu filho Gopala.” Madhumangala disse, “Yasodamayi, porque te preocupas? Através da minha brahma-tejas estou a dar-Lhe poder para que possa segurar a colina. Não te preocupes. Na realidade, este é um festival maravilhoso. Amamos Indra pelo que fez por nós. Por causa de Indra, podemos experimentar este néctar doce do darsana de Krsna nesta forma maravilhosa.” Yasodamayi disse, “Que é que estás para aí a dizer? Não tens coração? Estás a dizer que é doce ver este menino inocente e gentil com esta montanha gigantesca em cima d`Ele? Como te atreves a dizer que é doce? Nanda Maharaja disse, “Yasoda, não fales assim a Madhumangala porque ele está a encorajar Krsna. Krsna está a sorrir com o que ele diz.”

 

Assim, estas relações maravilhosas eram partilhadas debaixo da Colina de Govardhana. Os vaqueiros pensavam que era devido à benção de Madhumangala que Krsna tinha esse poder. E as gopis pensavam que Krsna tinha poder porque Radharani outorgava-Lhe esse poder ao olhar para Ele. Krsna disse a Yasodamayi, “Eu não estou a fazer nada. Govardhana ficou tão feliz com as oferendas que vocês prepararam, que ele está a flutuar. Sou tão só o instrumento que segura.” Yasodamayi disse, “Se o que dizes é verdade, então deixa-o voar no ar sem o Teu dedo. Só então acreditarei em Ti.” Santa-rasa, servidão, afecto parental, a rasa conjugal, todas as rasas estavam a ser intercambiadas continuamente entre Krsna e os Seus devotos, durante os sete dias e sete noites.

 

Enquanto as nuvens, os trovões, os raios, as tempestades e os arco-iris fustigavam Govardhana, debaixo da colina havia uma outra tormenta. Krsna era tal como uma nuvem bonita, as gopis eram como os raios, a pena de pavão de Krsna era como o arco-iris e o Seu amor pelos Seus devotos era uma chuva incessante.

 

Enquanto isso, no cimo da colina, Indra estava descontroladamente frustrado. Dia após dia, após dia, as nuvens Samvartaka com todo o seu poder fustigavam a Colina de Govardhana. Finalmente voltaram a Indra e cairam a seus pés, “Não aguentamos mais.” Indra disse, “Voltem!” Elas ficaram sem água. As nuvens Samvartaka dirigiam-se para os oceanos para conseguir mais água e praticamente secavam-nos. Depois atiravam-na contra a Colina de Govardhana. Durante esses sete dias, Indra e as nuvens e todos os raios, não conseguiram mover nem sequer um só pedacinho de pó, nem mesmo remover uma só folha das centenas e milhares de árvores que estavam na Colina de Govardhana. Debaixo da tempestade violenta, a Colina de Govardhana brilhava. O mesmo aconteceu hoje com Giriraja a receber o seu abhiseka. Ele teve a mesma sensação. Porquê? Porque apesar de todos os raios, trovões e tempestades enormes, Govardhana sentia a parte de cima do dedo mindinho de Krsna por baixo e isso energizava-o com muita felicidade.

 

Finalmente as nuvens Samvartaka chegaram ao ponto de quase morrer, estavam muito exaustas. E Indra também estava assim. Eles foram-se embora. O céu ficou limpo, o sol apareceu e Krsna continuava sorrindo. Ele disse, “Vejam, a chuva parou. Agora está um dia de sol e lá fora está muito agradável e seco. Voltem todos para as vossas casas.” Mas ninguém queria regressar. Este é um princípio muito bonito. Se tivermos fé em Krsna, se nos dedicarmos sinceramente, mesmo ao ponto de aceitar riscos para sermos fieis a Krsna, Krsna ficará feliz. Krsna pode transformar a maior das crises em algo maravilhoso. Isso é rendição. Apesar de não conseguirem tirar os olhos de Krsna, os gopas e as gopis seguindo a ordem de Krsna, sairam debaixo da colina. Os gopas tentavam controlar as vacas mas quando elas viram Krsna voltaram para trás. Não podiam abandonar a Sua associação. O Senhor Govinda, Giridhari, com os Seus olhos dirigiu as vacas de volta para as pastagens. Depois, sem esforço, colocou a Colina de Govardhana no chão, exatamente no mesmo sitio onde estava inicialmente. Quando Krsna saiu debaixo de Govardhana, Balarama abraçou-O, Yasodamayi massajava-Lhe o dedo para aliviá-Lo da dor, as gopis olhavam e sorriam para Ele, os Seus amigos brincavam e dançavam com Ele, os brahmanas recitavam mantras em Sua honra, as suas esposas ofereciam-Lhe presentes, os serventes abanicavam e traziam-Lhe água para beber e Rohini ofereceu-Lhe arati. Foi um festival maravilhoso. Todos estavam felizes à excepção de uma pessoa. Sabem quem era essa pessoa?

 

Devoto: Indra.

 

Ele foi completamente derrotado. Estava intoxicado com o seu poder e fama mas agora estava sóbrio e realizou que tinha cometido uma grande ofensa. O Bhagava-gita informa-nos que ao contemplarmos os objectos dos sentidos, desenvolvemos apego por eles. Do apego, luxúria, quando a luxúria não é satisfeita surge a ira. A ira provoca-nos confusão, perda da memória e da inteligência e depois actuamos de maneiras abomináveis. Indra passou por estas etapas devido aos seus apegos. Mas então realizou, “Nunca ninguém cometeu uma ofensa tão grande como esta. Tentei matar Deus! Tentei assassinar todos os devotos mais intimos e amorosos de Deus. O mesmo quis fazer com as Suas vacas, com todos. Que é que eu fiz?” Estava completamente baralhado e nesse estado aproximou-se a Brhaspati, seu guru, “Que é que devo fazer?” Brhaspati disse-lhe, “Uau! Não há nada que possas fazer mas, se te aproximares a alguém que é amado por Krsna, e essa pessoa pedir perdão em teu nome então Krsna perdoar-te-á, caso contrário, se fores sózinho . . . É que cometeste um pecado muito severo.”

 

Assim sendo, e seguindo a instrução de Brhaspati, Indra foi com Surabhi, a mãe das vacas. É uma cena muito bonita. Tentem imaginar. Eis o rei dos céus com toda a sua indumentária real. Diamantes magnificos, rubis, jóias, safiras, coroas, sedas lindíssimas e a ser conduzido por um elefante magnifico. O próprio Indra é um homem muito bonito, forte e digno de ser visto. E ele está a prostrar-se, desamparadamente, diante dos cascos da mãe vaca, rogando, “Salva-me! Por favor salva-me!” A Mãe Surabhi compadeceu-se muito com Indra e disse-lhe, “Vem comigo.” Aproximaram-se de Krsna e Indra prestou as suas reverências, mas Krsna ignorou-o completamente. Então Mãe Surabhi, que é uma fêmea muito gentil, aproximou-se de Krsna com muito afecto e disse, “Indra arrependeu-se profundamente. Por favor desculpa-o.” E devido ao seu apelo, Krsna perdoou Indra.

 

Existe um lugar no caminho de parikrama de Sri Giriraja que se chama Surabhi-kunda. Este lugar personifica a qualidade do perdão. E este é um principio universal. Os cristãos acreditam que não se pode aproximar a Deus directamente. Se pecamos temos que nos aproximar através de um filho. Os Judeus têm o mesmo conceito. Os Muçulmanos têm o mesmo conceito. E na sua expressão mais completa e substancial, o conceito de não podermos aproximar-nos a Deus directamente encontra-se aqui nesta história. Devemos aproximar-nos ao Senhor através daqueles a quem o Senhor ama. Vancha-kalpatarubhyas ca krpa-sindhubhya eva ca/ patitanam pavanebhyo vaisnavebhyo namo namah. Sem a misericórdia dos devotos do Senhor não temos esperança. Não é uma questão do quanto nós sabemos. Podemos memorizar todas as escrituras, podemos dar discursos eloquentes, podemos cantar docemente, podemos fazer centenas e milhões de seguidores mas se não nos tornamos humildes perante um devoto que ama o Senhor, não podemos, verdadeiramente, aproximar-nos a Deus. Não poderemos receber as bençãos do Senhor na Sua plenitude. Pelas bençãos de Surabhi, Krsna abençoou Indra. Indra prostrou-se, a chorar, e quando Indra chora não é algo insignificante, porque ele tem muitos olhos. Todos os seus olhos choravam de arrependimento. Duas coisas são requeridas: (1) devemos prostrar-nos, tornando-nos humildes perante aqueles que amam o Senhor e (2) devemos ser sinceros, devemos ser genuinos.

 

Indra não estava a representar. O arrependimento vinha-lhe do coração e para ele era mais doloroso que a morte. Ele rogava por misericórdia, e devido à sua sinceridade, tornou-se humilde e Krsna perdoou-o. Indra invocou todos os devatas que executaram uma cerimónia maravilhosa. Indra disse, “Eu sou um Indra pequenino mas tu és o supremo Indra.” Levaram a cabo um abhiseka trazendo o Akasa-ganga com a ajuda de Airavata e então banharam Krsna. Os sábios, os rsis e os devatas estavam presentes ali. E a água desse abhiseka encheu o kunda. Então Indra e os semideuses deram a Krsna o nome “Govinda” porque Ele dá prazer e protecção às vacas, à terra e aos cidadãos. Hoje esse lugar chama-se Govinda-kunda.

 

Depois de se terem ido embora, os vaqueirinhos chegaram ali e viram toda a parafernália, a parafernália magnificente dos semideuses. Eles construiram um trono pequenino mas muito bonito para Krsna, a partir das rochas da Colina de Govardhana, puseram Balarama nesse trono e começaram a fazer os mesmos pujas e a cantar as suas canções bonitas. Os semideuses fizeram todas as cerimónias exactamente como as escrituras prescrevem—o abhiseka, o arati, a puja. Mas os gopas estavam simplesmente a brincar. Imitavam, brincavam e gracejavam. Quando os semideuses viram a maneira como os vaqueirinhos adoravam Krsna, chegaram a uma realização. “Em comparação com eles, não temos nenhum amor por Krsna, nenhum.”

 

Então, Nanda Maharaja, os pastores e Yasodamayi ouviram as crianças cantarem e dançarem e imediatamente dirigiram-se para o lugar, e aí puderam ver toda aquela parafernália maravilhosa. Perguntaram, “Que é isto? Que é que aconteceu aqui?” Quando os vaqueirinhos explicaram, “Querem saber o que aconteceu aqui? Será que devemos contar-vos? Primeiro vimos uma vaca a falar [risos]. Depois vimos um homem com milhares de olhos por todo o corpo, apeando-se de um elefante que tinha muitas trombas, prostrar-se perante Gopala. Depois vimos uma pessoa que tinha cinco cabeças e o cabelo agarrado. Era esse que fazia a puja. E uma outra pessoa antes deste, oferecia o arati.” E nessa altura, Nanda Maharaja, Yasodamayi e todos os habitantes de Vrndavana executaram uma cerimónia de arati muito bonita para celebrar as glórias de Sri Radha-Giridhari.

 

Srila Prabhupada introduziu-nos ao serviço divino amoroso de Sri Sri Radha-Giridhari. Neste dia de Sri Govardhana-puja, se verdadeiramente quisermos agradar Radha-Giridhari, que melhor maneira de o fazer que render-nos aos pés de lótus de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Indra aproximou-se a Surabhi para conseguir a sua misericórdia. Mas foi Srila Prabhupada que se aproximou a nós. Ele aceitou o risco e o desconforto do Jaladuta. Ele viajou pelo mundo uma e outra vez, visitando as cidades e vilas mais importantes chamando-nos de volta ao serviço amoroso de Sri Sri Radha-Giridhari. Portanto, neste dia vamos adorar a Colina de Govardhana. Estamos a proximar-nos dessa pessoa que tanto ama Sri Giridhari.

 

Srila Prabhupada disse-nos, “Podeis demonstrar o amor que tendes por mim colaborando uns com os outros.” Um pai adora ver afecto entre os seus filhos. Pessoalmente nunca tive filhos mas tenho visto e escutado que é muito doloroso para um pai quando vê conflitos entre os seus filhos. E a mãe sofre ainda mais. Portanto, Govardhana-puja não é só um ritual. É uma celebração, e essa celebração ganha substância na maneira como, de uma forma sincera, regamos a raiz da árvore ao satisfazer Sri Sri Radha-Giridhari, através da satisfação de Srila Prabhupada e do serviço aos Vaisnavas e imbuídos desse espirito, cantar os santos nomes: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

 

Quero agradecer a todos os devotos de San Diego, especialmente aqueles que estão a manter e a servir neste templo muito, muito bonito. Penso que dentro em breve haverá outro templo. Será maravilhoso. Radha-Giridhari quer chamar milhares e milhares de almas afortunadas ao Seu serviço amoroso. Esse era o sonho de Srila Prabhupada, e essa é a nossa vida.

 

Quero agradecer-vos uma e outra vez. [aplauso]

 

 

Outubro 22, 2006

San Diego

 

 

Written by nityananda108

Outubro 28, 2008 at 5:19 pm

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Srimati Radharani

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Radhastami

Uma Aula Dada por Giriraj Swami

21 de Setembro, 2004

San Diego

 

 

mahatmanas tu mam partha

 daivim prakrtim asritah

bhajanty ananya-manaso

 jnatva bhutadim avyayam

 

TRADUÇÃO

 

Ó filho de Prtha, aqueles que não se iludem, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles ocupam-se completamente em serviço devocional porque sabem que Eu sou a original e inexaurível Suprema Personalidade de Deus. (Bg 9.13)

 

SIGNIFICADO por Srila Prabhupada

 

Este verso descreve com muita clareza o mahatma. O primeiro sinal do mahatma é que ele está situado na natureza divina. A natureza material já não o controla mais. E como é que isso acontece? A explicação está no Sétimo Capítulo: quem se rende à Suprema Personalidade de Deus, Sri Krsna, livra-se imediatamente do controle da natureza material. Esta é a qualificação. A pessoa pode livrar-se do controle da natureza material logo que se entregue, de corpo e alma, à Suprema Personalidade de Deus. Esta é a fórmula preliminar. Sendo potência marginal, logo que se liberta do controle da natureza material, a entidade viva fica sob orientação da natureza espiritual. A orientação da natureza espiritual chama-se daivi prakrti, a natureza divina. Então quando alguém, rendendo-se à Suprema Personalidade de Deus, recebe essa distinção, ele passa a ser uma grande alma, um mahatma.

 

O mahatma não desvia a sua atenção para assuntos alheios a Krsna, porque ele sabe perfeitamente que Krsna é a Pessoa Suprema original, a causa de todas as causas. Quanto a isto não há dúvidas. Tal mahatma, ou grande alma, progride associando-se com outros mahatmas, ou devotos puros. Os devotos puros nem mesmo se sentem atraídos aos outros aspectos de Krsna, tais como o Maha-Visnu de quatro braços, mas apenas à forma de Krsna que apresenta dois braços. Eles não sentem atração por outras caracteristicas de Krsna, nem se interessam por quaisquer formas exibidas por semideuses ou seres humanos. Eles apenas meditam em Krsna em consciência de Krsna e vivem ocupados no inabalável serviço ao Senhor em consciência de Krsna.

 

COMENTÁRIO por Giriraj Swami

 

Alguns anos atrás, quando servíamos Srila Prabhupada em Bombaim, consegui um programa para ele na casa da então familia mais rica da India, os Birla. A senhora Birla queria um título para a palestra de Srila Prabhupada, um título que fosse apelativo para o círculo de amigos dos Birla. Com isso em mente, elaborei uma lista de dez ou doze títulos, e a senhora Birla escolheu “Como ter Sucesso na Vida.” Ela pensou que o tema poderia ser interessante para a sua familia e amigos. Apresentei o título a Srila Prabhupada, e no programa Srila Prabhupada deu uma definição transcendental de sucesso. Ele disse que há duas energias—a inferior, a energia material, e a superior, a energia espiritual. A energia material é personificada como Durga, e a espiritual como Srimati Radharani. Todos estamos sob o controle da energia material.

 

Ele explicou que Durga-devi é descrita como estando montada num leão, e levando armas nas suas dez mãos, para castigar os materialistas. Em particular, ela é conhecida pelo seu tridente, ou trishula, cujas três pontas representam os três tipos de misérias da natureza material que estão sempre a trespassar as almas condicionadas na prisão do mundo material. Portanto, o mundo material é uma prisão, e Durga-devi é a vigilante da prisão. Ela mantém-nos no cativeiro. Para a entidade viva, o sucesso está no abandono da tentativa de desfrutar na prisão. O sucesso repousa justamente no alívio da prisão, e no ser abençoado pela energia espiritual, Srimati Radharani.

 

O verso que acabámos de ler descreve o processo—como é que as grandes almas se situam sob a energia espiritual (daivi prakrtim). Srila Prabhupada explica que as entidades vivas são energia marginal. Krsna é o energético, sakti-man, e as entidades vivas são energia, sakti—especificamente a energia marginal, tatastha-sakti. Sendo energia marginal, não podemos ser independentes. Temos que estar ou sob a influência da potência espiritual, ou sob a influência da potência material. Quando nos rendemos a Krsna, aliviamo-nos da energia material e somos colocados sob a energia espiritual.

 

daivi hy esa guna-mayi

 mama maya duratyaya

mam eva ye prapadyante

 mayam etam taranti te

 

“Esta minha energia divina, que consiste dos três modos da natureza material, é dificil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem fácilmente transpô-la.” (Bg 7.14) Essa é a nossa meta na vida, e esse é o sucesso na vida.

 

O Bhagavad-gita confirma, daivi hy esa guna-mayi mama maya duratyaya: a natureza material que consiste dos três modos é muito dificil de superar. Mas, mam eva ye prapadyante mayam etam taranti te: aqueles que se rendem a Krsna podem facilmente superar maya.

 

O nosso processo é o de rendição a Krsna, refugiarmo-nos em Krsna. E em Kali-yuga o método recomendado é o cantar dos santos nomes de Krsna: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna Hare Hare/ Hare Rama Hare Rama, Rama Rama Hare Hare. Srila Prabhupada explicou, que o cantar do maha-mantra Hare Krsna, é como o choro genuíno de uma criança por sua mãe, a Mãe Hara. (Hare é o vocativo de Hara [Radha], assim como Radhe é o vocativo de Radha.) Quando cantamos o maha-mantra Hare Krsna estamos a implorar a Radharani tal como um filho perdido clama por sua mãe. Nós imploramos a Srimati Radharani, “Por favor salva-nos desta natureza material e ocupa-nos no serviço a Krsna.”

 

Num sentido, Srimati Radharani está muito longe de nós.

 

Apesar de falarmos sobre o alívio da natureza material, na verdade estamos bastante emaranhados nos modos da natureza. Estamos identificados com os nossos corpos e com o que se relaciona com ele—as expansões do corpo, tais como os membros familiares, casa, lar e outras posses que sustentam o corpo. E então, para manter tudo o que sustenta o corpo, temos que trabalhar muito e isso provoca um maior envolvimento com a natureza material. Na verdade, estamos bastante atolados no mundo material.

 

De acordo com esta perspectiva, Srimati Radharani e o serviço a Sri Sri Radha e Krsna em Vrndavana estão muito distantes. Contudo, mesmo quando tentamos à nossa maneira humilde e insignificante servir a Krsna, Srimati Radharani está presente porque o serviço devocional, desde os primeiríssimos estágios, é executado sob a Sua supervisão. Portanto, podemos aperceber-nos da presença de Srimati Radharani através do processo do serviço devocional. Quando cantamos Hare Krsna e nos sentimos felizes, essa felicidade é uma manifestação da hladini-sakti, Srimati Radharani. A satisfação que Krsna sente quando executamos serviço devocional, é hladini-sakti, a potência de prazer, Srimati Radharani—e o prazer que experimentamos no serviço devocional também é uma manifestação da hladini-sakti, ou Srimati Radharani.

 

A melhor maneira de servir a Srimati Radharani e apreciar a Sua presença, é através do serviço aos Seus devotos. Srila Prabhupada sugere de que por servir um mahatma, tornamo-nos um mahatma. Bom, nós temos Srila Prabhupada. Naturalmente que ele é um mahatma, e por servi-lo também desenvolvemos as qualificações de um mahatma. Não nos tornamos Srila Prabhupada, nem sequer iguais a Srila Prabhupada, mas devido a que ele está sob a supervisão de Srimati Radharani, se executamos serviço devocional sob a sua guia, em última instância também estamos sob a supervisão de Srimati Radharani (daivi prakrti) e tornamo-nos qualificados como mahatmas. E porque Srila Prabhupada é muito querido a Srimati Radharani, quando o servimos, Ela fica extremamente feliz.

 

Realmente, não precisamos de esforçar-nos por servir de um modo que está mais além do nosso estágio presente ou capacidade actual. Servimos, isso sim, da maneira que Srila Prabhupada nos ensinou: cantamos o santo nome de Krsna, ouvimos sobre Krsna do Bhagavad-gita e de outras escrituras, e trabalhamos em conjunto para expandir a missão da consciência de Krsna. Por seguir as instruções de Srila Prabhupada—por servi-lo—ficamos sob a sua protecção. E porque ele está sob a protecção da energia divina, de Srimati Radharani, também ficamos sob a protecção de Srimati Radharani. E por servir Srila Prabhupada neste mundo material, de acordo às suas instruções, tornamo-nos capacitados para servi-lo no mundo espiritual onde ele está ocupado no serviço a Radha e Krsna. Deste modo, também nos ocuparemos no serviço de Radha e Krsna, como corrobora a canção que cantámos de Narottama dasa Thakura: radha-krsna prana mora.

 

Num sentido, o nosso serviço aqui e o nosso serviço lá são idênticos: servimos o servente de Sri Radha. Os aspectos externos podem ser diferentes, mas na realidade, as actividades são as mesmas—serviço a Srila Prabhupada. Srila Prabhupada deu o exemplo de que se estamos no Ensino Secundário mas trabalhamos a um nível universitário, podemos ser promovidos a esse nível. Do mesmo modo, enquanto estamos no mundo material, se nos ocuparmos em actividades do mundo espiritual—em serviço devocional—poderemos ser promovidos ao mundo espiritual.

 

Num sentido, é um tipo de ilusão o facto de pensarmos que estamos neste mundo material, porque enquanto aqui, estamos ocupados em actividades espirituais de serviço devocional. Na verdade estamos no mundo espiritual mas não o realizamos. À medida que, progressivamente, cantamos e servimos, realizaremos mais e mais que, na verdade, estamos no mundo espiritual. É só devido à falsa identificação com o corpo e com as expansões do corpo, e com as ansiedades relacionadas ao corpo e às suas expansões, que a consciência e a apreciação da nossa verdadeira identidade e a das pessoas que estão à nossa volta (que também estão ocupadas em serviço devocional) fica toldada.

 

Srila Prabhupada citava regularmente este verso (mahatmanas tu mam partha) para definir um mahatma. Mahatma tornou-se um termo popular, mas nem sempre as pessoas sabem quem é um mahatma. Numa outra altura, quando Srila Prabhupada pregava em Bombaim, um cavalheiro indiano perguntou-lhe, “India é o país dos mahatmas. Neste país nasceram muitos mahatmas, e ainda hoje existem tantos mahatmas. No entanto, temos tantos problemas. Qual é a razão desta situação, quando temos tantos mahatmas?” Srila Prabhupada respondeu, “A causa de tantos problemas é porque não sabemos distinguir entre quem é um mahatma e quem não o é.”

 

A definição aqui dada é importante porque é correcto que, quando nos refugiamos num mahatma, somos aliviados de todos os tipos de problemas. Mahat-sevam dvaram ahur vimuktes: por servir um mahatma, ou grande alma, a porta da liberação é aberta. (SB 5.5.2) Entretanto, temos que ser capazes de reconhecer quem é um mahatma. E a definição de mahatma é dada aqui: ele está sempre sob a protecção da natureza divina, plenamente ocupado em serviço devocional com a mente absorta em Krsna. Para tal, temos o exemplo de Srila Prabhupada. Ao servir Srila Prabhupada desenvolvemos as qualidades de um mahatma. É uma corrente. Ao servir aqueles que se refugiaram nele, de uma forma apropriada, também nos refugiamos nele e, em última instância, através do mesmo processo, refugiamo-nos em Srimati Radharani.

 

O processo é simples. Srila Prabhupada disse que cantar Hare Krsna é muito simples, mas manter a determinação de cantar é que não é tão simples. E portanto, precisamos da associação dos devotos, mahatmas, porque na associação dos devotos torna-se mais fácil. É fácil cantar Hare Krsna com os devotos porque eles cantam Hare Krsna. Mas se abandonamos a associação dos devotos, torna-se dificil, porque ficamos acompanhados de outras pessoas que estão envolvidas em muitas outras coisas, e que quererão que façamos o mesmo. Portanto, o Srimad-Bhagavatam recomenda que mesmo os casados devem passar um mínimo de três horas ao dia a cantar e a ouvir sobre as glórias do Senhor na companhia de devotos. Claro que os membros da familia também podem ser devotos e assim podemos ter a associação de devotos em casa. A ocupação em cantar e ouvir sobre Krsna, na associação dos devotos, é o que se requer. Cantar Hare Krsna e ouvir Krsna-katha—lendo o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam—purificará os nossos corações (cetodarpana-marjanam).

 

É simples porque já estamos a cantar—todos cantam sobre alguma coisa. E quanto ao escutar—estamos sempre a escutar sobre algum tópico. Só temos que mudar o assunto, ou então focalizar-nos mais no tema da consciência de Krsna. Deste modo purificaremos os nossos corações. Então, apesar de estarmos no mundo material, não faremos parte dele. Dá-se o exemplo da flor de lótus. Apesar das raízes da flor de lótus estarem no lodo, e o caule estar na água, a flor em si está por cima da água. Não é tocada pela água. Pode estar no lodo ou na água, mas não faz parte dela. Do mesmo modo, nós podemos estar no mundo (e fisicamente estamos nele) mas não fazer parte dele. Na verdade, podemos estar, através da consciência, com Srila Prabhupada, Sri Sri Gaura-Nitai, Sri Sri Radha-Giridhari, e essa consciência deriva da associação com os devotos, e do escutar e cantar sobre Krsna.

 

E essa situação pode ser criada em toda e qualquer parte: em casa, podemos vir ao templo e estar com os devotos para obter um ânimo ou inspiração especiais, ou podemos convidar os devotos a nossa casa. De uma ou outra maneira, devemos estar sempre ocupados em escutar e cantar e daí surgirá a lembrança (sravanam kirtanam visnoh smaranam). Este verso menciona precisamente isso, a ocupação constante da mente na consciência de Krsna (bhajanty ananya-manaso).

 

Certa vez, Srila Prabhupada contou uma história sobre um jinn, um génio. O génio sai da garrafa e diz ao seu mestre, “Farei tudo o que me disseres, mas tens que me manter sempre ocupado. A partir do momento que não tenha nada para fazer, matar-te-ei.” O mestre disse, “Está bem, podes começar por limpar a cozinha.” O génio limpou a cozinha e voltou. “Muito bem, limpa a sala de estar.” “Certo, limpa o quarto de dormir.” “Limpa a entrada da casa.” “Limpa a cave.” “Limpa o sótão.” Em pouco tempo a casa ficou completamente limpa. “Limpa o pátio.” A partir deste momento o mestre começa a ficar preocupado. Ele está a ficar sem ideias de como ocupar o génio. E começa a entrar em pânico porque sabe que, se não o mantiver ocupado, o génio vai voltar-se contra ele e matá-lo. Ele pensa, “Meu Deus, que é que vou fazer agora?” Nesse momento ele tem uma ideia. Lembra-se que tem umas palmeiras no quintal, e então exclama, “Sobe até ao topo da palmeira; salta para a próxima árvore, desce-a, volta a subir, depois salta para a próxima árvore e faz o mesmo, e mantém-te a subir e a descer. Quando chegares à última árvore, volta para trás, e começa tudo de novo.” Deste modo, o mestre encontra uma ocupação que mantém o génio ocupado, para que o génio não se vire contra ele.

 

Qual é então, a lição que se pode extrair desta história? O génio é a mente. Se não ocuparmos a mente, ela vira-se contra nós e mata-nos. Por isso, temos que manter a mente ocupada. Podemos ocupá-la fazendo diferentes coisas, mas ultimamente precisamos de uma actividade que mantenha a mente sempre ocupada. Este subir e descer—é o nosso japa mala. O subir e descer as árvores é o manusear das nossas contas. Portanto, Srila Prabhupada disse que devemos manter sempre a mente ocupada, e se não existir nenhuma actividade que ocupe a mente em Krsna, então cantamos Hare Krsna. Este canto manterá a mente ocupada,e assim iremos ao encontro da definição neste verso (bhajanty ananya-manaso); tornamo-nos mahatmas, e queridos por Srila Prabhupada e por Srimati Radharani.

 

Hare Krsna.

 

Algumas perguntas ou comentários?

 

Devoto: [inaudível]

 

Giriraj Swami: Ele diz que eu mencionei que Srimati Radharani supervisiona o serviço devocional; e pergunta se Ela é capaz de supervisionar o serviço porque conhece o standard.

 

Sim, é verdade. Ela exemplifica o standard mais elevado de serviço devocional puro a Krsna. Mas não devemos esperar que ela supervisione o nosso serviço pessoalmente. Para tal temos a Srila Prabhupada e os seus representantes. Srila Prabhupada conhece o standard e ensinou-o aos seus estudantes, que o aprenderam dele.

 

Mas é verdade—Srimati Radharani é o emblema do melhor serviço a Krsna. Mas Ela não pensa que é a melhor servente de Krsna. Ela pensa que todos os outros são melhores serventes de Krsna que Ela, e portanto, está sempre a recomendar devotos a Krsna: “Oh, olha para este devoto. É melhor servente que Eu,” ou “Ela é uma devota melhor que eu. Deves aceitá-la.” Srila Prabhupada disse, que é muito dificil aproximarmo-nos a Krsna directamente, porque Ele é a Suprema Personalidade de Deus, por isso os devotos oram a Srimati Radharani, que representa a natureza compassiva de Krsna.

 

Em Vrndavana, os devotos cantam sempre “Radhe Radhe” para alcançar a misericórdia de Radharani. E eles sabem que Krsna gosta muitíssimo de Radharani e que através de cantar “Radhe Radhe” satisfazem mais a Krsna do que se cantarem “Krsna.” Mas por cantar “Krsna Krsna” satisfazemos mais a Radharani, do que se cantarmos “Radhe Radhe,” por isso também cantamos “Krsna Krsna” para satisfazer a Srimati Radharani.

 

Encontrei-me com um devoto, que me falou sobre a sua primeira visita a Vrndavana, há muitos anos atrás. Enquanto caminhava pelas ruas do bazar, escutava regularmente “Radhe Radhe, Radhe Radhe.” Quando se voltou, observou que as pessoas de um riksha, ou de uma bicicleta, não tocavam à campaínha nem buzinavam, como se costuma fazer noutros sitios, mas exclamavam, “Radhe Radhe, Radhe Radhe.” Sempre “Radhe Radhe.” Existe um sadhu em Vraja que pinta em todos os lados—nas paredes, nas árvores—em toda a parte, “Sri Radha. Radhe.” Sempre “Radhe Radhe.”

 

Ao comentar sobre o valor de servir o pó dos pés de lótus dos devotos puros do Senhor, Srila Prabhupada escreve: “Não é através de se tornar um grande erudito nas literaturas védicas que uma pessoa poderá encontrar o Senhor, mas é muito fácil aproximar-se d´Ele através do seu devoto puro. Em Vrndavana, todos os devotos puros oram pela misericórdia de Srimati Radharani, a potência de prazer do Senhor Krsna. Srimati Radharani constitui uma contrapartida feminina compassiva do todo supremo, a qual se assemelha à fase perfeccional da natureza feminina deste mundo. Assim é que os devotos sinceros conseguem obter a misericórdia de Radharani com muita facilidade, e uma vez que Ela recomende um determinado devoto ao Senhor Krsna, o Senhor aceita imediatamente que o devoto venha associar-se com Ele. Portanto, a conclusão é que devemos pensar mais seriamente em tentar conseguir a misericórdia do devoto, que directamente a misericórdia do Senhor, e se fizermos assim, (pela vontade do devoto) a nossa atracção natural pelo serviço ao Senhor, será revivida.” (SB 2.3.23)

 

Mahat-tattva dasa: [inaudível]

 

Giriraj Swami: Ele diz que qualquer pessoa pode argumentar de uma forma provocadora, dizendo que esta adoração a Srimati Radharani é inventada, porque não encontramos referências nos Upanisads, e dificilmente encontramos algumas nos Puranas.

 

Bem, existem referências, mas a principal fonte para conhecermos sobre Srimati Radharani, é através de Caitanya Mahaprabhu e dos Seus seguidores. Nas escrituras, está mencionado que Sri Caitanya Mahaprabhu é o próprio Krsna,  portanto, Ele é a autoridade mais elevada. E Ele falou-nos sobre Srimati Radharani. Aliás, antes d´Ele, Madhavendra Puri foi realmente o primeiro que, verdadeiramente, adorou a Krsna com o sentimento de separação de Srimati Radharani, e de Madhavendra Puri passou para Isvara Puri e para Caitanya Mahaprabhu.

 

São os seguidores de Sri Caitanya Mahaprabhu, que realmente reconhecem a posição especial de Srimati Radharani. Uma vez, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura disse, “ Aquele que adora Visnu é chamado de Vaisnavite, o que adora Krsna é chamado de Krsnite, e aquele que adora Radha é chamado de Gaudiya.”

 

Convidado: Gaudiya?

 

Giriraj Swami: Gaudiya significa aqueles que pertencem à linhagem de Caitanya Mahaprabhu, a Gaudiya-Sampradaya.

 

Temos fé em Caitanya Mahaprabhu. Ele é mencionado nas escrituras. E também temos a nossa vivência pessoal de Radha e Krsna, alcançada através de seguir as instruções d´Ele—instruções que vieram até nós através do Seu servente mais querido, Srila Prabhupada—por Sua divina graça.

 

 

 

 

 

 

Written by nityananda108

Setembro 5, 2008 at 10:53 pm

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